Favoritos de Maio

Livros:

1) Finalizei uma biografia do meu querido William Wordsworth (Radical Wordsworth, Jonathan Bates), o que foi muito bom, mas, por outro lado, um tanto irritante, pois o autor trata o conservadorismo do poeta como algo ruim, algo que fez Wordsworth perder sua essência. Além disso, discordo dele em outros pontos e o livro não me ajudou tanto quanto eu gostaria na minha pesquisa (nesse caso, a culpa não é do autor; eu é que escolhi um tema muito específico e não tão popular). No entanto, durante a leitura, gostei da experiência de me aprofundar na mente do artista e conhecer mais sobre sua vida. Também sou grata ao Bates por ter feito esse trabalho, pois existem poucas biografias do Wordsworth, a maioria delas está esgotada ou é muito cara, além dessa ser bem mais abrangente que as demais.

2) Sou defensora dos audiolivros, eles mantém a velha tradição da oralidade que nos legou os grandes mitos civilizacionais. No entanto, foi um erro ter escolhido esse livro para ouvir ao invés de ler. Digo que foi um erro por que geralmente escolho audiolivro como forma de revisitar uma obra ou para conhecer um livro pelo qual não tenho realmente muito interesse (mas, por alguma razão, preciso aprender sobre). Trata-se de Além do Planeta Silencioso, do meu também querido C. S. Lewis, o primeiro volume da Trilogia Cósmica. Esse livro merecia mais atenção. Em minha defesa, a questão é que eu não esperava gostar. O Lewis certamente é uma das minhas pessoas favoritas da história da humanidade, mas eu não gosto de ficção científica e (me desculpa, Lewis) não pensei que ele fosse capaz de fazer uma boa. Isso se deve ao fato da minha mente limitada achar que quem gosta de ficção fantástica (algo tão belo, humano e elevado) não tem como gostar de ficção científica (algo robótico e frio) e que, por tanto, o Lewis teria escrito esse livro só para aproveitar a onda comercial. Que erro! Os próximos eu pretendo ler e escreverei sobre eles assim que possível. Há muito o que pensar a respeito, já que o grande Jack não só conseguiu escrever uma excelente ficção científica (sem ser chato como H.G. Wells ou Aldous Huxley), mas transformou uma obra desse gênero em algo belo, humano e elevado. Ele aborda linguística, ética, psicologia, natureza, entre outros tópicos, não de forma a impor uma ideia ao leitor, mas de uma maneira natural e dinâmica que leva o leitor a pensar sobre si, sua espécie, sua época e seu futuro. É formidável.

Menções desonrosas:

  1. O guarani (José de Alencar). Costumo gostar do José de Alencar (A viuvinha, por exemplo, tem umas reviravoltas muito boas e Senhora, apesar de ter um quê de feminismo, é bem interessante), mas esse aqui é muito, muito, muito chato. Spoiler: todo mundo morre, incluindo a menina mimada e o índio emo. É isso. Nosso Shakespeare tupiniquim não deu muito certo. No entanto, é um clássico da literatura nacional, então é importante conhecer essa obra.
  2. Falando em Shakespeare, outra decepção do mês foi A tragédia shakespeariana (A. C. Bradley). Trata-se de um conjunto de palestras sobre as quatro maiores tragédias do bardo inglês (Hamlet, Macbeth, Otelo, Rei Lear). É importante para quem estuda literatura inglesa (aliás, para quem estuda Letras e quer ter mais conhecimento do que a faculdade proporciona) e para qualquer fã de William Shakespeare (mais um dos meus queridos) (aliás, a minha trindade de autores preferidos é justamente Shakespeare, Wordsworth e Lewis), contudo, é muito chato e confuso. Basicamente, o autor comenta diversas teorias interpretativas sobre essas e outras peças do Cisne de Avon, apontando as falhas de cada uma e apresentando uma alternativa. O que me incomodou não foi nem a prolixidade, mas a falta de organização. Existem muitas notas, o leitor precisa ir e voltar o tempo todo ou deixar para ler as notas depois e perder o fio da meada.


Filmes/séries:

1)A grande surpresa foi Titanic (Cameron,1997), um filme que eu sentia que precisava assistir como uma obrigação cinéfila, mas que acreditava ser demasiado chato. Foi um feliz engano. Essa película é realmente uma obra de arte e logo escreverei um texto específico sobre ela, pois merece uma análise mais detalhada.

2) Revi Thor (Branagh, 2010), o meu filme favorito do Marvel Cinematographic Universe (MCU), e 3) Capitão América: O primeiro vingador (Johnston, 2011), meu segundo favorito do MCU, dois filmes que eu recomendo até mesmo para quem não gosta de filme de superherói, pois são histórias que abordam bem mais do que lutas e poderes: é menos sobre isso do que sobre a natureza humana (ok, Thor inclui ‘natureza alienígena’, mas vamos considerar como a mesma coisa por um momento). Também pretendo escrever separadamente sobre cada um (sim, eu pretendo escrever muita coisa; ainda bem que vocês leitores antigos desde blog estão cientes de que pretender e realizar são coisas distintas).

4) Assisti uma singela comédia romântica muito boa (e olha que eu não costumo gostar desse gênero): Mensagem para você (Ephron, 1998). Conta a história de uma livreira (Meg Ryan) que começa a enfrentar problemas financeiros devido a chegada de uma grande livraria nas proximidades, e do rico proprietário dessa loja (Tom Hanks). Apesar de inimigos face a face, eles começam uma bela amizade pela internet sem conhecer a identidade do outro. É um filme leve, ideal para dias em que você não sabe o que fazer e quer apenas relaxar. O que mais me chamou atenção (além da aparição da Very Hungry Caterpillar) foi o cenário e a fotografia. Tudo é lindo na composição: os detalhes de decoração da livraria da mulher (muito aconchegante), a cafeteria, a feira livre que eles visitam, o apartamento dela, a arquitetura do bairro novaiorquino escolhido como locação, as flores destacadas. Uma beleza despretensiosa foi capturada e torna esse filme charmoso.

5 e 6) Também vou deixar como favoritos dois filmes de comédia que vi esse mês e que achei bem divertidos e criativos: Red – aposentados e perigosos (Schwentke, 2010) e Red 2 (Parisot, 2013). Ambos contam com elenco de peso (Bruce Willis, dame Helen Mirren, John Malkovich, sir Anthony Hopkins, entre outros) e contam as aventuras de um grupo de ex-agentes secretos aposentados (isso é resumir bastante o caso, mas quero evitar spoiler). Você não vai gostar se for o tipo de pessoa que busca uma explicação lógica para cada situação e que preza por razoabilidade e previsibilidade, mas se você fosse uma dessas pessoas, certamente não estaria acompanhando esse blog.

7) Império do Sol (Spielberg, 1987) é um filme que retrata a vida de um garoto britânico num campo de concentração japonês durante a Segunda Guerra Mundial. Costuma-se muito falar da atuação excelente do pequeno Christian Bale,mas eu gostaria de destacar o John Malkovich também, pois a dinâmica dos dois deu muito certo. Preciso alertar que a maior parte do filme é bem cansativa. Contudo, vale a pena aguentar firme, pois as coisas melhoram com o tempo. Além do roteiro e das atuações, é necessário ressaltar o belo trabalho visual que o Spielberg conseguiu montar e captar com maestria. Algumas vezes ele é desleixado, mas quando resolve caprichar, mostra toda a capacidade que lhe rendeu um lugar de destaque na história do cinema. É por filmes assim que eu amo cinema.

8) Um estranho no ninho (Forman, 1975) merece a fama que tem. Trata da história de um criminoso que é mandando para uma clínica psiquiátrica para ser submetido a uma avaliação que comprove ou descarte a hipótese de que ele tem problemas mentais. A atuação do Nicholson (dos outros atores também, inclusive o DeVito está nesse filme) é espetacular, porém o mais impressionante é o desenvolvimento do roteiro e a sua conclusão. Não posso entregar muito para não diminuir o impacto, só posso afirmar que me surpreendeu. Uma curiosidade adicional é que o diretor desse filme, Milos Forman (que dirigiu também Amadeus) foi professor de Cinema na University of Columbia onde atuou como mentor do James Mangold, um dos meus diretores favoritos (talvez seja o meu diretor favorito, ocupando o lugar que o Christopher Nolan perdeu por razões óbvias).


Menções desonrosas:

  1. Antes do pôr do sol (Linklater, 2004) faz parte de uma trilogia que recebeu grandes elogios da crítica pela forma artística e paciente com que foi construída. É o segundo filme, então pode parecer um erro ter começado pela metade. No entanto, o erro foi começar. Admito que o diretor teve uma visão e tanto do projeto e soube executá-lo. Pena que era um projeto sem graça (foca no relacionamento de um casal bem sem tempero). Melhor teria sido direcionar esse talento para algo mais interessante, como filmar a Trilogia Cósmica, por exemplo.
  2. Doutor Jivago (Lean, 1965) é um clássico, o que não significa que seja bom. É um filme bem cansativo não só por ser longo (mais de 3h), mas por ter um roteiro que é o oposto de atraente. O único lado bom é ver adúlteros apoiadores de socialismo se dando muito mal.


Músicas:

She used to love me a lot (Johnny Cash) – Eu gosto da construção da história dessa música. É bem simples, mas tem uma reviravolta que quebra as expectativas de quem ouve pela primeira vez.

New York (Snow Patrol) – É tão Ensino Médio… (obrigada, Sabrina, por ter me apresentado essa banda!). De todas as músicas do Snow Patrol, essa é particularmente poética, então me encanta até hoje. Gosto de bandas que fazem composições mais rebuscadas e que estão claramente pensando em transmitir beleza com a escolha das palavras.

“I loved the simple thought of you.” (Eu amei a simples ideia de você) (sim, soa melhor em inglês, eu sei; a próxima é assim também; tem a ver com a sonoridade das palavras e também com questões culturais, ou seja, a forma de usar as palavras e construir figuras de linguagem)

“The lone neon lights and the eek of the ocean and the fire that was starting to spark.” (As solitárias noites neon e o sentimento de assombro do oceano e o fogo que estava começando a brilhar)

“I miss it all, from the love to the lightning, and the lack of it snaps me in two.” (Eu sinto falta de tudo isso, desde o amor até o relâmpago, e a falta disso me parte me dois)

“Just give me a sign there’s an end with a beginning to the quiet chaos driving me mad.” (Apenas me dê um sinal de que há um fim com um começo para esse quieto caos que está me deixando louco)

É o tipo de música que passa aquela sensação estranha de querer sofrer olhando para o mar numa noite fria. E sei que parece tolo, mas acho que a música tem esse poder (especialmente na adolescência) de desenvolver a compaixão e regular as emoções ao fazer você sentir a experiência de outras pessoas, algo similar ao que a literatura e o cinema fazem, só que de forma mais básica, então creio que músicas moldam nosso psicológico. Também são uma forma de adquirir não só um vocabulário melhor, mas de se habituar com construções frasais mais complexas e esteticamente agradáveis.

Farewell (Avantasia) – Essa está no segundo lugar da playlist “Eu e meu metal melódico contra o mundo”, perdendo apenas para Fairy tale (Shaman).

Retórica na Educação

A retórica é tida como a arte (em grego, tékhne) da persuasão. O objetivo desta não é necessariamente incitar à ação, mas agir na área do pensamento. Ela se baseia em dois recursos que devem ser aproveitados pelo orador ou escritor: ethos e pathos. O primeiro diz respeito a ganhar a simpatia e a confiança do público, enquanto o segundo refere-se à tentativa de manipular os sentimentos do mesmo.

Os textos menos emotivos, os argumentativos, apelam mais ao uso da razão. Utilizam basicamente dois tipos de argumentos : os entinemas e os argumentos de exemplificação. Os entinemas, ou raciocínios dedutivos, recorrem à verossimilhança, ou seja, à possibilidade de ser, generalizando do universal para o particular. Já os argumentos de exemplificação fazem o movimento contrário, apontando do particular para o universal, considerando a regra como válida universalmente (são também conhecidos como indutivos).

DUARTE (2010), mostra a diferença do discurso argumentativo em comparação com os demonstrativos. Os demonstrativos usam ferramentas para apresentar uma verdade. Já os argumentativos se encontram num espaço onde há possibilidade de relativização da verdade (o que não é o mesmo que dizer que não há verdade). Os discursos devem ser proferidos em linguagem natural, aproveitando os recursos linguísticos do idioma local, como ambiguidades, jogos de palavras, figuras de linguagem, entre outros. Isso se faz necessário porque o efeito da argumentação depende do público ao qual ele é dirigido, pois vai se articular com a cultura do grupo e as ideologias de cada um.

O discurso retórico tem uma função social importante, pois através dele são debatidas questões social e culturalmente relevantes, valores são estabelecidos, inclusive vidas são postas em jogo (vide os julgamentos de Jesus Cristo e Sócrates). Aqui é o ponto ao qual o autor queria chegar (e que eu também quero debater): a importância da retórica para a educação. Se ao auditório cabe contestar, este deve estar preparado, deve ser capaz de reconhecer as falácias e as artimanhas utilizadas pelo orador/escritor.

Para tanto, conhecer a parte estrutural do texto (gênero textual, recursos linguísticos empregados, etc) ajuda. A qualidade dos argumentos pode ser verificada pela maneira como estes são apresentados e como se relacionam com o contexto de forma ampla. Além de válidos e eficazes, os argumentos devem ser justos, pois a verdade será buscada e reconstruída por intermédio deles nos debates públicos. No entanto, a retórica não é ensinada nas escolas (ao menos não na maioria delas).

Nas escolas, de acordo com DUARTE (2010), deveria ser incentivada a leitura crítica dos textos retóricos sob a perspectiva da “teoria da compreensão”. Esta é uma espécie de hermenêutica associada à retórica, posto que, nesse contexto, a retórica não está sendo aplicada para persuadir, mas para ser interpretada. De tal modo, o leitor, encarando o texto, dialoga com este, buscando identificar suas características e julgá-las. O autor defende a inclusão da retórica no currículo escolar para que as instituições de ensino se compromentam a formar indivíduos capazes de analisar estrategicamente os diferentes discursos e se posicionar de forma autônoma frente às diversas questões.

Isso significa (o autor querendo ou não) um retorno à educação clássica – e agora passo a falar por conta própria, não mais baseada no Duarte. As práticas pedagógicas modernas se mostraram fracas e ineficientes. Mesmo nas escolas de elite, podemos perceber que o currículo é demasiado utilitarista e põe de lado as Humanidades. As escolas particulares brasileiras, em sua maioria, não têm uma boa estrutura curricular, mantendo-se no básico (por culpa das exigências do MEC, da má formação dos professores e por falta de vontade de resgatar tradições e parecer algo obsoleto). Se olharmos os dados sobre a educação estatal no Brasil, veremos o subsolo do fundo do poço. A proficiência em leitura é péssima e a consequência disso é uma escrita deficiente, uma interpretação parva e uma comunicação deplorável. O aluno brasileiro médio não tem recursos linguísticos suficientes para se expressar bem e muito menos para se defender de doutrinações e golpes. Isso é preocupante não só no ponto de vista individual, mas principalmente social. NÓS somos (e seremos ainda mais no futuro não tão distante) afetados por isso.

As coisas certamente não eram perfeitas no passado, mas o caos era domado ao invés de ser valorizado. A ideia nietzscheniana de aprovar o dionisíaco em oposição ao apolíneo tem levado a humanidade à beira do colapso. Até a Idade Moderna, as pessoas entendiam que uma civilização se constrói com erros e acertos e que se deve seguir em frente olhando para trás para aprender. Não somos melhores que nossos antepassados (mas podemos ser piores) e não devemos jogar no lixo o que nos fez chegar até aqui. Contudo, perdemos isso de vista na pós-modernidade, especialmente com o advento da teoria crítica. Como se fóssemos imaculados e superiores, denunciamos erros já superados do passado ocidental,sem tentar entender o que realmente aconteceu e sem olhar para os outros povos e ver o que nos torna diferentes.

Esse tipo de pensamento levou ao apodrecimento do currículo escolar, pois a escola politicamente correta não pode sustentar o legado de uma civilização imperfeita. Isso torna os indivíduos fracos, imaturos e incapazes de lidar com adversidades e contradições no âmbito público e em suas vidas particulares. Foi retirado do currículo tudo o que remete à herança europeia, como se esta representasse um pecado. O presente cenário político que mais parece um circo de baixa qualidade dirigido por pessoas mentalmente desequilibradas é fruto de gerações de desmoralização da educação. Deixamos de exigir excelência para aprovar a mediocridade em nome de uma suposta democratização que ao invés de garantir o sucesso prometido, trouxe apenas bagunça e frustração.

Se quisermos mudar essa situação, temos que olhar para a base curricular e exigir mudanças. Não basta proteger os alunos de certos conteúdos polêmicos (e entendo que essas questões são urgentes, não quero dizer que esse problema deva ser ignorado), é preciso pensar no FUNDAMENTO. Retórica, latim, literatura clássica, coisas desse tipo fazem a diferença na formação da visão de mundo e têm consequências práticas nas políticas públicas que serão formuladas no futuro. Devemos, enquanto sociedade, buscar construir algo forte e complexo ao invés de buscar o caminho mais fácil. Uma educação que forma o homem virtuoso forma também a sociedade virtuosa – não incólume, mas com coragem para assumir responsabilidadeforça para domar o caos e sabedoria para juntar as peças do grande quebra-cabeças de lições da História e assim manter o mundo habitável.

Retorne aos clássicos antes que seja tarde!

OBS.: Esse texto também foi postado lá no Substack (https://substack.com/@samarakrause)

REFERÊNCIAS:

DUARTE, Vitor R. Argumentação e retórica como ferramentas intelectuais e seu lugar no ensino. Anais do SITED. Porto Alegre, 2010. p.403-409.

PETERSON, Jordan B. Além da Ordem: mais 12 regras para a vida. Traduzido por Wendy Campos. Rio de Janeiro: Alta Books, 2021.

Favoritos de abril

Livro:

Finalizei minha releitura da saga Harry Potter e por isso vou colocar As Relíquias da Morte como favorito do mês. A história apresenta pequenas falhas, a autora se delonga demais no início e depois tudo acontece rápido, também achei brega o diálogo final entre Harry e Voldemort, porém ela é eficiente em causar efeitos emocionais – você se sente envolvido com os personagens, sente a mesma ansiedade, o mesmo medo, a mesma raiva, a mesma tristeza que os personagens mais relevantes (notadamente, o trio de ouro, Harry, Ron e Hermione). Ainda acho que o primeiro (A Pedra Filosofal) é o melhor na questão da construção da história (é também mais bonito e singelo), no entanto, As Relíquias da Morte tem seus méritos, sendo um deles o fato da autora ter coordenado “histórias dentro de histórias” (a biografia de Dumbledore e Os Contos de Beedle), e outro bem notável é a forma como ela explorou as possibilidades de reação humana diante das adversidades. Sem dar spoiler, é interessante observar coragem, fragilidade, amor, crueldade, entre tantas outras características (algumas compreensíveis apesar de reprováveis, outras admiráveis, outras completamente abomináveis) em personagens menores como o senhor Lovegood, o Neville Longbotom (eu certamente não deveria chamá-lo de ‘menor’), o Percy Weasley ou a Dolores Umbridge. Porém são dois pontos que elevam esse livro ao patamar de favorito e que fazem a saga Harry Potter ser recomedável (apesar de tudo): o alerta contra dois perigos reais e contemporâneos (ainda que sejam, na verdade, tão antigos quanto a própria humanidade, pois surgem da própria natureza humana corrompida), a saber, o totalitarismo e o transumanismo.

Ainda que a J.K.Rowling tenha opiniões políticas controversas, mais alinhadas à esquerda (uma esquerda suave, ‘social democrata’, digamos), ela se posiciona contra o autoritarismo tanto dentro quanto fora dos livros. Do início ao fim da saga, vemos o perigo da burocracia e do aparelhamento ministerial (especialmente a partir de A Ordem da Fênix), somos incitados a não confiar plenamente na mídia e a não seguir regras simplesmente por serem regras (aliás, o psicólogo clínico dr. Jordan B. Peterson trabalha esse assunto, usando a saga Harry Potter, em seu livro Além da Ordem), somos ensinados a pensar sobre as consequências das ações e somos inspirados a assumir uma postura de fortitude frente às tempestades da vida sem perder o coração e sem vender a alma. Me lembra uma frase do mártir cristão Dietrich Bonhoeffer: “o silêncio face ao mal é o próprio mal”.

Sobre o segundo ponto, o Djesniel poderia falar sobre isso melhor do que eu – infelizmente, ele não gosta de Harry Potter. No canal Teofilia você pode encontrar vídeos dele sobre o assunto e temas relacionados, já que é o objeto de pesquisa dele. O que eu, como leiga, vejo em Harry Potter é a forma como a ideia de vencer a morte por suas próprias artimanhas (a idéia de Sísifo) e de não aceitar a própria humanidade e a fragilidade que vem com ela, juntamente com o desejo de ultrapassá-la, são a fórmula do próprio mal. Tom Riddle é o bruxo transumanista: ter magia não é o bastante, ele precisa ser imortal e estar acima de tudo e todos. Ele literalmente quebra sua alma e altera seu corpo, assumindo uma aparência mais ofídica do que humana. Ele deixa de ser Tom Marvolo Riddle e se torna o Lord Voldemort, o vilão que despreza formas de vida ‘inferiores’, ainda que sejam humanas e bruxas. Lembremos que ele poderia ter assumido o posto de Ministro da Magia ou se proclamado rei, o que quer que ele quisesse, mas não foi nada disso que ele fez. O interesse dele era maior do que o poder político imediato, isso era apenas uma ferramenta. O que ele queria era estar no topo e ter todos os bruxos de sangue puro como seus seguidores – quase como uma nova raça de seres perfeitos. Ele era o Nietzsche do universo bruxo: queria matar Deus e se tornar ser um super-homem (ou além-do-homem, o que talvez seja uma tradução mais correta do termo übermensch nesse contexto).

O transumanismo é uma ideologia totalitária. Autoritarismo e transumanismo andam juntos, mas o perigo da mentalidade transumanista é maior por que é irreversível (além de, por vezes, ser imperceptível, pois se apresenta como um ‘aperfeiçoamento’, como algo que é bom para sua saúde e sua segurança, tão atraente que faz você querer entregar sua liberdade e sua identidade em troca do conforto ofertado). É a ideia mais horrenda de todas: menosprezar a coroa da Criação, a espécie criada como imagem e semelhança do próprio Deus. É a tentativa de se colocar como o novo deus.

Harry e seus amigos lutam contra esse ideal e estão dispostos a sacrificar a própria vida para derrotar essa grande sombra maligna. Mesmo quando parece que tudo está perdido, eles entendem que é melhor perder como humano (com seus vícios, mas também, e acima de tudo, com suas virtudes) do que vencer como não-humano. É melhor ter um corpo de carne e osso, que sua e sangra, mas que sente, do que ser uma criatura ofídica com sangue frio, que não sente dor nem medo e que não experimenta a morte, mas que também é incapaz de entender o amor e a felicidade.

OBS.: li esse livro em inglês, o que foi uma excelente experiência para ampliar o vocabulário, pois aparecem tanto palavras sofisticadas quanto palavras muito comuns (gírias e regionalismos), o que ajuda a naturalizar o idioma (é mais recomendado para nível C, mas creio que dá para ler sendo B2 se estiver realmente disposto a ler como forma de estudar)

Muita gente tem preconceito contra Harry Potter e eu entendo, estou ciente dos defeitos da série, no entanto, vejo que há um considerável lado bom. Sim, eu sei que não é tão boa quanto Nárnia e O Senhor dos Anéis, mas tem seu valor e sua beleza se você souber como encontrar. E talvez esse seja o ponto principal: você precisar saber ler. É preciso ter uma cosmovisão bem desenvolvida para compreender, para encontrar o tesouro escondido e aprender com ele. E para quem leu no passado, releia, pois a experiência de se reconhecer e se autocriticar durante esse processo, de observar o tanto que sua percepção mudou (ou foi conservada) e o quanto as leituras que você fez durante a vida ajudaram a construir quem você é hoje é algo impressionante. Como de costume (ainda que não sempre), C. S. Lewis estava certo: releituras são importantes para um bom leitor. (obs.: me pergunto o que ele acharia de Harry Potter) (aliás, Lewis escreve sobre o mesmo tema do transumanismo na Trilogia Cósmica, obra que estou lendo e em breve, ou não tão breve, trarei resenha).

Filme/série:Reassisti Perdido em Marte (Ridley Scott, 2015). Se você ignorar questões científicas (e espero que você faça isso!), é um excelente filme. A produção foi feita com qualidade em todos os aspectos (dos mais notáveis, como atuação, até os mais negligenciados pelo público, como mixagem de som), a composição das imagens é bela e o mais interessante é que o roteiro, além de ser criativo, é conduzido com leveza apesar de ser também dramático. Para quem não conhece, trata da história de um astronauta especialista em botânica que acaba sendo deixado para trás por seus companheiros durante uma missão em Marte. Ele então luta para sobreviver com poucos recursos e sozinho num ambiente hostil. É uma história sobre a importância do conhecimento e da inventividade, mas também aborda dever, honra e o valor da vida humana. É baseado no livro homônimo de Andy Weir (lançado em 2011), o mesmo que escreveu o Projeto Hail Mary, que recentemente se tornou filme (no Brasil, por razões que eu desconheço, o título ficou como Devoradores de Estrelas).

Música: Ouvi bastante a música Highwayman na voz de lendas da música americana. Você pode escutar clicando aqui.

Comida/receita:Fiz uma geléia de maracujá muito boa (gosto particularmente de comer com iogurte natural, é bem melhor do que aqueles iogurtes gregos saborizados artificialmente). Uso a pectina (substância coagulante) da própria fruta, assim não tem que usar tanto açúcar e não gasta tanto gás para pegar o ponto.

Modo de fazer: Após retirar a polpa de 2 maracujás, cozinhe a casca de um deles (é só colocar na água e esperar uns 10 minutos depois que ferver), retire a película e raspe aquela parte branca (fica como um creme e dá para congelar). Numa panela, coloque a polpa junto com 2 colheres de sopa da pectina (pode ser menos se quiser uma geléia mais molinha; se for congelar em fôrma de gelo, basta usar um cubinho), um limão (pode ser meio, caso você não goste tão azedo), e açúcar (usei uma xícara de chá, pode ser mais se você quiser bem doce). Se colocar algumas folhinhas de hortelã e um pouco de canela também fica bom, mas não fiz assim dessa vez. Mexa em fogo baixo até pegar consistência, depois é só deixar esfriar e pode armazenar num pote de vidro (esterilizado e bem fechado) tanto dentro quanto fora da geladeira (depende de em quanto tempo você pretende consumir; em geral, depois de aberto, se passar mais de duas semanas fora da geladeira vai acabar mofando).

Aleatórios: Para comemorar o aniversário de nascimento e de morte de William Shakespeare (23/04) (que também é o aniversário de morte do meu outro querido poeta inglês chamado William, o meu objeto de estudo atual, o William Wordsworth), encontrei um joguinho de tabuleiro que usei com as crianças mais velhas. É uma jornada divertida sobre a vida e a carreira dele, terminando com sua morte (ganha quem morre, nada mais shakespeareano). Bem simples, mas ótimo para homenagear o bardo e fazer as crianças memorizarem os eventos e as obras dele.

A crise da humanidade europeia e a Filosofia (Edmund Husserl)

Esse blog foi criado em dezembro de 2017, quando me formei em Filosofia. O objetivo era compartilhar dicas e opiniões sobre livros e filmes, mas também discutir Filosofia – algo que eu acabei deixando para lá na metade do caminho e agora resolvi retornar. Tendo partido mais para a área das Letras, acabei deixando de lado a ‘Filosofia pura’, isto é, textos que são realmente de Filosofia em si, e não de Filosofia como um auxílio para outras áreas. A verdade é que a Filosofia é o fundamento de toda e qualquer ciência, por isso não deve ser vista como mera ferramenta. Estou revisando textos básicos da época da faculdade (fichamentos de livros, anotações e comentários) como forma de revisar conceitos importantes e vou compartilhar com vocês. Comecei, sem qualquer apresentação, falando da Pragmática Universal do Habermas no Substack (você pode ler clicando aqui), agora tratei um pouco de Edmund Husserl. Vale dizer que não são filósofos que eu goste, concorde ou me interesse, mas que entendo que são interessantes de conhecer para ampliar nosso conhecimento, nosso vocabulário e nossas perspectivas. Tudo isso nos ajuda a sermos mais eloquentes e a, como recomenda meu querido dr. Jordan B. Peterson, articular melhor o nosso Ser e organizar nossa mente.

Texto: A crise da humanidade europeia e a Filosofia (HUSSERL, Edmund).
Resenha/Resumo:
Nesse texto, o autor busca entender o papel da Filosofia e de suas ramificações em relação à crise da humanidade pela qual a Europa passava no século XX, analisando criticamente a mesma. Fazendo uma comparação com as ciências médicas, afirma que a humanidade europeia está doente, mas alega que as ciências do espírito não têm se empenhado em curá-la. Enquanto as ciências exatas e biológicas lidam com a natureza objetiva, podendo desenvolver uma dominação de caráter técnico da mesma, com as ciências do espírito não se pode fazer isso, sendo mais difícil lidar com estas.
Um dos pontos destacados pelo filósofo é que o que dificulta o desenvolvimento dessas ciências é o desprezo pelo corpo em uma tentativa de trabalhar apenas o espírito, o que é um erro, pois as ciências do espírito estão ligadas à corporeidade, uma vez que o ser humano não é só espírito, mas também matéria. Esse tipo de relutância, a de tratar as coisas em conjunto, é um dos empecilhos que dificultam a resolução de tal crise.É importante, segundo o autor, fazer tais apontamentos, pois a crise pela qual passa a Europa é uma crise espiritual.
Husserl passa então a buscar as origens históricas de tal crise, desde a Grécia Antiga, chegando, portanto, ao desenvolvimento da Filosofia; o filósofo vai tratá-la como ciência universal, uma ciência do espírito que visa à totalidade, diferente das demais, podendo ser a chave para a solução da crise da humanidade europeia. Essa solução proposta pelo autor, na verdade, é uma transformação da realidade, que viria através da Fenomenologia, posto que esta é a ciência do espírito por excelência, pois se preocupa com as coisas em si. A Filosofia deve então voltar a se preocupar com o homem e distanciar-se do cientificismo puro, não o desprezando, mas vendo-o como algo a ser ultrapassado, retornando à teleologia que lhe era característica no início. A Filosofia deu origem à humanidade europeia e é, por tanto, a chave para curá-la de tal crise.
Apreciação crítica:
Ou seja, é preciso lembrar o que é Filosofia (aqui já não fala mais o Husserl, mas a autora) ( e sei que desviei bastante da ideia de Husserl, já que ele visava promover uma abordagem fenomenológica, não clássica; mas, como diz o ditado, “uma ideia puxa a outra”): busca pela verdade. Verdade, em grego, é aletheia, vocábulo que traz o sentido de desvelamento. Buscar a verdade não é construir um sentido, mas encontrar algo que já existe. É o oposto do relativismo e do existencialismo. Essa visão conservadora não é fácil, no entanto, é necessária. Requer o trabalho de visitar o passado e humildemente aprender com ele. É difícil fazer isso, pois a mentalidade pós-iluminista e pós-evolucionista parte do pressuposto de que tudo que é antigo é ultrapassado e de que nós somos intelectual e moralmente superiores às gerações que nos antecederam (ainda que não saibamos fazer metade das coisas que eles faziam sem as tecnologias digitais que temos!). É uma atitude que exige coragem intelectual, pois é preciso estar disposto a lidar com o que você encontrar – goste ou não, concorde ou não. Encontrar, entender e aceitar, pois é a verdade – a correspondência do pensamento com a realidade, a chave para entender o mundo e viver de maneira consciente, pois as ilusões produzidas pelas ‘vãs filosofias’ (para usar o termo paulino) podem até dar uma impressão de felicidade e tranquilidade, porém, eventualmente, levam ao caos.

O que é cultura – e por que ela importa

É comum ouvirmos o termo “cultura” ou seus derivados: “vivemos uma guerra cultural”, “nossa cultura está em decadência”, “cuidado com o marxismo cultural” etc. Porém, o que é a cultura? Pretendo responder essa pergunta com base no pensamento de três grandes intelectuais: o poeta e crítico literário T. S. Eliot (1888-1965) e os filósofos Edmund Burke (1729-1797) e sir Roger Scruton. (1944-2020). A palavra “cultura”, tem vários significados e pode ser aplicada a diversas áreas, como agricultura e ciências biológicas. Nesse texto, vamos trabalhar o conceito aplicado às Humanidades.

T. S. Eliot diz que o que normalmente entendemos como cultura é apenas um pedaço do todo: uma ‘pessoa culta’ seria uma pessoa elegante ou alguém que ‘tem cultura’ no sentido de ter um vasto conhecimento. ‘Ser culto’ ou ‘ter cultura’ são coisas normalmente associadas com o que Roger Scruton chama de alta cultura – a filosofia e as artes cultivadas por uma elite. Por outro lado, a palavra isolada costuma ser vinculada às tradições populares, como músicas folclóricas e comidas típicas. Dizemos que o frevo e o bolo de rolo são representantes da cultura pernambucana, enquanto a Oktoberfest e a Festa do Pinhão são festividades culturais catarinenses. No entanto, nada disso é a cultura em si, mas tudo faz parte dela: idioma, festas, monumentos históricos, crenças, artesanato, comportamentos, vários aspectos relacionados à construção da uma comunidade humana que a torna distinta das demais. É algo propriamente humano que surge por conta da necessidade de encontrar uma identidade e preservar o conhecimento adquirido para a sobrevivência básica e para a busca da felicidade.

Segundo o pensamento conservador exposto por Edmund Burke, podemos entender a cultura como um pacto entre gerações, isto é, olhamos para nossos ancestrais tanto quanto para os nossos descendentes, aprendemos com os primeiros e ensinamos aos segundos. T. S. Eliot diz que isso é “um sentimento de piedade para com os mortos, não importa quão obscuros, e uma preocupação com os que ainda não nasceram, ainda que remotos.”i

Entender a cultura e perpetuá-la é uma questão de responsabilidade. O que não quer dizer que tudo deva ser preservado. Em sua obra Reflexões sobre a revolução na França, Burke explica que o pensamento conservador é reformacionista. Tomando o exemplo de um prédio, podemos visualizar três tipos de ideias: os reacionários são aqueles que querem mantê-lo exatamente como está, por mais decadente que esteja; os progressistas querem derrubá-lo para tentar algo novo que ninguém sabe como funciona nem quais seriam as consequências; o conservador é aquele que quer manter o que se provou bom ao longo do tempo e mudar o que se mostrou ruim, para preservar e aprimorar o edifício. Esse prédio é a sociedade e tudo o que sua cultura abarca.

Desse modo, a cultura é uma forma de coesão social. É através dela que as pessoas se reconhecem e se diferenciam – podendo, nessa troca, aprender umas com as outras. T. S. Eliot diz que não se deve entender que todas as pessoas devem ter o mesmo ‘tipo’ de cultura e nem que umas têm ‘mais cultura’ do que as outras. As chamadas ‘elites’ costumam ter o papel de preservar as ciências e as artes clássicas, por exemplo. Por outro lado, classes menos instruídas prestam um papel igualmente importante – podemos citar a manutenção das festas folclóricas, os dialetos e as vestimentas adaptadas à paisagem local. A igualdade traz o risco de apagamento de uma ou outra classe, ou, nas palavras de Eliot: “igualdade completa significa irresponsabilidade universal”.ii O erro não é a existência de classes, mas o tratamento que se dá a elas: uma não é melhor nem pior que a outra, a igualdade é de valor, não de função.

T.S. Eliot alega que “um povo é julgado pela história de acordo com sua contribuição para a cultura de outros povos que florescem ao mesmo tempo e de acordo com sua contribuição para as culturas que aparecem depois.”iii Isso vai na contramão de duas ideias populares hoje: o isolamento cultural (o famoso discurso de ‘apropriação cultural’) e o globalismo (a tendência de eliminar fronteiras e padronizar os povos). Não saber o que é cultura e qual a importância dela pode levar o indivíduo a duas das seguintes situações: a) cair no discurso de qualquer das ideais citadas anteriormente ou b) sentir que há algo de errado nesses discursos, mas não saber se posicionar e, com isso, abrir espaço para os seus defensores tão cheios de falatório e argumentos falsos (mas suficientes para convencer os incautos e ganhar adeptos, aumentando sua força política).

É preciso estar preparado para defender a cultura, pois isso é também defender o país e o futuro. Um país grande como o nosso, tem muito do que Eliot chama de ‘ecologia cultural’. Nossa cultura não é uniforme – e isso é uma benção: todos podem se beneficiar dessas divergências e o nosso país se torna mais rico (em vários sentidos) quando isso é bem trabalhado. Como nordestina, senti contrastes e convergências ao mudar para o sul. A festa junina foi um momento importante do meu primeiro ano em Santa Catarina: a canjiquinha aqui se chama curau, enquanto o que o catarinense chama de canjiquinha é xerém em Pernambuco; o mungunzá pernambucano é chamado de canjica em Santa Catarina e é feito com amendoim ao invés de côco. São comidas iguais, ou bem parecidas. As pessoas aqui não conhecem bem o cuscuz e comem coisas que raramente são encontradas no meu estado natal, como o pepino em conserva, o rollmops ou a cuca. O que eu aprendi é que existe uma linha de brasilidade que vai do Oiapoque ao Chuí – a unidade nacional é mantida, variada, enriquecida. Cada um se orgulha do seu lugar (e isso é bonito) e se interessa pelo outro (o que também é bonito), cada um delimitando seu espaço, suas tradições, suas características, fazendo um intercâmbio saudável e cuidadoso que visa harmonizar e não padronizar.

Muitas outras questões poderiam ser trazidas, como a religião e o multiculturalismo, mas isso tornaria o texto longo e cansativo, por isso me ocuparei apenas com mais um aspecto: a cultura ocidental. O que chamamos de “cultura ocidental”, ou cultura do Ocidente livre, é um modo de vida em sociedade que surgiu após o fim da Idade Antiga (queda do Império Romano ocidental) e se estabeleceu de maneira hegemônica durante a Idade Média por toda a Europa, tendo sido levada para outros continentes a partir do Renascimento. Os pilares dessa cultura são a moral judaico-cristã, a lei romana e a filosofia grega. Cada país adiciona mais uma coluna de sustentação, dando um caráter nacional à cultura mais ampla.

Essa cultura se distingue da asiática e da africana (de modo geral, apesar das influências) e se encontra de maneira mais significativa na Europa e suas ex-colônias nas Américas. O termo ‘livre’ é herança da Guerra Fria, para se distinguir dos países comunistas que adotavam uma cultura diferente (e inorgânica, fruto de engenharia social). Esse projeto fracassou, como sabemos hoje (algo que Roger Scruton pôde observar, mas Eliot não chegou a ver) (aliás, Scruton lutou ativamente pela preservação da cultura europeia no leste europeu sob domínio soviético, plantando universidade ilegais na Polônia, onde foi reconhecido como herói).

É algo do qual precisamos estar conscientes para saber quem nós somos e o que devemos fazer: quando ignoramos nossas origens, perdemos de vista o futuro, nossa cultura se torna vazia e quando se manifesta na arte, na religião, na moral, nos comportamentos, o que vemos é o retrato de uma sociedade doente – uma terra devastada (como diria T. S. Eliot). Se não nos preocuparmos com a restauração da cultura (brasileira e ocidental), estaremos entregando o futuro à barbárie. O declínio cultural é também uma crise de identidade e se reflete na vida das pessoas: cada dia cresce o número de pessoas com ansiedade, depressão e outros distúrbios, mais famílias se desfazem, mais polarização acontecem dentro de uma nação. As pessoas estão cada vez mais perdidas – não sabem quem são ou o que devem fazer. Os papéis sociais e os padrões de comportamento culturalmente estabelecidos foram atacados em nome da liberdade – no entanto, como diz Eliot, liberdade total é liquefação. Não que as pessoas não devam ter o direito de viver como querem (desde que não violem terceiros), mas derrubar os padrões que guiam a sociedade é deixar as comunidades à deriva.

Defender nossa cultura é, nas palavras de Scruton, lutar por nosso direito de existir contra uma tentativa de destruição que vem de grupos que, sentindo-se puros, alegam que a civilização ocidental gerou apenas violência. No entanto, vale lembrar que todos os povos conhecidos praticaram violência (consequência do Pecado Original), entre elas a escravidão, porém foi a civilização ocidental que desenvolveu o conceito de direitos humanos e aboliu a escravidão, deu espaço político para mulheres, estabeleceu limites para a exploração ambiental, definiu legislações trabalhista, entre outras coisas. Isso ocorreu por conta do princípio de imago Dei, isto é, de que as pessoas foram criadas à imagem e semelhança do próprio Deus, o que justifica a dignidade do ser humano. A noção de dignidade do humano foi o que, ainda que após muita luta, abriu espaço para o respeito ao próximo independente de casta, gênero ou qualquer outro fator além do simples fato de fazer parte da mesma espécie.

Roger Scruton comenta sobre a desintegração da cultura, mas também aponta movimentos de esperança. Essa esperança, para ser preservada e prosperar, depende de cada um de nós. Quando valorizamos a cultura local, respeitamos a civilização ocidental, desprezamos o relativismo, o niilismo, o pós-estruturalismo e qualquer outra doutrina que tem por objetivo minar a tradição, estamos honrando nossos ancestrais, “protegendo o mundo contra predadores”iv e preparando o caminho para o futuro com responsabilidade. Ensinar nossa cultura às futuras gerações é ensinar “a ver o mundo com olhos que sabem o que o mundo significou e o que ainda pode significar para o coração humano.”v

Referências:

BURKE, Edmund. Reflexões sobre a revolução na França. Tradução de Marcelo Gonzaga de Oliveira e Giovanna Louise Libralon. Campinas: Vide Editorial, 2017.

ELIOT, Thomas S. Notas para a definição de cultura. Tradução de Eduardo Wolf. São Paulo: É Realizações, 2011.

SCRUTON, Roger. A cultura importa: fé e sentimento em um mundo sitiado. Tradução de Roberta Sartori. São Paulo: LVM Editora, 2024.

i Eliot, 2011, p. 49

ii Eliot, 2011, p. 54

iii Eliot, 2011, p. 61

iv Scruton, 2021, p. 145

v Scruton, 2021, p. 96

Uma ode à arte: A vida secreta de Walter Mitty

O livro A Vida Secreta de Walter Mitty foi publicado pelo escritor americano James Thurber em 1939 e marcou uma geração: o personagem que dá nome à história tornou-se um arquétipo do homem sonhador que se perde em fantasias absurdas. É importante saber disso antes de ver o filme para entender seu aparente surrealismo. A história foi adaptada para o cinema pela primeira vez em 1947 pelo diretor McLeod e em 2013 pelo ator e diretor Ben Stiller (que também interpreta o personagem principal).

Apesar de 2013 ter sido o ápice da minha cinefilia, me recusei a ver esse filme. Lembro que foi um sucesso (relativamente, já que não chegou a ser um blockbuster, isto é, filmes que estouram nas bilheterias de cinema) e foi um filme bem elogiado e comentado. Para a surpresa de muitos no Twitter, a película não chegou a ser indicada para premiações relevantes. O que me fez não querer assistir foi apenas um fator: Ben Stiller. Eu não sou muito fã de comédia americana (prefiro as britânicas). Até que Uma Noite no Museu é uma saga razoável, mas nada no ator me chamou atenção suficiente para me fazer crer que ele poderia dirigir um filme de qualidade. Até mesmo pensei que qualquer obra dirigida por ele seria forçada demais para produzir riso sem inteligência – eu não poderia estar mais enganada: Stiller produziu um filme lindo.

Nessa adaptação, Mitty trabalha como editor de fotografia para a icônica revista Life. Estamos falando de 2013, uma ano de transição do analógico para o digital. Esse tema me é caro. Eu sou uma pessoa nostálgica que gosta de revistas antigas e de fotografia enquanto arte. Na história, a revista está para ser encerrada em suas publicações físicas (o que até aconteceu na vida real, mas não da forma que o filme mostra) e isso acarreta em demissões. Mitty é um dos que possivelmente perderá o cargo – para tentar impedir que isso aconteça, precisa cumprir uma missão (que não vou dizer qual é pois quero evitar spoiler dessa vez). O clima de insegurança e tristeza pelo fim de uma era (a Life era realmente influente, mostrava fotografias que contavam uma história, que marcavam momentos importantes para a humanidade) pode ser sentido pelo espectador, sensação esta que foi muito bem produzida na trama, pois as imagens e as situações transmitem sentimentos sem a necessidade de forçar um discurso para impor esse pensamento em quem assiste.

Em geral, o foco da narrativa é mostrar que não adianta viver nos sonhos, é preciso agir, e que muito pode ser vivido e aprendido quando você deixa o medo e passa a explorar o mundo. É uma típica mensagem motivacional, o que não é tão profundo quanto um filme sobre dor e superação (como Gladiador ou A Lista de Schindler, por exemplo). A vida não é assim tão fácil, mas de qualquer forma, é uma mensagem inspiradora e reconfortante, daquelas que por vezes precisam ser ouvidas.

Porém, o que mais me chamou atenção do filme foi a sua estética. Os cenários são lindos, a iluminação é excelente, a captura das cenas, os movimentos de câmera e as edições foram todos bem coordenados. Você sente que o projeto foi feito por quem não só entende, mas ama a arte do cinema e, especialmente nesse caso, da fotografia. A câmera analógica tem um encanto particular – atingir a perfeição demanda tempo e paciência. É preciso ter cuidado para não perder aquele filme tanto na hora de fotografar quanto na hora de revelar. Havia toda uma ansiedade pelo momento da revelação, do corte, da edição manual. Não existiam tantos recursos para ajustar os efeitos na própria câmera – era preciso ser criativo e um bom observador. Hoje em dia, com a facilidade das câmeras digitais e dos aplicativos de edição de imagem (para não falar da Inteligência Artificial), fotografar tem deixado de ser um dom. Temos perdido a arte e a quase sacralidade da foto como captura de um momento, como recordação. Tornou-se banal. Nem mesmo lembramos de imprimir as imagens! A Vida Secreta de Walter Mitty ilustra essa transição, essa perda que vivenciamos.

A transição também da revista para os vídeos de redes sociais. Antes, tínhamos que esperar a revista chegar na nossa casa ou que comprar nas bancas, para então ler e obter a informação (por mais irrelevante que essa informação fosse). Podia ser uma Superinteressante, uma National Geographic, Saúde ou Seleções, até mesmo uma Capricho ou Recreio. Esse modelo de informação marcou uma geração. Uma geração que lia até o fim da matéria, que variava os assuntos, ainda que por falta de opção. Uma geração que via e observava, que apreciava.

Isso não precisa ficar na saudade. Podemos recuperar esse estilo de vida. Voltar ao analógico o quanto for possível: escrever no papel, ler livros físicos, comprar revistas em sebo, controlar o tempo de tela, digerir os conteúdos consumido ao parar e meditar sobre eles. Esse filme é uma ode não só à fotografia, ou às revistas, mas à vida analógica e à busca por autenticidade. É sobre encontrar o seu eu e viver a vida de verdade, seja saindo dos sonhos ou saindo das telas.

“Ver o mundo, coisas perigosas por vir, ver atrás das paredes, se aproximar, encontrar um ao outro, e sentir, esse é o propósito da vida”

Favoritos de março

Livros:

Finalizei poucas obras esse mês, mas todas foram interessantes, de uma forma ou de outra, então vou comentar sobre todas. No entanto, só uma foi eleita como realmente favorita.

1- Li Ferreiro do Bosque Maior, do querido J.R.R. Tolkien (essa edição que deixei nesse link é a da Harper Collins, mais famosa e mais bonita, mas há uma outra edição, feita pela Martins Fontes, que é mais completa e me parece melhor, se chama Ferreiro do Grande Bosque), um singelo e belo conto de fadas. O mais legal é que a leitura se deu num cenário bem tolkieniano, uma verdíssima área rural cercada por montanhas, num lindo dia de sol.

2- Li também Harry Potter e o Enigma do Príncipe, só que li em inglês, o que foi uma experiência muito rica e que me fez questionar minha fluência (tem bastante gírias e também algumas expressões de nível C2). Tem sido mais tranquilo ler Shakespeare do que Rowling – o que demonstra a importância da variabilidade vocabular, pois se você se fecha num círculo idiomático (ex.: só consome conteúdo de medicina, ou de cinema, ou de literatura irlandesa, etc.) você restringe não só a quantidade de palavras que você conhece, mas também o uso das que você já sabe.

3- Li também um livreto (no sentido do tamanho, não da qualidade) do J.C.Ryle, pastor anglicano que viveu na Inglaterra vitoriana e é um dos meus teólogos favoritos (fica como dica o Sermões para crianças – que já começa com a história da ursa, o que é muito bom – teologia séria, acessível e sem medo para o público infantil). O título é Adoração e nesse pequeno tratado o autor discute sobre o que é a adoração pública da igreja de Cristo.

4- Ouvi o Deus que destrói sonhos, um livro interessante que mistura teologia e cultura pop. Vale dizer que é bem mais voltado para jovens (a Amazon indica a partir de 14 anos e concordo com essa classificação), então fica como dica de leitura para pessoas entre 14-19 anos, mas também para quem lida com essa faixa etária, pois pode ajudar a criar um conteúdo atrativo biblicamente fundamentado e desenvolver novas abordagens de comunicação.

5- O livro que será de fato o favorito do mês: Marxismo Desmascarado. Essa edição que está no link é a mais completa. Existe outra (de uma excelente editora), mas essa da LVM é muito melhor, pois traz não só as palestras do grande economista austríaco Ludwig von Mises ministradas na década de 1950, como também outros textos, sendo o mais importante um escrito interessantíssimo do Murray Rothbard sobre a escatologia marxista – inclusive, muita coisa vai ao encontro do livro Marx & Satã, cuja resenha você pode assistir no canal Teofilia. O raciocínio de ambos os pensadores é bem afiado e expõe de forma ao mesmo tempo sofisticada e compreensível a farsa do pensamento de Karl Marx, as origens dessa ideia e a forma como a doutrina socialista se modificou ao longo do tempo e se infiltrou no Ocidente. É uma obra necessária para compreender de forma mais profunda os nossos dias. Tem bastante referência histórica que dificilmente aparece nas aulas da escola – são eventos pouco conhecidos que envolvem pessoas que não se tornaram tão populares, mas que forneceram as bases para a pseudofilosofia mais catastrófica da humanidade.

Filmes: Em geral, os filmes do mês foram razoáveis, mas vou comentar mesmo assim. No entanto, um deles foi realmente bom e fica como favorito de março – porém, não vou falar sobre ele aqui. Acompanhe o blog e nos próximos dias você saberá qual é 🙂 , pois vou escrever um post apenas sobre ele. Trata-se de um filme interessantíssimo por vários ângulos, então preciso de tempo e espaço para discorrer sobre.

1- Assisti Shadowlands (que você pode assistir dublado clicando aqui) – uma cinebiografia sobre um recorte da vida de C.S.Lewis. É um bom filme dirigido por sir Richard Attenborough e lançado em 1993 (uma curiosidade: esse é o ano do lançamento de Jurassic Park, filme no qual Attenborough interpreta o cientista John Hammond e o Joseph Mazzello, que interpreta seu neto em JP, está em Shadowlands como o enteado do Lewis). A atuação do Anthony Hopkins como o personagem principal é excelente, como sempre, porém o filme me fez não gostar da Joy (descobri coisas que não gostei sobre ela). Achei o filme bem razoável e o lado bom fica por conta do Hopkins e do cenário inglês (o que faz salvar o chatíssimo Vestígio dos Dias, também com o Hopkins) (sou anglofílica demais para não apreciar isso).

2- Vi também os três últimos da saga Duro de Matar (sobre a qual você pode saber mais clicando nesse link aqui).

Músicas: Dessa vez vai ser só uma, Revelation Song na versão do Guy Perond, que eu descobri esse mês e até agora é a versão que mais gostei. Uma amiga informou que esse cantor fazia parte da Gaither Vocal Band – que eu também não conhecia. Existem algumas versões em português com o nome Canção do Apocalipse. A letra (tanto em inglês quanto em português – pois se trata de uma tradução quase precisa) é inspirada em Apocalipse 5.

Aleatórios:

Batom Cookie Nude (Natura) – É muito bom para usar no trabalho, pois é bem discreto. Estou usando basicamente todos os dias!

Jogo Adivinha Quem? – Comecei a usar nas aulas com as crianças e elas gostaram bastante. É um jogo bem simples e que dá para jogar a partir dos 6 anos. Cada jogador recebe a carta de um personagem e o objetivo é descobrir qual o personagem do seu rival através de perguntas sobre a aparência (as respostas devem ser apenas sim ou não). Só dá para 2 jogadores por vez. No inglês, uso para trabalhar o modo interrogativo e também temas relacionados à aparência, como tipos de cabelo, idade, acessórios, cores, etc.

Duro de Matar: a natureza humana e o amor sacrificial

Esse ano, terminei de assistir a saga Duro de Matar (conforme já mencionei em postagens anteriores; se você não viu, pode checar algumas dicas cinematográficas clicando aqui). Ela começa muito bem e vai declinando aos poucos, é preciso admitir. No entanto, continua sendo boa e cada filme traz pontos interessantes de discussão (menos o último). O que mantém a coerência entre os filmes é o personagem principal, o policial John McClane (Bruce Willis). O que tornou essa saga tão popular? Por que é importante assistir e apreciar filmes tão antigos (o último já tem mais de 10 anos). O que fez com que o público se afeiçoasse ao McClane e pedisse por mais filmes? É sobre isso que vamos falar hoje.

Filmes com pretensão de intelectualidade costumam ser bem chatos. Não é incomum que aprendamos muito mais com coisas comuns e despretensiosas, feitas com o único objetivo de entreter. Duro de Matar não é uma saga filosófica que tenta criticar a sociedade ou algo do tipo. É uma saga de ação onde há uma situação complicada que deve ser resolvida pela força e pelo raciocínio de um herói com recursos limitados. São filmes daqueles cheios de tiro, porrada e explosões. Mas eles têm uma boa narrativa (menos o último) – e isso é essencial. É sobre resistência e inventividade. Ok, depois do primeiro filme, você entende que o McClane vai se safar sempre. A questão é como isso vai acontecer. Mas dessa vez não vou tratar da construção da narrativa, quero observar nosso herói como um arquétipo. Se você não assistiu, recomendo ao menos ver os trailer. Aqui vai um breve comentário sobre os roteiros: o primeiro e o segundo são ótimos; o terceiro é bem inventivo e também é excelente, mas eu esperava mais do vilão; o quarto tem uma temática muito interessante sobre a era digital, mas tanto o quarto quanto o quinto parecem ter sido feitos por pessoas que estavam mega empolgadas com os efeitos especiais, fica até um tanto apelativo; o quinto é o mais fraco, parece ter havido uma tentativa de recriar alguns pontos de sucesso dos filmes anteriores e abrir caminho para uma continuação (o que claramente fracassou). Bom, agora vamos à análise:

Logo de início vemos que não se trata de um homem perfeito – e isso é um ponto importante. John é um policial aparentemente comum e que tem passado por problemas no casamento. O primeiro filme é o meu favorito do ponto de vista da construção dos personagens (em particular, o McClane e o Hans Grüben) e do desenvolvimento da ação (tudo acontece num prédio, não há muitas cenas externas, o herói fica completamente sozinho e não conhece bem a situação, seus recursos são limitados, ele precisa descobrir o que está acontecendo e salvar sua esposa, etc.), porém é no segundo que uma característica chama atenção: o cumprimento do dever. John é alguém que entende que tem que fazer o que precisa ser feito para proteger os outros. Não se trata de cumprir a lei, de fazer só o que é de sua responsabilidade – não, ele demonstra um compromisso com algo maior. Vou tentar não dar spoiler. No caso do que acontece no início de Duro de Matar 2, McClane, após avisar os policiais locais, poderia apenas ter deixado para lá. Não era mais problema dele. O que ele chama de “instinto policial” é algo mais do que isso: é uma noção inata de algo transcendental, um senso de justiça. Poderíamos desenvolver bastante sobre isso e abordar uma perspectiva teológica, falando da Providência e das Verdades Eternas (essas coisas podem ser frequentemente pensadas nos filmes do Shyamalan, parece ser um traço do diretor), mas isso seria forçar demais – dá para fazer, mas como uma interpretação pessoal, não como algo que faz parte da proposta do filme, o roteiro do filme não tenta te impor nada. Porém, a parte das virtudes, creio eu, é sim um elemento pensado para a construção do personagem, seja de forma consciente ou inconsciente, pois flui de maneira natural e é algo sempre presente ao longo da saga. McClane representa o ideal do americano cumpridor do dever para com seus compatriotas – tal qual Rambo (sobre quem espero ter inspiração para falar um dia, mas preciso ler mais sobre a guerra do Vietnã e o estresse pós-traumático). Notem, porém, que ambos os casos trazem homens imperfeitos, o que mostra um traço do americanismo e, em geral, do conservadorismo, que pouca gente lembra: o ceticismo acerca da bondade da natureza humana, ou, melhor dizendo, a certeza que o ser humano não é perfeito. Ou seja, não podemos esperar heróis imaculados – este foi apenas Jesus Cristo. O rei Davi cometeu adultéri0 e homicídi0. Winston Churchill era um beberrão. Essa lista poderia ser bem grande, mas vou parar por aqui, acho que a ideia já foi transmitida. O Capitão América pode ser um rapaz certinho, afinal, existe sim gente que se esforça para andar na linha, mas a lição aqui (e a lição de personagens como Wolverine) é que todos nós pecamos, mas podemos encontrar redenção (a história de Thor é também uma bela história de redenção) e podemos contribuir, dar o nosso melhor. Com uma percepção dessas, deixamos de acreditar em utopias e passamos a aprender a perdoar (perdão também é um tema frequente na saga, mas não vou comentar muito para não dar spoiler).

Além do senso de justiça, vemos o amor sacrificial – em particular, do marido pela esposa como de Cristo pela Igreja. Apesar de se preocupar em salvar as pessoas como um todo, nos dois primeiros filmes vemos a disposição do John de morrer pela esposa (claro, ele prefere matar por ela, mas de qualquer forma, arrisca sua pele nesse processo). Ele não pensa em si mesmo – ou, quando pensa, considera como algo menor a ser observado, sempre coloca como sendo mais importante enfrentar o problema do que fugir dele.

Muito mais poderia ser dito, mas não quero escrever um texto cansativo. Meu objetivo com esse texto é lançar um olhar mais profundo sobre coisas comuns, ver filosofia no ordinário. Ao invés de simplesmente consumir conteúdos, podemos filtrá-los, reter o que é bom, aprender e desenvolver raciocínio. Essa é uma forma de redimir e restaurar a cultura – Roger Scruton (no livro A cultura importa) alega que a cultura é um depósito moral para humanidade – por isso ela influencia tanto, e quando não se está preparado para analisar, entender e participar do debate público, se perde a batalha pelas mentes.

A sociedade do modismo

Recentemente, li (na verdade, ouvi) o livro A sociedade do cansaço, do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, lançado em 2014. É um livro curto e que fez bastante sucesso lá pelo final da década de 2010, tanto que o autor lançou toda uma coleção com títulos similares (livros curtos sobre alguns temas atuais). Trata-se de uma análise da sociedade do século XXI e a premissa é que a base da nossa época é a produtividade e isso tem gerado problemas psicológicos. Até aí, tudo bem. O modo de vida acelerado e performático é, de fato, algo a ser questionado. No entanto, a culpa, diz o autor, é do neoliberalismo.

Em geral, é uma escrita rasa, repetitiva e previsível, feita claramente não para instruir o público leigo em filosofia, mas para ser facilmente vendido e comentado (o que é irônico para um livro que critica o capitalismo). É exatamente sobre isso que quero falar. A Filosofia tem sido banalizada desde o século passado. Marx, Nietzsche e agora Byung-Chul Han (que, não por acaso, usa esses dois pensadores para fundamentar seus argumentos). Uma coisa que meu professor de Filosofia Antiga falou, logo na primeira aula, me chamou atenção e nunca esqueço: não se pode começar a estudar filosofia por Nietzsche. Isso vale para qualquer outro filósofo contemporâneo – ou moderno, ou até medieval. A Filosofia tem um ponto de início e este deve ser respeitado. É importante percorrer o caminho todo para poder entender os conceitos que são desenvolvidos e como eles são usados e possivelmente modificados ao longo da história.

Isso não é o mesmo que dizer que você não pode ler Confissões de Agostinho de Hipona se não ler O Banquete de Platão primeiro. Pode sim. Você pode se aventurar pela Filosofia, apenas precisa ter consciência de que há uma série de coisas para entender, de que não é algo facilmente consumível e de que é uma coisa que requer estudo.

A sociedade do cansaço traz conceitos formulados anteriormente por Marx e Nietzsche, como já mencionei, além de um viés foucaulteano que atesta seu descrédito. É a velha ladainha contra o capitalismo e estoicismo (ainda que essa palavra não apareça) e o cristianismo, especialmente a ética protestante (ou seja, entra Weber aqui). Uma junção de pensamentos que são apenas mencionados, mas não explicados, pressupondo que o leitor saiba do que se trata – porém, se observarmos bem, as pessoas que gostam desses filósofos costumam mais repetir os termos como papagaios do que realmente compreendê-los. Os termos são então jogados para que o grande público repita-os como fórmulas mágicas de crítica social que os elevará moralmente acima das ‘pessoas comuns’ que não têm consciência de classe e se preocupam não consigo mesmas, mas com coisas menos importantes como família, igreja e trabalho. Lembremos a data de lançamento: 2014 – o auge do Facebook e o pico de popularização do Instagram (ainda em formato diferente do que conhecemos hoje). É um livro bom para parecer intelectual – não um intelectual que lida com línguas antigas e livros empoeirados, mas um que é atualizado, que está por dentro das tendências. Um intelectual instagramável.

O autor não é original, faz um diagnóstico óbvio e diz tratar de filosofia enquanto sua abordagem é, na verdade, psicológica. Contudo, isso não quer dizer que não seja uma obra aproveitável. O assunto em si é importante de ser debatido – não de ser criticado apenas, mas de ser discutido, avaliando-se os pontos positivos e negativos. Por exemplo, ainda em 2014, um outro professor meu na faculdade criticou o então modismo de frequentar academias. Para ele, isso era um sintoma da doença do capitalismo que torna as pessoas superficiais e obcecadas com o corpo e a saúde. Primeiramente, vale notar que essa moda está aí há uns 10 anos (ou seja, já não é tão moda assim). Se pensarmos bem, não é que não havia academia antes, apenas as redes sociais tornaram visíveis os hábitos das pessoas e isso ajudou a motivar outras a fazer o mesmo (a sensação de pertencimento costuma inspirar bastante). O professor agiu como se fosse algo ruim em si (ainda que Platão fosse chegado numa ginástica), mas é realmente isso? Não! Isso tem feito bem para muita gente. Claro, também tem seu lado ruim. Tem gente que se prejudica por causa de exageros no que diz respeito a alimentação, produtividade, trabalho, rotina, etc. Isso não tem a ver com capitalismo, o capitalismo é um modelo econômico! Isso tem a ver com a mentalidade. Sua cosmovisão altera a forma como você usa as ferramentas ao seu redor, como você lida com as pessoas, os hábitos que você constrói. A ética protestante que valoriza o trabalho não é ruim só por que algumas pessoas exageram e trabalham demais, esquecendo da família, dos prazeres da vida em geral. O estoicismo não é ruim só por que algumas pessoas têm a disciplina como um deus.

Voltando ao Byung-Chul Han, uma das poucas coisas interessantes é quando ele usa a literatura para ilustrar seu ponto: Bartleby, o escrivão. Trata-se de um conto do autor americano Herman Melville publicado em 1853 cujo assunto é um recorte da vida de alguém que hoje chamaríamos de workaholic, um viciado em trabalho. A literatura é o espelho da vida, de uma forma ou de outra. É uma história interessante, mas a interpretação do Han é tendenciosa demais.

De modo geral, entendo que O Hobbit, por exemplo, tem um conteúdo melhor de crítica social sobre o mesmo assunto do que esse livro. Veja, é uma ficção fantástica que se passa num mundo imaginário, não cita nenhum filósofo, não aborda diretamente nenhum assunto específico, até por que é uma aventura, não um ensaio, mas faz você pensar sobre equilíbrio, sobre valorizar as coisas simples da vida, mas sem pôr a culpa pelos males do mundo nos outros. É uma história sobre assumir uma atitude de coragem sem sonhos de grandeza, sobre cuidar da natureza e amar o próximo. É difícil que um adulto leia O Hobbit e não reflita sobre sua própria vida: estou vivendo uma rotina corrida, sem parar para apreciar o mundo ao meu redor? Estou amando minha família? Estou agradecendo pelas minhas bênçãos?

A literatura frequentemente é mais profunda do que pretensos filósofos. Tem gente que pensa que a ficção é perda de tempo, nem imagina o quanto ela é importante para abrir os olhos e trabalhar a mente, o quanto ela ajuda a entender melhor a vida e pensar sobre quem somos e qual o nosso lugar do mundo. O sucesso de A sociedade do cansaço, na minha opinião, tem a ver não com o cansaço da sociedade, mas com a preguiça e a com a falta da leitura de bons livros. É o reflexo de uma sociedade que quer respostas rasas e justificativas fáceis ao invés de pensar e tomar decisões difíceis. Quem lê O Hobbit entende que é preciso passar por dificuldade e ainda assim é possível encontrar a beleza. Quem lê apenas A sociedade do cansaço usa o capitalismo como desculpa para deixar de lado responsabilidades e assumir uma espécie de hedonismo pseudointelectual. Para escapar dos modismos, devemos seguir o conselho de C.S.Lewis e buscar incluir em nossas leituras um livro que tenha mais de 100 anos. Um livro de boa literatura ou de boa filosofia.