BIDEN NÃO GANHOU

Não ganhou e mesmo que ganhe, não terá um mandato fácil. Esse anúncio da vitória de Biden se trata de PROJEÇÃO DA MÍDIA.

É preciso ter cuidado com isso: a mídia anunciou a vitória de Biden no Arizona, apontando que 95% dos votos haviam sido contados – mas apenas 80% haviam sido apurados. A diferença entre os dois candidatos estava bem apertada, não era possível indicar um vencedor antes de fechar a conta. A atualização mais recente (90%) indica que Trump diminui para menos de 1% a margem de diferença entre ele e Biden, como indica matéria do Daily Wire publicada no dia 07 de novembro (https://www.dailywire.com/news/arizona-trump-cuts-biden-lead-to-less-than-1).

Fora isso, em alguns locais a contagem não terminou, como no Alaska. Em outros, já foi anunciada a recontagem dos votos – como na Geórgia, um dos Estados-chave na disputa.

Existem os Estados “Solid Republican” ou “Red States” (Estados Vermelhos – em referência à cor do partido), aqueles que votam mais no Partido Republicano. Existem os “Solid Democrat” ou “Blue States” (Estados Azuis) (engraçado que “blue” também pode significar “triste”), aqueles que votam mais no Partido Democrata. Isso raramente muda, mas pode acontecer, como no caso de Ronald Reagan (Rep-Califórnia): além de ter sido governador da Califórnia (um Blue State), na eleição presidencial de 1980 ele levou 44 dos 50 Estados e na reeleição (1984) levou 49 dos 50 Estados (só perdeu em Minnesota).

Existem ainda os “Swing States”, aqueles que ficam pendendo entre um lado e outro, conhecidos também como “Purple States” (Estados Roxos) ou “Key-States” (Estado-chave). Esses Estados indecisos são o campo de batalha de qualquer candidato à presidência dos EUA.

Além do voto por Estado, podemos analisar também o voto por condado. Nesse ponto, podemos notar um fenômeno interessante nessa eleição. Se observarmos um Swing State como a Flórida, Trump venceu em condados de maioria latina e negra, enquanto Biden venceu em distritos de maioria branca e de classe média/alta.

 Em reportagens que assisti durante a corrida eleitoral de 2016, percebi que um fator significativo da mudança de voto entre os latinos (na Flórida, a maioria deles vem de Cuba), foi a aproximação de Obama com o regime comunista cubano. Eles fugiram de lá por causa dos problemas causados pela esquerda e não querem que a América se torne socialista. Em 2016, Trump levou 48% dos votos. Em 2020, obteve vitória de 51%.

Podemos observar uma tendência de pessoas de “boa vida” de votar na esquerda, enquanto aqueles que trabalham duro são mais conservadores. Essas pessoas de “boa vida”, às quais o mundo foi dado, que não sabem que a liberdade tem um preço e que não tiveram que suar pela prosperidade, acham que podem confiar em políticos que prometem resolver os problemas do mundo, querem ser protegidas sem custos e não suportam ser contrariadas. Essas pessoas não têm noção da realidade e não se preocupam com valores morais.

Tem também aquelas que ignoram a política: não olham os dois lados antes de atravessar a rua e quando são atropelados nem sabem o que as atingiu.

A tendência de países mais desenvolvidos de ceder para o comunismo disfarçado de social-democracia e Welfare State (Estado de Bem Estar Social) e o resultado catastrófico da implementação desse tipo de política foi analisada em muitas matérias do Instituto Mises Brasil, vou deixar alguns links no fim desse post.

Os Republicanos controlam o Senado. Os Democratas controlam a Casa dos Representantes (similar à Câmara dos Deputados), mas até agora já perderam 10 cadeiras – digo “até agora” por que a eleição não acabou e não vai acabar nem tão cedo. Vale lembrar também que com a confirmação da juíza Amy Coney Barrett, a Suprema Corte agora tem maioria conservadora – e quando se diz que um juiz da Suprema Corte é “conservador”, significa que ele vota de acordo com a Constituição e não tem histórico de ativismo judicial (nem para a Esquerda nem para a Direita).

Desse modo, um possível mandato de Biden (ou da sua vice, a mega-marxista Kamala Harris) será certamente difícil para os conservadores da América (e do mundo), mas também não significa que a esquerda vai conseguir tudo que quer.  Também é preciso ressaltar que nos EUA as eleições para Senado e Casa dos Representantes ocorrem a cada dois anos, são as chamadas Midterm Elections, o que significa que os Republicanos podem até ganhar o controle da Casa dos Representantes em 2022 e atar as mãos de Biden e Harris. Eu adoraria ver o ex- S.E.A.L.  Dan Crenshaw (Rep-Texas) no lugar de Nancy Pelosi (Dem-Califórnia) como líder dos Representantes.

Trump já falou que vai recorrer à Suprema Corte – de fato, já começou a fazer isso. O juiz Samuel Alito já determinou que o Estado da Pensilvânia separe as cédulas que chegaram depois das 8:00 da noite do dia 03 de novembro, como noticiado por Ashe Schow no Daily Wire em 07 de novembro (https://www.dailywire.com/news/justice-alito-hints-toward-SCOTUS-taking-up-case-of-pennsylvania-mail-in-ballots). Cabe destacar que nesse mesmo Estado, em maio de 2020,um ex-juiz eleitoral foi condenado por aceitar suborno para fraudar eleições locais (Filadélfia) em 2014, 2015 e 2016, como consta no site do Departamento de Justiça dos EUA (https://www.justice.gov/opa/pr/former-philadelphia-judge-elections-convicted-conspiring-violate-civil-rights-and-bribery ). O Patriot Post noticiou isso junto com uma crítica à fala da líder da Casa dos Representantes, Nancy Pelosi, que disse que a preocupação com fraude era uma invenção de Donald Trump (https://patriotpost.us/articles/70860-philadelphia-fraud-em-2020-05-22) .

Não se sabe o que será feito com essas cédulas, mas de acordo com Schow, isso é um indício de interesse da Suprema Corte no caso, ou seja, é bem possível que o pedido para que a eleição seja decidida judicialmente seja aceito. Rudy Giuliani (advogado de Trump e melhor ex-prefeito de New York) comentou que os Democratas e a mídia estão desrespeitando a Justiça ao proclamar a vitória de Joe Biden quando o resultado oficial ainda não saiu.

Isso também significa que a Suprema Corte não considera as acusações de fraude como “teoria da conspiração”, como a mídia tem feito parecer. São muitos os indícios de fraude.

 A revista Oeste noticiou a prisão de um funcionário dos Correios dos EUA, detido na fronteira com o Canadá. Em seu carro foram encontradas cerca de 800 correspondências não entregues, dentre as quais estavam cédulas eleitorais (https://revistaoeste.com/funcionario-dos-correios-dos-eua-e-preso-por-irregularidades/).

Alguns Estados já comunicaram erros e outros problemas técnicos na contagem dos votos, como foi o caso da Virgínia (https://sensoincomum.org/2020/11/05/condado-da-virginia-deu-votos-a-mais-a-biden/) e da Geórgia (https://conexaopolitica.com.br/ultimas/georgia-envia-investigadores-apos-identificar-problema-na-apuracao-do-condado-mais-populoso-do-estado/ ).

No Michigan, Ronna McDaniel (do Partido Republicano) diz ter identificado irregularidades no software usado para contagem dos votos, alegando que 6.000 votos de Trump foram para Biden – ainda não foi confirmado, tudo será levado à Justiça, mas caso seja confirmado, o problema será enorme: esse programa foi usado em 47 Estados (https://www.dailywire.com/news/michigan-gop-claims-software-glitch-switched-6000-republican-votes-to-democrat-47-counties-used-same-software).  

Em Detroit houve confusão por causa do número de fiscais de cada partido: a lei permite 134 de cada lado, mas o Partido Republicano contava com 225 e o Democrata com 250 (https://sensoincomum.org/2020/11/05/janelas-sao-cobertas-em-sala-de-apuracao-de-votos-em-detroit/ ).

No Daily Wire, Ryan Saayedra noticiou que o Procurador Geral do Texas, Ken Paxton, está indiciando a assistente social Kelly R. Brunner por acusações de fraude eleitoral, como apontou o resultado da investigação policial. Segundo a denúncia, ela solicitou o registro eleitoral de 67 pessoas com deficiência mental sem o consentimento das mesmas. A lei do Texas afirma que só um parente próximo pode fazer essa solicitação e apenas se indicado pela pessoa – além disso, as pessoas que foram declaradas pela Corte como mentalmente incapazes não estão aptas a votar. Ainda que sejam poucos votos, se isso for provado, indica que casos similares podem ter ocorrido. Greg Abbott, governador do Texas, declarou que a fraude eleitoral é real e que em seu Estado já estão investigando isso há tempos. Várias pessoas já foram presas por envolvimento em esquema de fraude nas eleições de 2018.

A polícia de Glendale, no Arizona, encontrou cédulas eleitorais que haviam sido descartadas – esse foi o caso que eu me lembrei de salvar a fonte, porém mais denúncias como essa estão sendo registradas (https://www.fox10phoenix.com/news/glendale-police-stolen-ballots-found-by-farm-worker).

No dia 04 de novembro, no Opinião no Ar, Ana Paula Henkel (medalhista olímpica e especialista em política americana), que mora na Califórnia e tem cidadania americana, contou que quando foi votar não pediram documento com foto nem confirmaram sua assinatura. Denúncias de alteração na data dos selos postais também estão sendo apuradas.

Para encerrar, cito o caso mais notório: os eleitores-fantasmas. Democratas são tão ruins que fazem raiva até depois de mortos.

Segundo o instituto Judicial Watch, 8 Estados excederam 100% da taxa de registro eleitoral, a saber: Alaska, Colorado, Maine, Maryland, New Jersey, Vermont, Michigan e Rhode Island – desses, apenas o Alaska não votou majoritariamente em Biden.

Isso significa que cédulas de votação foram enviadas para gente já falecida e/ou que mudou de local. Essa instituição identificou irregularidades num total de 353 condados em 29 Estados, indicando que estão registrados mais de 1.8 milhões de eleitores a mais do que a quantidade de cidadãos aptos para votar.

Para fazer esse cálculo, o registro eleitoral foi comparado com os dados dos censos de estimativa populacional feitos pelo American Community Survey entre 2014-2018. Alguns Estados foram processados pelo Judical Watch, dentre eles Pensilvânia e  Carolina do Norte, campos de batalha para Trump. A matéria completa foi publicada no dia 16 de outubro de 2020 (https://www.judicialwatch.org/press-releases/new-jw-study-voter-registration/).

A Public Interest Legal Foundation também informou que segundo seus estudos, 21 mil registros na Pensilvânia são de pessoas mortas – e 92% morreram há mais de 5 anos, ou seja, não existe desculpa para o cadastro não ter sido atualizado (https://publicinterestlegal.org/blog/pa-lawsuit-21k-deceased-on-voter-rolls-evidence-of-voting-activity-after-death/ ).

A conclusão mais óbvia é de que a mídia está omitindo informação para normalizar a idéia de uma vitória fácil de Joe Biden. No entanto, com base em todas essas informações, sabemos que o país está num estado de guerra política. Trump não vai ceder tão fácil. Se ele cair, vai cair atirando. Não só ele, mas todo americano. Essa eleição não foi sobre Direita e Esquerda, foi sobre a identidade da América. Ser americano não significa mais nascer no país mais livre e próspero do mundo ou viver nesse país até obter um documento que lhe confere cidadania americana: significa amar e defender os valores que tornam a América grande – que tornam o Ocidente grande.

Podemos também perceber que muitas pessoas têm o que o comentarista Adrilles Jorge chama de “ódio estético”: elas não ligam para política pública, não pensam nas consequências de um Green New Deal ou do uso do 5G ou coisas do tipo. Tudo é teoria da conspiração, não querem desconfiar de nada, apenas vão na onda de um discurso bonito sem ligar para os fundamentos. É bonito dizer que defende o Pantanal e o SUS. Pouco importa o que há por trás disso. Divulgar essas causas provoca a ilusão estética de que são pessoas atualizadas e compassivas. São os idiotas úteis. São o mesmo tipo de gente que apoiou a Revolução Francesa com seus ideais de “igualdade – liberdade – fraternidade” e se surpreendeu com o banho de sangue que se seguiu.

Conservadores agem da maneira oposta: é preciso preservar os valores que construíram a civilização e reformar aquilo que a prejudica, mas não se deve aceitar nada sem questionar, só por ser novo e atraente. Nós pensamos antes de emitir uma opinião e nossas opiniões são baseadas na lógica e nos fatos. Como diz Ben Shapiro: os fatos não se importam com seus sentimentos. Infelizmente, muita gente não entende que conservadorismo é uma filosofia política e acha que ser conservador é ser antiquado.

Sobre filosofia política e o cenário político nacional e internacional, é fundamental ler sobre o passado, não apenas se atualizar sobre o presente. Sem entender como chegamos até aqui, não temos como imaginar o que pode acontecer e traçar um plano para saber como agir daqui em diante. Deixo como recomendação os seguintes livros:

O Comunista Exposto (W. Cleon Skousen)

Como ser um conservador (sir Roger Scruton)

Tolos, fraudes e militantes (sir Roger Scruton)

Reflexões sobre a Revolução na França (Edmund Burke) (sobre esse, talvez eu faça uma leitura coletiva em 2021, quem se interessar, é só me avisar)

Por que o Brasil é um país atrasado? (Dom Luiz Philippe de Orléans e Bragança)

Mais uma vez peço perdão por ter feito um texto tão longo, mas não dava para cortar mais do que já cortei. Espero ter esclarecido a questão principal e farei atualizações sobre o caso assim que achar necessário. Quero reforçar o recado: desconfie de tudo e cheque as fontes. Antes de acreditar na mídia ou numa suposta vítima ou na suposta inocência de um suposto criminoso, PENSE. Veja filmes como To Kill a Mockinbird, A Caça, Duas Faces de Um Crime e O Quarto Poder.  Não se deixe ser enganado.

Até mais, folks!

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MATÉRIAS DO INSTITUTO MISES BRASIL:

Por que jovens de países ricos defendem socialismo –

https://www.mises.org.br/article/3149/e-facil-entender-por-que-os-jovens-dos-paises-mais-ricos-tendem-a-defender-mais-socialismo

Sobre a catástrofe da social-democracia na Finlândia –

https://www.mises.org.br/article/3025/hoje-a-finlandia-amanha-o-mundo-as-sociais-democracias-em-seu-ultimo-suspiro

Sobre a falácia do Welfare State dos países nórdicos:

https://www.mises.org.br/article/632/o-mito-do-assistencialismo-escandinavo-reexaminado

BRASIL PARALELO:

Teatro das Tesouras :

Fim das Nações:

End of Nations:

Feminismo x Feminilidade: a vida de Katharina von Bora

Nesse dia em que comemoramos os 503 anos da Reforma Protestante e dando continuidade a série sobre feminilidade bíblica, trago algumas informações e considerações sobre Katharina von Bora, a esposa de Lutero. No entanto, não é tão fácil ter uma visão correta sobre quem foi Katharina, já que ela mesma não deixou nada escrito sobre suas convicções pessoais e não foi objeto de atenção especial para ser registrada em sua época – foi “apenas” uma hausfrau (senhora do lar) competente e esposa de alguém importante.

Como falei no texto inicial da série (para quem não leu, tem o link no fim do post), precisamos contar a história de mulheres que foram exemplos positivos (apesar de não perfeitos) de feminilidade segundo a Bíblia. Katharina foi uma dessas, sem dúvida. “A esposa e mãe mais feliz da Alemanha”, como supostamente ela mesma disse. Valdecélia Martins diz que “conhecer um pouco da sua vida pode nos fazer perceber como a vida de uma mulher comum pode contribuir grandemente para que os planos e a glória de Deus se manifestem na História” (grifos meus).

 Se não contarmos essas histórias, elas serão contadas e corrompidas por pessoas que querem distorcer o Evangelho e a história da igreja para que se encaixem em suas ideologias. Isso aconteceu com a história de Katharina. Uma de suas biografias, talvez a mais conhecida no Brasil (não por sua qualidade, mas pela escassez de material em português), tem um viés feminista. Trata-se do livro “A primeira-dama da Reforma”, de Ruth A. Tucker. Essa obra é cheia de contradições, especulações e informações mal colocadas. Nos últimos capítulos, ela deixa bem claro que “se projeta” em Katharina, então preenche as lacunas com seus próprios pensamentos como se fossem os sentimentos da biografada. Ela também parece ter prazer em apresentar Katharina como uma mulher secular e que gostava de retrucar seu marido. Comentarei sobre esses aspectos depois.

Talvez o artigo “A feminilidade bíblica e a esposa de Lutero” (Valdecélia Martins) tenha sido uma resposta ao livro “A primeira dama da Reforma: A extraordinária vida de Catarina von Bora” – começando pelo título, já que ela não é nem chamada pelo próprio nome, é a “esposa de Lutero”. Esse livreto tem uma abordagem bem diferente e mais positiva do ponto de vista cristão, apesar de menos relevante do ponto de vista histórico – o que não é um defeito, já que a proposta não é tratar da vida de Katharina como um todo, mas destacar um aspecto. Outro livro que usei de referência foi o “Kate Luther” de D.D. William Dallmann.  

Valdecélia Martins alerta sobre o movimento feminista, especialmente sobre “feministas inovadoras de uma teologia que redefine a mulher”, e nos diz que é preciso “olhar para as mulheres atuantes na Reforma sem os óculos do feminismo”, pois esta ideologia é incompatível com o ensinamento bíblico por colocar o ‘empoderamento’ da mulher justamente em não cumprir a “função de parceira e auxiliadora estabelecida por Deus desde a Criação (Gn 2:8)”.

 Interessante ela ressaltar esse último ponto, pois realmente o papel de auxiliadora não foi uma consequência da Queda. Foi algo ordenado antes.  Infelizmente, ela ainda repete o conto de que algumas conquistas sociais foram fruto da luta feminista, o que eu discordo, mas não é assunto para esse momento. Porém ela diz que é uma “luta ilegítima, pois pauta-se numa motivação egoísta”, comentando ainda que é uma estratégia para minar as tradições, destruir o casamento e alienar pais e filhos.

Martins diz que “a Reforma Protestante fundamentou-se, essencialmente, na volta a este padrão bíblico [de valor do casamento]”, ou seja, algo que já fazia parte do cristianismo primitivo e foi perdido ao longo do tempo, afirmando ainda que a Reforma favoreceu a dignidade da mulher como dona de casa, esposa e mãe. Particularmente, acho que o protestantismo talvez tenha deixado a mulher solteira desamparada, já que antes ela podia se refugiar na relativa segurança de um convento, mas esse é um problema que não vale a pena discutir.

Sobre a vida de Katharina de Bora, sabemos que ela nasceu em 1499 e foi mandada para um convento aos 5 anos, depois que a mãe morreu e o pai casou novamente. Fugiu do convento na Páscoa de 1523, junto com outras freiras, indo parar em Wittenberg, epicentro da Reforma Protestante. Lá, todas casaram ou voltaram para suas famílias, exceto ela.

 Depois de uma promessa de casamento não cumprida (pelo rapaz), ela continuou solteira, em parte por não aceitar qualquer um, em parte por talvez não ter aparecido mais ninguém. Dizem que ela sugeriu que só casaria com Nicolau Amsdorf ou o próprio Lutero. Em 1525, aos 26 anos, casou-se com o Doutor Lutero, que já tinha 42 anos.

O casamento de ex-monges com ex-freiras era um escândalo na época, já que ambos estavam quebrando um juramento feito perante Deus. Vale lembrar que o casamento de clérigos era comum antes de 1079, mas Tucker esquece de mencionar isso e trata como sendo algo inovador. Mais uma vez, era um retorno às origens.

O que pode parecer estranho para nossa época, é que os dois não se amavam, mas nutriam afeto e respeito um pelo outro, algo que é muito mais importante: amor se constrói com o tempo, o que inicialmente é fundamental é uma avaliação racional e a noção de responsabilidade e compromisso, algo que os dois foram cuidadosos de observar antes dos votos de casamento e que deu certo. Sabemos disso pelo que foi registrado nas cartas de Lutero, onde ele carinhosamente se refere a ela e deixa claro que passou a amá-la. Tucker reclama que por vezes ele zomba de Kathe e fala sobre ela de modo grosseiro. Nada fora do normal num casamento.

O casal teve seis filhos nascidos vivos, dos quais apenas 4 atingiram a idade adulta. A morte das filhas foi um momento marcante, como também um aborto natural que a deixou muito doente. A família ainda enfrentou invasões, perseguições e ondas de peste negra, além de problemas financeiros. Faleceu em 1552, aos 53 anos, cerca de 6 anos após o marido (que faleceu em 1546).

Durante sua vida, Katharina von Bora tomou conta do Mosteiro Negro como uma pensão,sendo conhecida por sua hospitalidade; atuou como uma espécie de curandeira (conhecimentos medicinais básicos aprendidos no convento), fazendeira, fabricante de cerveja, negociante e uma dona de casa diligente, mãe dedicada e uma boa esposa, uma hausfrau completa e exemplar.

Martins destaca a “relação perfeita de interdependência” que deve existir num casamento e que foi notável no casal Lutero. Ela pode não ter composto hinos ou ajudado com os sermões como fez Sarah Kalley, mas sua suposta falta de preocupação teológica não a fez menos importante. Ela cuidava da saúde e das finanças de Lutero, o que o ajudou a continuar seu trabalho, já que tinha um porto seguro em casa e não tinha que cuidar de tudo sozinho. Essa foi a forma de Katharina servir à obra de Deus. Dallmann cita algumas cartas de Lutero: “Em casa, eu deixo o domínio para Kate”. “Deus seja louvado, pois eu tenho uma mulher piedosa e fiel em quem o coração de um marido pode confiar. ” Ele a chamava de “estrela da manhã de Wittenberg”, por que ela acordava cedo para trabalhar. Também a chamava de “minha patroa”. Pelas cartas, é possível notar senso de humor e intimidade entre os dois.

A acusação de “secularismo” se baseia em alguns supostos questionamentos que ela teria feito ao marido, na falta de relatos sobre sua devoção e por seu marido, em cartas, lembrá-la de que deve orar e não se preocupar, pois preocupações faziam parecer que Deus não é Todo Poderoso – nada disso é suficiente para alegar que ela não ligava para a vida religiosa e temos motivos para pensar o contrário.

Ela o ajudou a enfrentar a depressão. Tem uma história de que numa das crises de Lutero, ela teria se vestido “no mais negro luto”, como diz Dallmann. Quando o marido perguntou o motivo, ela teria dito que “Deus morreu”. Nietzsche largou o seminário antes de ouvir o fim da história. Resumindo: ele teria se indignado e dado um pequeno sermão sobre como Deus é Eterno, ao que ela respondeu que pela atitude de desesperança dele, parecia mais que Deus tinha morrido, o que o teria feito retomar o ânimo e continuar o trabalho. Dallmann comenta que “se isso não é literalmente verdade, é verdade em espírito”.

Nas palavras de Martins, ela “soerguia o esposo para o lugar da sua missão”. Uma missão que poderia tirá-lo dela para sempre, como nos lembra essa autora. Isso mostra que ela não agia em interesse próprio, mas tinha noção de que estava envolvida em algo importante e que sua função era apoiar o marido e cuidar dele, dando suporte para que ele continuasse seu trabalho, ao invés de ser uma esposa mesquinha que apenas quer que seus desejos sejam satisfeitos.

Sobre a submissão, já postei um mini-texto no Instagram, por isso vou comentar brevemente aqui o que não expliquei lá (ainda que não tão bem quanto o Magister Philip explicaria): a palavra vem do latim sub (estar debaixo de) e missio (ser enviado para), ou seja, quer dizer estar sob a mesma missão. Martins diz que “a compreensão dessa verdade foi  evidência na vida de Catarina von Bora.” Ela não era igual ao marido – se fosse, não poderia ter preenchido os espaços em branco da vida dele.

Preserved Smith diz que Lutero inaugurou a “era do casamento”, contrastando tanto com a licenciosidade da antiguidade quanto com o asceticismo medieval, pois na Reforma, o casamento e a vida familiar foram exaltados como presente de Deus e como ambiente para desenvolver as virtudes cristãs. Dallmann diz que “Lutero devolveu ao pai cristão o sacerdócio original como cabeça da família”.

Claro que Katharina tinha seus defeitos e posso apostar que a maioria dos protestantes não imagina os líderes, mártires e demais figuras significativas da história da igreja como imaculadas. Talvez ela realmente retrucasse o marido, como diz Tucker. Algo comum e inevitável, mas certamente não algo legal como Tucker faz parecer. Parece que também era orgulhosa, talvez até fosse chatinha, não sabemos. O que sabemos é que realmente algumas pessoas não gostavam dela. No caso de alguns, é até compreensível a visão de Katharina como uma pedra no sapato, já que viam que seria melhor para os rumos da Reforma que Lutero estivesse mais livre e preocupado apenas com questões teológicas, sem ninguém o influenciando nem tomando seu tempo com coisas domésticas. Essas coisas não desmerecem o resto: “Temos esses tesouros em vasos de barro para que a excelência do poder seja de Deus e não nossa.” ( 2 Co 4:7 )

Minha observação particular sobre a feminilidade de Katharina é a falta de delicadeza. Francine Walsh (do blog e canal Graça em Flor) diz que tanto o feminismo quanto a “feminilidade açucarada” distorcem o verdadeiro papel da mulher. Muita gente tem uma visão de feminilidade como pura delicadeza e subserviência, o que não condiz com a verdade. Certamente a mulher deve ser gentil, mas também firme. Não se trata de ser uma princesinha frágil num castelo. Inclusive, se deixar levar pela própria fraqueza é uma falha na mulher. Uma camponesa com mãos calejadas de tanto trabalhar pode ser tão verdadeiramente feminina como uma sofisticada mulher da nobreza .

Martins comenta que “nem sempre nos damos conta, mas o feminismo sutilmente influencia nosso dia a dia, nossa maneira de administrar nosso lar, criar nossos filhos, nossa maneira de vestir, nossas relações conjugais e até mesmo nossa teologia.” Frequentemente vejo pessoas que não se identificam com o feminismo repetindo jargões feministas e indo na mesma direção que elas. Eu mesma já fui uma dessas pessoas. Deixamos nos levar por desejos pessoais e propaganda mundana.

Não é isso que o Senhor Deus quer de nós e se quisermos agir de acordo com Sua perfeita vontade, temos que deixar de lado nosso ego, aceitar correção e conselho e humildemente procurar a direção para nossas vidas na Palavra de Deus. Não podemos ignorar “dois ou três versículos” que dizem algo que não gostamos. Ainda que a mulher não queira casar, não deve ter desprezo pelos homens, nem pelo casamento ou pela maternidade. Não é por que essa não é sua vontade ou não é o seu chamado que a coisa em si deve ser desprezada. Também não é por não querer ser uma hausfrau como Katharina que você deve ser egoísta. É preciso encontrar uma forma de servir a Deus – não aos seus próprios interesses – e de acordo com sua natureza feminina – ou seja, sem tentar tomar um lugar social ou eclesiástico que não é seu.

O que devemos, em qualquer caso, seja no papel de solteira, casada, viúva, mãe, avó, etc, é buscar entender o que diz a Bíblia sobre como a mulher deve ser e também não podemos nos alienar em relação aos movimentos ideológicos que estão influenciando o mundo em que vivemos. Devemos estudar, ficar alertas e nadar contra a corrente sempre que necessário. O mesmo vale para os homens.

Ainda tinha muito que falar sobre Katharina e algumas críticas a fazer sobre o livro “A primeira-dama da Reforma”, mas ficará para outro dia, pois o assunto é extenso e escrevi esse texto de última hora, só para não passar em branco e para cumprir a agenda (como vocês devem ter percebido, estou levando cerca de 1 ano para escrever sobre cada assunto que comento que achei interessante, se eu seguir nesse ritmo, só vou escrever sobre Feminilidade Radical lá para o fim 2021, quando vocês já vão ter lido ou perdido o interesse, mas farei o possível para agilizar, por que esse é brilhante e importantíssimo, JURO). Espero que vocês tenham gostado. See you later, fellows!

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Tolkien e as guerras

A trilogia O Senhor dos Anéis (A Sociedade do Anel, As Duas Torres e O Retorno do Rei) foi escrita por J. R. R. Tolkien entre as décadas de 1930 – 1940 e lançada na de 1950. Para quem ainda não conhece, o acesso mais fácil é através dos filmes do diretor Peter Jackson (inclusive O Retorno do Rei é um dos meus 3 filmes favoritos da vida, junto com A Lista de Schindler e Gladiador).  

O autor serviu no Exército Britânico durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e o desenvolvimento do livro se deu durante a ascensão do nacional-socialismo na Alemanha (Tolkien inclusive enviou uma carta de resposta aos nazistas, link no fim do post) e o fascismo na Itália, além do comunismo que já se instalara na União Soviética e a subsequente Segunda Guerra.

Essa informação é importante por que a vida dele e o contexto histórico no qual estava inserido pode não ter uma ligação explícita com o mundo fictício que ele criou, mas é notável que o sentimento do que foi vivido e observado influenciou sua obra: temos Sauron, um ditador que usa de magia, manipulação e força física para expandir seu território e dominar outras raças; temos também alguns seres como hobbits, anões e elfos, que deixam a segurança do lar e vão para o campo de batalha enfrentar um mal terrível que pretende despedaçar tudo o que mais amavam. Podemos entender isso ao observar o seguinte trecho do segundo volume da trilogia que é uma das minhas citações favoritas de toda a literatura:

A guerra deve acontecer, enquanto estivermos defendendo nossas vidas contra um destruidor que poderia devorar tudo; mas não amo a espada brilhante por sua agudeza, nem a flecha por sua rapidez, nem o guerreiro por sua glória. Só amo aquilo que eles defendem: a cidade dos homens de Númenor, e gostaria que ela fosse amada por seu passado, sua tradição, sua beleza e sua sabedoria presente.

J.R.R.Tolkien em “As Duas Torres”

       Durante as Grandes Guerras do século passado, as pessoas comuns tiveram que arriscar suas vidas para garantir a segurança de toda a nação. Passaram por grande sofrimento, tanto quem combatia diretamente, quanto quem dava suporte – cidadãos que colaboraram com o esforço de guerra em vários setores como produção de alimentos e medicamentos, telefonia e serviço postal. Nessa situação, foi possível perceber que até o menor dos indivíduos, assim como os pequenos hobbits, era fundamental para alcançar a vitória.

          Havia várias camadas nessas guerras: questões políticas, socais, economias e ideológicas. No entanto, para as pessoas comuns, a guerra era necessária por outras razões: proteger a família, preservar a tradição e a liberdade. Essas pessoas são representadas por Tolkien nas criaturas (hobbits, anões, elfos, humanos e magos) que participam ou dão apoio à Sociedade do Anel – o grupo cuja missão é destruir o Um Anel (artefato que dá poder ao vilão Sauron) para libertar os habitantes da Terra Média da opressão a qual eram submetidos.

“A coragem pode ser encontrada em lugares improváveis”

J. R. R. Tolkien em “A Sociedade do Anel”

            O autor atribui às personagens sentimentos de medo, dor, cansaço; também mostra suas virtudes, como lealdade, amizade, honra, coragem, solidariedade e muitas outras. Isso de fato se assemelha às histórias reais de sacrifício e altruísmo que aconteceram durante as guerras, como os casos de Irena Sendler e Oskar Schindler. O plano é fictício, mas os sentimentos são reais e muitas vezes causam um impacto maior do que uma biografia ou documentário fariam. Em “Para ler literatura como um professor”, Thomas Foster diz:

“Ler literatura é uma atividade altamente intelectual, mas também envolve afeto e instinto em graus elevados. Muito do que pensamos sobre a literatura, antes sentimos. Ter instintos, no entanto, não quer dizer automaticamente que funcionam no nível mais alto. […] Quanto mais você exercita a imaginação simbólica, melhor e mais rápido ela funciona. […] Imaginação não é fantasia. […] A imaginação do leitor é o ato de inteligência criativa que se envolve com outra.”

            Meu trabalho de conclusão de curso foi basicamente sobre isso e esse post é uma adaptação de parte dele. Mas não foi só sobre “imaginação simbólica”. No artigo, peguei o exemplo de alguns livros como Contos da Cantuária e O Mercador de Veneza para tratar sobre como clássicos da literatura podem ser aproveitados de várias formas.  O Senhor dos Anéis também pode ser aproveitado de outra forma além da moral e afetiva. Dá para aprender muito sobre inovações militares da época, só é preciso pesquisar, já que não é algo tão óbvio para quem não entende do assunto.  Por exemplo, os nazgûl são descritos de forma similar à cavalaria alemã, enquanto os olifantes exercem uma função que pode ser comparada à dos tanques de guerra. Porém, a coisa que mais me chama atenção é o efeito que o Um Anel e toda a jornada causaram em Frodo: é como o shell shock, estresse pós-traumático identificado nos veteranos da Primeira Guerra.

     Os sintomas se manifestavam de forma física e psicológica, como cegueira temporária, paralisia, ânsia de vômito, tremores e fortes crises de ansiedade e depressão. Não vi nenhum registro sobre o próprio Tolkien ter passado por isso, mas certamente conheceu pessoas que adquiriram esse quadro clínico. Simon Tolkien, neto do autor, em matéria da BBC, disse:

“O companheirismo de Frodo e Sam nos últimos estágios da jornada ecoa os laços profundos que foram formados pelos soldados britânicos ao enfrentarem tão grandiosas adversidades. Todos eles compartilharam da coragem que é a mais valorizada das virtudes em O Senhor dos Anéis. E então, quando a guerra acabou, Frodo teve o mesmo destino que muitos veteranos que permaneceram com cicatrizes invisíveis quando voltaram para casa como pálidas sombras das pessoas que um dia eles foram” (tradução livre)

O Senhor dos Anéis é uma saga complexa, importante e preciosa (beijos pra quem entendeu a referência) (quem não entendeu, assista/leia Senhor dos Anéis). Sua relevância é cultural, histórica e até mesmo pedagógica, pois pode contribuir muito para a aquisição de conhecimento de forma lúdica, porém rica de significado. A complexidade da estrutura literária e da estética linguística de Tolkien (mais no original, mas muito foi preservado na tradução também) não deve ser um empecilho, mas uma motivação para se aventurar por esse mundo tão encantador, que mistura tradição com inovação e fantasia com realidade, capaz de fascinar um público de qualquer idade.        

Padre Paulo Ricardo sobre O Senhor dos Anéis e o cristianismo:

REFERÊNCIAS:

FOSTER, Thomas C. Para ler literatura como um professor. Tradução de Frederico Dentello.  São Paulo: Lua de Papel, 2010.

TOLKIEN, John Ronald Reuel. A Sociedade do Anel. Tradução de Lenita Maria Rímoli Esteves e Almiro Pisetta. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

_______________. As Duas Torres. Tradução de Lenita Maria Rímoli Esteves e Almiro Pisetta 2.ed. 13. reimpressão. São Paulo: Martins Fontes, 2014.

BBC. Tolkien’s grandson on how World War I inspired The Lord of The Rings. London, 2017. Disponível em <https://www.bbc.com/culture/article/20161223-tolkiens-grandson-on-how-ww1-inspired-the-lord-of-the-rings>

Resposta de Tolkien aos nazistas:  https://oportaln10.com.br/o-dia-em-que-jrr-tolkien-criticou-o-nazismo-e-adolf-hitler-75750/

Curiosidades sobre Tolkien: https://www.megacurioso.com.br/literatura/49176-10-coisas-que-voce-provavelmente-nao-sabe-sobre-j-r-r-tolkien.htm

O ateísmo da igreja primitiva – e por que o cristão deve se posicionar politicamente

O estudo sobre a igreja primitiva tem sido negligenciado fora dos círculos acadêmicos cristãos, o que é lamentável. Eu mesma era uma dessas pessoas que tem uma visão superficial sobre o assunto, acreditando que era um período de perseguições e martírios relevantes do ponto de vista histórico, mas que não encontrava paralelo com a atualidade; por tanto, deveríamos saber sobre os acontecimentos apenas para honrar a memória daqueles que lutaram para que o Evangelho fosse propagado e para que hoje possamos livremente professar nossa fé em Jesus Cristo, ao menos no Ocidente. Não poderia estar mais enganada…

No Oriente islâmico e/ou comunista, a perseguição é declarada e violenta: os cristãos são proibidos de exercer cargos públicos, de realizar reuniões, são presos, torturados, entre outras coisas (já fiz resenha de “Deus é vermelho“, um livro sobre o cristianismo na China, o link está no fim desse post). No Ocidente, a perseguição é mais sutil e a principal arma anticristã é o ativismo judicial. Questões como aborto e legalização de drogas são alguns dos temas que fazem o cristão ser visto como um opressor que quer impor suas opiniões sobre os demais membros de um Estado supostamente laico. O fato de não podermos professar nossa fé publicamente sem sermos alvo de chacota, processos e até violência, deveria nos fazer buscar conhecimento sobre a história do cristianismo para entender como a Igreja tem enfrentado esse problema ao longo do tempo.

A relação entre cristianismo e política é importantíssima de ser observada e esse livro apresentada uma perspectiva relevante sobre o assunto. “O ateísmo na igreja primitiva” (Rousas J. Rushdoony ) é bem curto, pode ser lido num dia só, e apesar ter sido escrito nos anos 1980, continua bem atual, até por que parece que estamos passando por uma fase bastante similar. A explicação do título é simples: os primeiros cristãos, por adorarem um Deus invisível e se recusarem a reconhecer a divindade de César, eram considerados ateus e inimigos do Império Romano. Depois de explicar isso, o autor passa a comparar a igreja primitiva com a igreja contemporânea acerca de alguns assuntos.

“Enfrentamos ainda hoje duas lutas que marcaram a Igreja Primitiva desde o princípio. A primeira era a questão da soberania e do senhorio e a segunda, a do aborto.”

R. J. Rushdoony

Como mencionado na frase em destaque, o autor argumenta que os principais motivos pelos quais a igreja primitiva foi perseguida são os mesmos pelos quais a igreja contemporânea é perseguida.

Recentemente testemunhamos dois casos nesse sentido. Um deles foi o do pastor John MacArthur (link do texto sobre isso no fim do post), que se opôs à tirania do governador da Califórnia, afirmando que quem tem soberania sobre a Igreja é Deus e não o Estado. MacArthur declarou que o que está acontecendo é uma “discriminação intencional contra o cristianismo bíblico e a igreja”. As palavras foram bem calculadas: cristianismo BÍBLICO para diferenciar do “cristianismo” progressista que prega a não intervenção da igreja em questões morais por que o “Estado é laico”.

O outro caso foi o da menina de 10 anos que além de ter sido estuprada por anos e ter engravidado, foi submetida a um aborto. Os protestos dos cristãos conservadores contra um ato que torturaria duas crianças, matando uma e colocando em risco a vida de outra quando havia a opção de um parto seguro e pessoas dispostas a adotar o bebê, foi entendida como “fanatismo religioso” não apenas por esquerdistas e insentões ateus ou de qualquer outra religião, mas também por ditos “cristãos”. Se tivessem usado o termo “fundamentalistas”, eu não poderia reclamar: o cristão deve ter seus princípios religiosos como fundamento da sua vida, caso contrário, algo está errado.

Nenhuma decisão seria fácil nesse caso e todas as opiniões deveriam ser ouvidas e debatidas com respeito, mas o curioso é que a mídia passou a focar na atitude anti-aborto dos cristãos como se esse fosse o problema e – mais sórdido ainda – como se isso significasse apoio ao real criminoso. Uma atriz chegou a dizer que “fundamentalistas religiosos esbravejam e expõe uma criança para que ela seja obrigada a parir”. A abordagem foi completamente enviesada. Não foi isso que aconteceu. Tenho um amigo frade que falou que vários jovens “católicos” estavam criticando a Igreja Católica por ter oferecido ajuda para a menina manter a gravidez e entregar a criança para adoção, tratando isso como crueldade por parte da igreja. No entanto, essas mesmas pessoas que são contra o aborto, defendem prisão perpétua (e até pena de morte) para pedófilos e estupradores em geral, enquanto os que acusam os cristãos são os primeiros a dizer que pedofilia é doença e que criminosos são vítimas da sociedade que merecem receber tratamento humanizado.

Até mesmo certo teólogo famoso no Youtube resolveu tratar o assunto dessa maneira, falando contra o “cristianismo cultural” e tomando as ações de uma ativista específica como se esta representasse o pensamento geral. No caso dele (que também foi contra MacArthur) é notável uma vontade de se distanciar de “ideologias políticas”. O discurso comum é de que não se deve misturar religião com política e que o cristianismo está acima de ideologias – o que é verdade, mas isso não é razão para não se posicionar, muito pelo contrário: “porque você é morno, nem frio nem quente, estou a ponto de vomitá-lo da minha boca.” (Ap 3:16).

A diferença é que o cristão sabe que filosofias humanas são imperfeitas e não há homem que possa salvar o mundo e estabelecer um Paraíso na Terra. O credo de alguns grupos políticos se assemelha mais aos princípios cristãos do que outros. Não é difícil escolher, basta checar na Bíblia se o Senhor Deus aprova homossexualismo, a consideração de mais de dois gêneros, o aborto voluntário, o confisco de propriedade privada, etc. E tomar partido na guerra político-cultural não significa concordar cegamente com as reivindicações de um grupo. Ter uma postura cautelosa e crítica é um dever.

“As passagens usadas por algumas pessoas para sustentar a idéia de que o Novo testamento passa ao Estado um cheque em branco para fazer (quase) tudo o que quiser (Rm 13: 1-5; 1Tm 2: 1-2), eram, na verdade, declarações de guerra contra a alegação de Roma a uma autoridade absoluta”

R. J. Rushdoony

O livro apresenta esclarecimento sobre algumas passagens bíblicas acerca da relação cristão x Estado, afirmando que é preciso conhecer o contexto no qual tais passagens foram escritas e para quem elas estavam sendo dirigidas. Sobre a questão do “Estado laico” e de “não misturar política com religião”, é preciso prestar atenção na História. O autor argumenta que o Estado sempre é religioso, pois ele mesmo se torna um deus. Isso era mais claro na Antiguidade, quando o homem se colocava abaixo dos deuses. Na nossa época, na qual o homem se vê como centro do universo, isso não parece tão claro, mas não deixa de ser verdadeiro. É mais notável nos casos das ditaduras comunistas como a antiga União Soviética, na qual o Estado era a solução para tudo e deveria ser reverenciado. Não se tratava de um sentimento de unidade nacional e tradição cultural, como observamos no patriotismo do Ocidente livre, mas dos cidadãos depositando a esperança no governo e este sendo o responsável por regular a vida pública e privada dos indivíduos. No caso da Coréia do Norte, a família Kim é literalmente adorada e até corte de cabelo é definido pelo Estado. Em “O Sagrado e O Profano”, o filósofo e historiador Mircea Eliade diz que o homem necessariamente tem um comportamento religioso (mesmo que se diga ateu). Isso significa, continua o autor, que no momento que retiramos Deus do debate moral, cabe ao Estado (o novo deus) determinar arbitrariamente o que é certo ou não.

No momento que o cristão decide se posicionar política e culturalmente, ele não está querendo impor seus ideais. A conversão não pode ser forçada. Ela acontece “de cima para baixo” sim, mas não é um processo [Estado –> indivíduo] através de leis, e sim [ Deus –> indivíduo]. A cristandade está ciente disso (diferente dos muçulmanos). Afinal, como disse o autor, esperamos a “salvação, não pela revolução, mas pela regenaração”. Defender os ideais cristãos através da legislação (e sua propagação através da cultura) tem a ver com garantir direitos universais concedidos por Deus: a vida e a dignidade humana. Se retirar do debate é o mesmo que relativizar a verdade e dizer que quem tem autoridade soberana é o Estado. Separar a vida religiosa da vida pública é o mesmo que transformar a religião num passatempo. O fundamento da sua vida tem que ser um só: Estado ou Deus. Igualar os dois é inferiorizar um.

 

“Vivemos, de fato, num tempo crítico no qual o mundo está desmoronando ao nosso redor e o que nos falta é aquilo que Roma denominava de “ateísmo” da Igreja Primitiva: o reconhecimento de que somente Deus é o Senhor.”

R. J. Rushdoony

Os cristãos primitivos não se curvaram ao Império Romano. Oravam por César, não para César. Isso colocava um cidadão comum no mesmo patamar (ou até acima) do imperador. Por isso foram perseguidos. Rushdoony argumenta (e eu concordo) que quando somos biblicamente orientados a obedecer as autoridades, isso não significa que devemos ficar quietos e aceitar tudo sem questionar, pois o Estado não é nem a única nem a principal autoridade. Nós também somos e devemos agir. Como servos de Deus, temos responsabilidades sociais, políticas e culturais. O autor critica a atitude de “deixar o cristianismo para o pastor”, quando cada crente deveria se engajar. Mas antes de se engajar, é preciso ter noção do que deve ser feito. É necessário estudar a Bíblia e buscar conhecimento extra-bíblico também: história do cristianismo, política, filosofia e demais questões culturais. É essencial conhecer o terreno no qual estamos pisando e “O ateísmo da igreja primitiva” é um excelente ponto de partida.

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DEUS É VERMELHO: https://discursosemmetodo.wordpress.com/2018/08/11/in-hoc-signo-vinces-%e2%9c%9d-parte-i/

CASO MACARTHUR: https://discursosemmetodo.wordpress.com/2020/08/21/igreja-e-estado-o-caso-john-macarthur-x-governo-da-california/

SOBRE O CASO DA MENINA: https://sensoincomum.org/2020/08/18/aborto-foi-realizado-com-substancia-proibida-ate-para-sacrificar-animais/

Igreja e Estado: o caso John MacArthur x Governo da Califórnia

O pastor John MacArthur está desafiando as ordens de quarentena do Estado da Califórnia. A igreja, que inicialmente seguiu todas as regras, deveria permanecer ainda mais tempo fechada durante a pandemia do vírus chinês, segundo os decretos locais. Em entrevista a Billy Hallowell, o pastor afirmou o seguinte: “Eu estou nesse lugar há 50 anos. Essa igreja (Grace Community Church em Sun Valley) tem 63 anos e nunca antes recebeu ordens do governo para fechar. Então, quando chegaram aqui com esse mandato, foi algo tão raro e estranho que nós escutamos e obedecemos.” Disse ainda que “essa não é a América que eu conheço […] é apenas uma realidade bizarra.”

DON’T TREAD ON US !

Ele afirmou que devido às previsões alarmantes, qualquer pessoa com bom senso faria uma pausa para analisar melhor a questão e garantir a segurança de todos. Então a igreja começou a transmitir suas atividades pela internet. MacArthur alegou que os políticos e demais envolvidos na promoção do lockdown perceberam que suas previsões não se concretizavam: “O número de mortos na Califórnia foi 8500. Metade eram pessoas com mais de 80 anos e que tinha comorbidades.” Isso corresponde a 0,02% da população estadual. O pastor continuou: “Me parece que 99,98% das pessoas estão bem o suficiente para frequentarem a igreja. E as pessoas estão implorando para reabrir as igrejas (buscando conforto) por causa do medo – e claro que a igreja é o centro da vida daqueles que amam ao Senhor.” Quando a igreja reabriu, cerca de 3000 pessoas compareceram na primeira semana e 6000 na segunda. Apesar das ameaças do governo, MacArthur não mudou de idéia. O pastor falou que o governo tem certa autoridade concedida por Deus, mas essa autoridade tem limites e não tem poder quanto aos assuntos que dizem respeito ao Reino de Deus.

Enquanto algumas pessoas têm criticado o fato de que a igreja violou ordens governamentais e permitiu aglomeração, outros debatem a questão de até onde o governo pode interferir na vida dos indivíduos. MacArthur acredita que o governador Gavin Newsom (Partido Democrata) não tem autoridade para definir igrejas como “não-essenciais”. Nas palavras do pastor, o que está acontecendo é uma “discriminação intencional contra o cristianismo bíblico e a igreja” e fez a seguinte declaração: “O governador disse que igrejas não são essenciais. Algumas coisas são essenciais: lojas de bebidas, clínicas de aborto …  mas as igrejas não. Com base na Constituição, o governador não tem autoridade para dizer o que é essencial. Ele não tem autoridade constitucional para dizer que a igreja não é essencial.” O caso foi parar na Justiça.

No sermão do dia 09 de agosto, antes da decisão do juiz, o pastor chamou o culto de “protesto pacífico”. Disse que “com base na Palavra de Deus, essa igreja é pró-vida, pró-família, pró-lei e ordem e pró-Igreja do Senhor Jesus Cristo” e pregou sobre 1 Coríntios 1, que diz “ a loucura de Deus é mais sábia do que a sabedoria dos homens e a fraqueza de Deus é mais forte do que a força dos homens.”.Alguns trechos da pregação foram destaque na impresa, tais como:

“Nós estamos aqui por que obedecemos a Deus e por que Ele nos deu ordens, não de uma forma esotérica e pessoal, através de visões e sonhos ou vozes do Céu, mas através da Bíblia. A Grace Community Church é definida por seu compromisso com as Santas Escrituras. Para o verdadeiro cristão, a Bíblia é o maior tesouro.[…] Se esse púlpito não fosse lugar de proclamar a Palavra de Deus, esse lugar começaria a esvaziar. É por isso que vocês estão aqui, está claro para mim que vocês amam a Palavra de Deus, por isso estão aqui.[…] Nós não estamos espalhando nada mais do que o Evangelho”.

Donald Trump encarregou uma de suas advogadas e conselheiras de campanha, Jenna Ellis, de se juntar aos advogados da igreja e cuidar do caso. Enquanto o governo estadual tentava impor uma ordem de restrição para forçar o pastor a parar com os cultos presencias – e principalmente com os louvores durante os cultos, o juiz James Chalfant, da Suprema Corte de Los Angeles, concordou com MacArthur que a igreja está constitucionalmente protegida pelo direito de livre expressão religiosa.  De acordo com Ellis, essa foi uma vitória histórica. Ela postou no Twitter: “ a primeira Corte da Califórnia a reconhecer que #Igrejaéessencial.” Ela disse ainda que a Grace Community está “ao lado da lei contra a tirania sem limites daqueles que estão desafiando o juramento que fizeram ao assumir seus cargos definidos pela Constituição para preservar e proteger o direito da livre expressão religiosa.”

Os advogados da igreja argumentaram que as restrições impostas pelo Estado não tinham fundamento e não eram razoáveis. A igreja também concordou em manter certa distância entre os membros e fazê-los usar máscaras até que tudo seja resolvido. A audição final para resolver esse caso será no dia 4 de setembro, pois até aqui apenas foi decidido que MacArthur estava certo quanto ao governo estadual não poder definir o que é ou não essencial, ou seja, o caso é federal agora. Os advogados também destacaram que não houve ordem de restrição contra os grupos que organizaram manifestações recentemente contra “brutalidade policial e racismo”, tais como Antifa e Black Lives Matters, que promoveram não apenas aglomerações, mas também roubos e depredação de patrimônio público e privado.

John MacArthur declarou:  “Estou bastante grato que a Corte permitiu nossas reuniões e nas próximas semanas estaremos felizes em respeitar as exigências que o juiz fez para que possamos nos encontrar. A reivindicação é de que a igreja possa permanecer aberta e servindo as pessoas. Isso também nos dá a oportunidade de mostrar que não estamos tentando mostrar rebeldia nem loucura, mas vamos ser firmes em defender nossa igreja de restrições inconstitucionais e sem sentido.”  

“Nós preferimos obedecer a Deus do que aos homens. Nós seremos fiéis ao Senhor Deus e deixaremos os resultados para Ele. O que quer que aconteça, será o que Ele permitiu acontecer. Mas Ele estará ao nosso lado por que nós vamos ser obedientes e fiéis à sua Palavra. Não vamos nos ajoelhar perante César. O Senhor Jesus Cristo é o nosso Rei.”

Já fiz resenha de um livro do Rev. John MacArthur: Apologética 02 – Por que crer na Bíblia?

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MATÉRIAS ORIGINAIS:

https://www.christianpost.com/news/not-the-america-ive-known-pastor-john-macarthur-doubles-down-on-covid-19-defiance-238361/

https://www.christianpost.com/news/john-macarthurs-church-can-worship-sunday-with-singing-no-attendance-cap-judge.html

https://www.christianpost.com/news/john-macarthur-sunday-service-welcome-to-the-peaceful-protest-preaches-on-obedience-to-scripture.html

Quem vigiará os vigilantes?

A liberdade de expressão no Brasil caiu junto com o Império. Da “República café-com-leite” até o Regime Militar de 1964, o que deveria ser um direito fundamental para qualquer cidadão, foi reprimido de forma criminosa. Tivemos inúmeros casos de pessoas que foram censuradas, presas, torturadas e assassinadas por que se opuseram ao governo da época – mas não com atos de violência explícita e sim com palavras que foram consideradas subversivas, como se coubesse ao Estado “proteger” os cidadãos de PALAVRAS.

Um dos casos mais notórios foi a história do jornalista Vladimir Herzog, representante da resistência brasileira durante a década de 1960. Após um período de exílio na Inglaterra, voltou ao Brasil e acabou sendo vítima de tortura e extermínio apenas por usar a imprensa para expor ideais que contrariavam os do poder vigente, destino similar ao de seus avós, judeus perseguidos pela política genocida do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores da Alemanha.

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Sua morte foi divulgada como suicídio na sede do DOI-CODI, para onde tinha sido levado para interrogatório por ligação com ativistas comunistas, mas esse relato foi questionado e, mais tarde, o legista responsável pelo caso confessou que assinou a autópsia sem analisar o corpo; em 2013 um novo atestado de óbito confirmou que a causa foi os maus tratos sofridos. Na época, a notícia causou comoção pública e inspirou atos de protesto e até mesmo canções, como “O bêbado e a equilibrista” (João Bosco e Aldir Blanc, 1972), que menciona Clarice, a esposa de Vladimir Herzog, e diz ainda que “uma dor assim pungente não há de ser inutilmente”, representando o anseio por liberdade e respeito aos direitos humanos em dias vindouros.

Mas com a Nova República vieram novos problemas, entre os quais o domínio de uma ideologia política que sutilmente subornava e manipulava a imprensa e tentava inibir a capacidade de ação de seus opositores e cujos tentáculos se estenderam aos Três Poderes e desenvolveu toda uma estrutura de sustentação nas mais diversas áreas do Estado, inclusive saúde e educação.

Com o avanço das redes sociais e a ascensão da mídia alternativa, esse poderio viu-se ameaçado. Cada vez mais pessoas passaram a ter acesso à internet e aos veículos de comunicação como o WhatsApp, que permite divulgação de textos, áudios e vídeos com mensagens de conteúdo difícil de verificar e controlar.  Isso, claro, representa uma ameaça ao poder estabelecido, pois incita questionamentos que abalam a confiança das pessoas na autoridade, o que levou os agentes do Estado a pensar em formas de frear esses mecanismos. Podemos citar como exemplos as alegações de “discursos de ódio”, isto é, palavras que podem ofender determinados grupos, e “fake news”, as notícias falsas que podem enganar a população.

Quando Jair Bolsonaro assumiu a presidência do Brasil em 2019, muitas pessoas temeram o aumento das violações das liberdades individuais, em parte devido ao apoio que o mesmo demonstrou ao Regime Militar. No entanto, talvez pela primeira vez na história desse país, são os partidários do Governo que têm sido perseguidos. Muitos tiveram material confiscado, redes sociais bloqueadas e alguns até foram presos por expressar opiniões e fazer manifestações contra alguns órgãos do Estado. O autoritarismo veio de onde menos se esperava, enquanto a defesa da liberdade tem sido empreendida por aquele que foi chamado de fascista: o Poder Judiciário tem encontrado meios de tolher direitos dos cidadãos e o Poder Executivo tem apoiado a manifestação de diferentes ideais e o desenvolvimento de uma imprensa livre e séria, comprometida com a verdade e não com um Partido, visto que o mesmo respeita jornalistas que o apoiam mas tecem críticas ao seu comportamento, e não autorizou nenhum ato de censura contra os veículos que o atacam constantemente, apenas utiliza de suas redes sociais e seu próprio direito de se expressar para mostrar o seu lado e criticar seus opositores – apenas PALAVRAS de ataque, nenhuma ação de violência ou ato de censura.

Recentemente, o Presidente da República entrou com uma ADIn (Ação Direta de Inconstitucionalidade) no Supremo Tribunal Federal, de acordo com artigo 5 da Constituição, para restabelecer a liberdade de expressão daqueles que tiveram suas redes sociais bloqueadas apenas por compartilhar informações e expor opiniões.

Ainda que algumas mensagens de fato configurem-se como discursos ofensivos e especulações infundadas, qual o direito que o Estado, em qualquer um de seus poderes, tem de censurar um indivíduo por seu discurso, quando a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 5º inciso IX, garante que “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”. Não se trata de grupos revolucionários que pegam em armas e praticam depredação de patrimônio público e violência física contra outros indivíduos. São cidadãos que expressam sua indignação com determinadas atitudes.

Aqueles que deveriam ser os responsáveis por fazer a Constituição ser soberana no país e obedecida por todos, veem-se acima da mesma e entendem que devem regular o discurso público. Estamos um passo de viver uma ditadura de moldes orwellianos, onde o Estado se encarregar de definir a linguagem, a verdade e as relações humanas, com a desculpa de que para proteger o cidadão de si mesmo e dos outros, é preciso vigiá-lo. Independente de uma pessoa ser de Direita ou de Esquerda, ela deve se preocupar com esse perigoso autoritarismo e deve valorizar o trabalho daqueles que, assim como Vladimir Herzog, deram a vida por essa causa. Se nada for feito, todos sofrerão com isso. Qualquer um, por um mero descuido, pode ser o próximo. Fica a pergunta: quem vigiará os vigilantes?

OBS.: a frase sed quis custodiet et ipsos custodes?” (quem vigia os vigilantes) encontra-se na obra “Sátiras”, do pensador romano Juvenal

Dicas de filmes:

Watchmen (SNYDER, 2009)

Minority Report (SPIELBERG, 2002)

Equilibrium (WIMMER, 2003)

1984 (RADFORD, 1984)

Fontes:

http://memoriasdaditadura.org.br/biografias-da-resistencia/vladimir-herzog/

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/historia-vida-morte-vladimir-herzog.phtml

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A necessidade do cavalheirismo

O dia 15 de julho é considerado o “dia do homem” (por razões que eu desconheço). Inspirada numa história que vi nas redes sociais e em coisas que tenho lido, vou aproveitar a data para escrever esse texto refletindo sobre o que o homem deveria ser e o que tem sido feito dele.

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The Accolade, Edmund Leighton, 1901

Clive Staples Lewis, durante a Batalha da Inglaterra (1940), escreveu um texto chamado A necessidade do cavalheirismo. Não poderia ter tido momento mais oportuno para destacar isso: a guerra, de fato, foi vencida por cavalheiros. E ninguém poderia escrever melhor sobre isso do que um professor de literatura inglesa medieval.

Em inglês, a palavra usada por Lewis é chivalry, que também significa “cavalaria”. Em português, fazemos uma distinção entre cavaleiro/cavalheiro (em inglês também, como no caso de knight e gentleman, mas o motivo é outro, não vou entrar em detalhes sobre a invasão normanda agora), mas a ideia é realmente remeter à Idade Média: o cavaleiro é aquele que representa o homem que pode até não ser nobre de berço, mas possui nobreza de espírito, pois é capaz de agir de forma corajosa e altruísta.

Em seu texto, ao citar Le Morte D’Arthur, Lewis destaca as palavras que Thomas Malory usou para descrever sir Lancelot: meekest e sternest, isto é, “o mais dócil” e “o mais firme”; isso resume como deve ser um cavaleiro/cavalheiro (vou usar apenas cavaleiro daqui em diante): como dito por Lewis, “um homem de sangue e aço, acostumado a ver cabeças esmagadas” (e talvez esmagava ele mesmo algumas), mas também “gentil e modesto”, capaz até de chorar, como fez Lancelot. O professor continua dizendo: “Talvez você me pergunte ‘qual a relevância disso para o mundo moderno?’ É intensamente relevante. Talvez seja ou não seja praticável – os homens medievais notoriamente falharam em obedecer isso – mas certamente é algo prático, tanto quanto seria prático para um homem no deserto encontrar água.”

O código dos cavaleiros (chilvary code) era composto por diretrizes militares e orientações de conduta social, algo tipicamente britânico (ainda que tenha se popularizado na cultura ocidental como um todo e encontrasse semelhança no ethos de outras ordens de cavalaria da Europa continental), pois mesclava o ideal de guerreiro saxão (como vemos na lenda de Beowulf, um homem forte e destemido) com o ideal de homem cristão (aquele que procura ser virtuoso como Cristo).

É interessante notar que a distribuição de papéis sociais para homens e mulheres tem por base a biologia e a própria natureza humana; se fosse uma “construção social” ou uma “imposição religiosa”, povos tão diferentes não teriam chegado à uma conclusão tão similar. Claro que existem exceções, mas de modo geral, é natural que a mulher seja mais física e emocionalmente frágil (em relação ao homem, não é o mesmo que dizer que a mulher é sempre fraca e o homem é sempre forte, atenção às palavras, linguagem é tudo) e por tanto voltada às atividades domésticas, o cuidado com o lar e com as pessoas, enquanto é natural que o homem seja provedor e protetor. Complementarismo. Isso é evidente e tem feito a humanidade funcionar de forma satisfatória (com seus defeitos, claro, mas com sua glória e beleza também) por mais de 5 mil anos.

O chivalry code está bem representado na literatura inglesa, sobretudo no Ciclo Arthuriano, série de contos que envolvem o Rei Arthur e Os Cavaleiros da Távola Redonda, personagens “semi-históricos” (provavelmente tem um fundo de verdade, como algumas pesquisas indicam). Em livros como “A morte de Arthur” (sir Thomas Malory) ou “Sir Gawain e o cavaleiro verde” (adaptado por Tolkien), vemos que era cobrado do homem que este prezasse pela bravura, lealdade (ao país, a Deus, à família, aos companheiros, à mulher amada, aos ideais, a si mesmo) e a honra (cumprir o dever, não trapacear, respeitar até mesmo os inimigos). Ao contrário do que dizem certos grupos ideológicos, não era bem visto que o homem adotasse comportamentos inadequados como a crueldade, a preguiça, a infidelidade, entre outros; também era sobre ele que recaíam as atividades mais penosas e perigosas, além de não ser tido como merecedor primário de conforto, sendo mais valoroso aquele que privava-se de luxos e os cedia aos mais frágeis como crianças, mulheres e idosos.

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God Speed, Edmund Leighton, 1900

Com a queda e/ou reestruturação das monarquias européias depois da fatídica Revolução Francesa, o código dos cavaleiros perdeu sua relevância, tendo seu esquecimento sido proporcional ao avanço das ideias progressistas, especialmente do feminismo, que tentam apagar da história qualquer traço da moral judaico-cristã e até mesmo do heroísmo pagão que estabelece um ideal de homem (no sentido específico da palavra), o que é não apenas lamentável, mas também insano, já que, como vimos, trata-se de algo instintivo e mudar isso é tentar alterar artificialmente a natureza humana.

Como se já não fosse óbvio que o resultado seria desastroso, podemos hoje em dia verificar as consequências desse experimento social que ganhou força da década de 1960 pra cá (indico os livros “O outro lado do feminismo” e “Feminilidade Radical”, depois vou escrever sobre eles também). Tanto homens quanto mulheres têm sido educados desde cedo (não só nas escolas, também na cultura) a ignorar os “ultrapassados e opressores estereótipos de gênero”. As meninas devem se igualar aos homens e os homens devem inibir seus instintos. O produto dessa inversão de valores é uma geração marcada pela depressão e pela ansiedade como nenhuma outra na história humana, nem mesmo as gerações das duas maiores guerras (bem pelo contrário, estas foram gerações extremamente antifrágeis), tem aumentado o número de suicídios (especialmente entre homens), de divórcios, de violência doméstica (também praticada por mulheres, vou deixar uns vídeos sobre isso no fim do post), sem contar as pessoas que se veem confusas quanto ao próprio gênero.

Claro que não existem seres humanos perfeitos, mas isso não significa que devemos extinguir os ideais, muito pelo contrário: a imperfeição de nossa natureza e nossa tendência de ceder aos caminhos mais fáceis torna necessário o estabelecimento de padrões que nos façam visualizar o melhor de nós mesmos; os estereótipos de mulher ideal ou homem ideal servem para que vejamos o que há de melhor nos seres humanos e tentemos alcançar esse ideal, nos aperfeiçoando durante a caminhada, ainda que saibamos que nunca atingiremos plenamente esse objetivo. É como a figura do filósofo descrita por Platão na obra O Banquete: o filósofo é aquele que não se contenta com a ignorância, ele aspira ao que é belo e bom e sábio, ainda que saiba que nunca será bom nem belo nem sábio, de modo que faz isso por querer elevar seu espírito e viver uma vida virtuosa.

Sobre o cavaleiro, Lewis diz que ele não é fruto da natureza humana, e sim uma obra de arte, pois une de forma bela duas tendências humanas: o cavaleiro é valente sem ser bárbaro, e doce sem ser covarde. Não é natureza pura, nem natureza alterada: é natureza educada. Como os veteranos de guerra que lutaram e não perderam o coração, por que foram combater não pela ação da batalha, mas por ter em mente o amor ao país, à família, à liberdade e à tradição. Em As Duas Torres, Tolkien diz:

“A guerra deve acontecer, enquanto estivermos defendendo nossas vidas contra um destruidor que poderia devorar tudo; mas não amo a espada brilhante por sua agudeza, nem a flecha por sua rapidez, nem o guerreiro por sua glória. Só amo aquilo que eles defendem: a cidade dos homens de Númenor, e gostaria que ela fosse amada por seu passado, sua tradição, sua beleza e sua sabedoria presente.”

Mas nem tudo está perdido. A natureza humana não pode ser realmente alterada – mesmo que por vezes isso pareça verdadeiro, é apenas uma ilusão, fruto de adestramento. Recentemente, o garoto Bridger Walker, de 6 anos, arriscou a vida para salvar a irmã mais nova de um ataque de cachorro. O menino ficou bastante ferido e teve que passar por uma cirurgia. Quando perguntado, ele falou que se alguém tivesse que morrer, que fosse ele. Numa sociedade em que somos ensinados a nos valorizar acima de tudo, uma auto-estima que mais parece egoísmo, é surpreendente ver alguém (e alguém tão pequeno) agir de forma altruísta e tão corajosa. Walker é realmente digno de ser chamado de herói, um verdadeiro cavaleiro.

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créditos: Nicole Walker

História de Bridger Walker : https://revistamarieclaire.globo.com/Noticias/noticia/2020/07/menino-salva-irma-de-ataque-de-cachorro-e-fica-com-rosto-desfigurado.html

Padre Paulo Ricardo sobre cristãos e armas : https://www.youtube.com/watch?v=RnTJiLgDlNM

Ana Campagnolo sobre violência contra homens: https://www.youtube.com/watch?v=BjpPrk3u2AM

Palestra “Encontrando a feminilidade bíblica em Nárnia”: https://www.youtube.com/watch?v=mCF9DW00_EU

Carlson e Peterson sobre o declínio da masculinidade: https://www.youtube.com/watch?v=coakHNk_vPQ

 

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Apologética 02: Por que crer na Bíblia (John MacArthur)

“É preciso buscar nas Escrituras a regra precisa tanto do pensar quanto do falar, pela qual se pautem não apenas todos os pensamentos da mente, como também as palavras da boca”. – João Calvino (comentário à Confissão de Fé de Westminster)

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Foi difícil escolher por qual livro começar e talvez “Não tenho fé suficiente para ser ateu” deveria ter sido o primeiro, mas vocês sabem o quanto eu gosto do pastor John MacArthur, então não poderia não começar com “Por que crer na Bíblia”. Tem outro motivo também, que é o fato desse livro tratar sobre a organização do estudo bíblico mais do que de apologética em si, e isso é importante, pois você não pode defender algo que você não conhece. Dá desgosto o tanto que eu vejo de cristão confundindo ditado popular com versículo bíblico… Então estudar a Bíblia é o ponto mais importante e tem que vir antes da Filosofia, da Ciência e do que quer que seja.

“As verdades atemporais da Bíblia nunca se tornam obsoletas”

Foi o primeiro livro do MacArthur que eu li e imediatamente gostei muito da escrita precisa e dinâmica dele, com alto nível acadêmico ao mesmo tempo em que é perfeitamente compreensível. Quem me conhece pessoalmente sabe que eu não paro de falar desse livro (está no meu TOP 5 junto com “12 Regras para a vida”,“Como ser um conservador”, “Cristianismo Puro e Simples” e “Cartas de um diabo a seu aprendiz”) e sempre digo que deveria ser usado nas escolas dominicais por ser bem mais interessante e útil do que aquelas revistinhas. Algumas são boas, admito, mas isso aqui é bem mais educativo e vai ajudar muito mais quando a pessoa tiver que defender sua fé. Aliás, esse livro tem umas perguntas e uns versículos-chave no final de cada capítulo, então ele seria realmente bem prático para essa finalidade.

“Minha esperança é que, se você é cristão, este livro não só aumente sua confiança na autoridade e confiabilidade da Palavra de Deus, mas também o motive a se tornar um estudante e amante da Bíblia. E se você ainda não é cristão, confio que você considerará seriamente as pretensões da Bíblia com um coração aberto.”

A obra se divide em duas partes: “Podemos realmente crer na Bíblia?” e “O que a Palavra de Deus faz por nós?”, além de ter a “Declaração de Chicago sobre a inerrância bíblica” como apêndice (documento que MacArthur cita e explica durante todo o livro). No começo, ele trata das razões pela quais podemos confiar na Bíblia como documento histórico e como palavra revelada de Deus, abordando questões como erros de tradução, definição do cânon e o que significa a inspiração divina. No entanto, o que mais chamou minha atenção é a crítica que ele faz ao “cristianismo progressista”. É um tom diferente de “Não tenho fé” por que o ponto principal não é exatamente convencer quem está de fora e sim resgatar a importância integral e exclusiva da Bíblia como autoridade e fundamento da fé cristã (inclusive, aproveito para indicar “O resgate da fé cristã” de Carl Henry, mas não vou fazer resenha por que é um pouco complicado; não que eu esteja desencorajando a leitura, é que é o tipo compreensível, porém difícil de explicar).

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“A vida preenchida pelo Espírito não é nenhum mistério; é simplesmente a consciência de estar em Cristo.”

Na segunda parte, a discussão é sobre como a Palavra de Deus se aplica à nossa vida, então o pastor nos fala sobre comportamento, santificação, testemunho e o agir do Espírito Santo. Ele apresenta algumas razões pelas quais é importante ter argumentos para defender a fé: para que possamos mostrar que ela não tem por base coisas fantasiosas, ao contrário, tem respaldo histórico e científico e mantém uma coerência interna impressionante, o suficiente não para ser provada, mas para ser levada a sério; isso é uma importante porta de entrada para os passos seguintes que são puramente espirituais.

“Muitos de nós gostamos de brincar de cristianismo e manter as práticas e os valores mundanos em nossas vidas. Mas na vida do cristão não há espaço para o lixo do mundo.”

Ele fala sobre como nosso comportamento serve de exemplo da presença de Deus para os outros e sobre como é preciso se fortalecer na fé para atuar na obra de Deus. O autor nos diz que a falta de crescimento espiritual se dá pela falta de contato com as Escrituras Sagradas e também analisa o que ele chama de “consumo de lixo espiritual”, seja a busca por sabedoria mundana, seja o contato com uma teologia pobre com aparência agradável (falando nisso, quem ainda não ouviu o mais famoso sermão do Paul Washer, pesquise no YouTube por “Uma pregação chocante”, tem dublado e legendado). MacArthur nos diz que é preciso procurar alimento sólido e ressalta que a Bíblia não é apenas alimento, é também uma arma. Nas palavras do apóstolo Paulo, ela é uma machaira, espada usada para defesa pessoal, que estava sempre à mão para cortes rápidos e precisos (leiam Efésios 6: 10-20). Além de usar machaira e não outro tipo de espada, Paulo no mesmo texto usa “rema” ao invés de outro termo para dizer “palavra”, pois significa algo como “palavra usada para uma finalidade específica”, o que leva o pastor a concluir que o apóstolo nos instrui a conhecer a Palavra de Deus para poder saber como citá-la e argumentar de forma precisa. Isso nos leva à última e principal parte: o método de estudo.

“As Escrituras existem para lhe dar conhecimento. E adquirir esse conhecimento exige esforço. Quanto mais você estiver disposto a fazer esse esforço, mais proveito você tirará das Escrituras. […] O Espírito opera por meio da Palavra e precisamos ser diligentes para obter sua mensagem.”

John MacArthur desenvolveu um método que eu vou deixar resumido no final do post, mas já adianto que é (na minha opinião) mais recomendável para quem já está  familiarizado com a Bíblia, pois torna a leitura mais demorada, apesar de mais eficiente. O objetivo é fazer o leitor destrinchar cada pedaço das Escrituras e decorar suas passagens (no sentido original da palavra em latim: guardar no coração). É preciso ter um plano de estudos, mas ele não serve de nada sem disciplina. O autor fala sobre o quão importante é se dedicar com amor ao trabalho de conhecer a Palavra de Deus. Reserve um tempo, separe um material, ore muito antes e depois de começar. Medite bastante sobre o que aprendeu. Ele também ressalta a relevância da hermenêutica: não precisa se tornar um grande estudioso, mas tem que conhecer o básico (conceitos-chave, contexto de cada palavra – como vimos no caso de rema e machaira, coisas do tipo) para evitar erros. MacArthur diz que o principal ponto para uma boa hermenêutica é deixar de lado a interpretação pessoal e deixar que a Bíblia interprete a si mesma: separe a passagem, procure referências cruzadas, avalie e por fim veja qual a aplicação daquilo.

“Você deve permanecer em Cristo. Permita que Ele desenvolva o caráter Dele em você as oportunidades virão. Concentre-se Nele, e Ele o colocará em situações de testemunho que serão criadas especialmente para você.”

Para o leitor não-cristão, o livro é feliz em esclarecer o significado e a relevância da Bíblia. Para o leitor cristão, ele é claro em mostrar o objetivo maior da preocupação com a apologética, que é produzir frutos, conquistando almas para Cristo, ao mesmo tempo em que a pessoa  louva a Deus e desenvolve seu caráter à semelhança de Jesus. O último capítulo fecha com dois versículos que ilustram todo o conteúdo: “Procure apresentar-se a Deus aprovado, como obreiro que não tem do que se envergonhar, que maneja corretamente a palavra da verdade.” (2 Timóteo 2:15) & “Habite ricamente em vocês a palavra de Cristo; ensinem e aconselhem-se uns aos outros com toda a sabedoria.” (Colossenses 3:16).

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MÉTODO MACARTHUR

LEITURA SISTEMÁTICA + ESTUDO INDUTIVO (ÊNFASE NO NOVO TESTAMENTO) : seguidos, se você puder tirar cerca de 1 hora ou mais do seu dia para se dedicar, ou alternado se for durante cerca de 30 minutos.

                       ↓

a) ANTIGO TESTAMENTO:  ler por ordem, em média 2 ou 3 capítulos por dia

b) NOVO TESTAMENTO: aqui vem a parte peculiar do método MacArthur, ele sugere a leitura diária de um único livro durante 30 dias seguidos; ou partes, se for um livro longo: exemplo Atos, com 28 capítulos, você divide por 4, dá 7 capítulos por dia durante cada mês.

Eu amo a Bíblia, eu leio-a todos os dias e, quanto mais a leio tanto mais a amo. Há alguns que não gostam da Bíblia. Eu não os entendo, não compreendo tais pessoas, mas, eu a amo, amo a sua simplicidade e amo as suas repetições e reiterações da verdade. Como disse, eu leio-a quotidianamente e gosto dela cada vez mais. – Imperador Pedro II do Brasil

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Sarah Poulton Kalley

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Acredito que a maioria de vocês já saiba um pouco sobre o casal Kalley. Como gosto de datas temáticas, vou aproveitar o que seria o 195º aniversário da Sarah para trazer mais detalhes sobre ela (espero que meu cérebro não seja o único lento na hora de lembrar como se lê 195 em números ordinais). Fiz apenas um apanhado geral do que pude encontrar, mas creio que é o suficiente para o propósito desse projeto, que é tirar uma lição de vida a partir da biografia dessas mulheres que serão apresentadas.

Sarah Poulton Wilson nasceu na Inglaterra, em 25 de maio de 1825. Era considerada por todos como uma menina alegre e inteligente. Tinha talento com pintura, era fluente em francês e alemão desde cedo (mais tarde em português também), mas o maior destaque em sua vida foi a música (o que eu menos vou falar, já que é a parte mais conhecida). A mando de seu pai, começou a ensinar para rapazes na Escola Dominical; por conta própria, resolveu criar um curso noturno de conhecimentos gerais para jovens pobres, muitos dos quais mais tarde ajudaram a família Kalley no Brasil, como William D. Pitt. Sarah também liderou uma turma de garotas para ter  aulas de costura e fazer roupas para enviar aos missionários. As pessoas diziam que viam a santidade em seu rosto.

Conheceu Robert Reid Kalley, médico e missionário escocês (ex-ateu, deixei um link lá no final sobre isso), em 1851, quando foi à Síria com seu pai e seu irmão doente, Cecil Wilson. O doutor Kalley tratou Cecil, mas ele não resistiu e veio a falecer. Robert, que era viúvo e 16 anos mais velho, “apaixonou-se pela jovem Sarah e ficou impressionado com seu interesse e entusiasmo pela obra missionária” enquanto ela “ficou encantada com seu modo de orar e expor as Escrituras.” [1]Casaram-se em dezembro de 1852 e desde então, segundo Forsyth na biografia do doutor Robert (Uma Jornada no Império), suas vidas tornaram-se “tão entrelaçadas que é impossível separá-las, como por exemplo, Priscila e Áquila, nas Escrituras. Um nunca é mencionado sem o outro […] a biografia dele torna-se então a biografia deles” (grifo meu). O casal viveu nos Estados Unidos e na Ilha da Madeira antes de vir para o Brasil. O senhor Kalley costumava utilizar sua profissão para evangelizar, enquanto Sarah procurava fazer isso visitando as famílias e conversando com as senhoras.

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A chegada deles à nossa querida Terra de Santa Cruz se deu em maio de 1855, no Rio de Janeiro. Moraram em Petrópolis, numa casa batizada de Gernheim  (algo como “doce lar” em alemão). Em julho de 1858, os Kalley inauguraram a Igreja Evangélica Fluminense. Foi a primeira missão protestante que obteve sucesso em terras tupiniquins. Sarah começou ministrando estudos bíblicos durante as tardes de domingo para crianças inglesas; depois conseguiu reunir crianças de várias nacionalidades, com aulas em português, inglês e alemão. Procurava incentivar os alunos com prêmios (geralmente livros) e atividades extras (como passeios e lanches) e também incluía pessoas negras, o que era raro na época (mas eu não vejo muitos grupo falando sobre como as igrejas foram essenciais contra o racismo). Já adultos, muitos de seus pupilos enviaram cartas agradecendo imensamente por tudo.

Os Kalley tinham o objetivo de fundar uma escola, o que lhes foi negado até maio de 1872, quando foi inaugurada a Escola Evangélica Fluminense de Instrução Primária, ou “Escola Diária”, como era conhecida, que ficou sob o comando do professor José Vieira de Andrade; depois, a própria Sarah inaugurou um curso noturno para, nas palavras dela “saciar a sede de instrução da nossa sociedade”.[2] No ano seguinte, visitaram Recife e fundaram a segunda igreja congregacional brasileira, a Igreja Evangélica Pernambucana. Além da criação da primeira escola dominical e do primeiro ministério infantil, foi a senhora Kalley quem fundou a União Auxiliadora Feminina, que serviu de modelo para sociedades femininas protestantes posteriores.

O casal chegou a receber uma visita de Pedro II, com quem trocavam correspondência. O monarca interessou-se pelos Kalley por causa da intelectualidade deles e talvez tenha contribuído para a aceitação do protestantismo no Brasil, que era rechaçado por parlamentares católicos. No livro que trata sobre a influência britânica na modernização do Brasil (Britain and the onset of modernization in Brazil), Richard Graham não apenas destaca o papel dos Kalley para a transformação do país (no capítulo Individual Salvation, que trata sobre como, nas palavras de ninguém menos que Rui Barbosa, “onde há protestantismo, há prosperidade industrial, vigorosa e luxuriante como uma vegetação tropical”), mas afirma que depois da visita do Imperador ao casal, eles conseguiram converter algumas senhoras da Corte. Robert estava doente e quem recebeu o Imperador foi Sarah. O objetivo da visita era conversar sobre as viagens, mas devido à situação, não durou muito. Quando o marido estava doente, Sarah atuava como secretária, redigindo cartas, preparando esboços de sermões e orientando todo o trabalho da igreja e das demais atividades, com atenção especial para os colportores, pois a distribuição do material evangélico era de fundamental importância (material este boa parte traduzido pelos Kalley, como a primeira edição brasileira de O Peregrino).

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Além dos já mencionados trabalhos, a senhora Kalley também atuou como escritora, inclusive um de seus livros (A Alegria da Casa, 1866) foi usado para ensinar dicas de saúde e cuidados domésticos nas escolas femininas no Brasil e em Portugal. No entanto, seu trabalho mais conhecido é a sua contribuição para o primeiro e mais popular hinário brasileiro, o Salmos e Hinos, para o qual compôs ou traduziu cerca de 200 hinos, deixando evidentes seus talentos poéticos, pois não apenas traduzia, mas garantia a adequação e a beleza das músicas, ou, como disse Forsyth,“adornava e ilustrava a doutrina com sua capacitada poética”. Também ilustrava literalmente, pois fazia desenhos das passagens bíblicas.

 “O hábito de ordem exterior ajuda a adquirir hábitos de ordem no regulamento de idéias, pensamentos e costumes intelectuais. Não esquecer o que sempre deve ter o primeiro lugar no arranjo da vida espiritual. O grande mestre diz: ‘Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça’” KALLEY, Sarah Poulton. A alegria da casa, p. 7-8.

Os Kalley adotaram duas crianças, ambas brasileiras: o João Gomes da Rocha (que escreveu muito sobre o trabalho dos pais) e a Silvana Azara de Oliveira, que foi adotada já na Escócia, para onde o casal voltou em 1876 devido aos problemas de saúde do Robert. Lá, a casa em Edimburgo foi chamada de “Campo Verde” e eles realizavam cultos em português.  Robert Kalley faleceu 12 anos depois, por causa de problemas cardíacos. Foi uma morte dolorosa que a Sarah assistiu e relatou em cartas para as congregações de Recife e do Rio: “Mesmo com muita dor no peito e dificuldade de respirar, ele orava por todos: “Senhor, abençoa teus servos no Brasil, abençoa Santos, Jardim, Bernardino! Senhor, abençoa Tua obra em suas mãos! Senhor, abençoa os crentes em Pernambuco!”[3]. Segundo Forsyth, as últimas palavras dele foram “minha querida esposa”.

Depois da morte do marido, apesar de ter ficado desolada, Sarah continuou trabalhando. Fundou uma instituição de apoio missionário para o Brasil (Help for Brazil Mission, 1892) para recrutar e dar apoio aos missionários e também ajudava estudantes acolhendo-os em sua casa, pelo que ficou conhecida como “a mãe de Edimburgo”. Ela faleceu em casa, no ano de 1907, e foi sepultada junto ao esposo no Dean Cemetery. Na lápide, a pedido seu, está escrito “Herdeiros da Graça da Vida”.

Sarah e Sia

Voltando ao conceito que vamos trabalhar nessa série, o de “auxiliadora idônea”, note que Sarah foi assim por toda a vida: começou ajudando o pai, ensinando em escola dominical, depois auxiliou o marido, as congregações e comunidades em geral por onde passou. Tenho uma afeição particular por ela por tudo que ela tem para nos ensinar, em especial o fato de que existem várias formas de servir a Deus e uma delas é estudar. Nem todo mundo tem talento para pregar ou ensinar na igreja ou ir para campo evangelizar, ou algo tipo, mas redigir e traduzir material pode ser algo edificante na vida das pessoas também. Cabe notar também que essa é uma característica predominantemente protestante. Em seu trabalho “Educação e cultura protestante na transição do século XIX”, Afonso diz que “na perspectiva protestante, abrem-se possibilidades ao elemento feminino – seja numa participação efetiva, como no caso da publicação/distribuição/circulação do livro A Alegria da Casa, seja como redatoras, correspondentes, educadoras e gestoras das escolas protestantes”, o que aconteceu principalmente por causa da relevância dada à leitura das Escrituras Sagradas sem mediação, então desde o princípio houve uma preocupação com publicação de material e com a escolarização das pessoas, e também por que a Reforma deu mais relevância às mulheres, mas falarei disso depois.

Para além do assunto principal dessa postagem, que é feminilidade bíblica, ler sobre os Kalley é ler sobre a Era de Ouro da história do Brasil, sobre a importância da educação, da dedicação e do trabalho árduo. Encerro com um hino composto pela Sarah, Dedicação Pessoal, que representa bem sua vida e deve servir de inspiração para todos nós :

Eis-me, ó Salvador, aqui.

Corpo e alma oferto a Ti,

Servo inútil, sem valor,

Mas pertenço a Ti, Senhor!

Fraco em obra e no pensar,

Mui propenso a tropeçar,

Salvo estou por Teu amor,

E me voto a Ti, Senhor!

Subjugado em todo o ser,

Me submeto a Teu poder.

Grande é o preço do perdão.

Dá-me igual consagração!

Eu, remido pecador,

Me dedico ao Redentor.

Teu –  é este coração,

Teu – em plena sujeição.

Vem tomar-me aqui, Jesus,
Para andar contigo em luz,

Sem reservas nem temor,

Teu cativo, ó Salvador!

REFERÊNCIAS:

SITES

https://www.hinologia.org/sarah-kalley/

https://igrejacongregacional.org.br/?page_id=38

https://www.ultimato.com.br/conteudo/os-pioneiros

http://conexaoeclesia.com.br/2015/05/18/o-naturalista-e-o-missionario/

https://www.elevados.com.br/artigo/507/brasil:-500-anos-de-evangelizacao.html

ARTIGO

AFONSO, J.A.  et al. Educação e cultura protestante na transição do século XIX: circulação de impressos e diálogos luso-brasileiros. Cuiabá, 2012.

LIVROS

FORSYTH, WILLIAM B. Jornada no Império: vida e obra do dr. Kalley no Brasil. São José dos Campos: Editora Fiel, 2006.

GRAHAM, RICHARD. Britain and the onset of modernization in Brazil 1850-1914. Cambridge: Cambridge University Press: 1968.

[1] https://www.hinologia.org/sarah-kalley/#_ftn7

[2] https://www.hinologia.org/sarah-kalley/#_ftn7

[3] https://www.hinologia.org/sarah-kalley/#_ftn7

A folha de figueira: o feminismo e a Bíblia

Há um ano, prometi a alguns de vocês que faria um resumo para quem perdeu a palestra “Feminismo e machismo: o conflito à luz das Escrituras”, que a professora Isabella Barbosa realizou na 1ª IPB de Caruaru. Não esqueci, apenas demorei… Acontece que é muito material para ler e acabei tendo outras ideias no meio do caminho, o que só consegui desenvolver esse ano. Então, além do resumo, apresentarei uma série sobre feminilidade bíblica e sobre a vida de algumas mulheres cristãs, como Sarah Kalley, Katharina von Bora e Elisabeth Elliot. O objetivo de investir nisso é que considero que  num mundo em que o feminismo se tornou midiático e as garotas são atingidas o tempo todo por ideias de “empoderamento feminino” e “libertação das mulheres”, é dever nosso tomar esse espaço e apresentar a perspectiva cristã conservadora. Acredite, não adianta apenas falar o que é certo ou errado, a lógica nem sempre funciona, às vezes o exemplo e a emoção contam mais, então é hora de contar histórias encantadoras sobre verdadeiras servas de Deus. Mas primeiro, o resumo.

E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.

Gênesis 1:27-28

O Senhor Deus criou um mundo com uma ordem perfeita (para saber mais sobre isso, recomendo procurar as palestras do professor Adauto Lourenço sobre a cronologia da Criação) e impôs um mandado cultural, social e espiritual, que podemos ver na passagem acima, isto é, dominar a Terra e tudo que nela há. Esse mandado foi reiterado no capítulo seguinte, onde também é detalhado o processo de criação da mulher e a designação de sua função: auxiliadora idônea. Esse é o termo que fundamenta todo o debate sobre o assunto aqui tratado.

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E disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idônea para ele.
Havendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todo o animal do campo, e toda a ave dos céus, os trouxe a Adão, para este ver como lhes chamaria; e tudo o que Adão chamou a toda a alma vivente, isso foi o seu nome.

Gênesis 2:18-19

Voltando a tratar sobre a ordem, reparem que primeiro, o Senhor cria o homem e atribui-lhe a tarefa de nomear os animais (o que, em tempos antigos, significava tomar posse[1]), só depois a mulher é criada. Um detalhe significativo está em Gênesis 3:1, o início da Queda:

“Ora, a serpente era mais astuta que todas as alimárias do campo que o Senhor Deus tinha feito. E esta disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim?”.

Houve uma tentativa de subversão da ordem: para desestabilizar a confiança que Adão e Eva tinham no Senhor, a serpente dirige-se primeiramente à mulher e a convence a tentar seu próprio companheiro, corrompendo assim a tarefa que lhe foi dada de cuidar e ser um ponto de apoio e confiança. Porém Deus restaura a ordem ao confrontar Adão primeiro: “E chamou o Senhor Deus a Adão, e disse-lhe: Onde estás?” (Gênesis 3:9), pois a ele foi dada a responsabilidade maior.

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The Rebuke of Adam and Eve, Natoire (

Uma das críticas do feminismo ao cristianismo é de que a Bíblia é machista, mas essa é uma visão completamente equivocada e simplista, pois falha em analisar todo o contexto bíblico. Primeiramente, importa o que Deus definiu: o princípio de liderança é masculino e já existia antes da queda; o homem deve ser o líder servidor e a mulher deve ser a auxiliadora idônea, contestar isso é contestar a Palavra de Deus. No entanto, isso não é algo ruim, como muitos querem demonstrar. O próprio Deus é Auxiliador (veja a lista de Salmos no fim do post), logo, não é uma posição de inferioridade, ao contrário, é algo tão importante quanto a liderança. Vejam Provérbios 31:10-31 (muito grande para postar aqui) e observem que é a mulher que mantém a estabilidade no interior da casa (o que tem um efeito psicológico imenso em produzir o bem estar de quem nela vive). Lewis[2] explica que as mulheres, por razões biológicas óbvias, têm a tendência de cuidar melhor das atividades internas.  E antes que alguma mulher se sinta ‘”livre” por ser solteira e/ou não ser mãe, a natureza é a mesma, apenas muda o papel a ser cumprido; sua essência (de auxiliadora) se revela no desempenho de qualquer papel que seja: em casa, no trabalho, na igreja, como filha, como tia, como aluna; e se você não conhece sua função, você não tem como exercê-la adequadamente.

Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.

Gálatas 3:28

A verdade é que o princípio de idoneidade está presente em toda a Bíblia, na qual encontramos a valorização de mulheres sábias e fortes, como Rute, Ana e Ester; também constatamos que em momento algum elas são tratadas como inferiores, como em outras religiões; ao contrário, todo o tempo se diz para respeitar a mãe, ser dócil com a esposa e a lei mosaica garantia proteção para a mulher solteira ou viúva. Inclusive, na cultura hebraica, “o dote pago pela família da noiva à família do marido deveria ser mantido em depósito, para servir de provisão à esposa, caso ela enviuvasse ou fosse abandonada pelo marido” [3].

Organizações progressistas evangélicas usam essas passagens para conciliar as Escrituras Sagradas com o feminismo, mas essa visão apresenta muitas falhas, começando com o fato de que um movimento que prega a aceitação de modelos de vida que vão de encontro à vontade de Deus simplesmente não pode se tornar palatável ao cristão. A valorização das personagens femininas da Bíblia e da história do cristianismo não tem a ver com feminismo, e sim com o resgate da feminilidade bíblica. O feminismo, alegou a professora, “é uma folha de figueira, o reflexo de uma cultura caída e sua luta é por poder e hierarquia, não é por direitos.”

…e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais.

Gênesis 3:7

A folha de figueira representa a tentativa humana de esconder de Deus os seus erros e resolver os problemas por conta própria (só para deixar claro, o texto não está sendo tomado como metafórico; uma figura do texto está sendo retirada e aplicada à outra situação; a crença literal em Gênesis se mantém). No caso da mulher, esta passou a sofrer com a gravidez e a ser subjugada pelo homem, como vemos em Gênesis  3:16,  e o feminismo tenta corrigir isso pregando a desvalorização da família e promovendo uma suposta independência total das mulheres, desvinculando-as de sua função originária como forma de evitar seu sofrimento e sua subjugação. Para algumas mulheres, é fácil aderir ao movimento por causa da sensação de pertencimento a um grupo e do amparo que eles aparentam promover (a tal “sororidade”), umas apoiando as outras contra um inimigo comum: o patriarcado, criado e mantido pela cultura judaico-cristã.

Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo.

1 Coríntios 15:22

A verdade é que, como explica Jordan Peterson, isso torna as mulheres infelizes, pois perdem seu propósito de vida tentando ser o que não são: “Equidade absoluta requer o sacrifício do valor em si – com isso, não haveria nada pelo que viver.”[4] Peterson observa ainda que o cristianismo não prega a vitimização, e sim a aceitação heróica do sofrimento, o que é exemplificado com a morte de Cristo, que mostra “como andar com Deus apesar da tragédia do autoconhecimento”[5] . Ao contrário disso, o feminismo coloca a mulher como vítima, e ao invés de procurar a reconciliação com Deus através de Cristo, prega a reorganização de toda a hierarquia social e a alteração (ou até mesmo abolição) da moral.

Ainda tem muito sobre o que falar, mas vou ficar por aqui, já que essa parte é o diferencial que foi apresentado na palestra; o resto, sobre história do feminismo, pode ser encontrado em qualquer lugar. Vou deixar dicas de filmes, uma breve linha do tempo e uns vídeos da Ana Campagnolo para quem quiser saber mais. Só gostaria de mencionar sobre Shulamith Firestone, que não é tão conhecida como deveria. Ela era uma feminista radical e o trabalho dela define o coração do feminismo, apesar de todas as variações que esse movimento apresentou ao longo da história. O objetivo dela é o mesmo objetivo da serpente que tentou Eva: perverter toda a criação de Deus. Ela defendia coisas como pedofilia e incesto, o que pode ser constatado em seu mais famoso livro, “A Dialética dos Sexos”, de 1970. Conhecer essas coisas ajuda a não se deixar enganar por “feministas moderadas”, “feministas evangélicas” ou “católicas pelo direito de decidir”. Para combater algo assim, é preciso ter não apenas cuidado, mas conhecimento.

Todas as referências bíblicas (que consegui anotar) da palestra:

Gênesis  1:26-28; 2:7-8,15-25; 3:1,15

1 Samuel 1 e 2

Salmos 10:14; 20:2; 30:2; 70:5; 72: 12-14; 86:17

Provérbios 31

Lucas 1:35, 7:44-46, 8:1-3

Romanos 1; 5:1, 17-19;

1 Coríntios 11:3, 11-12; 15: 22

Gálatas 3: 26-28

Efésios 5: 22-33

Colossenses: 3:14

Livros indicados pela palestrante:

Confrontando o feminismo evangélico (Wayne Gruden)

Transformando cosmovisões (Paul G. Hilbert)

Minhas dicas de filmes/documentários:

She’s beauty when she’s angry (Dore, 2014)

As sufragistas (Gavron, 2015)

Vídeos da Ana:

Não devo nada ao feminismo : https://www.youtube.com/watch?v=LElE_cFxZ4k

Desconstruindo os mitos feministas: https://www.youtube.com/watch?v=jv_AfGY-YVQ

O regaste da feminilidade: https://www.youtube.com/watch?v=818JkSr2rF4

Sobre Shulamith Firestone:

https://www.acidigital.com/noticias/feminismo-ideologia-de-genero-e-pedofilia-especialista-explica-como-se-relacionam-24553

https://mmjusblog.wordpress.com/2018/04/11/o-mundo-ideal-de-shulamith/

Linha do tempo básica:

Século XIX  –  movimento sufragista (direito ao voto)

1949 – lançamento do livro O Segundo Sexo (Simone de Beauvoir), fundamental para o feminismo moderno por supostamente expor a condição feminina da época

1960/1970 – movimento de massa e reivindicação de liberdade sexual e reprodutiva (aborto e métodos contraceptivos)

1980 – período de declínio

1990 – teoria de gênero difundida por Judith Butler e repopularização do movimento

REFERÊNCIAS:

[1] Bíblia de Estudo Arqueológica. São Paulo: Editora Vida, 2013. Pg 9.

[2] LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2017. Pgs 156-157.

[3] Bíblia de Estudo Arqueológica. São Paulo: Editora Vida, 2013. Pg 3.

[4] PETERSON, J.B. 12 Rules for Life. Londres: Allen Lane, 2018. Pg 303. (Tradução livre)

[5] PETERSON, J.B. 12 Rules for Life. Londres: Allen Lane, 2018. Pg 59. (Tradução livre)