Frankenstein, ou o Prometeu moderno (Mary Shelley)

Título original : Frankenstein, or the modern Prometheus

Primeira edição: 1818

Autora: Mary Wollstonecraft Shelley, nascida Godwin (1797-1851)

Formato: divide-se em 3 livros menores e traz tanto o formato epistolar (as cartas que o capitão Walton envia à irmã narrando os acontecimentos presentes), quanto a narrativa clássica em primeira pessoa por parte de Viktor Frankenstein, falando do passado (criação do monstro e sua relação com ele)

Gênero: romance gótico

Marco literário: é considerado o embrião da ficção científica

Influências: romantismo inglês (especialmente o poeta Samuel Taylor Coleridge e sua forma de usar elementos sobrenaturais), Rousseau e Locke (sobre a natureza humana e a aprendizagem), Burke (espírito anti-revolucionário), experimentos científicos da época (eletricidade e galvanismo)

RESUMO:

a) o capitão Walton manda cartas à sua irmã sobre a situação em que se encontra; Viktor Frankenstein chega até seu navio, fugindo do monstro

b) Viktor Frankenstein passa a narrar a história:

  1. o doutor Viktor Frankenstein cria o monstro e foge horrorizado com sua criação
  2. o monstro aprende a viver sozinho e decide vingar-se do criador
  3. o monstro persegue Frankenstein e sua família

c) o monstro chega até o navio; o capitão volta a contar os acontecimentos à sua irmã em cartas

Depois do período Puritano, a literatura inglesa experimentou uma fase de racionalismo e neoclassicismo. Pouco depois, em reação a isso, começou a despontar uma literatura de teor romântico: valorização dos sentimentos, da natureza e da metafísica. Os autores dessa época foram influenciados pela crítica ao Iluminismo e pela filosofia subjetivista, dando especial destaque à imaginação.

Entre os pré-românticos, podemos destacar Robert Burns e William Blake, que apresentaram temas nacionais e religiosos que viriam a ser muito discutidos no Romantismo Inglês já mais desenvolvido. Dois poetas se sobressaíram como principais expoentes dessa corrente literária: William Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge. Eles eram amigos e chegaram a escrever juntos uma coletânia de poesias chamada “Lyrical Ballads” (sobre a qual falarei melhor depois, num post específico sobre esses poetas). Enquanto Wordsworth falava da natureza e da vida cotidiana, Coleridge tratava dos sentimentos e do sobrenatural. Samuel T. Coleridge era amigo de William Godwin, o pai da Mary Shelley e um influente filósofo ateu. Frequentava sua casa e chegou a recitar seus poemas lá, tendo sido apreciado pela pequena Mary Wollstonecraft Godwin.

Seu mais importante poema, considerado um dos maiores épicos da literatura em língua inglesa, é “The rime of the ancyent marinere” (na grafia original), que conta a história de um marinheiro que foi amaldiçoado por matar um albatroz, uma ave de bom agouro na tradição britânica. Alguns desses elementos foram “copiados” por Mary Shelley mais tarde.

Outros poetas de destaque foram os chamados “poetas do Lago” (pois viviam na região do Lake District), a saber, o lorde George Gordon Byron, Percy Bysshe Shelley (que viria a se casar com Mary Godwin) e John Keats. Estes foram influenciados pela cultura grega, mas não da mesma forma que os neoclássicos, pois se inspiravam mais nos elementos mitológicos e culturais do que na razão e na filosofia clássica. Percy B. Shelley chegou a traduzir Platão e escreveu “Prometheus unbound” (Prometeu desacorrentado), o que certamente influenciou Mary.

Além do Romantismo, outra obra que excerceu influência na construção de “Frankenstein” foi “The castle of Otranto” (O castelo de Otranto, 1764), escrito por Horace Walpole, conde de Oxford. Esse livro é considerado o primeiro romance gótico e foi um sucesso (contrariando as expectativas do autor, que fingiu ser o tradutor dessa história, que seria um manuscrito napolitano datado de 1529, pois teve medo da recepção que teria). É chamado “gótico” em referência à arquitetura gótica, mais sombria, em oposição à arquitetura clássica greco-romana e neoclássica. O próprio Walpole vivia num castelo gótico no sudoeste de Londres, chamado Strawberry Hill. O cenário da literatura gótica, no entanto, não se restringe aos castelos e catedrais. Qualquer local lúgubre e decadente, onde se possa desenvolver uma história que envolva medo, incerteza, angústia e terror, serve, como podemos verificar em “Frankenstein”. Mas o amor também se faz presente nessa literatura, ainda que de forma incomum, como vemos em “Drácula” (Bram Stoker, 1897).

A melhor edição em português de “Frankenstein” é, sem dúvida, a da Companhia das Letras/Penguin, que conta com artigos de apoio, é baseada na edição de 1831 (com revisões da Mary Shelley), texto de Percy B. Shelley e dois contos de amigos do casal: “Um fragmento” (Lord Byron) e “O vampiro: um conto” (dr John William Polidori). Esses contos foram escritos durante uma viagem que Byron, o dr Polidori (seu médico) e o casal Shelley fizeram para a Suíça e lançaram entre si o desafio de escrever um conto de terror. “Frankenstein” é fruto tardio desse desafio.

O segundo título do livro, “O Prometeu moderno”, é uma referência ao mito grego de Prometeu,o titã que teria roubado o fogo dos deuses para dar aos homens e foi castigado por Zeus, que o acorrentou numa rocha para ter o fígado devorado por uma ave todos os dias eternamente – ou até que peça perdão. Vale a pena ler a tragédia “Prometeu acorrentado” (Ésquilo) para entender melhor o significado desse mito. Viktor Frankenstein desafia Deus e até a moral secular ao tentar reconstituir a vida de forma tão sombria. A obra de Mary Shelley fala do que hoje chamaríamos de bioética e discute nas entrelinhas sobre moral, salvação da alma, livre-arbítrio e responsabilidade.

Apesar do grande potencial filosófico apresentado, ela não desenvolve tão bem esses conceitos, apresenta uma visão ingênua de alguns pontos (como a questão do mal ser apenas consequência da rejeição) e se baseia em algumas teorias questionáveis sobre educação (Emílio, de Rousseau, foi uma obra que ela leu várias vezes). Alguns momentos são empolgantes, mas a maior parte da narrativa é cansativa. No entanto, essa obra é um diamante bruto. Tem muito o que dizer e instiga o leitor a refletir sobre diversos temas. Não deve deixar de ser lida!

Vale também notar que é um livro apoiado na literatura clássica (greco-romana) e na literatura inglesa, especialmente em John Milton. Inclusive alguns livros são mencionados pelo monstro de Frankenstein. Isso mostra como a literatura clássica é essencial para termos uma compreensão maior de várias obras de arte (seja literatura, cinema, artes plásticas, etc) e termos uma perspectiva mais ampla sobre a vida e a natureza humana, pois desde Homero, esses temas estão sempre presentes e continuam atuais.

CRISTIANISMO AÇUCARADO

“Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada.”

palavras de Jesus no Evangelho segundo Mateus (capítulo 10, versículo 34)

“Religião não é para promover o ódio, nem para dividir. A religião pode fortalecer valores que priorizem a construção de uma cultura de paz, de tolerância, de menos ódio, de mais aceitação mútua e assim por diante.”

Romi M. Bencke (grifos meus*)

*OBS.: esse texto foi escrito em conjunto com meu namorado, Djesniel Krause, que é teólogo; as referências pessoais não identificadas (ex.: “grifos meus”, “uso uma Bíblia”, etc) são minhas, ainda que eu não tenha escrito o parágrafo inteiro sozinha.

Uso uma Bíblia de estudo que trata de algumas seitas pseudo-cristãs, isto é, que se dizem cristãs, mas não o são, uma vez que violam pontos fundamentais do cristianismo. Na maioria delas, uma pessoa diz ter recebido uma nova revelação, colocando a Bíblia Sagrada em segundo plano, apenas para utilizar um ou outro versículo aleatório que pareça “aprovar” sua nova religião. Uma delas, por exemplo, é a “igreja apostólica da santa vó Rosa”, fundada por uma senhora que dizia ser ela mesma o “espírito consolador” que Cristo prometeu enviar, conforme encontramos no Evangelho de João 15:26. Hinos de louvor são cantados no nome dela. Ela “corrigiu” a Bíblia.

Nem sempre o desvio é tão óbvio. Nem sempre os falsos mestres lançam novos “evangelhos” ou se colocam como ídolos, mas são igualmente perigosos por tentar remodelar o cristianismo de acordo com sua ideologia. Um exemplo recente foi o Ed René Kivitz, que disse que a Bíblia deveria ser atualizada. Não no sentido de uma nova tradução, com o objetivo de deixar sua mensagem mais compreensível, mas sim de acomodar seu conteúdo ao contexto contemporâneo, ignorando assim o que Jesus Cristo diz no Evangelho de Mateus: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar” (Mt 24:35). Outro caso, mais antigo, foi do Leonardo Boff, que tentou infiltrar o marxismo na igreja católica, tirando o foco da salvação pela morte e ressurreição de Cristo, ignorando as críticas de Marx ao cristianismo e fechando os olhos para o fato de que todo país socialista/comunista persegue cristãos em maior ou menor grau, pois não há espaço para Deus, apenas para o Estado, a classe operária, ou o que quer que eles coloquem como redentores da História. A ideia de progresso e escatologia é secularizada, transformando-se em uma utopia materialista.

O caso que me motivou a escrever esse texto foi uma citação com a qual me deparei numa rede social (e que coloquei no início dessa postagem), as aparentemente inofensivas palavras da senhora Romi Márcia Bencke, que a despeito de sua formação teológica e sua posição como pastora luterana, defende pautas progressistas, tais como aborto, ideologia de gênero e ecumenismo inter-religioso – para dizer o mínimo, mas eu não ficaria surpresa com mais nada vindo dela, do Kivitz, do Boff ou de qualquer desses. Como todos esses estudaram Teologia, não têm a desculpa da falta de conhecimento, então é uma perversão deliberada; só que muitas coisas que eles falam parecem bonitas e sensatas, enganando facilmente aquelas pessoas que tem em mente a imagem de um Jesus hippie, advinda da cultura popular. Como diz Austin Fischer no livro “Jovem, incansável, não mais reformado”:

“Conforme Mark Driscoll observa, muitos querem “remodelar Jesus como um hippie […] que fazia comentários zen incisivos acerca da vida […]. Esse Jesus jamais poderia enviar alguém para o inferno, pois isso violaria o seu principal atributo, agradabilidade.”

FISCHER, 2015, p.55-56 (grifos meus)

Também Wayne H. House comenta sobre isto:

“A igreja é vista com judiciosa, ao passo que se diz que Jesus não julga as pessoas. A igreja fala contra os pecados como a homossexualidade, ao passo que Jesus amava todas as pessoas independentemente de seus pecados, como aconteceu com a mulher pega em adultério. A igreja tem interesse em questões políticas, mas Jesus não se envolveu com política e só trabalhou para aliviar o fardo das pessoas. […]. Essa tentativa para compreender Jesus, com frequência, é feita sem qualquer referência sobre o que realmente conhecemos a respeito dele. Simplesmente adivinhamos quem ele é e como ele age – muito frequentemente, como achamos que ele deve ser e agir para ser aceitável à mente do homem do século XXI. À parte do apelo da revelação divina, essa é a maneira pela qual ele tem sido visto ao longo dos séculos, incluindo o século em que ele viveu aqui na terra”.

HOUSE, 2009, p. 26

Devemos deixar de lado o Evangelho segundo Mateus, Marcos, Lucas e João, que falam sobre pecado, condenação e arrependimento, para aceitar as boas-novas de Kivitz, Romi, Boff e Antônio Carlos Costa (outro marxista) se quisermos ser politicamente corretos e nos conformar com o espírito da época. Fomos chamados, de acordo com esses novos profetas, para tolerar qualquer prática e aceitar qualquer idéia, pois nada desagrada a Deus. Aceitação e tolerância se tornaram as virtudes máximas e devem ser priorizadas em detrimento do arrependimento do pecado – pois não existe mais pecado, uma vez que esse é um conceito opressor. Usam o martelo de Nietzsche para livrar os fiéis das amarras metafísicas, por isso vêem tudo sob uma perspectiva materialista-histórica e se vêem no direito de alterar o Livro Sagrado – já que não existe mais Sagrado. É um niilismo disfarçado: no fundo, não há Deus, não há nada, pois se houvesse Deus, sua Palavra revelada deveria ser a autoridade máxima, ainda que esteja em desacordo com o que é mais popular nesse século.

Parece que faltam páginas na Bíblia de algumas pessoas que dizem lê-la; ou falta atenção. Ler em si não é a questão. Até meados do século XX, muitos convertidos nem sabiam ler, mas tiveram contato com o Evangelho verdadeiro, pregado por pastores fiéis em épocas difíceis, que enfrentaram perseguição em nome de Cristo, como o médico e missionário presbiteriano William Butler, que veio dos Estados Unidos para plantar igrejas em Pernambuco. Essas pessoas entendiam a mensagem e não seguiam modinhas. A mensagem clara é: existe uma verdade objetiva, que é Jesus Cristo, que foi enviado para pagar o preço pelos nossos pecados e aplacar a ira de Deus, que é um Deus justo e santo, que não tolera o pecado; Ele morreu para que todo aquele que nele crer seja salvo (Jo 3:15), mas quem não crê, já está condenado (Jo 3:18).

Jamais fui capaz de ler os evangelhos sem me encolher um pouco com medo. As palavras e ações de Jesus geralmente são um pouco espinhosas. […]Uma análise honesta dos evangelhos deixa claro para mim que Jesus é bem duro. Ele tem um senso robusto da depravação humana. Ele geralmente fala claramente acerca da ira sob a qual estamos como resultado de nossa depravação. […] E um dia Ele virá com uma espada para julgar “mortos, grandes e pequenos” .

FISCHER, 2015, p.57 (grifos meus)

As tendências culturais precisam ser avaliadas e julgadas à luz das Escrituras, e não o oposto. Não podemos permitir que elas sejam normativas. Também precisamos buscar conhecimento para compreender as coisas, ao invés de apenas adotar uma ideia superficial.

Isso é muito importante de ressaltar, por que algumas dessas pessoas que concordam com esses falsos mestres, acreditam que estão agindo em nome do amor. Acham que amar o próximo é deixá-lo confortável nesse mundo e com isso só colaboram com a condenação deles. Onde está o amor nisso? Se um cristão ama alguém de verdade, quer que essa pessoa conheça Cristo. Voltando ao livro de Austin Fischer, ele diz:

“O cristianismo ocidental tem um problema com o amor, a saber, diminuímos por demais o amor ao fazermos muito caso dele. Amor é tolerância, amor é inclusão, amor é autoestima, amor é conforto. E, ao transformar o amor nessas coisas, o amor se tomou em nada. […] Para fins de simplicidade, vamos chamar isso de o problema do “amor brando”, ao se tornar tudo, o amor se torna nada.”

FISCHER, 2015, p.68 (grifos meus)

Eu (Djesniel) nem mesmo chamaria isto de amor, apenas de indiferença. É a aceitação de um conceito sem conhecê-lo. Fischer continua:

“Você sabia que o Livro de Atos não menciona o amor uma vez sequer? Quer esteja procurando pelo substantivo ou pelo verbo, faça uma pesquisa pela palavra “amor/amar” e você irá saltar direto de João para Romanos. Longe de ser uma casualidade retórica, penso que o escritor está tentando ensinar-nos algo. Não somos nós que devemos definir o que é amor; Deus é quem define. E essa é a primeira coisaque precisamos saber acerca do amor de Deus. Se quisermos entendê-lo, então devemos ir ao lugar onde Deus o define, a saber, Jesus Cristo, crucificado.[…]Não devemos falar de amor de forma abstrata, como algum ideal humano fofo de boa vontade.”

FISCHER, 2015, p.69

Isto nos remete a C.S. Lewis: “a verdade segundo a qual Deus é amor poderá furtivamente vir a significar para nós o oposto – que o amor é Deus” (LEWIS, 2009, p. 9), e então, precisamos complementar, o amor “passa a ser um demônio no instante em que passa a ser um deus” (LEWIS, 2009, p. 9).

Claro que as palavras de Cristo em Mateus 10:34 não são no sentido de o cristão sair por aí matando quem discordar dele, mas sim de que o cristianismo não seria baseado na simples união e tolerância, mas causaria divisão, seria uma religião perseguida, considerada escandalosa e insana (1 Coríntios 1:23) e cujos adeptos teriam que fazer uma escolha entre Cristo e o mundo, ao invés de “atualizar” algo ou priorizar a paz em detrimento da Verdade.

Alguns de vocês podem pensar : “Ah, Samara, mas você não é teóloga para ter autoridade de discutir com essas pessoas.” (mas eu, Djesniel, sou ;D) (e um muito dedicado ♥) Ainda assim, vamos considerar algumas coisas:

1) A autoridade não está na pessoa, e sim na Bíblia, então até um ateu instruído estaria certo em contestar. Qualquer um dos irmãos mais simples, que nem ao menos sabe ler, mas possui conhecimento, pode contestar.

2) Estudei Filosofia, sei de onde essas ideias vêm, sei o trabalho que os pais da igreja tiveram para desvincular o cristianismo do paganismo grego e também sei o ideal pós-moderno de propagar o relativismo. O apóstolo Paulo já alertava: “Tenham cuidado para que ninguém os escravize a filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo, e não em Cristo” (Cl 2:8) .O problema não é a filosofia, mas o fundamento dela: quem tenta adequar o cristianismo à filosofia ao invés de fazer o caminho contrário, cai nesse erro. 

Devemos antes, como Lutero, manter nossa consciência cativa à Palavra de Deus.

Você foi chamado para ser sal, não açúcar.

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BIBLIOGRAFIA:

FISCHER, Austin. Jovem, incansável, não mais reformado. Maceió: Sal Cultural, 2015.

HOUSE, H. Wayne. O Jesus que nunca existiu. São Paulo: Hagnos, 2009.

LEWIS. C.S. Os quatro amores. 2. Ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009.

Conspiração, negacionismo e o Holocausto: como a memória e a imaginação iluminam tempos sombrios

Muito se tem falado atualmente sobre “teoria da conspiração” e “negacionismo científico”. É interessante ver essa fé cega que algumas pessoas depositam na “Ciência” como se esta fosse uma espécie de deus e não uma área do conhecimento na qual há divergências internas e pontos obscuros – assim como em qualquer outra. É igualmente interessante que essas mesmas pessoas se neguem a acreditar que a ordem atual das coisas pode sofrer alguma alteração. É até compreensível querer acreditar que a normalidade não será perturbada. É mais confortável psicologicamente e mais fácil intelectualmente, pois não exige que o indivíduo dedique tempo observando nuances na cultura e na política e estudando coisas antigas para tentar entender como a humanidade se desenvolveu até aqui, como enfrentou crises e qual o caminho que esse movimento histórico parece indicar para o futuro. Tudo isso dá trabalho e não é nem um pouco divertido.

Hoje é o Dia da Memória do Holocausto e o tema do “conspiracionismo” e “negacionismo” tem uma profunda relação com esse momento tão terrível da História recente. Muita gente se emociona com filmes que contam histórias dessa época, muita gente evoca o termo “nazista” para rotular oponentes políticos, tudo isso sem entender como as coisas realmente aconteceram.

Há 10 anos, li um livro chamado “Inverno na manhã”, de Janina Bauman (esposa de Zygmunt Bauman), uma jornalista judia polonesa que narra como ela e sua família conseguiram escapar da perseguição do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores da Alemanha (quem acompanha o blog desde o começo já deve ter notado que eu gosto de usar o nome completo do partido, isso por que lembro muito bem de professores socialistas criticando o “nazismo” como se fosse algo completamente apartado das ideais totalitárias que eles mesmos defendem e como se fosse uma ideologia de direita! Socialismo de direita!). É uma obra que gosto de recomendar, mas não vou fazer resenha no momento, quero apenas ressaltar um detalhe: o tio conspiracionista (obs.: não lembro se essa palavra é usada no livro).

Um tio da autora, antes da nomeação de Adolf Hitler como Chanceler do Reich em 1933, já alertava sobre os desdobramentos da influência política e cultural que o Partido Nacional-Socialista estava ganhando. Voltando 10 anos na História alemã, vemos o episódio que ficou conhecido como “Golpe da Baviera” ou “Putsch da Cervejaria”.  Era (mais um) momento difícil naquele recém-unificado país e o povo vivia debaixo da sombra da Grande Guerra(1914-1918), que além do prejuízo econômico e do luto, feriu também o orgulho nacional, deixando um rastro de ressentimento (e para entender melhor ainda como as coisas chegaram nesse ponto, é preciso estudar da Paz de Vestfália até a Primeira Guerra Mundial). Nesse contexto de crise, a Baviera resolve se separar do resto da Alemanha por discordar da política de Berlim. Foi então criado um governo provisório, regido por um triunvirato. Pouco tempo depois, enquanto os três líderes da Baviera discursavam numa cervejaria na capital (Munique), o local foi invadido por militantes do partido de Hitler, junto com ele próprio. O golpe fracassou – em parte. Hitler foi condenado à prisão em 1924, onde passou 9 meses – o tempo de gestação do seu livro “Minha Luta” (Mein Kampf).

Com todo esse histórico, e sabendo hoje o que aconteceu depois, quem de nós chamaria o tio da Janina de “conspiracionista”? Está claro hoje que ele foi capaz de perceber a infiltração de uma ideologia e uma tendência de prática política que estava ganhando forma. Ele fugiu antes das coisas piorarem, mas o resto da família não quis acreditar nos “exageros” dele. Foram então perdendo espaço pouco a pouco: uma família de bem estar financeiro que passou a morar no Gueto da Varsósia, primeiro com algumas restrições, depois de forma miserável, pois faltava comida, atendimento médico e acima de tudo, faltava liberdade.

Pouco a pouco, os judeus, eslavos e alguns outros grupos de “impuros” começaram a ser mandados para campos de trabalho forçado – locais onde também ocorriam experiências científicas cruéis e extermínio em massa.  Aliás, hoje passamos também por um momento de banalização das palavras: genocídio é um termo que carrega um significado de acordo com a etimologia e não com a vontade midiática de causar impacto emocional. Vem de geno = raça + cídio= matar, termo que foi criado por um advogado judeu para descrever o holocausto e foi usado nas descrições dos julgamentos do Tribunal de Nuremberg, a partir de onde se popularizou.

No início de 1933 aconteceu um atentado terrorista em Berlim: o incêndio do Reichstag (parlamento). Um comunista holandês foi identificado como autor do ataque e alegava que tinha feito isso sozinho. Hitler não era ainda o Führer, era apenas chanceler, mas soube aproveitar essa oportunidade para tomar o poder. A população assustada com o caos, acatou o aumento dos poderes do chanceler como sendo uma medida protetiva (“é para o seu bem”, igual o lockdown). Começou então uma caça aos comunistas que os professores socialistas gostam de ressaltar, da mesma forma que gostam de ressaltar que os soviéticos “ajudaram a derrotar os nazistas”, como se isso automaticamente tornasse o comunismo aceitável – o que requer que ignoremos a origem comum de ambas as ideologias, o breve momento de comunhão entre Hitler e Stalin, o fato de que o líder nacional-socialista apenas se aproveitou do acontecimento, a crueldade do Exército Vermelho e o modus operandi do regime soviético em geral. 

Voltando ao assunto principal, falemos da lição que esse momento histórico nos ensinou sobre ciência. Depois de ter consolidado o poder (perseguição aos opositores, desarmamento, censura,etc,o kit básico de totalitarismo), os planos do partido começaram a ser implementados. Eles já haviam sido divulgados antes, começando com “Minha Luta”, mas nesse momento, estavam sendo impostos com base numa suposta justificação histórica e científica.

Toda a cultura estava tomada: criaram a Reichskulturkammer, uma espécie de ministério da cultura, que utilizava a arte para propagar a ideologia do partido, criar uma sensação de união, paz e normalidade, ainda que houvessem muitos conflitos abaixo da superfície. Um breve comentário sobre a Reichskulturkammer e o ministério da propaganda: é um ponto que gostam de comparar com o conservadorismo por causa da ligação com os clássicos, a crítica ao modernismo e busca pelas raízes nacionais. No entanto, essa é uma visão muito rasa do conservadorismo. O “nazismo” era revolucionário e tinha o objetivo de criar uma nova e perfeita sociedade, através de engenharia social e controle tecnológico. O conservadorismo, ao contrário, está baseado na experiência histórica, e não num passado ou futuro utópicos; na percepção de que a natureza humana é imperfeita, e por isso não pode haver sociedade perfeita; de que a individualidade deve ser respeitada e a propriedade privada deve ser defendida (muita gente pensa apenas no sentido material, mas isso inclui a vida, que é nossa primeira propriedade); que instituições que historicamente se mostraram boas, úteis e belas devem ser mantidas e as demais devem ser reformadas ou destruídas; entre outros aspectos que podem ser melhor compreendidos ao ler obras como “Reflexões sobre a revolução na França” (Burke) e “Como ser um conservador” (Scruton).

A base do pensamento hitlerista, diferente de outros partidos nacionalistas ou trabalhistas, era a superioridade da raça ariana. Não era ser alemão que importava exatamente. Não era o passado em comum, o idioma ou as instituições que uniam a nação o que importava, e sim a aparência e a genética. Existiam livros escritos por cientistas que “comprovavam” a superioridade racial ariana. Era com base no avanço tecnológico que a eugenia era pregada e aplicada: eliminar deficientes e as raças inferiores para ter um futuro melhor (com base nisso Sanger criou as clínicas de aborto Planned Parenthood). Foram c-i-e-n-t-i-s-t-a-s que desenvolveram o projeto Lebensborn, cujo objetivo era criar crianças perfeitas, os melhores arianos possíveis. Para entender melhor, sugiro assistir a série “O Homem do Castelo Alto”, da Amazon, baseada na obra homônima de Philip K. Dick, que imagina um mundo em que Hitler venceu a guerra. Apesar de ser uma obra fictícia, o autor não inventou as ideias e as práticas do Partido Nacional-Socalista, tudo foi fundamentado no que está extensamente documentado. Vemos como a eugenia era tratada como a mais alta CIÊNCIA.

Olhando tudo que aconteceu entre 1923 e 1945, devemos pensar duas vezes antes de aceitar ou rejeitar qualquer ideia. Não estou dizendo para não tomar vacina ou que a China vai dominar o mundo, mas quero alertar que devemos refletir antes de criticar e considerar algumas coisas como possibilidades, ainda que não concordemos 100% com elas. A solução está em investigar tudo. Mas para investigar, não basta duvidar, tem que estudar.  Pesquise em várias fontes sobre as notícias, compare os dados com o que você vê no seu dia-a-dia, procure saber sobre como funcionam as instituições políticas, jurídicas e sociais, aprenda sobre história, leia ficção de qualidade, dessas que tratam de temas profundos, nos trazem informações importantes e nos levam a refletir sobre quem nós somos. O cultivo da imaginação e da memória nos liberta das amarras dos governos, da mídia, dos revolucionários e dos demais mecanismos que tentam nos dominar.

Imaginação não significa mentira, como muitos entendem: é uma campo que nos permite simular cenários aproximados da realidade ; inclusive, a imaginação é a chama da filosofia e das demais ciência, pois para ir além do que é imediatamente dado, é necessário ter essa capacidade de juntar as informações e formular hipóteses que depois serão analisadas.  Imaginação e memória, quando educadas, iluminam nosso caminho para que superemos tempos difíceis, assim como nossa fé é fortalecida através do conhecimento e nos sustenta frente às adversidades – não uma fé superficial (como a cientificista), que nos ilude, mas uma que liberta nossa consciência e abre nossos olhos para a verdade, ainda que não seja fácil ou confortável.

Espero que as pessoas não lembrem apenas da estética do holocausto, mas da história real e que as hashtags usadas nas redes sociais no dia 27 de janeiro não sejam apenas repetidas, mas entendidas por seu significado:

We Remember – lembre do que aconteceu

Never Forget – nunca esqueça

Never Again – para que não aconteça de novo

O silêncio em face do mal é o próprio mal: Deus não nos considerará inocente. Não falar é falar. Não agir é agir.

Outros posts sobre Holocausto:

https://discursosemmetodo.wordpress.com/category/shoah/

Coração de Leão: uma homenagem a sir Roger Scruton

“O conservadorismo advém de um sentimento que toda pessoa madura compartilha com facilidade: a consciência de que as coisas admiráveis são facilmente destruídas, mas não são facilmente criadas. Isso é verdade, sobretudo, em relação às boas coisas que nos chegam como bens coletivos: paz, liberdade, lei, civilidade, espírito público, a segurança da propriedade e da vida familiar, tudo o que depende da cooperação com os demais, visto não termos meios de obtê-las isoladamente. Em relação a tais coisas, o trabalho de destruição é rápido, fácil e recreativo; o labor da criação é lento, árduo e maçante. Esta é a grande lição do século XX.” – Sir Roger Scruton

Hoje faz um ano que o filósofo sir Roger Scruton faleceu depois de uma batalha contra o câncer e me sinto no dever de homenageá-lo devido à importância que teve no cenário mundial e especialmente brasileiro, mas também por ter sido um marco na minha vida pessoal e acadêmica.

Fui apresentada ao trabalho de Scruton graças a um amigo da faculdade. Apesar de nunca ter concordado com qualquer ideia de esquerda sobre política e economia, estava me aproximando numa pauta cultural – talvez a mais perigosa delas: feminismo. Eu me dizia “feminista conservadora”, claramente sem entender o que significava ser conservadora. Foi quando esse amigo disse que eu deveria ler “Como ser um conservador”. Aceitei a dica, foi um dos melhores livros que li na vida e isso me mudou profundamente. Essa obra de Scruton me ensinou o que verdadeiramente significa ser conservador e qual o valor da tradição. Em seguida, assisti “Por que a Beleza importa”, documentário que abriu meus olhos para o que realmente significa filosofar: buscar o que é bom, belo e verdadeiro (a sabedoria).

Roger Vernon Scruton nasceu em 1944, penúltimo ano da Segunda Guerra Mundial, no interior da Inglaterra, na pequena cidade de Buslingthorpe, condado de Lincolnshire, cuja economia é essencialmente rural, então sabemos que cresceu cercado por campos verdejantes e arquitetura medieval, uma mistura de simplicidade com elegância, duas características que descrevem muito bem a pessoa que ele se tornou.  Até o ano de seu nascimento mostra um traço de sua personalidade: por pouco escapou de ser um baby boomer – a geração nascida após a guerra e que se tornou uma geração marcada pelo movimento hippie e outras rebeliões contra os costumes. Desde garoto, se dedicou à vida intelectual e artística. Talvez nunca tenha imaginado a tarefa que iria empreender: resgatar o trabalho que foi começado por outro britânico um século e meio antes. Fé, amor, senso de dever e um grande talento o colocaram nesse caminho.

Edmund Burke – filósofo britânico que é considerado o pai do conservadorismo e que escreveu, dentre outras coisas, sobre política e beleza – estudou de perto a Revolução Francesa e escreveu um livro (Reflexões sobre a revolução na França) contra a ideologia que serviu de base para a mesma, criticando quem preferia destruir tudo ao invés de reformar o que havia de errado e preservar o que havia de bom e admirável. Aos 24 anos, Scruton foi à Paris e presenciou as terríveis manifestações estudantis de 1968. A partir daí, começou a estudar esses movimentos. Ele foi contemporâneo de alguns ideólogos como Derridas e Galbraith, chegando a dissecar e contrapor o pensamento deles em livros como “Pensadores da Nova Esquerda” e sua continuação, “Tolos, fraudes e militantes”. Tanto Burke quanto Scruton basearam seus argumentos não apenas na lógica, mas também nos exemplos encontrados na História inglesa e na tradição de seu povo. Eram homens que amavam o país e a cultura, mas acima de tudo, amavam a verdade.

De acordo com a tradição popular medieval anglo-saxã, o lendário Rei Arthur retornaria quando seu povo mais precisasse. Como comentei no texto sobre cavalheirismo (para quem não leu, vou deixar o link no fim do post), o rei Arthur e seus cavaleiros representam a junção do ideal do forte e corajoso guerreiro saxão com o modelo de vida sacrificial cristã. É algo ao mesmo tempo universal e propriamente britânico. A impressão digital de um povo inserida em algo maior.

Você deve estar se perguntando o que isso tem a ver com o assunto: é algo significativo por que é o fundamento da identidade inglesa e foi essa tradição que moldou o pensamento de Roger Scruton e salvou essa nação algumas vezes quando a Europa tinha caído, como quando derrotaram a “Invencível” Armada Espanhola, o imperador francês Napoleão Bonaparte e o líder do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores da Alemanha, Adolf Hitler. De fato, parece que em tempos difíceis, “homens arturianos” são levantados (eu e meu pai os chamamos de Guardiões da Ilha): do Rei Henrique V até sir Winston Churchill.

Eu classificaria Scruton como um homem arturiano, ainda que tenha travado batalhas de outras formas. Durante a Guerra Fria, ajudou a fundar faculdades clandestinas nos países do leste europeu que estavam sob o domínio da União Soviética. Não voltou atrás quando foi humilhado por colegas professores em grandes universidades ou quando tentaram “cancelar” seus livros apenas por que suas opiniões contrariavam o pensamento hegemônico – esse pós-modernismo que aceita tudo e faz com que “tudo” signifique “nada”. Ele poderia ter ficado calado, ter sido politicamente correto e teria tido uma carreira de sucesso sem grandes dificuldades. Mas ele optou por defender seus princípios e conquistar a vitória com sangue, suor e lágrimas.

O conservador é cético e esperançoso ao mesmo tempo. Não acredita que haverá perfeição na Terra, mas sabe que a Perfeição em si é boa, bela e verdadeira e deve ser buscada a qualquer custo, pois ainda que seja inalcançável, ilumina o mundo e torna nossa vida melhor, mesmo em meio a tudo que temos que enfrentar. É isso que Platão diz sobre o trabalho do filósofo: sabe que nunca será plenamente sábio, mas não se contenta com a ignorância. É assim que deve ser a vida do cristão: sabe que não será totalmente igual a Cristo, mas deve tentar viver como Ele. É uma maneira de dar sentido à existência e entender o que significa ser humano.

Roger Scruton conseguiu transmitir tudo isso de forma magistral e comoveu muita gente, especialmente no Brasil. Ele foi fundamental para a transformação cultural e política do nosso país, algo que ele sabia e tinha orgulho. Scruton nos ensinou a essência do conservadorismo e nos instruiu a buscarmos nossas raízes e desenvolvermos nosso próprio movimento, de acordo com nossa herança e nossas necessidades enquanto nação. Nos mostrou que é preciso sair do campo político e contemplar a Beleza, pois o conservadorismo é muito mais sobre coisas transcendentes do que sobre coisas terranas, pois é fundamentado no amor:

“A esquerda se une pelo ódio, mas nós (conservadores) nos unimos pelo amor: amor pelo país, pelas instituições, pela lei, pela família, e por aí vai. Nós queremos proteger o que eles querem destruir.”

Suas últimas palavras públicas foram ditas ao jornal The Spectator em dezembro de 2019, quando fez um resumo do ano, basicamente um parágrafo por mês. Foi um ano conturbado, em parte por conta do tratamento contra o câncer, também por causa dos ataques contra sua reputação devido às opiniões sobre a questão islâmica na Inglaterra. Ele foi atacado pelo próprio Partido Conservador, tendo sido destituído do cargo no departamento de arquitetura e urbanismo. Ele comenta também sobre coisas boas, como o carinho recebido pela família e pelos amigos, e sobre a recepção que teve em dois países nos quais ele é considerado um herói: Polônia e Brasil. Devido ao trabalho contra o comunismo no leste europeu, o governo da Polônia lhe condecorou com a Ordem do Mérito. Ele registrou que o embaixador britânico não compareceu ao evento, provavelmente para não ser associado a ele, e diz que voltou para a Inglaterra “com um coração cheio de gratidão por um país onde eu seria bem recebido como refugiado”. Logo depois, comenta que: “não seria o único país [a me receber de bom grado como refugiado], pois por razões que desconheço, tenho um fã clube no Brasil”, onde, em suas palavras, há uma multidão de jovens empenhados em salvar a civilização ocidental no lugar mais distante onde ela chegou – o próprio Brasil (quem ainda não assistiu a série A Última Cruzada, da Brasil Paralelo, recomendo assistir). O último parágrafo, sobre o mês de dezembro, foram as belas palavras que traduzo a seguir (grifos meus):

“Durante esse ano, muita coisa foi tirada de mim – minha reputação, minha posição como intelectual público, meu posto no movimento conservador, minha paz de espírito, minha saúde. Mas muito mais me foi dado: a generosa defesa de Douglas Murray e os amigos que batalharam com ele, o reumatologista que salvou minha vida e o médico que cuida de mim. Caindo em meu país, fui alçado ao topo em outros locais, e olhando para toda essa sequência de eventos, só posso estar feliz de ter vivido tempo suficiente para ver isso acontecer. Chegando perto da morte, você começa a saber o que a vida significa, e ela significa gratidão.”

OBS: mais uma coincidência entre Scruton e Burke, ainda que por motivos opostos, é que Burke nasceu no dia 12 de janeiro.

A Necessidade do Cavalheirismo:

https://discursosemmetodo.wordpress.com/2020/07/15/a-necessidade-do-cavalheirismo/

A Última Cruzada:

BIDEN NÃO GANHOU

Não ganhou e mesmo que ganhe, não terá um mandato fácil. Esse anúncio da vitória de Biden se trata de PROJEÇÃO DA MÍDIA.

É preciso ter cuidado com isso: a mídia anunciou a vitória de Biden no Arizona, apontando que 95% dos votos haviam sido contados – mas apenas 80% haviam sido apurados. A diferença entre os dois candidatos estava bem apertada, não era possível indicar um vencedor antes de fechar a conta. A atualização mais recente (90%) indica que Trump diminui para menos de 1% a margem de diferença entre ele e Biden, como indica matéria do Daily Wire publicada no dia 07 de novembro (https://www.dailywire.com/news/arizona-trump-cuts-biden-lead-to-less-than-1).

Fora isso, em alguns locais a contagem não terminou, como no Alaska. Em outros, já foi anunciada a recontagem dos votos – como na Geórgia, um dos Estados-chave na disputa.

Existem os Estados “Solid Republican” ou “Red States” (Estados Vermelhos – em referência à cor do partido), aqueles que votam mais no Partido Republicano. Existem os “Solid Democrat” ou “Blue States” (Estados Azuis) (engraçado que “blue” também pode significar “triste”), aqueles que votam mais no Partido Democrata. Isso raramente muda, mas pode acontecer, como no caso de Ronald Reagan (Rep-Califórnia): além de ter sido governador da Califórnia (um Blue State), na eleição presidencial de 1980 ele levou 44 dos 50 Estados e na reeleição (1984) levou 49 dos 50 Estados (só perdeu em Minnesota).

Existem ainda os “Swing States”, aqueles que ficam pendendo entre um lado e outro, conhecidos também como “Purple States” (Estados Roxos) ou “Key-States” (Estado-chave). Esses Estados indecisos são o campo de batalha de qualquer candidato à presidência dos EUA.

Além do voto por Estado, podemos analisar também o voto por condado. Nesse ponto, podemos notar um fenômeno interessante nessa eleição. Se observarmos um Swing State como a Flórida, Trump venceu em condados de maioria latina e negra, enquanto Biden venceu em distritos de maioria branca e de classe média/alta.

 Em reportagens que assisti durante a corrida eleitoral de 2016, percebi que um fator significativo da mudança de voto entre os latinos (na Flórida, a maioria deles vem de Cuba), foi a aproximação de Obama com o regime comunista cubano. Eles fugiram de lá por causa dos problemas causados pela esquerda e não querem que a América se torne socialista. Em 2016, Trump levou 48% dos votos. Em 2020, obteve vitória de 51%.

Podemos observar uma tendência de pessoas de “boa vida” de votar na esquerda, enquanto aqueles que trabalham duro são mais conservadores. Essas pessoas de “boa vida”, às quais o mundo foi dado, que não sabem que a liberdade tem um preço e que não tiveram que suar pela prosperidade, acham que podem confiar em políticos que prometem resolver os problemas do mundo, querem ser protegidas sem custos e não suportam ser contrariadas. Essas pessoas não têm noção da realidade e não se preocupam com valores morais.

Tem também aquelas que ignoram a política: não olham os dois lados antes de atravessar a rua e quando são atropelados nem sabem o que as atingiu.

A tendência de países mais desenvolvidos de ceder para o comunismo disfarçado de social-democracia e Welfare State (Estado de Bem Estar Social) e o resultado catastrófico da implementação desse tipo de política foi analisada em muitas matérias do Instituto Mises Brasil, vou deixar alguns links no fim desse post.

Os Republicanos controlam o Senado. Os Democratas controlam a Casa dos Representantes (similar à Câmara dos Deputados), mas até agora já perderam 10 cadeiras – digo “até agora” por que a eleição não acabou e não vai acabar nem tão cedo. Vale lembrar também que com a confirmação da juíza Amy Coney Barrett, a Suprema Corte agora tem maioria conservadora – e quando se diz que um juiz da Suprema Corte é “conservador”, significa que ele vota de acordo com a Constituição e não tem histórico de ativismo judicial (nem para a Esquerda nem para a Direita).

Desse modo, um possível mandato de Biden (ou da sua vice, a mega-marxista Kamala Harris) será certamente difícil para os conservadores da América (e do mundo), mas também não significa que a esquerda vai conseguir tudo que quer.  Também é preciso ressaltar que nos EUA as eleições para Senado e Casa dos Representantes ocorrem a cada dois anos, são as chamadas Midterm Elections, o que significa que os Republicanos podem até ganhar o controle da Casa dos Representantes em 2022 e atar as mãos de Biden e Harris. Eu adoraria ver o ex- S.E.A.L.  Dan Crenshaw (Rep-Texas) no lugar de Nancy Pelosi (Dem-Califórnia) como líder dos Representantes.

Trump já falou que vai recorrer à Suprema Corte – de fato, já começou a fazer isso. O juiz Samuel Alito já determinou que o Estado da Pensilvânia separe as cédulas que chegaram depois das 8:00 da noite do dia 03 de novembro, como noticiado por Ashe Schow no Daily Wire em 07 de novembro (https://www.dailywire.com/news/justice-alito-hints-toward-SCOTUS-taking-up-case-of-pennsylvania-mail-in-ballots). Cabe destacar que nesse mesmo Estado, em maio de 2020,um ex-juiz eleitoral foi condenado por aceitar suborno para fraudar eleições locais (Filadélfia) em 2014, 2015 e 2016, como consta no site do Departamento de Justiça dos EUA (https://www.justice.gov/opa/pr/former-philadelphia-judge-elections-convicted-conspiring-violate-civil-rights-and-bribery ). O Patriot Post noticiou isso junto com uma crítica à fala da líder da Casa dos Representantes, Nancy Pelosi, que disse que a preocupação com fraude era uma invenção de Donald Trump (https://patriotpost.us/articles/70860-philadelphia-fraud-em-2020-05-22) .

Não se sabe o que será feito com essas cédulas, mas de acordo com Schow, isso é um indício de interesse da Suprema Corte no caso, ou seja, é bem possível que o pedido para que a eleição seja decidida judicialmente seja aceito. Rudy Giuliani (advogado de Trump e melhor ex-prefeito de New York) comentou que os Democratas e a mídia estão desrespeitando a Justiça ao proclamar a vitória de Joe Biden quando o resultado oficial ainda não saiu.

Isso também significa que a Suprema Corte não considera as acusações de fraude como “teoria da conspiração”, como a mídia tem feito parecer. São muitos os indícios de fraude.

 A revista Oeste noticiou a prisão de um funcionário dos Correios dos EUA, detido na fronteira com o Canadá. Em seu carro foram encontradas cerca de 800 correspondências não entregues, dentre as quais estavam cédulas eleitorais (https://revistaoeste.com/funcionario-dos-correios-dos-eua-e-preso-por-irregularidades/).

Alguns Estados já comunicaram erros e outros problemas técnicos na contagem dos votos, como foi o caso da Virgínia (https://sensoincomum.org/2020/11/05/condado-da-virginia-deu-votos-a-mais-a-biden/) e da Geórgia (https://conexaopolitica.com.br/ultimas/georgia-envia-investigadores-apos-identificar-problema-na-apuracao-do-condado-mais-populoso-do-estado/ ).

No Michigan, Ronna McDaniel (do Partido Republicano) diz ter identificado irregularidades no software usado para contagem dos votos, alegando que 6.000 votos de Trump foram para Biden – ainda não foi confirmado, tudo será levado à Justiça, mas caso seja confirmado, o problema será enorme: esse programa foi usado em 47 Estados (https://www.dailywire.com/news/michigan-gop-claims-software-glitch-switched-6000-republican-votes-to-democrat-47-counties-used-same-software).  

Em Detroit houve confusão por causa do número de fiscais de cada partido: a lei permite 134 de cada lado, mas o Partido Republicano contava com 225 e o Democrata com 250 (https://sensoincomum.org/2020/11/05/janelas-sao-cobertas-em-sala-de-apuracao-de-votos-em-detroit/ ).

No Daily Wire, Ryan Saayedra noticiou que o Procurador Geral do Texas, Ken Paxton, está indiciando a assistente social Kelly R. Brunner por acusações de fraude eleitoral, como apontou o resultado da investigação policial. Segundo a denúncia, ela solicitou o registro eleitoral de 67 pessoas com deficiência mental sem o consentimento das mesmas. A lei do Texas afirma que só um parente próximo pode fazer essa solicitação e apenas se indicado pela pessoa – além disso, as pessoas que foram declaradas pela Corte como mentalmente incapazes não estão aptas a votar. Ainda que sejam poucos votos, se isso for provado, indica que casos similares podem ter ocorrido. Greg Abbott, governador do Texas, declarou que a fraude eleitoral é real e que em seu Estado já estão investigando isso há tempos. Várias pessoas já foram presas por envolvimento em esquema de fraude nas eleições de 2018.

A polícia de Glendale, no Arizona, encontrou cédulas eleitorais que haviam sido descartadas – esse foi o caso que eu me lembrei de salvar a fonte, porém mais denúncias como essa estão sendo registradas (https://www.fox10phoenix.com/news/glendale-police-stolen-ballots-found-by-farm-worker).

No dia 04 de novembro, no Opinião no Ar, Ana Paula Henkel (medalhista olímpica e especialista em política americana), que mora na Califórnia e tem cidadania americana, contou que quando foi votar não pediram documento com foto nem confirmaram sua assinatura. Denúncias de alteração na data dos selos postais também estão sendo apuradas.

Para encerrar, cito o caso mais notório: os eleitores-fantasmas. Democratas são tão ruins que fazem raiva até depois de mortos.

Segundo o instituto Judicial Watch, 8 Estados excederam 100% da taxa de registro eleitoral, a saber: Alaska, Colorado, Maine, Maryland, New Jersey, Vermont, Michigan e Rhode Island – desses, apenas o Alaska não votou majoritariamente em Biden.

Isso significa que cédulas de votação foram enviadas para gente já falecida e/ou que mudou de local. Essa instituição identificou irregularidades num total de 353 condados em 29 Estados, indicando que estão registrados mais de 1.8 milhões de eleitores a mais do que a quantidade de cidadãos aptos para votar.

Para fazer esse cálculo, o registro eleitoral foi comparado com os dados dos censos de estimativa populacional feitos pelo American Community Survey entre 2014-2018. Alguns Estados foram processados pelo Judical Watch, dentre eles Pensilvânia e  Carolina do Norte, campos de batalha para Trump. A matéria completa foi publicada no dia 16 de outubro de 2020 (https://www.judicialwatch.org/press-releases/new-jw-study-voter-registration/).

A Public Interest Legal Foundation também informou que segundo seus estudos, 21 mil registros na Pensilvânia são de pessoas mortas – e 92% morreram há mais de 5 anos, ou seja, não existe desculpa para o cadastro não ter sido atualizado (https://publicinterestlegal.org/blog/pa-lawsuit-21k-deceased-on-voter-rolls-evidence-of-voting-activity-after-death/ ).

A conclusão mais óbvia é de que a mídia está omitindo informação para normalizar a idéia de uma vitória fácil de Joe Biden. No entanto, com base em todas essas informações, sabemos que o país está num estado de guerra política. Trump não vai ceder tão fácil. Se ele cair, vai cair atirando. Não só ele, mas todo americano. Essa eleição não foi sobre Direita e Esquerda, foi sobre a identidade da América. Ser americano não significa mais nascer no país mais livre e próspero do mundo ou viver nesse país até obter um documento que lhe confere cidadania americana: significa amar e defender os valores que tornam a América grande – que tornam o Ocidente grande.

Podemos também perceber que muitas pessoas têm o que o comentarista Adrilles Jorge chama de “ódio estético”: elas não ligam para política pública, não pensam nas consequências de um Green New Deal ou do uso do 5G ou coisas do tipo. Tudo é teoria da conspiração, não querem desconfiar de nada, apenas vão na onda de um discurso bonito sem ligar para os fundamentos. É bonito dizer que defende o Pantanal e o SUS. Pouco importa o que há por trás disso. Divulgar essas causas provoca a ilusão estética de que são pessoas atualizadas e compassivas. São os idiotas úteis. São o mesmo tipo de gente que apoiou a Revolução Francesa com seus ideais de “igualdade – liberdade – fraternidade” e se surpreendeu com o banho de sangue que se seguiu.

Conservadores agem da maneira oposta: é preciso preservar os valores que construíram a civilização e reformar aquilo que a prejudica, mas não se deve aceitar nada sem questionar, só por ser novo e atraente. Nós pensamos antes de emitir uma opinião e nossas opiniões são baseadas na lógica e nos fatos. Como diz Ben Shapiro: os fatos não se importam com seus sentimentos. Infelizmente, muita gente não entende que conservadorismo é uma filosofia política e acha que ser conservador é ser antiquado.

Sobre filosofia política e o cenário político nacional e internacional, é fundamental ler sobre o passado, não apenas se atualizar sobre o presente. Sem entender como chegamos até aqui, não temos como imaginar o que pode acontecer e traçar um plano para saber como agir daqui em diante. Deixo como recomendação os seguintes livros:

O Comunista Exposto (W. Cleon Skousen)

Como ser um conservador (sir Roger Scruton)

Tolos, fraudes e militantes (sir Roger Scruton)

Reflexões sobre a Revolução na França (Edmund Burke) (sobre esse, talvez eu faça uma leitura coletiva em 2021, quem se interessar, é só me avisar)

Por que o Brasil é um país atrasado? (Dom Luiz Philippe de Orléans e Bragança)

Mais uma vez peço perdão por ter feito um texto tão longo, mas não dava para cortar mais do que já cortei. Espero ter esclarecido a questão principal e farei atualizações sobre o caso assim que achar necessário. Quero reforçar o recado: desconfie de tudo e cheque as fontes. Antes de acreditar na mídia ou numa suposta vítima ou na suposta inocência de um suposto criminoso, PENSE. Veja filmes como To Kill a Mockinbird, A Caça, Duas Faces de Um Crime e O Quarto Poder.  Não se deixe ser enganado.

Até mais, folks!

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MATÉRIAS DO INSTITUTO MISES BRASIL:

Por que jovens de países ricos defendem socialismo –

https://www.mises.org.br/article/3149/e-facil-entender-por-que-os-jovens-dos-paises-mais-ricos-tendem-a-defender-mais-socialismo

Sobre a catástrofe da social-democracia na Finlândia –

https://www.mises.org.br/article/3025/hoje-a-finlandia-amanha-o-mundo-as-sociais-democracias-em-seu-ultimo-suspiro

Sobre a falácia do Welfare State dos países nórdicos:

https://www.mises.org.br/article/632/o-mito-do-assistencialismo-escandinavo-reexaminado

BRASIL PARALELO:

Teatro das Tesouras :

Fim das Nações:

End of Nations:

Feminismo x Feminilidade: a vida de Katharina von Bora

Nesse dia em que comemoramos os 503 anos da Reforma Protestante e dando continuidade a série sobre feminilidade bíblica, trago algumas informações e considerações sobre Katharina von Bora, a esposa de Lutero. No entanto, não é tão fácil ter uma visão correta sobre quem foi Katharina, já que ela mesma não deixou nada escrito sobre suas convicções pessoais e não foi objeto de atenção especial para ser registrada em sua época – foi “apenas” uma hausfrau (senhora do lar) competente e esposa de alguém importante.

Como falei no texto inicial da série (para quem não leu, tem o link no fim do post), precisamos contar a história de mulheres que foram exemplos positivos (apesar de não perfeitos) de feminilidade segundo a Bíblia. Katharina foi uma dessas, sem dúvida. “A esposa e mãe mais feliz da Alemanha”, como supostamente ela mesma disse. Valdecélia Martins diz que “conhecer um pouco da sua vida pode nos fazer perceber como a vida de uma mulher comum pode contribuir grandemente para que os planos e a glória de Deus se manifestem na História” (grifos meus).

 Se não contarmos essas histórias, elas serão contadas e corrompidas por pessoas que querem distorcer o Evangelho e a história da igreja para que se encaixem em suas ideologias. Isso aconteceu com a história de Katharina. Uma de suas biografias, talvez a mais conhecida no Brasil (não por sua qualidade, mas pela escassez de material em português), tem um viés feminista. Trata-se do livro “A primeira-dama da Reforma”, de Ruth A. Tucker. Essa obra é cheia de contradições, especulações e informações mal colocadas. Nos últimos capítulos, ela deixa bem claro que “se projeta” em Katharina, então preenche as lacunas com seus próprios pensamentos como se fossem os sentimentos da biografada. Ela também parece ter prazer em apresentar Katharina como uma mulher secular e que gostava de retrucar seu marido. Comentarei sobre esses aspectos depois.

Talvez o artigo “A feminilidade bíblica e a esposa de Lutero” (Valdecélia Martins) tenha sido uma resposta ao livro “A primeira dama da Reforma: A extraordinária vida de Catarina von Bora” – começando pelo título, já que ela não é nem chamada pelo próprio nome, é a “esposa de Lutero”. Esse livreto tem uma abordagem bem diferente e mais positiva do ponto de vista cristão, apesar de menos relevante do ponto de vista histórico – o que não é um defeito, já que a proposta não é tratar da vida de Katharina como um todo, mas destacar um aspecto. Outro livro que usei de referência foi o “Kate Luther” de D.D. William Dallmann.  

Valdecélia Martins alerta sobre o movimento feminista, especialmente sobre “feministas inovadoras de uma teologia que redefine a mulher”, e nos diz que é preciso “olhar para as mulheres atuantes na Reforma sem os óculos do feminismo”, pois esta ideologia é incompatível com o ensinamento bíblico por colocar o ‘empoderamento’ da mulher justamente em não cumprir a “função de parceira e auxiliadora estabelecida por Deus desde a Criação (Gn 2:8)”.

 Interessante ela ressaltar esse último ponto, pois realmente o papel de auxiliadora não foi uma consequência da Queda. Foi algo ordenado antes.  Infelizmente, ela ainda repete o conto de que algumas conquistas sociais foram fruto da luta feminista, o que eu discordo, mas não é assunto para esse momento. Porém ela diz que é uma “luta ilegítima, pois pauta-se numa motivação egoísta”, comentando ainda que é uma estratégia para minar as tradições, destruir o casamento e alienar pais e filhos.

Martins diz que “a Reforma Protestante fundamentou-se, essencialmente, na volta a este padrão bíblico [de valor do casamento]”, ou seja, algo que já fazia parte do cristianismo primitivo e foi perdido ao longo do tempo, afirmando ainda que a Reforma favoreceu a dignidade da mulher como dona de casa, esposa e mãe. Particularmente, acho que o protestantismo talvez tenha deixado a mulher solteira desamparada, já que antes ela podia se refugiar na relativa segurança de um convento, mas esse é um problema que não vale a pena discutir.

Sobre a vida de Katharina de Bora, sabemos que ela nasceu em 1499 e foi mandada para um convento aos 5 anos, depois que a mãe morreu e o pai casou novamente. Fugiu do convento na Páscoa de 1523, junto com outras freiras, indo parar em Wittenberg, epicentro da Reforma Protestante. Lá, todas casaram ou voltaram para suas famílias, exceto ela.

 Depois de uma promessa de casamento não cumprida (pelo rapaz), ela continuou solteira, em parte por não aceitar qualquer um, em parte por talvez não ter aparecido mais ninguém. Dizem que ela sugeriu que só casaria com Nicolau Amsdorf ou o próprio Lutero. Em 1525, aos 26 anos, casou-se com o Doutor Lutero, que já tinha 42 anos.

O casamento de ex-monges com ex-freiras era um escândalo na época, já que ambos estavam quebrando um juramento feito perante Deus. Vale lembrar que o casamento de clérigos era comum antes de 1079, mas Tucker esquece de mencionar isso e trata como sendo algo inovador. Mais uma vez, era um retorno às origens.

O que pode parecer estranho para nossa época, é que os dois não se amavam, mas nutriam afeto e respeito um pelo outro, algo que é muito mais importante: amor se constrói com o tempo, o que inicialmente é fundamental é uma avaliação racional e a noção de responsabilidade e compromisso, algo que os dois foram cuidadosos de observar antes dos votos de casamento e que deu certo. Sabemos disso pelo que foi registrado nas cartas de Lutero, onde ele carinhosamente se refere a ela e deixa claro que passou a amá-la. Tucker reclama que por vezes ele zomba de Kathe e fala sobre ela de modo grosseiro. Nada fora do normal num casamento.

O casal teve seis filhos nascidos vivos, dos quais apenas 4 atingiram a idade adulta. A morte das filhas foi um momento marcante, como também um aborto natural que a deixou muito doente. A família ainda enfrentou invasões, perseguições e ondas de peste negra, além de problemas financeiros. Faleceu em 1552, aos 53 anos, cerca de 6 anos após o marido (que faleceu em 1546).

Durante sua vida, Katharina von Bora tomou conta do Mosteiro Negro como uma pensão,sendo conhecida por sua hospitalidade; atuou como uma espécie de curandeira (conhecimentos medicinais básicos aprendidos no convento), fazendeira, fabricante de cerveja, negociante e uma dona de casa diligente, mãe dedicada e uma boa esposa, uma hausfrau completa e exemplar.

Martins destaca a “relação perfeita de interdependência” que deve existir num casamento e que foi notável no casal Lutero. Ela pode não ter composto hinos ou ajudado com os sermões como fez Sarah Kalley, mas sua suposta falta de preocupação teológica não a fez menos importante. Ela cuidava da saúde e das finanças de Lutero, o que o ajudou a continuar seu trabalho, já que tinha um porto seguro em casa e não tinha que cuidar de tudo sozinho. Essa foi a forma de Katharina servir à obra de Deus. Dallmann cita algumas cartas de Lutero: “Em casa, eu deixo o domínio para Kate”. “Deus seja louvado, pois eu tenho uma mulher piedosa e fiel em quem o coração de um marido pode confiar. ” Ele a chamava de “estrela da manhã de Wittenberg”, por que ela acordava cedo para trabalhar. Também a chamava de “minha patroa”. Pelas cartas, é possível notar senso de humor e intimidade entre os dois.

A acusação de “secularismo” se baseia em alguns supostos questionamentos que ela teria feito ao marido, na falta de relatos sobre sua devoção e por seu marido, em cartas, lembrá-la de que deve orar e não se preocupar, pois preocupações faziam parecer que Deus não é Todo Poderoso – nada disso é suficiente para alegar que ela não ligava para a vida religiosa e temos motivos para pensar o contrário.

Ela o ajudou a enfrentar a depressão. Tem uma história de que numa das crises de Lutero, ela teria se vestido “no mais negro luto”, como diz Dallmann. Quando o marido perguntou o motivo, ela teria dito que “Deus morreu”. Nietzsche largou o seminário antes de ouvir o fim da história. Resumindo: ele teria se indignado e dado um pequeno sermão sobre como Deus é Eterno, ao que ela respondeu que pela atitude de desesperança dele, parecia mais que Deus tinha morrido, o que o teria feito retomar o ânimo e continuar o trabalho. Dallmann comenta que “se isso não é literalmente verdade, é verdade em espírito”.

Nas palavras de Martins, ela “soerguia o esposo para o lugar da sua missão”. Uma missão que poderia tirá-lo dela para sempre, como nos lembra essa autora. Isso mostra que ela não agia em interesse próprio, mas tinha noção de que estava envolvida em algo importante e que sua função era apoiar o marido e cuidar dele, dando suporte para que ele continuasse seu trabalho, ao invés de ser uma esposa mesquinha que apenas quer que seus desejos sejam satisfeitos.

Sobre a submissão, já postei um mini-texto no Instagram, por isso vou comentar brevemente aqui o que não expliquei lá (ainda que não tão bem quanto o Magister Philip explicaria): a palavra vem do latim sub (estar debaixo de) e missio (ser enviado para), ou seja, quer dizer estar sob a mesma missão. Martins diz que “a compreensão dessa verdade foi  evidência na vida de Catarina von Bora.” Ela não era igual ao marido – se fosse, não poderia ter preenchido os espaços em branco da vida dele.

Preserved Smith diz que Lutero inaugurou a “era do casamento”, contrastando tanto com a licenciosidade da antiguidade quanto com o asceticismo medieval, pois na Reforma, o casamento e a vida familiar foram exaltados como presente de Deus e como ambiente para desenvolver as virtudes cristãs. Dallmann diz que “Lutero devolveu ao pai cristão o sacerdócio original como cabeça da família”.

Claro que Katharina tinha seus defeitos e posso apostar que a maioria dos protestantes não imagina os líderes, mártires e demais figuras significativas da história da igreja como imaculadas. Talvez ela realmente retrucasse o marido, como diz Tucker. Algo comum e inevitável, mas certamente não algo legal como Tucker faz parecer. Parece que também era orgulhosa, talvez até fosse chatinha, não sabemos. O que sabemos é que realmente algumas pessoas não gostavam dela. No caso de alguns, é até compreensível a visão de Katharina como uma pedra no sapato, já que viam que seria melhor para os rumos da Reforma que Lutero estivesse mais livre e preocupado apenas com questões teológicas, sem ninguém o influenciando nem tomando seu tempo com coisas domésticas. Essas coisas não desmerecem o resto: “Temos esses tesouros em vasos de barro para que a excelência do poder seja de Deus e não nossa.” ( 2 Co 4:7 )

Minha observação particular sobre a feminilidade de Katharina é a falta de delicadeza. Francine Walsh (do blog e canal Graça em Flor) diz que tanto o feminismo quanto a “feminilidade açucarada” distorcem o verdadeiro papel da mulher. Muita gente tem uma visão de feminilidade como pura delicadeza e subserviência, o que não condiz com a verdade. Certamente a mulher deve ser gentil, mas também firme. Não se trata de ser uma princesinha frágil num castelo. Inclusive, se deixar levar pela própria fraqueza é uma falha na mulher. Uma camponesa com mãos calejadas de tanto trabalhar pode ser tão verdadeiramente feminina como uma sofisticada mulher da nobreza .

Martins comenta que “nem sempre nos damos conta, mas o feminismo sutilmente influencia nosso dia a dia, nossa maneira de administrar nosso lar, criar nossos filhos, nossa maneira de vestir, nossas relações conjugais e até mesmo nossa teologia.” Frequentemente vejo pessoas que não se identificam com o feminismo repetindo jargões feministas e indo na mesma direção que elas. Eu mesma já fui uma dessas pessoas. Deixamos nos levar por desejos pessoais e propaganda mundana.

Não é isso que o Senhor Deus quer de nós e se quisermos agir de acordo com Sua perfeita vontade, temos que deixar de lado nosso ego, aceitar correção e conselho e humildemente procurar a direção para nossas vidas na Palavra de Deus. Não podemos ignorar “dois ou três versículos” que dizem algo que não gostamos. Ainda que a mulher não queira casar, não deve ter desprezo pelos homens, nem pelo casamento ou pela maternidade. Não é por que essa não é sua vontade ou não é o seu chamado que a coisa em si deve ser desprezada. Também não é por não querer ser uma hausfrau como Katharina que você deve ser egoísta. É preciso encontrar uma forma de servir a Deus – não aos seus próprios interesses – e de acordo com sua natureza feminina – ou seja, sem tentar tomar um lugar social ou eclesiástico que não é seu.

O que devemos, em qualquer caso, seja no papel de solteira, casada, viúva, mãe, avó, etc, é buscar entender o que diz a Bíblia sobre como a mulher deve ser e também não podemos nos alienar em relação aos movimentos ideológicos que estão influenciando o mundo em que vivemos. Devemos estudar, ficar alertas e nadar contra a corrente sempre que necessário. O mesmo vale para os homens.

Ainda tinha muito que falar sobre Katharina e algumas críticas a fazer sobre o livro “A primeira-dama da Reforma”, mas ficará para outro dia, pois o assunto é extenso e escrevi esse texto de última hora, só para não passar em branco e para cumprir a agenda (como vocês devem ter percebido, estou levando cerca de 1 ano para escrever sobre cada assunto que comento que achei interessante, se eu seguir nesse ritmo, só vou escrever sobre Feminilidade Radical lá para o fim 2021, quando vocês já vão ter lido ou perdido o interesse, mas farei o possível para agilizar, por que esse é brilhante e importantíssimo, JURO). Espero que vocês tenham gostado. See you later, fellows!

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Tolkien e as guerras

A trilogia O Senhor dos Anéis (A Sociedade do Anel, As Duas Torres e O Retorno do Rei) foi escrita por J. R. R. Tolkien entre as décadas de 1930 – 1940 e lançada na de 1950. Para quem ainda não conhece, o acesso mais fácil é através dos filmes do diretor Peter Jackson (inclusive O Retorno do Rei é um dos meus 3 filmes favoritos da vida, junto com A Lista de Schindler e Gladiador).  

O autor serviu no Exército Britânico durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e o desenvolvimento do livro se deu durante a ascensão do nacional-socialismo na Alemanha (Tolkien inclusive enviou uma carta de resposta aos nazistas, link no fim do post) e o fascismo na Itália, além do comunismo que já se instalara na União Soviética e a subsequente Segunda Guerra.

Essa informação é importante por que a vida dele e o contexto histórico no qual estava inserido pode não ter uma ligação explícita com o mundo fictício que ele criou, mas é notável que o sentimento do que foi vivido e observado influenciou sua obra: temos Sauron, um ditador que usa de magia, manipulação e força física para expandir seu território e dominar outras raças; temos também alguns seres como hobbits, anões e elfos, que deixam a segurança do lar e vão para o campo de batalha enfrentar um mal terrível que pretende despedaçar tudo o que mais amavam. Podemos entender isso ao observar o seguinte trecho do segundo volume da trilogia que é uma das minhas citações favoritas de toda a literatura:

A guerra deve acontecer, enquanto estivermos defendendo nossas vidas contra um destruidor que poderia devorar tudo; mas não amo a espada brilhante por sua agudeza, nem a flecha por sua rapidez, nem o guerreiro por sua glória. Só amo aquilo que eles defendem: a cidade dos homens de Númenor, e gostaria que ela fosse amada por seu passado, sua tradição, sua beleza e sua sabedoria presente.

J.R.R.Tolkien em “As Duas Torres”

       Durante as Grandes Guerras do século passado, as pessoas comuns tiveram que arriscar suas vidas para garantir a segurança de toda a nação. Passaram por grande sofrimento, tanto quem combatia diretamente, quanto quem dava suporte – cidadãos que colaboraram com o esforço de guerra em vários setores como produção de alimentos e medicamentos, telefonia e serviço postal. Nessa situação, foi possível perceber que até o menor dos indivíduos, assim como os pequenos hobbits, era fundamental para alcançar a vitória.

          Havia várias camadas nessas guerras: questões políticas, socais, economias e ideológicas. No entanto, para as pessoas comuns, a guerra era necessária por outras razões: proteger a família, preservar a tradição e a liberdade. Essas pessoas são representadas por Tolkien nas criaturas (hobbits, anões, elfos, humanos e magos) que participam ou dão apoio à Sociedade do Anel – o grupo cuja missão é destruir o Um Anel (artefato que dá poder ao vilão Sauron) para libertar os habitantes da Terra Média da opressão a qual eram submetidos.

“A coragem pode ser encontrada em lugares improváveis”

J. R. R. Tolkien em “A Sociedade do Anel”

            O autor atribui às personagens sentimentos de medo, dor, cansaço; também mostra suas virtudes, como lealdade, amizade, honra, coragem, solidariedade e muitas outras. Isso de fato se assemelha às histórias reais de sacrifício e altruísmo que aconteceram durante as guerras, como os casos de Irena Sendler e Oskar Schindler. O plano é fictício, mas os sentimentos são reais e muitas vezes causam um impacto maior do que uma biografia ou documentário fariam. Em “Para ler literatura como um professor”, Thomas Foster diz:

“Ler literatura é uma atividade altamente intelectual, mas também envolve afeto e instinto em graus elevados. Muito do que pensamos sobre a literatura, antes sentimos. Ter instintos, no entanto, não quer dizer automaticamente que funcionam no nível mais alto. […] Quanto mais você exercita a imaginação simbólica, melhor e mais rápido ela funciona. […] Imaginação não é fantasia. […] A imaginação do leitor é o ato de inteligência criativa que se envolve com outra.”

            Meu trabalho de conclusão de curso foi basicamente sobre isso e esse post é uma adaptação de parte dele. Mas não foi só sobre “imaginação simbólica”. No artigo, peguei o exemplo de alguns livros como Contos da Cantuária e O Mercador de Veneza para tratar sobre como clássicos da literatura podem ser aproveitados de várias formas.  O Senhor dos Anéis também pode ser aproveitado de outra forma além da moral e afetiva. Dá para aprender muito sobre inovações militares da época, só é preciso pesquisar, já que não é algo tão óbvio para quem não entende do assunto.  Por exemplo, os nazgûl são descritos de forma similar à cavalaria alemã, enquanto os olifantes exercem uma função que pode ser comparada à dos tanques de guerra. Porém, a coisa que mais me chama atenção é o efeito que o Um Anel e toda a jornada causaram em Frodo: é como o shell shock, estresse pós-traumático identificado nos veteranos da Primeira Guerra.

     Os sintomas se manifestavam de forma física e psicológica, como cegueira temporária, paralisia, ânsia de vômito, tremores e fortes crises de ansiedade e depressão. Não vi nenhum registro sobre o próprio Tolkien ter passado por isso, mas certamente conheceu pessoas que adquiriram esse quadro clínico. Simon Tolkien, neto do autor, em matéria da BBC, disse:

“O companheirismo de Frodo e Sam nos últimos estágios da jornada ecoa os laços profundos que foram formados pelos soldados britânicos ao enfrentarem tão grandiosas adversidades. Todos eles compartilharam da coragem que é a mais valorizada das virtudes em O Senhor dos Anéis. E então, quando a guerra acabou, Frodo teve o mesmo destino que muitos veteranos que permaneceram com cicatrizes invisíveis quando voltaram para casa como pálidas sombras das pessoas que um dia eles foram” (tradução livre)

O Senhor dos Anéis é uma saga complexa, importante e preciosa (beijos pra quem entendeu a referência) (quem não entendeu, assista/leia Senhor dos Anéis). Sua relevância é cultural, histórica e até mesmo pedagógica, pois pode contribuir muito para a aquisição de conhecimento de forma lúdica, porém rica de significado. A complexidade da estrutura literária e da estética linguística de Tolkien (mais no original, mas muito foi preservado na tradução também) não deve ser um empecilho, mas uma motivação para se aventurar por esse mundo tão encantador, que mistura tradição com inovação e fantasia com realidade, capaz de fascinar um público de qualquer idade.        

Padre Paulo Ricardo sobre O Senhor dos Anéis e o cristianismo:

REFERÊNCIAS:

FOSTER, Thomas C. Para ler literatura como um professor. Tradução de Frederico Dentello.  São Paulo: Lua de Papel, 2010.

TOLKIEN, John Ronald Reuel. A Sociedade do Anel. Tradução de Lenita Maria Rímoli Esteves e Almiro Pisetta. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

_______________. As Duas Torres. Tradução de Lenita Maria Rímoli Esteves e Almiro Pisetta 2.ed. 13. reimpressão. São Paulo: Martins Fontes, 2014.

BBC. Tolkien’s grandson on how World War I inspired The Lord of The Rings. London, 2017. Disponível em <https://www.bbc.com/culture/article/20161223-tolkiens-grandson-on-how-ww1-inspired-the-lord-of-the-rings>

Resposta de Tolkien aos nazistas:  https://oportaln10.com.br/o-dia-em-que-jrr-tolkien-criticou-o-nazismo-e-adolf-hitler-75750/

Curiosidades sobre Tolkien: https://www.megacurioso.com.br/literatura/49176-10-coisas-que-voce-provavelmente-nao-sabe-sobre-j-r-r-tolkien.htm

O ateísmo da igreja primitiva – e por que o cristão deve se posicionar politicamente

O estudo sobre a igreja primitiva tem sido negligenciado fora dos círculos acadêmicos cristãos, o que é lamentável. Eu mesma era uma dessas pessoas que tem uma visão superficial sobre o assunto, acreditando que era um período de perseguições e martírios relevantes do ponto de vista histórico, mas que não encontrava paralelo com a atualidade; por tanto, deveríamos saber sobre os acontecimentos apenas para honrar a memória daqueles que lutaram para que o Evangelho fosse propagado e para que hoje possamos livremente professar nossa fé em Jesus Cristo, ao menos no Ocidente. Não poderia estar mais enganada…

No Oriente islâmico e/ou comunista, a perseguição é declarada e violenta: os cristãos são proibidos de exercer cargos públicos, de realizar reuniões, são presos, torturados, entre outras coisas (já fiz resenha de “Deus é vermelho“, um livro sobre o cristianismo na China, o link está no fim desse post). No Ocidente, a perseguição é mais sutil e a principal arma anticristã é o ativismo judicial. Questões como aborto e legalização de drogas são alguns dos temas que fazem o cristão ser visto como um opressor que quer impor suas opiniões sobre os demais membros de um Estado supostamente laico. O fato de não podermos professar nossa fé publicamente sem sermos alvo de chacota, processos e até violência, deveria nos fazer buscar conhecimento sobre a história do cristianismo para entender como a Igreja tem enfrentado esse problema ao longo do tempo.

A relação entre cristianismo e política é importantíssima de ser observada e esse livro apresentada uma perspectiva relevante sobre o assunto. “O ateísmo na igreja primitiva” (Rousas J. Rushdoony ) é bem curto, pode ser lido num dia só, e apesar ter sido escrito nos anos 1980, continua bem atual, até por que parece que estamos passando por uma fase bastante similar. A explicação do título é simples: os primeiros cristãos, por adorarem um Deus invisível e se recusarem a reconhecer a divindade de César, eram considerados ateus e inimigos do Império Romano. Depois de explicar isso, o autor passa a comparar a igreja primitiva com a igreja contemporânea acerca de alguns assuntos.

“Enfrentamos ainda hoje duas lutas que marcaram a Igreja Primitiva desde o princípio. A primeira era a questão da soberania e do senhorio e a segunda, a do aborto.”

R. J. Rushdoony

Como mencionado na frase em destaque, o autor argumenta que os principais motivos pelos quais a igreja primitiva foi perseguida são os mesmos pelos quais a igreja contemporânea é perseguida.

Recentemente testemunhamos dois casos nesse sentido. Um deles foi o do pastor John MacArthur (link do texto sobre isso no fim do post), que se opôs à tirania do governador da Califórnia, afirmando que quem tem soberania sobre a Igreja é Deus e não o Estado. MacArthur declarou que o que está acontecendo é uma “discriminação intencional contra o cristianismo bíblico e a igreja”. As palavras foram bem calculadas: cristianismo BÍBLICO para diferenciar do “cristianismo” progressista que prega a não intervenção da igreja em questões morais por que o “Estado é laico”.

O outro caso foi o da menina de 10 anos que além de ter sido estuprada por anos e ter engravidado, foi submetida a um aborto. Os protestos dos cristãos conservadores contra um ato que torturaria duas crianças, matando uma e colocando em risco a vida de outra quando havia a opção de um parto seguro e pessoas dispostas a adotar o bebê, foi entendida como “fanatismo religioso” não apenas por esquerdistas e insentões ateus ou de qualquer outra religião, mas também por ditos “cristãos”. Se tivessem usado o termo “fundamentalistas”, eu não poderia reclamar: o cristão deve ter seus princípios religiosos como fundamento da sua vida, caso contrário, algo está errado.

Nenhuma decisão seria fácil nesse caso e todas as opiniões deveriam ser ouvidas e debatidas com respeito, mas o curioso é que a mídia passou a focar na atitude anti-aborto dos cristãos como se esse fosse o problema e – mais sórdido ainda – como se isso significasse apoio ao real criminoso. Uma atriz chegou a dizer que “fundamentalistas religiosos esbravejam e expõe uma criança para que ela seja obrigada a parir”. A abordagem foi completamente enviesada. Não foi isso que aconteceu. Tenho um amigo frade que falou que vários jovens “católicos” estavam criticando a Igreja Católica por ter oferecido ajuda para a menina manter a gravidez e entregar a criança para adoção, tratando isso como crueldade por parte da igreja. No entanto, essas mesmas pessoas que são contra o aborto, defendem prisão perpétua (e até pena de morte) para pedófilos e estupradores em geral, enquanto os que acusam os cristãos são os primeiros a dizer que pedofilia é doença e que criminosos são vítimas da sociedade que merecem receber tratamento humanizado.

Até mesmo certo teólogo famoso no Youtube resolveu tratar o assunto dessa maneira, falando contra o “cristianismo cultural” e tomando as ações de uma ativista específica como se esta representasse o pensamento geral. No caso dele (que também foi contra MacArthur) é notável uma vontade de se distanciar de “ideologias políticas”. O discurso comum é de que não se deve misturar religião com política e que o cristianismo está acima de ideologias – o que é verdade, mas isso não é razão para não se posicionar, muito pelo contrário: “porque você é morno, nem frio nem quente, estou a ponto de vomitá-lo da minha boca.” (Ap 3:16).

A diferença é que o cristão sabe que filosofias humanas são imperfeitas e não há homem que possa salvar o mundo e estabelecer um Paraíso na Terra. O credo de alguns grupos políticos se assemelha mais aos princípios cristãos do que outros. Não é difícil escolher, basta checar na Bíblia se o Senhor Deus aprova homossexualismo, a consideração de mais de dois gêneros, o aborto voluntário, o confisco de propriedade privada, etc. E tomar partido na guerra político-cultural não significa concordar cegamente com as reivindicações de um grupo. Ter uma postura cautelosa e crítica é um dever.

“As passagens usadas por algumas pessoas para sustentar a idéia de que o Novo testamento passa ao Estado um cheque em branco para fazer (quase) tudo o que quiser (Rm 13: 1-5; 1Tm 2: 1-2), eram, na verdade, declarações de guerra contra a alegação de Roma a uma autoridade absoluta”

R. J. Rushdoony

O livro apresenta esclarecimento sobre algumas passagens bíblicas acerca da relação cristão x Estado, afirmando que é preciso conhecer o contexto no qual tais passagens foram escritas e para quem elas estavam sendo dirigidas. Sobre a questão do “Estado laico” e de “não misturar política com religião”, é preciso prestar atenção na História. O autor argumenta que o Estado sempre é religioso, pois ele mesmo se torna um deus. Isso era mais claro na Antiguidade, quando o homem se colocava abaixo dos deuses. Na nossa época, na qual o homem se vê como centro do universo, isso não parece tão claro, mas não deixa de ser verdadeiro. É mais notável nos casos das ditaduras comunistas como a antiga União Soviética, na qual o Estado era a solução para tudo e deveria ser reverenciado. Não se tratava de um sentimento de unidade nacional e tradição cultural, como observamos no patriotismo do Ocidente livre, mas dos cidadãos depositando a esperança no governo e este sendo o responsável por regular a vida pública e privada dos indivíduos. No caso da Coréia do Norte, a família Kim é literalmente adorada e até corte de cabelo é definido pelo Estado. Em “O Sagrado e O Profano”, o filósofo e historiador Mircea Eliade diz que o homem necessariamente tem um comportamento religioso (mesmo que se diga ateu). Isso significa, continua o autor, que no momento que retiramos Deus do debate moral, cabe ao Estado (o novo deus) determinar arbitrariamente o que é certo ou não.

No momento que o cristão decide se posicionar política e culturalmente, ele não está querendo impor seus ideais. A conversão não pode ser forçada. Ela acontece “de cima para baixo” sim, mas não é um processo [Estado –> indivíduo] através de leis, e sim [ Deus –> indivíduo]. A cristandade está ciente disso (diferente dos muçulmanos). Afinal, como disse o autor, esperamos a “salvação, não pela revolução, mas pela regenaração”. Defender os ideais cristãos através da legislação (e sua propagação através da cultura) tem a ver com garantir direitos universais concedidos por Deus: a vida e a dignidade humana. Se retirar do debate é o mesmo que relativizar a verdade e dizer que quem tem autoridade soberana é o Estado. Separar a vida religiosa da vida pública é o mesmo que transformar a religião num passatempo. O fundamento da sua vida tem que ser um só: Estado ou Deus. Igualar os dois é inferiorizar um.

 

“Vivemos, de fato, num tempo crítico no qual o mundo está desmoronando ao nosso redor e o que nos falta é aquilo que Roma denominava de “ateísmo” da Igreja Primitiva: o reconhecimento de que somente Deus é o Senhor.”

R. J. Rushdoony

Os cristãos primitivos não se curvaram ao Império Romano. Oravam por César, não para César. Isso colocava um cidadão comum no mesmo patamar (ou até acima) do imperador. Por isso foram perseguidos. Rushdoony argumenta (e eu concordo) que quando somos biblicamente orientados a obedecer as autoridades, isso não significa que devemos ficar quietos e aceitar tudo sem questionar, pois o Estado não é nem a única nem a principal autoridade. Nós também somos e devemos agir. Como servos de Deus, temos responsabilidades sociais, políticas e culturais. O autor critica a atitude de “deixar o cristianismo para o pastor”, quando cada crente deveria se engajar. Mas antes de se engajar, é preciso ter noção do que deve ser feito. É necessário estudar a Bíblia e buscar conhecimento extra-bíblico também: história do cristianismo, política, filosofia e demais questões culturais. É essencial conhecer o terreno no qual estamos pisando e “O ateísmo da igreja primitiva” é um excelente ponto de partida.

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DEUS É VERMELHO: https://discursosemmetodo.wordpress.com/2018/08/11/in-hoc-signo-vinces-%e2%9c%9d-parte-i/

CASO MACARTHUR: https://discursosemmetodo.wordpress.com/2020/08/21/igreja-e-estado-o-caso-john-macarthur-x-governo-da-california/

SOBRE O CASO DA MENINA: https://sensoincomum.org/2020/08/18/aborto-foi-realizado-com-substancia-proibida-ate-para-sacrificar-animais/