Conspiração, negacionismo e o Holocausto: como a memória e a imaginação iluminam tempos sombrios

Muito se tem falado atualmente sobre “teoria da conspiração” e “negacionismo científico”. É interessante ver essa fé cega que algumas pessoas depositam na “Ciência” como se esta fosse uma espécie de deus e não uma área do conhecimento na qual há divergências internas e pontos obscuros – assim como em qualquer outra. É igualmente interessante que essas mesmas pessoas se neguem a acreditar que a ordem atual das coisas pode sofrer alguma alteração. É até compreensível querer acreditar que a normalidade não será perturbada. É mais confortável psicologicamente e mais fácil intelectualmente, pois não exige que o indivíduo dedique tempo observando nuances na cultura e na política e estudando coisas antigas para tentar entender como a humanidade se desenvolveu até aqui, como enfrentou crises e qual o caminho que esse movimento histórico parece indicar para o futuro. Tudo isso dá trabalho e não é nem um pouco divertido.

Hoje é o Dia da Memória do Holocausto e o tema do “conspiracionismo” e “negacionismo” tem uma profunda relação com esse momento tão terrível da História recente. Muita gente se emociona com filmes que contam histórias dessa época, muita gente evoca o termo “nazista” para rotular oponentes políticos, tudo isso sem entender como as coisas realmente aconteceram.

Há 10 anos, li um livro chamado “Inverno na manhã”, de Janina Bauman (esposa de Zygmunt Bauman), uma jornalista judia polonesa que narra como ela e sua família conseguiram escapar da perseguição do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores da Alemanha (quem acompanha o blog desde o começo já deve ter notado que eu gosto de usar o nome completo do partido, isso por que lembro muito bem de professores socialistas criticando o “nazismo” como se fosse algo completamente apartado das ideais totalitárias que eles mesmos defendem e como se fosse uma ideologia de direita! Socialismo de direita!). É uma obra que gosto de recomendar, mas não vou fazer resenha no momento, quero apenas ressaltar um detalhe: o tio conspiracionista (obs.: não lembro se essa palavra é usada no livro).

Um tio da autora, antes da nomeação de Adolf Hitler como Chanceler do Reich em 1933, já alertava sobre os desdobramentos da influência política e cultural que o Partido Nacional-Socialista estava ganhando. Voltando 10 anos na História alemã, vemos o episódio que ficou conhecido como “Golpe da Baviera” ou “Putsch da Cervejaria”.  Era (mais um) momento difícil naquele recém-unificado país e o povo vivia debaixo da sombra da Grande Guerra(1914-1918), que além do prejuízo econômico e do luto, feriu também o orgulho nacional, deixando um rastro de ressentimento (e para entender melhor ainda como as coisas chegaram nesse ponto, é preciso estudar da Paz de Vestfália até a Primeira Guerra Mundial). Nesse contexto de crise, a Baviera resolve se separar do resto da Alemanha por discordar da política de Berlim. Foi então criado um governo provisório, regido por um triunvirato. Pouco tempo depois, enquanto os três líderes da Baviera discursavam numa cervejaria na capital (Munique), o local foi invadido por militantes do partido de Hitler, junto com ele próprio. O golpe fracassou – em parte. Hitler foi condenado à prisão em 1924, onde passou 9 meses – o tempo de gestação do seu livro “Minha Luta” (Mein Kampf).

Com todo esse histórico, e sabendo hoje o que aconteceu depois, quem de nós chamaria o tio da Janina de “conspiracionista”? Está claro hoje que ele foi capaz de perceber a infiltração de uma ideologia e uma tendência de prática política que estava ganhando forma. Ele fugiu antes das coisas piorarem, mas o resto da família não quis acreditar nos “exageros” dele. Foram então perdendo espaço pouco a pouco: uma família de bem estar financeiro que passou a morar no Gueto da Varsósia, primeiro com algumas restrições, depois de forma miserável, pois faltava comida, atendimento médico e acima de tudo, faltava liberdade.

Pouco a pouco, os judeus, eslavos e alguns outros grupos de “impuros” começaram a ser mandados para campos de trabalho forçado – locais onde também ocorriam experiências científicas cruéis e extermínio em massa.  Aliás, hoje passamos também por um momento de banalização das palavras: genocídio é um termo que carrega um significado de acordo com a etimologia e não com a vontade midiática de causar impacto emocional. Vem de geno = raça + cídio= matar, termo que foi criado por um advogado judeu para descrever o holocausto e foi usado nas descrições dos julgamentos do Tribunal de Nuremberg, a partir de onde se popularizou.

No início de 1933 aconteceu um atentado terrorista em Berlim: o incêndio do Reichstag (parlamento). Um comunista holandês foi identificado como autor do ataque e alegava que tinha feito isso sozinho. Hitler não era ainda o Führer, era apenas chanceler, mas soube aproveitar essa oportunidade para tomar o poder. A população assustada com o caos, acatou o aumento dos poderes do chanceler como sendo uma medida protetiva (“é para o seu bem”, igual o lockdown). Começou então uma caça aos comunistas que os professores socialistas gostam de ressaltar, da mesma forma que gostam de ressaltar que os soviéticos “ajudaram a derrotar os nazistas”, como se isso automaticamente tornasse o comunismo aceitável – o que requer que ignoremos a origem comum de ambas as ideologias, o breve momento de comunhão entre Hitler e Stalin, o fato de que o líder nacional-socialista apenas se aproveitou do acontecimento, a crueldade do Exército Vermelho e o modus operandi do regime soviético em geral. 

Voltando ao assunto principal, falemos da lição que esse momento histórico nos ensinou sobre ciência. Depois de ter consolidado o poder (perseguição aos opositores, desarmamento, censura,etc,o kit básico de totalitarismo), os planos do partido começaram a ser implementados. Eles já haviam sido divulgados antes, começando com “Minha Luta”, mas nesse momento, estavam sendo impostos com base numa suposta justificação histórica e científica.

Toda a cultura estava tomada: criaram a Reichskulturkammer, uma espécie de ministério da cultura, que utilizava a arte para propagar a ideologia do partido, criar uma sensação de união, paz e normalidade, ainda que houvessem muitos conflitos abaixo da superfície. Um breve comentário sobre a Reichskulturkammer e o ministério da propaganda: é um ponto que gostam de comparar com o conservadorismo por causa da ligação com os clássicos, a crítica ao modernismo e busca pelas raízes nacionais. No entanto, essa é uma visão muito rasa do conservadorismo. O “nazismo” era revolucionário e tinha o objetivo de criar uma nova e perfeita sociedade, através de engenharia social e controle tecnológico. O conservadorismo, ao contrário, está baseado na experiência histórica, e não num passado ou futuro utópicos; na percepção de que a natureza humana é imperfeita, e por isso não pode haver sociedade perfeita; de que a individualidade deve ser respeitada e a propriedade privada deve ser defendida (muita gente pensa apenas no sentido material, mas isso inclui a vida, que é nossa primeira propriedade); que instituições que historicamente se mostraram boas, úteis e belas devem ser mantidas e as demais devem ser reformadas ou destruídas; entre outros aspectos que podem ser melhor compreendidos ao ler obras como “Reflexões sobre a revolução na França” (Burke) e “Como ser um conservador” (Scruton).

A base do pensamento hitlerista, diferente de outros partidos nacionalistas ou trabalhistas, era a superioridade da raça ariana. Não era ser alemão que importava exatamente. Não era o passado em comum, o idioma ou as instituições que uniam a nação o que importava, e sim a aparência e a genética. Existiam livros escritos por cientistas que “comprovavam” a superioridade racial ariana. Era com base no avanço tecnológico que a eugenia era pregada e aplicada: eliminar deficientes e as raças inferiores para ter um futuro melhor (com base nisso Sanger criou as clínicas de aborto Planned Parenthood). Foram c-i-e-n-t-i-s-t-a-s que desenvolveram o projeto Lebensborn, cujo objetivo era criar crianças perfeitas, os melhores arianos possíveis. Para entender melhor, sugiro assistir a série “O Homem do Castelo Alto”, da Amazon, baseada na obra homônima de Philip K. Dick, que imagina um mundo em que Hitler venceu a guerra. Apesar de ser uma obra fictícia, o autor não inventou as ideias e as práticas do Partido Nacional-Socalista, tudo foi fundamentado no que está extensamente documentado. Vemos como a eugenia era tratada como a mais alta CIÊNCIA.

Olhando tudo que aconteceu entre 1923 e 1945, devemos pensar duas vezes antes de aceitar ou rejeitar qualquer ideia. Não estou dizendo para não tomar vacina ou que a China vai dominar o mundo, mas quero alertar que devemos refletir antes de criticar e considerar algumas coisas como possibilidades, ainda que não concordemos 100% com elas. A solução está em investigar tudo. Mas para investigar, não basta duvidar, tem que estudar.  Pesquise em várias fontes sobre as notícias, compare os dados com o que você vê no seu dia-a-dia, procure saber sobre como funcionam as instituições políticas, jurídicas e sociais, aprenda sobre história, leia ficção de qualidade, dessas que tratam de temas profundos, nos trazem informações importantes e nos levam a refletir sobre quem nós somos. O cultivo da imaginação e da memória nos liberta das amarras dos governos, da mídia, dos revolucionários e dos demais mecanismos que tentam nos dominar.

Imaginação não significa mentira, como muitos entendem: é uma campo que nos permite simular cenários aproximados da realidade ; inclusive, a imaginação é a chama da filosofia e das demais ciência, pois para ir além do que é imediatamente dado, é necessário ter essa capacidade de juntar as informações e formular hipóteses que depois serão analisadas.  Imaginação e memória, quando educadas, iluminam nosso caminho para que superemos tempos difíceis, assim como nossa fé é fortalecida através do conhecimento e nos sustenta frente às adversidades – não uma fé superficial (como a cientificista), que nos ilude, mas uma que liberta nossa consciência e abre nossos olhos para a verdade, ainda que não seja fácil ou confortável.

Espero que as pessoas não lembrem apenas da estética do holocausto, mas da história real e que as hashtags usadas nas redes sociais no dia 27 de janeiro não sejam apenas repetidas, mas entendidas por seu significado:

We Remember – lembre do que aconteceu

Never Forget – nunca esqueça

Never Again – para que não aconteça de novo

O silêncio em face do mal é o próprio mal: Deus não nos considerará inocente. Não falar é falar. Não agir é agir.

Outros posts sobre Holocausto:

https://discursosemmetodo.wordpress.com/category/shoah/

Coração de Leão: uma homenagem a sir Roger Scruton

“O conservadorismo advém de um sentimento que toda pessoa madura compartilha com facilidade: a consciência de que as coisas admiráveis são facilmente destruídas, mas não são facilmente criadas. Isso é verdade, sobretudo, em relação às boas coisas que nos chegam como bens coletivos: paz, liberdade, lei, civilidade, espírito público, a segurança da propriedade e da vida familiar, tudo o que depende da cooperação com os demais, visto não termos meios de obtê-las isoladamente. Em relação a tais coisas, o trabalho de destruição é rápido, fácil e recreativo; o labor da criação é lento, árduo e maçante. Esta é a grande lição do século XX.” – Sir Roger Scruton

Hoje faz um ano que o filósofo sir Roger Scruton faleceu depois de uma batalha contra o câncer e me sinto no dever de homenageá-lo devido à importância que teve no cenário mundial e especialmente brasileiro, mas também por ter sido um marco na minha vida pessoal e acadêmica.

Fui apresentada ao trabalho de Scruton graças a um amigo da faculdade. Apesar de nunca ter concordado com qualquer ideia de esquerda sobre política e economia, estava me aproximando numa pauta cultural – talvez a mais perigosa delas: feminismo. Eu me dizia “feminista conservadora”, claramente sem entender o que significava ser conservadora. Foi quando esse amigo disse que eu deveria ler “Como ser um conservador”. Aceitei a dica, foi um dos melhores livros que li na vida e isso me mudou profundamente. Essa obra de Scruton me ensinou o que verdadeiramente significa ser conservador e qual o valor da tradição. Em seguida, assisti “Por que a Beleza importa”, documentário que abriu meus olhos para o que realmente significa filosofar: buscar o que é bom, belo e verdadeiro (a sabedoria).

Roger Vernon Scruton nasceu em 1944, penúltimo ano da Segunda Guerra Mundial, no interior da Inglaterra, na pequena cidade de Buslingthorpe, condado de Lincolnshire, cuja economia é essencialmente rural, então sabemos que cresceu cercado por campos verdejantes e arquitetura medieval, uma mistura de simplicidade com elegância, duas características que descrevem muito bem a pessoa que ele se tornou.  Até o ano de seu nascimento mostra um traço de sua personalidade: por pouco escapou de ser um baby boomer – a geração nascida após a guerra e que se tornou uma geração marcada pelo movimento hippie e outras rebeliões contra os costumes. Desde garoto, se dedicou à vida intelectual e artística. Talvez nunca tenha imaginado a tarefa que iria empreender: resgatar o trabalho que foi começado por outro britânico um século e meio antes. Fé, amor, senso de dever e um grande talento o colocaram nesse caminho.

Edmund Burke – filósofo britânico que é considerado o pai do conservadorismo e que escreveu, dentre outras coisas, sobre política e beleza – estudou de perto a Revolução Francesa e escreveu um livro (Reflexões sobre a revolução na França) contra a ideologia que serviu de base para a mesma, criticando quem preferia destruir tudo ao invés de reformar o que havia de errado e preservar o que havia de bom e admirável. Aos 24 anos, Scruton foi à Paris e presenciou as terríveis manifestações estudantis de 1968. A partir daí, começou a estudar esses movimentos. Ele foi contemporâneo de alguns ideólogos como Derridas e Galbraith, chegando a dissecar e contrapor o pensamento deles em livros como “Pensadores da Nova Esquerda” e sua continuação, “Tolos, fraudes e militantes”. Tanto Burke quanto Scruton basearam seus argumentos não apenas na lógica, mas também nos exemplos encontrados na História inglesa e na tradição de seu povo. Eram homens que amavam o país e a cultura, mas acima de tudo, amavam a verdade.

De acordo com a tradição popular medieval anglo-saxã, o lendário Rei Arthur retornaria quando seu povo mais precisasse. Como comentei no texto sobre cavalheirismo (para quem não leu, vou deixar o link no fim do post), o rei Arthur e seus cavaleiros representam a junção do ideal do forte e corajoso guerreiro saxão com o modelo de vida sacrificial cristã. É algo ao mesmo tempo universal e propriamente britânico. A impressão digital de um povo inserida em algo maior.

Você deve estar se perguntando o que isso tem a ver com o assunto: é algo significativo por que é o fundamento da identidade inglesa e foi essa tradição que moldou o pensamento de Roger Scruton e salvou essa nação algumas vezes quando a Europa tinha caído, como quando derrotaram a “Invencível” Armada Espanhola, o imperador francês Napoleão Bonaparte e o líder do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores da Alemanha, Adolf Hitler. De fato, parece que em tempos difíceis, “homens arturianos” são levantados (eu e meu pai os chamamos de Guardiões da Ilha): do Rei Henrique V até sir Winston Churchill.

Eu classificaria Scruton como um homem arturiano, ainda que tenha travado batalhas de outras formas. Durante a Guerra Fria, ajudou a fundar faculdades clandestinas nos países do leste europeu que estavam sob o domínio da União Soviética. Não voltou atrás quando foi humilhado por colegas professores em grandes universidades ou quando tentaram “cancelar” seus livros apenas por que suas opiniões contrariavam o pensamento hegemônico – esse pós-modernismo que aceita tudo e faz com que “tudo” signifique “nada”. Ele poderia ter ficado calado, ter sido politicamente correto e teria tido uma carreira de sucesso sem grandes dificuldades. Mas ele optou por defender seus princípios e conquistar a vitória com sangue, suor e lágrimas.

O conservador é cético e esperançoso ao mesmo tempo. Não acredita que haverá perfeição na Terra, mas sabe que a Perfeição em si é boa, bela e verdadeira e deve ser buscada a qualquer custo, pois ainda que seja inalcançável, ilumina o mundo e torna nossa vida melhor, mesmo em meio a tudo que temos que enfrentar. É isso que Platão diz sobre o trabalho do filósofo: sabe que nunca será plenamente sábio, mas não se contenta com a ignorância. É assim que deve ser a vida do cristão: sabe que não será totalmente igual a Cristo, mas deve tentar viver como Ele. É uma maneira de dar sentido à existência e entender o que significa ser humano.

Roger Scruton conseguiu transmitir tudo isso de forma magistral e comoveu muita gente, especialmente no Brasil. Ele foi fundamental para a transformação cultural e política do nosso país, algo que ele sabia e tinha orgulho. Scruton nos ensinou a essência do conservadorismo e nos instruiu a buscarmos nossas raízes e desenvolvermos nosso próprio movimento, de acordo com nossa herança e nossas necessidades enquanto nação. Nos mostrou que é preciso sair do campo político e contemplar a Beleza, pois o conservadorismo é muito mais sobre coisas transcendentes do que sobre coisas terranas, pois é fundamentado no amor:

“A esquerda se une pelo ódio, mas nós (conservadores) nos unimos pelo amor: amor pelo país, pelas instituições, pela lei, pela família, e por aí vai. Nós queremos proteger o que eles querem destruir.”

Suas últimas palavras públicas foram ditas ao jornal The Spectator em dezembro de 2019, quando fez um resumo do ano, basicamente um parágrafo por mês. Foi um ano conturbado, em parte por conta do tratamento contra o câncer, também por causa dos ataques contra sua reputação devido às opiniões sobre a questão islâmica na Inglaterra. Ele foi atacado pelo próprio Partido Conservador, tendo sido destituído do cargo no departamento de arquitetura e urbanismo. Ele comenta também sobre coisas boas, como o carinho recebido pela família e pelos amigos, e sobre a recepção que teve em dois países nos quais ele é considerado um herói: Polônia e Brasil. Devido ao trabalho contra o comunismo no leste europeu, o governo da Polônia lhe condecorou com a Ordem do Mérito. Ele registrou que o embaixador britânico não compareceu ao evento, provavelmente para não ser associado a ele, e diz que voltou para a Inglaterra “com um coração cheio de gratidão por um país onde eu seria bem recebido como refugiado”. Logo depois, comenta que: “não seria o único país [a me receber de bom grado como refugiado], pois por razões que desconheço, tenho um fã clube no Brasil”, onde, em suas palavras, há uma multidão de jovens empenhados em salvar a civilização ocidental no lugar mais distante onde ela chegou – o próprio Brasil (quem ainda não assistiu a série A Última Cruzada, da Brasil Paralelo, recomendo assistir). O último parágrafo, sobre o mês de dezembro, foram as belas palavras que traduzo a seguir (grifos meus):

“Durante esse ano, muita coisa foi tirada de mim – minha reputação, minha posição como intelectual público, meu posto no movimento conservador, minha paz de espírito, minha saúde. Mas muito mais me foi dado: a generosa defesa de Douglas Murray e os amigos que batalharam com ele, o reumatologista que salvou minha vida e o médico que cuida de mim. Caindo em meu país, fui alçado ao topo em outros locais, e olhando para toda essa sequência de eventos, só posso estar feliz de ter vivido tempo suficiente para ver isso acontecer. Chegando perto da morte, você começa a saber o que a vida significa, e ela significa gratidão.”

OBS: mais uma coincidência entre Scruton e Burke, ainda que por motivos opostos, é que Burke nasceu no dia 12 de janeiro.

A Necessidade do Cavalheirismo:

https://discursosemmetodo.wordpress.com/2020/07/15/a-necessidade-do-cavalheirismo/

A Última Cruzada:

BIDEN NÃO GANHOU

Não ganhou e mesmo que ganhe, não terá um mandato fácil. Esse anúncio da vitória de Biden se trata de PROJEÇÃO DA MÍDIA.

É preciso ter cuidado com isso: a mídia anunciou a vitória de Biden no Arizona, apontando que 95% dos votos haviam sido contados – mas apenas 80% haviam sido apurados. A diferença entre os dois candidatos estava bem apertada, não era possível indicar um vencedor antes de fechar a conta. A atualização mais recente (90%) indica que Trump diminui para menos de 1% a margem de diferença entre ele e Biden, como indica matéria do Daily Wire publicada no dia 07 de novembro (https://www.dailywire.com/news/arizona-trump-cuts-biden-lead-to-less-than-1).

Fora isso, em alguns locais a contagem não terminou, como no Alaska. Em outros, já foi anunciada a recontagem dos votos – como na Geórgia, um dos Estados-chave na disputa.

Existem os Estados “Solid Republican” ou “Red States” (Estados Vermelhos – em referência à cor do partido), aqueles que votam mais no Partido Republicano. Existem os “Solid Democrat” ou “Blue States” (Estados Azuis) (engraçado que “blue” também pode significar “triste”), aqueles que votam mais no Partido Democrata. Isso raramente muda, mas pode acontecer, como no caso de Ronald Reagan (Rep-Califórnia): além de ter sido governador da Califórnia (um Blue State), na eleição presidencial de 1980 ele levou 44 dos 50 Estados e na reeleição (1984) levou 49 dos 50 Estados (só perdeu em Minnesota).

Existem ainda os “Swing States”, aqueles que ficam pendendo entre um lado e outro, conhecidos também como “Purple States” (Estados Roxos) ou “Key-States” (Estado-chave). Esses Estados indecisos são o campo de batalha de qualquer candidato à presidência dos EUA.

Além do voto por Estado, podemos analisar também o voto por condado. Nesse ponto, podemos notar um fenômeno interessante nessa eleição. Se observarmos um Swing State como a Flórida, Trump venceu em condados de maioria latina e negra, enquanto Biden venceu em distritos de maioria branca e de classe média/alta.

 Em reportagens que assisti durante a corrida eleitoral de 2016, percebi que um fator significativo da mudança de voto entre os latinos (na Flórida, a maioria deles vem de Cuba), foi a aproximação de Obama com o regime comunista cubano. Eles fugiram de lá por causa dos problemas causados pela esquerda e não querem que a América se torne socialista. Em 2016, Trump levou 48% dos votos. Em 2020, obteve vitória de 51%.

Podemos observar uma tendência de pessoas de “boa vida” de votar na esquerda, enquanto aqueles que trabalham duro são mais conservadores. Essas pessoas de “boa vida”, às quais o mundo foi dado, que não sabem que a liberdade tem um preço e que não tiveram que suar pela prosperidade, acham que podem confiar em políticos que prometem resolver os problemas do mundo, querem ser protegidas sem custos e não suportam ser contrariadas. Essas pessoas não têm noção da realidade e não se preocupam com valores morais.

Tem também aquelas que ignoram a política: não olham os dois lados antes de atravessar a rua e quando são atropelados nem sabem o que as atingiu.

A tendência de países mais desenvolvidos de ceder para o comunismo disfarçado de social-democracia e Welfare State (Estado de Bem Estar Social) e o resultado catastrófico da implementação desse tipo de política foi analisada em muitas matérias do Instituto Mises Brasil, vou deixar alguns links no fim desse post.

Os Republicanos controlam o Senado. Os Democratas controlam a Casa dos Representantes (similar à Câmara dos Deputados), mas até agora já perderam 10 cadeiras – digo “até agora” por que a eleição não acabou e não vai acabar nem tão cedo. Vale lembrar também que com a confirmação da juíza Amy Coney Barrett, a Suprema Corte agora tem maioria conservadora – e quando se diz que um juiz da Suprema Corte é “conservador”, significa que ele vota de acordo com a Constituição e não tem histórico de ativismo judicial (nem para a Esquerda nem para a Direita).

Desse modo, um possível mandato de Biden (ou da sua vice, a mega-marxista Kamala Harris) será certamente difícil para os conservadores da América (e do mundo), mas também não significa que a esquerda vai conseguir tudo que quer.  Também é preciso ressaltar que nos EUA as eleições para Senado e Casa dos Representantes ocorrem a cada dois anos, são as chamadas Midterm Elections, o que significa que os Republicanos podem até ganhar o controle da Casa dos Representantes em 2022 e atar as mãos de Biden e Harris. Eu adoraria ver o ex- S.E.A.L.  Dan Crenshaw (Rep-Texas) no lugar de Nancy Pelosi (Dem-Califórnia) como líder dos Representantes.

Trump já falou que vai recorrer à Suprema Corte – de fato, já começou a fazer isso. O juiz Samuel Alito já determinou que o Estado da Pensilvânia separe as cédulas que chegaram depois das 8:00 da noite do dia 03 de novembro, como noticiado por Ashe Schow no Daily Wire em 07 de novembro (https://www.dailywire.com/news/justice-alito-hints-toward-SCOTUS-taking-up-case-of-pennsylvania-mail-in-ballots). Cabe destacar que nesse mesmo Estado, em maio de 2020,um ex-juiz eleitoral foi condenado por aceitar suborno para fraudar eleições locais (Filadélfia) em 2014, 2015 e 2016, como consta no site do Departamento de Justiça dos EUA (https://www.justice.gov/opa/pr/former-philadelphia-judge-elections-convicted-conspiring-violate-civil-rights-and-bribery ). O Patriot Post noticiou isso junto com uma crítica à fala da líder da Casa dos Representantes, Nancy Pelosi, que disse que a preocupação com fraude era uma invenção de Donald Trump (https://patriotpost.us/articles/70860-philadelphia-fraud-em-2020-05-22) .

Não se sabe o que será feito com essas cédulas, mas de acordo com Schow, isso é um indício de interesse da Suprema Corte no caso, ou seja, é bem possível que o pedido para que a eleição seja decidida judicialmente seja aceito. Rudy Giuliani (advogado de Trump e melhor ex-prefeito de New York) comentou que os Democratas e a mídia estão desrespeitando a Justiça ao proclamar a vitória de Joe Biden quando o resultado oficial ainda não saiu.

Isso também significa que a Suprema Corte não considera as acusações de fraude como “teoria da conspiração”, como a mídia tem feito parecer. São muitos os indícios de fraude.

 A revista Oeste noticiou a prisão de um funcionário dos Correios dos EUA, detido na fronteira com o Canadá. Em seu carro foram encontradas cerca de 800 correspondências não entregues, dentre as quais estavam cédulas eleitorais (https://revistaoeste.com/funcionario-dos-correios-dos-eua-e-preso-por-irregularidades/).

Alguns Estados já comunicaram erros e outros problemas técnicos na contagem dos votos, como foi o caso da Virgínia (https://sensoincomum.org/2020/11/05/condado-da-virginia-deu-votos-a-mais-a-biden/) e da Geórgia (https://conexaopolitica.com.br/ultimas/georgia-envia-investigadores-apos-identificar-problema-na-apuracao-do-condado-mais-populoso-do-estado/ ).

No Michigan, Ronna McDaniel (do Partido Republicano) diz ter identificado irregularidades no software usado para contagem dos votos, alegando que 6.000 votos de Trump foram para Biden – ainda não foi confirmado, tudo será levado à Justiça, mas caso seja confirmado, o problema será enorme: esse programa foi usado em 47 Estados (https://www.dailywire.com/news/michigan-gop-claims-software-glitch-switched-6000-republican-votes-to-democrat-47-counties-used-same-software).  

Em Detroit houve confusão por causa do número de fiscais de cada partido: a lei permite 134 de cada lado, mas o Partido Republicano contava com 225 e o Democrata com 250 (https://sensoincomum.org/2020/11/05/janelas-sao-cobertas-em-sala-de-apuracao-de-votos-em-detroit/ ).

No Daily Wire, Ryan Saayedra noticiou que o Procurador Geral do Texas, Ken Paxton, está indiciando a assistente social Kelly R. Brunner por acusações de fraude eleitoral, como apontou o resultado da investigação policial. Segundo a denúncia, ela solicitou o registro eleitoral de 67 pessoas com deficiência mental sem o consentimento das mesmas. A lei do Texas afirma que só um parente próximo pode fazer essa solicitação e apenas se indicado pela pessoa – além disso, as pessoas que foram declaradas pela Corte como mentalmente incapazes não estão aptas a votar. Ainda que sejam poucos votos, se isso for provado, indica que casos similares podem ter ocorrido. Greg Abbott, governador do Texas, declarou que a fraude eleitoral é real e que em seu Estado já estão investigando isso há tempos. Várias pessoas já foram presas por envolvimento em esquema de fraude nas eleições de 2018.

A polícia de Glendale, no Arizona, encontrou cédulas eleitorais que haviam sido descartadas – esse foi o caso que eu me lembrei de salvar a fonte, porém mais denúncias como essa estão sendo registradas (https://www.fox10phoenix.com/news/glendale-police-stolen-ballots-found-by-farm-worker).

No dia 04 de novembro, no Opinião no Ar, Ana Paula Henkel (medalhista olímpica e especialista em política americana), que mora na Califórnia e tem cidadania americana, contou que quando foi votar não pediram documento com foto nem confirmaram sua assinatura. Denúncias de alteração na data dos selos postais também estão sendo apuradas.

Para encerrar, cito o caso mais notório: os eleitores-fantasmas. Democratas são tão ruins que fazem raiva até depois de mortos.

Segundo o instituto Judicial Watch, 8 Estados excederam 100% da taxa de registro eleitoral, a saber: Alaska, Colorado, Maine, Maryland, New Jersey, Vermont, Michigan e Rhode Island – desses, apenas o Alaska não votou majoritariamente em Biden.

Isso significa que cédulas de votação foram enviadas para gente já falecida e/ou que mudou de local. Essa instituição identificou irregularidades num total de 353 condados em 29 Estados, indicando que estão registrados mais de 1.8 milhões de eleitores a mais do que a quantidade de cidadãos aptos para votar.

Para fazer esse cálculo, o registro eleitoral foi comparado com os dados dos censos de estimativa populacional feitos pelo American Community Survey entre 2014-2018. Alguns Estados foram processados pelo Judical Watch, dentre eles Pensilvânia e  Carolina do Norte, campos de batalha para Trump. A matéria completa foi publicada no dia 16 de outubro de 2020 (https://www.judicialwatch.org/press-releases/new-jw-study-voter-registration/).

A Public Interest Legal Foundation também informou que segundo seus estudos, 21 mil registros na Pensilvânia são de pessoas mortas – e 92% morreram há mais de 5 anos, ou seja, não existe desculpa para o cadastro não ter sido atualizado (https://publicinterestlegal.org/blog/pa-lawsuit-21k-deceased-on-voter-rolls-evidence-of-voting-activity-after-death/ ).

A conclusão mais óbvia é de que a mídia está omitindo informação para normalizar a idéia de uma vitória fácil de Joe Biden. No entanto, com base em todas essas informações, sabemos que o país está num estado de guerra política. Trump não vai ceder tão fácil. Se ele cair, vai cair atirando. Não só ele, mas todo americano. Essa eleição não foi sobre Direita e Esquerda, foi sobre a identidade da América. Ser americano não significa mais nascer no país mais livre e próspero do mundo ou viver nesse país até obter um documento que lhe confere cidadania americana: significa amar e defender os valores que tornam a América grande – que tornam o Ocidente grande.

Podemos também perceber que muitas pessoas têm o que o comentarista Adrilles Jorge chama de “ódio estético”: elas não ligam para política pública, não pensam nas consequências de um Green New Deal ou do uso do 5G ou coisas do tipo. Tudo é teoria da conspiração, não querem desconfiar de nada, apenas vão na onda de um discurso bonito sem ligar para os fundamentos. É bonito dizer que defende o Pantanal e o SUS. Pouco importa o que há por trás disso. Divulgar essas causas provoca a ilusão estética de que são pessoas atualizadas e compassivas. São os idiotas úteis. São o mesmo tipo de gente que apoiou a Revolução Francesa com seus ideais de “igualdade – liberdade – fraternidade” e se surpreendeu com o banho de sangue que se seguiu.

Conservadores agem da maneira oposta: é preciso preservar os valores que construíram a civilização e reformar aquilo que a prejudica, mas não se deve aceitar nada sem questionar, só por ser novo e atraente. Nós pensamos antes de emitir uma opinião e nossas opiniões são baseadas na lógica e nos fatos. Como diz Ben Shapiro: os fatos não se importam com seus sentimentos. Infelizmente, muita gente não entende que conservadorismo é uma filosofia política e acha que ser conservador é ser antiquado.

Sobre filosofia política e o cenário político nacional e internacional, é fundamental ler sobre o passado, não apenas se atualizar sobre o presente. Sem entender como chegamos até aqui, não temos como imaginar o que pode acontecer e traçar um plano para saber como agir daqui em diante. Deixo como recomendação os seguintes livros:

O Comunista Exposto (W. Cleon Skousen)

Como ser um conservador (sir Roger Scruton)

Tolos, fraudes e militantes (sir Roger Scruton)

Reflexões sobre a Revolução na França (Edmund Burke) (sobre esse, talvez eu faça uma leitura coletiva em 2021, quem se interessar, é só me avisar)

Por que o Brasil é um país atrasado? (Dom Luiz Philippe de Orléans e Bragança)

Mais uma vez peço perdão por ter feito um texto tão longo, mas não dava para cortar mais do que já cortei. Espero ter esclarecido a questão principal e farei atualizações sobre o caso assim que achar necessário. Quero reforçar o recado: desconfie de tudo e cheque as fontes. Antes de acreditar na mídia ou numa suposta vítima ou na suposta inocência de um suposto criminoso, PENSE. Veja filmes como To Kill a Mockinbird, A Caça, Duas Faces de Um Crime e O Quarto Poder.  Não se deixe ser enganado.

Até mais, folks!

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MATÉRIAS DO INSTITUTO MISES BRASIL:

Por que jovens de países ricos defendem socialismo –

https://www.mises.org.br/article/3149/e-facil-entender-por-que-os-jovens-dos-paises-mais-ricos-tendem-a-defender-mais-socialismo

Sobre a catástrofe da social-democracia na Finlândia –

https://www.mises.org.br/article/3025/hoje-a-finlandia-amanha-o-mundo-as-sociais-democracias-em-seu-ultimo-suspiro

Sobre a falácia do Welfare State dos países nórdicos:

https://www.mises.org.br/article/632/o-mito-do-assistencialismo-escandinavo-reexaminado

BRASIL PARALELO:

Teatro das Tesouras :

Fim das Nações:

End of Nations:

O ateísmo da igreja primitiva – e por que o cristão deve se posicionar politicamente

O estudo sobre a igreja primitiva tem sido negligenciado fora dos círculos acadêmicos cristãos, o que é lamentável. Eu mesma era uma dessas pessoas que tem uma visão superficial sobre o assunto, acreditando que era um período de perseguições e martírios relevantes do ponto de vista histórico, mas que não encontrava paralelo com a atualidade; por tanto, deveríamos saber sobre os acontecimentos apenas para honrar a memória daqueles que lutaram para que o Evangelho fosse propagado e para que hoje possamos livremente professar nossa fé em Jesus Cristo, ao menos no Ocidente. Não poderia estar mais enganada…

No Oriente islâmico e/ou comunista, a perseguição é declarada e violenta: os cristãos são proibidos de exercer cargos públicos, de realizar reuniões, são presos, torturados, entre outras coisas (já fiz resenha de “Deus é vermelho“, um livro sobre o cristianismo na China, o link está no fim desse post). No Ocidente, a perseguição é mais sutil e a principal arma anticristã é o ativismo judicial. Questões como aborto e legalização de drogas são alguns dos temas que fazem o cristão ser visto como um opressor que quer impor suas opiniões sobre os demais membros de um Estado supostamente laico. O fato de não podermos professar nossa fé publicamente sem sermos alvo de chacota, processos e até violência, deveria nos fazer buscar conhecimento sobre a história do cristianismo para entender como a Igreja tem enfrentado esse problema ao longo do tempo.

A relação entre cristianismo e política é importantíssima de ser observada e esse livro apresentada uma perspectiva relevante sobre o assunto. “O ateísmo na igreja primitiva” (Rousas J. Rushdoony ) é bem curto, pode ser lido num dia só, e apesar ter sido escrito nos anos 1980, continua bem atual, até por que parece que estamos passando por uma fase bastante similar. A explicação do título é simples: os primeiros cristãos, por adorarem um Deus invisível e se recusarem a reconhecer a divindade de César, eram considerados ateus e inimigos do Império Romano. Depois de explicar isso, o autor passa a comparar a igreja primitiva com a igreja contemporânea acerca de alguns assuntos.

“Enfrentamos ainda hoje duas lutas que marcaram a Igreja Primitiva desde o princípio. A primeira era a questão da soberania e do senhorio e a segunda, a do aborto.”

R. J. Rushdoony

Como mencionado na frase em destaque, o autor argumenta que os principais motivos pelos quais a igreja primitiva foi perseguida são os mesmos pelos quais a igreja contemporânea é perseguida.

Recentemente testemunhamos dois casos nesse sentido. Um deles foi o do pastor John MacArthur (link do texto sobre isso no fim do post), que se opôs à tirania do governador da Califórnia, afirmando que quem tem soberania sobre a Igreja é Deus e não o Estado. MacArthur declarou que o que está acontecendo é uma “discriminação intencional contra o cristianismo bíblico e a igreja”. As palavras foram bem calculadas: cristianismo BÍBLICO para diferenciar do “cristianismo” progressista que prega a não intervenção da igreja em questões morais por que o “Estado é laico”.

O outro caso foi o da menina de 10 anos que além de ter sido estuprada por anos e ter engravidado, foi submetida a um aborto. Os protestos dos cristãos conservadores contra um ato que torturaria duas crianças, matando uma e colocando em risco a vida de outra quando havia a opção de um parto seguro e pessoas dispostas a adotar o bebê, foi entendida como “fanatismo religioso” não apenas por esquerdistas e insentões ateus ou de qualquer outra religião, mas também por ditos “cristãos”. Se tivessem usado o termo “fundamentalistas”, eu não poderia reclamar: o cristão deve ter seus princípios religiosos como fundamento da sua vida, caso contrário, algo está errado.

Nenhuma decisão seria fácil nesse caso e todas as opiniões deveriam ser ouvidas e debatidas com respeito, mas o curioso é que a mídia passou a focar na atitude anti-aborto dos cristãos como se esse fosse o problema e – mais sórdido ainda – como se isso significasse apoio ao real criminoso. Uma atriz chegou a dizer que “fundamentalistas religiosos esbravejam e expõe uma criança para que ela seja obrigada a parir”. A abordagem foi completamente enviesada. Não foi isso que aconteceu. Tenho um amigo frade que falou que vários jovens “católicos” estavam criticando a Igreja Católica por ter oferecido ajuda para a menina manter a gravidez e entregar a criança para adoção, tratando isso como crueldade por parte da igreja. No entanto, essas mesmas pessoas que são contra o aborto, defendem prisão perpétua (e até pena de morte) para pedófilos e estupradores em geral, enquanto os que acusam os cristãos são os primeiros a dizer que pedofilia é doença e que criminosos são vítimas da sociedade que merecem receber tratamento humanizado.

Até mesmo certo teólogo famoso no Youtube resolveu tratar o assunto dessa maneira, falando contra o “cristianismo cultural” e tomando as ações de uma ativista específica como se esta representasse o pensamento geral. No caso dele (que também foi contra MacArthur) é notável uma vontade de se distanciar de “ideologias políticas”. O discurso comum é de que não se deve misturar religião com política e que o cristianismo está acima de ideologias – o que é verdade, mas isso não é razão para não se posicionar, muito pelo contrário: “porque você é morno, nem frio nem quente, estou a ponto de vomitá-lo da minha boca.” (Ap 3:16).

A diferença é que o cristão sabe que filosofias humanas são imperfeitas e não há homem que possa salvar o mundo e estabelecer um Paraíso na Terra. O credo de alguns grupos políticos se assemelha mais aos princípios cristãos do que outros. Não é difícil escolher, basta checar na Bíblia se o Senhor Deus aprova homossexualismo, a consideração de mais de dois gêneros, o aborto voluntário, o confisco de propriedade privada, etc. E tomar partido na guerra político-cultural não significa concordar cegamente com as reivindicações de um grupo. Ter uma postura cautelosa e crítica é um dever.

“As passagens usadas por algumas pessoas para sustentar a idéia de que o Novo testamento passa ao Estado um cheque em branco para fazer (quase) tudo o que quiser (Rm 13: 1-5; 1Tm 2: 1-2), eram, na verdade, declarações de guerra contra a alegação de Roma a uma autoridade absoluta”

R. J. Rushdoony

O livro apresenta esclarecimento sobre algumas passagens bíblicas acerca da relação cristão x Estado, afirmando que é preciso conhecer o contexto no qual tais passagens foram escritas e para quem elas estavam sendo dirigidas. Sobre a questão do “Estado laico” e de “não misturar política com religião”, é preciso prestar atenção na História. O autor argumenta que o Estado sempre é religioso, pois ele mesmo se torna um deus. Isso era mais claro na Antiguidade, quando o homem se colocava abaixo dos deuses. Na nossa época, na qual o homem se vê como centro do universo, isso não parece tão claro, mas não deixa de ser verdadeiro. É mais notável nos casos das ditaduras comunistas como a antiga União Soviética, na qual o Estado era a solução para tudo e deveria ser reverenciado. Não se tratava de um sentimento de unidade nacional e tradição cultural, como observamos no patriotismo do Ocidente livre, mas dos cidadãos depositando a esperança no governo e este sendo o responsável por regular a vida pública e privada dos indivíduos. No caso da Coréia do Norte, a família Kim é literalmente adorada e até corte de cabelo é definido pelo Estado. Em “O Sagrado e O Profano”, o filósofo e historiador Mircea Eliade diz que o homem necessariamente tem um comportamento religioso (mesmo que se diga ateu). Isso significa, continua o autor, que no momento que retiramos Deus do debate moral, cabe ao Estado (o novo deus) determinar arbitrariamente o que é certo ou não.

No momento que o cristão decide se posicionar política e culturalmente, ele não está querendo impor seus ideais. A conversão não pode ser forçada. Ela acontece “de cima para baixo” sim, mas não é um processo [Estado –> indivíduo] através de leis, e sim [ Deus –> indivíduo]. A cristandade está ciente disso (diferente dos muçulmanos). Afinal, como disse o autor, esperamos a “salvação, não pela revolução, mas pela regenaração”. Defender os ideais cristãos através da legislação (e sua propagação através da cultura) tem a ver com garantir direitos universais concedidos por Deus: a vida e a dignidade humana. Se retirar do debate é o mesmo que relativizar a verdade e dizer que quem tem autoridade soberana é o Estado. Separar a vida religiosa da vida pública é o mesmo que transformar a religião num passatempo. O fundamento da sua vida tem que ser um só: Estado ou Deus. Igualar os dois é inferiorizar um.

 

“Vivemos, de fato, num tempo crítico no qual o mundo está desmoronando ao nosso redor e o que nos falta é aquilo que Roma denominava de “ateísmo” da Igreja Primitiva: o reconhecimento de que somente Deus é o Senhor.”

R. J. Rushdoony

Os cristãos primitivos não se curvaram ao Império Romano. Oravam por César, não para César. Isso colocava um cidadão comum no mesmo patamar (ou até acima) do imperador. Por isso foram perseguidos. Rushdoony argumenta (e eu concordo) que quando somos biblicamente orientados a obedecer as autoridades, isso não significa que devemos ficar quietos e aceitar tudo sem questionar, pois o Estado não é nem a única nem a principal autoridade. Nós também somos e devemos agir. Como servos de Deus, temos responsabilidades sociais, políticas e culturais. O autor critica a atitude de “deixar o cristianismo para o pastor”, quando cada crente deveria se engajar. Mas antes de se engajar, é preciso ter noção do que deve ser feito. É necessário estudar a Bíblia e buscar conhecimento extra-bíblico também: história do cristianismo, política, filosofia e demais questões culturais. É essencial conhecer o terreno no qual estamos pisando e “O ateísmo da igreja primitiva” é um excelente ponto de partida.

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DEUS É VERMELHO: https://discursosemmetodo.wordpress.com/2018/08/11/in-hoc-signo-vinces-%e2%9c%9d-parte-i/

CASO MACARTHUR: https://discursosemmetodo.wordpress.com/2020/08/21/igreja-e-estado-o-caso-john-macarthur-x-governo-da-california/

SOBRE O CASO DA MENINA: https://sensoincomum.org/2020/08/18/aborto-foi-realizado-com-substancia-proibida-ate-para-sacrificar-animais/

Igreja e Estado: o caso John MacArthur x Governo da Califórnia

O pastor John MacArthur está desafiando as ordens de quarentena do Estado da Califórnia. A igreja, que inicialmente seguiu todas as regras, deveria permanecer ainda mais tempo fechada durante a pandemia do vírus chinês, segundo os decretos locais. Em entrevista a Billy Hallowell, o pastor afirmou o seguinte: “Eu estou nesse lugar há 50 anos. Essa igreja (Grace Community Church em Sun Valley) tem 63 anos e nunca antes recebeu ordens do governo para fechar. Então, quando chegaram aqui com esse mandato, foi algo tão raro e estranho que nós escutamos e obedecemos.” Disse ainda que “essa não é a América que eu conheço […] é apenas uma realidade bizarra.”

DON’T TREAD ON US !

Ele afirmou que devido às previsões alarmantes, qualquer pessoa com bom senso faria uma pausa para analisar melhor a questão e garantir a segurança de todos. Então a igreja começou a transmitir suas atividades pela internet. MacArthur alegou que os políticos e demais envolvidos na promoção do lockdown perceberam que suas previsões não se concretizavam: “O número de mortos na Califórnia foi 8500. Metade eram pessoas com mais de 80 anos e que tinha comorbidades.” Isso corresponde a 0,02% da população estadual. O pastor continuou: “Me parece que 99,98% das pessoas estão bem o suficiente para frequentarem a igreja. E as pessoas estão implorando para reabrir as igrejas (buscando conforto) por causa do medo – e claro que a igreja é o centro da vida daqueles que amam ao Senhor.” Quando a igreja reabriu, cerca de 3000 pessoas compareceram na primeira semana e 6000 na segunda. Apesar das ameaças do governo, MacArthur não mudou de idéia. O pastor falou que o governo tem certa autoridade concedida por Deus, mas essa autoridade tem limites e não tem poder quanto aos assuntos que dizem respeito ao Reino de Deus.

Enquanto algumas pessoas têm criticado o fato de que a igreja violou ordens governamentais e permitiu aglomeração, outros debatem a questão de até onde o governo pode interferir na vida dos indivíduos. MacArthur acredita que o governador Gavin Newsom (Partido Democrata) não tem autoridade para definir igrejas como “não-essenciais”. Nas palavras do pastor, o que está acontecendo é uma “discriminação intencional contra o cristianismo bíblico e a igreja” e fez a seguinte declaração: “O governador disse que igrejas não são essenciais. Algumas coisas são essenciais: lojas de bebidas, clínicas de aborto …  mas as igrejas não. Com base na Constituição, o governador não tem autoridade para dizer o que é essencial. Ele não tem autoridade constitucional para dizer que a igreja não é essencial.” O caso foi parar na Justiça.

No sermão do dia 09 de agosto, antes da decisão do juiz, o pastor chamou o culto de “protesto pacífico”. Disse que “com base na Palavra de Deus, essa igreja é pró-vida, pró-família, pró-lei e ordem e pró-Igreja do Senhor Jesus Cristo” e pregou sobre 1 Coríntios 1, que diz “ a loucura de Deus é mais sábia do que a sabedoria dos homens e a fraqueza de Deus é mais forte do que a força dos homens.”.Alguns trechos da pregação foram destaque na impresa, tais como:

“Nós estamos aqui por que obedecemos a Deus e por que Ele nos deu ordens, não de uma forma esotérica e pessoal, através de visões e sonhos ou vozes do Céu, mas através da Bíblia. A Grace Community Church é definida por seu compromisso com as Santas Escrituras. Para o verdadeiro cristão, a Bíblia é o maior tesouro.[…] Se esse púlpito não fosse lugar de proclamar a Palavra de Deus, esse lugar começaria a esvaziar. É por isso que vocês estão aqui, está claro para mim que vocês amam a Palavra de Deus, por isso estão aqui.[…] Nós não estamos espalhando nada mais do que o Evangelho”.

Donald Trump encarregou uma de suas advogadas e conselheiras de campanha, Jenna Ellis, de se juntar aos advogados da igreja e cuidar do caso. Enquanto o governo estadual tentava impor uma ordem de restrição para forçar o pastor a parar com os cultos presencias – e principalmente com os louvores durante os cultos, o juiz James Chalfant, da Suprema Corte de Los Angeles, concordou com MacArthur que a igreja está constitucionalmente protegida pelo direito de livre expressão religiosa.  De acordo com Ellis, essa foi uma vitória histórica. Ela postou no Twitter: “ a primeira Corte da Califórnia a reconhecer que #Igrejaéessencial.” Ela disse ainda que a Grace Community está “ao lado da lei contra a tirania sem limites daqueles que estão desafiando o juramento que fizeram ao assumir seus cargos definidos pela Constituição para preservar e proteger o direito da livre expressão religiosa.”

Os advogados da igreja argumentaram que as restrições impostas pelo Estado não tinham fundamento e não eram razoáveis. A igreja também concordou em manter certa distância entre os membros e fazê-los usar máscaras até que tudo seja resolvido. A audição final para resolver esse caso será no dia 4 de setembro, pois até aqui apenas foi decidido que MacArthur estava certo quanto ao governo estadual não poder definir o que é ou não essencial, ou seja, o caso é federal agora. Os advogados também destacaram que não houve ordem de restrição contra os grupos que organizaram manifestações recentemente contra “brutalidade policial e racismo”, tais como Antifa e Black Lives Matters, que promoveram não apenas aglomerações, mas também roubos e depredação de patrimônio público e privado.

John MacArthur declarou:  “Estou bastante grato que a Corte permitiu nossas reuniões e nas próximas semanas estaremos felizes em respeitar as exigências que o juiz fez para que possamos nos encontrar. A reivindicação é de que a igreja possa permanecer aberta e servindo as pessoas. Isso também nos dá a oportunidade de mostrar que não estamos tentando mostrar rebeldia nem loucura, mas vamos ser firmes em defender nossa igreja de restrições inconstitucionais e sem sentido.”  

“Nós preferimos obedecer a Deus do que aos homens. Nós seremos fiéis ao Senhor Deus e deixaremos os resultados para Ele. O que quer que aconteça, será o que Ele permitiu acontecer. Mas Ele estará ao nosso lado por que nós vamos ser obedientes e fiéis à sua Palavra. Não vamos nos ajoelhar perante César. O Senhor Jesus Cristo é o nosso Rei.”

Já fiz resenha de um livro do Rev. John MacArthur: Apologética 02 – Por que crer na Bíblia?

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MATÉRIAS ORIGINAIS:

https://www.christianpost.com/news/not-the-america-ive-known-pastor-john-macarthur-doubles-down-on-covid-19-defiance-238361/

https://www.christianpost.com/news/john-macarthurs-church-can-worship-sunday-with-singing-no-attendance-cap-judge.html

https://www.christianpost.com/news/john-macarthur-sunday-service-welcome-to-the-peaceful-protest-preaches-on-obedience-to-scripture.html

Quem vigiará os vigilantes?

A liberdade de expressão no Brasil caiu junto com o Império. Da “República café-com-leite” até o Regime Militar de 1964, o que deveria ser um direito fundamental para qualquer cidadão, foi reprimido de forma criminosa. Tivemos inúmeros casos de pessoas que foram censuradas, presas, torturadas e assassinadas por que se opuseram ao governo da época – mas não com atos de violência explícita e sim com palavras que foram consideradas subversivas, como se coubesse ao Estado “proteger” os cidadãos de PALAVRAS.

Um dos casos mais notórios foi a história do jornalista Vladimir Herzog, representante da resistência brasileira durante a década de 1960. Após um período de exílio na Inglaterra, voltou ao Brasil e acabou sendo vítima de tortura e extermínio apenas por usar a imprensa para expor ideais que contrariavam os do poder vigente, destino similar ao de seus avós, judeus perseguidos pela política genocida do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores da Alemanha.

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Sua morte foi divulgada como suicídio na sede do DOI-CODI, para onde tinha sido levado para interrogatório por ligação com ativistas comunistas, mas esse relato foi questionado e, mais tarde, o legista responsável pelo caso confessou que assinou a autópsia sem analisar o corpo; em 2013 um novo atestado de óbito confirmou que a causa foi os maus tratos sofridos. Na época, a notícia causou comoção pública e inspirou atos de protesto e até mesmo canções, como “O bêbado e a equilibrista” (João Bosco e Aldir Blanc, 1972), que menciona Clarice, a esposa de Vladimir Herzog, e diz ainda que “uma dor assim pungente não há de ser inutilmente”, representando o anseio por liberdade e respeito aos direitos humanos em dias vindouros.

Mas com a Nova República vieram novos problemas, entre os quais o domínio de uma ideologia política que sutilmente subornava e manipulava a imprensa e tentava inibir a capacidade de ação de seus opositores e cujos tentáculos se estenderam aos Três Poderes e desenvolveu toda uma estrutura de sustentação nas mais diversas áreas do Estado, inclusive saúde e educação.

Com o avanço das redes sociais e a ascensão da mídia alternativa, esse poderio viu-se ameaçado. Cada vez mais pessoas passaram a ter acesso à internet e aos veículos de comunicação como o WhatsApp, que permite divulgação de textos, áudios e vídeos com mensagens de conteúdo difícil de verificar e controlar.  Isso, claro, representa uma ameaça ao poder estabelecido, pois incita questionamentos que abalam a confiança das pessoas na autoridade, o que levou os agentes do Estado a pensar em formas de frear esses mecanismos. Podemos citar como exemplos as alegações de “discursos de ódio”, isto é, palavras que podem ofender determinados grupos, e “fake news”, as notícias falsas que podem enganar a população.

Quando Jair Bolsonaro assumiu a presidência do Brasil em 2019, muitas pessoas temeram o aumento das violações das liberdades individuais, em parte devido ao apoio que o mesmo demonstrou ao Regime Militar. No entanto, talvez pela primeira vez na história desse país, são os partidários do Governo que têm sido perseguidos. Muitos tiveram material confiscado, redes sociais bloqueadas e alguns até foram presos por expressar opiniões e fazer manifestações contra alguns órgãos do Estado. O autoritarismo veio de onde menos se esperava, enquanto a defesa da liberdade tem sido empreendida por aquele que foi chamado de fascista: o Poder Judiciário tem encontrado meios de tolher direitos dos cidadãos e o Poder Executivo tem apoiado a manifestação de diferentes ideais e o desenvolvimento de uma imprensa livre e séria, comprometida com a verdade e não com um Partido, visto que o mesmo respeita jornalistas que o apoiam mas tecem críticas ao seu comportamento, e não autorizou nenhum ato de censura contra os veículos que o atacam constantemente, apenas utiliza de suas redes sociais e seu próprio direito de se expressar para mostrar o seu lado e criticar seus opositores – apenas PALAVRAS de ataque, nenhuma ação de violência ou ato de censura.

Recentemente, o Presidente da República entrou com uma ADIn (Ação Direta de Inconstitucionalidade) no Supremo Tribunal Federal, de acordo com artigo 5 da Constituição, para restabelecer a liberdade de expressão daqueles que tiveram suas redes sociais bloqueadas apenas por compartilhar informações e expor opiniões.

Ainda que algumas mensagens de fato configurem-se como discursos ofensivos e especulações infundadas, qual o direito que o Estado, em qualquer um de seus poderes, tem de censurar um indivíduo por seu discurso, quando a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 5º inciso IX, garante que “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”. Não se trata de grupos revolucionários que pegam em armas e praticam depredação de patrimônio público e violência física contra outros indivíduos. São cidadãos que expressam sua indignação com determinadas atitudes.

Aqueles que deveriam ser os responsáveis por fazer a Constituição ser soberana no país e obedecida por todos, veem-se acima da mesma e entendem que devem regular o discurso público. Estamos um passo de viver uma ditadura de moldes orwellianos, onde o Estado se encarregar de definir a linguagem, a verdade e as relações humanas, com a desculpa de que para proteger o cidadão de si mesmo e dos outros, é preciso vigiá-lo. Independente de uma pessoa ser de Direita ou de Esquerda, ela deve se preocupar com esse perigoso autoritarismo e deve valorizar o trabalho daqueles que, assim como Vladimir Herzog, deram a vida por essa causa. Se nada for feito, todos sofrerão com isso. Qualquer um, por um mero descuido, pode ser o próximo. Fica a pergunta: quem vigiará os vigilantes?

OBS.: a frase sed quis custodiet et ipsos custodes?” (quem vigia os vigilantes) encontra-se na obra “Sátiras”, do pensador romano Juvenal

Dicas de filmes:

Watchmen (SNYDER, 2009)

Minority Report (SPIELBERG, 2002)

Equilibrium (WIMMER, 2003)

1984 (RADFORD, 1984)

Fontes:

http://memoriasdaditadura.org.br/biografias-da-resistencia/vladimir-herzog/

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/historia-vida-morte-vladimir-herzog.phtml

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Luto pela nação: Por que o Brasil é um país atrasado?

(Eu) Luto pelo nação nos dois sentidos da palavra: lamento os rumos que o país tomou com a proclamação da república no funesto 15 de novembro de 1889 e me empenho em defender o processo de restauração dos nossos tempos de glória. Muitas pessoas têm uma visão caricata do que foi o Império Brasileiro e do que significa a Monarquia de modo geral, por isso repudiam essa ideia e só não temem sua volta por considerar impossível esse ‘retrocesso’ (como dizem). Contudo, é preciso esclarecer alguns pontos da nossa história e ter um aprofundado debate sobre estruturas de poder e funcionamento do Estado para podermos entender esse assunto. No entanto, esse não é o momento para explicar meus motivos para defender o sistema monárquico (farei isso depois, uma vez que é um tema complexo e requer uma série de posts com mais fundamentação teórica) e sim para apresentar um livro. Para os que querem uma informação mais rápida, recomendo assistir a série “A Última Cruzada” (Brasil Paralelo) e essa aula do professor Rafael Nogueira, bem como ler esse texto do filósofo britânico sir Roger Scruton.

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Construído com base numa excelente bibliografia, que vai de Platão até Garschagen, observada através de um olhar perspicaz de uma mente bem treinada para lidar com assuntos relacionados à Ciência Política (tanto por sua formação acadêmica quanto por sua tradição familiar), “Por que o Brasil é um país atrasado?” é obra de Dom Luiz Philippe de Orleans e Bragança, publicado pela primeira vez em 2017 e que ganhou uma nova edição (revista e ampliada) em agosto de 2019.

O autor é membro da Família Imperial do Brasil, empresário, administrador, mestre em Ciência Política pela Stanford University, co-fundador do Movimento Liberal Acorda Brasil (um dos grandes atuantes na campanha pró-impeachment da então presidente Dilma Rousseff) e atualmente cumpre seu primeiro mandato como deputado federal pelo estado de São Paulo, posição que tem usado para lutar por propostas como recall do mandato dos parlamentares, voto distrital, transparência tributária, entre outras causas que o leitor pode acompanhar através de seu canal no Youtube  e suas redes sociais, como Instagram .

“O capitalismo é a maior arma contra o lucro exorbitante e ao mesmo tempo o maior causador de ascensão e mobilidade social. Como assim?”(pág. 61)*

Nesse livro, diversas questões importantes são trazidas no que diz respeito à Economia, ao Direito e à Cultura, de maneira compreensível para quem não é familiarizado com tais assuntos, mas que quer entender do que se trata. Termos facilmente confundíveis, como “Estado” e “Governo”, ou que se popularizaram sem fundamentação alguma, como “democracia” e “fascismo” (que parecem significar qualquer coisa desejável ou indesejável) ou “capitalismo” e “liberalismo”, são explicados em sua origem e é possível entender não só sua aplicação original mas também a forma pela qual essas palavras se tornaram vagas.

“A construção de um Estado de direito que ordena, limita e equilibra os poderes legítimos do ecossistema político por meio de leis é que deve ser o objetivo final de todo e qualquer estadista. Era esse o intento que os pais fundadores dos Estados Unidos detinham quando da elaboração da Constituição daquele país. Era também o objetivo de José Bonifácio, D. Leopoldina e Pedro I quando encomendaram a primeira Constituição do Brasil. Foi esse o intento que se perdeu ao longo da história do nosso país.”(pág.200)

Passeando pela História do Brasil, D. Luiz Philippe identifica os pontos fracos do nosso país, mostrando o momento em que eles apareceram e a consequência dos mesmos para o enfraquecimento de uma nação que um dia foi um forte Império, um lugar cheio de riquezas tanto naturais quanto humanas. Através de gráficos, as explicações são ilustradas e podemos nós mesmos analisar os dados que nos são mostrados, conhecendo a metodologia através da qual foram recolhidos.

Uma parte importante da obra é dedicada à Constituição. Segundo o autor, precisamos entender o que é (ou deveria ser) uma Constituição e ele retorna aos primórdios da Lei, desde o Código de Hamurabi, o Código de Manu e a Lei de Moisés (que vai além dos 10 Mandamentos) até as atuais Constituições dos Estados Unidos da América e do Japão, nos dando uma visão abrangente de como se deu o funcionamento de tais legislações ao longo do tempo e como elas afetaram a vida dos cidadãos.

“Constituições são como aquários. Elas delimitam a amplitude do sistema político do ser humano – seu “meio ambiente político”, por assim dizer. E quando esse ser humano é sujeito a mudança do ambiente, ele também vai alterar seu comportamento.” (pág.40)

A citação anterior, por exemplo, é uma observação interessantíssima: com uma Constituição frágil, que premia a mediocridade e protege criminosos, pessoas de índole mais fraca tendem a ceder ao seu lado ruim, enquanto um Código mais rígido inibe comportamentos inadequados na maioria das pessoas e fortalece a nação ao valorizar o indivíduo virtuoso. Daí, logo nos primeiros capítulos, já podemos perceber duas coisas: qual a raiz dos nossos problemas e qual a maneira de superar isso (apesar dessa parte ser subentendida e ser mais bem respondida em obras como “Como ser um conservador” de sir Roger Scruton e “12 Regras para a vida” do doutor Jordan B. Peterson). São analisadas nossas Constituições desde a época do Império, também nos são explicados temas gerais que acabaram por exercer influência aqui na Terra de Santa Cruz, como a Revolução Francesa e a Guerra Fria.

“No Brasil, o povo não é soberano.”

A ideia de eunomia, a boa ordem (em grego), é um dos pontos centrais desse trabalho e somos levamos a pensar que nosso dever, para mudar o Brasil, é fazer parte desse movimento de transformação: tomar o poder que é nosso por direito, garantir que as instituições estejam alinhadas com nossa tradição e estabelecer nossa soberania enquanto povo auto-determinado, isto é, que governa a si mesmo e não se submete ao poder de oligarquias, grupos ideológicos, órgãos internacionais ou coisas do tipo, um povo que se reconhece enquanto possuidor de um território e herdeiro de um legado histórico comum que unifica a nação e dá propósito à mesma. Um povo INDEPENDENTE que defende PRINCÍPIOS, alguns dos quais foram elencados por D. Luiz Philippe (pág.226):

1-      Tradição judaico-cristã

2-      Trabalho e prosperidade

3-      Liberdade e livre-iniciativa

4-      Estabilidade e cidadania

5-      Justiça, segurança e igualdade de todos perante a lei.

É preciso educar-se para entender os mecanismos que nos aprisionam e lutar contra eles. “Por que o Brasil é um país atrasado?” é um excelente ponto de partida para essa tarefa. Não devemos fazer como aqueles que, nas palavras do autor, “agiram como se não tivessem entendido as lições da História”, mas que “tenhamos a sabedoria de examinar as experiências greco-romana, norte-americana, europeia e mesmo o nosso passado. Que a História política seja respeitada e não descartada em nome de rótulos da moda.”

OBS.: só para deixar claro, o livro não é uma apologia da Monarquia, apenas mostra FATOS e, parafraseando Ben Shapiro,”os fatos não se importam com seus sentimentos republicanos.”

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AVE IMPÉRIO

 OBS.:* “Vale lembrar que somente com a experiência de mais de 250 anos de história econômica, desde o final do mercantilismo até hoje, é que podemos concluir que o sistema de livre mercado descrito por Adam Smith foi o melhor modelo para combater a pobreza, mesmo que essa não seja sua “razão de ser” como teoria econômica” (pág.168) – vale lembrar também que uma obra importante de Smith é “Uma teoria dos sentimentos morais”, que não deve estar separada de “A riqueza das nações” e que nunca se tornará ultrapassada por tratar da natureza humana (ainda não a li diretamente, apenas sei o que Edmund Burke trata sobre ela em “Reflexões sobre a revolução na França”, minha leitura do momento).

VIVA CHE…STERTON!

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Há muito venho adiando uma resenha de “A Taberna Ambulante”, pois não tinha nem uma vaga ideia de por onde começar. Em fevereiro desse ano, comecei a participar de um clube de leitura online, cujo livro do mês foi justamente do mesmo autor: “O homem que era Quinta Feira”. Resolvi então fazer uma resenha dupla, sem nenhuma intenção de aprofundamento filosófico ou literário, apenas por vontade de falar sobre o trabalho do excelente escritor britânico Gilbert Keith Chesterton, que muito influenciou grandes nomes como Neil Gaiman e meu querido C.S. Lewis.
A edição brasileira de “A Taberna Ambulante”, veio à luz em 2018, fruto do trabalho belíssimo da Sociedade Chesterton Brasil. Conta com prefácio de Raul Martins Lima (também seu tradutor e editor), que nos dá algumas informações históricas e técnicas que ajudam bastante na compreensão do autor e de suas obras (não apenas essa em particular) por nos esclarecer alguns detalhes que poderiam passar despercebidos ou ser entendidos como mera maluquice. O final desse livro é um tanto quanto “inacabado” (por assim dizer), recurso que também foi utilizado em “Quinta Feira”. Além disso, ambos os romances são repletos de poesia, coisa que GKC gostava muito (particularmente prefiro algo menos poético, mas admito que é uma característica interessante do autor).

  “Os romances querem provar algo” (R.M.Lima)

Raul Martins Lima nos avisa que como romancista, GKC não era dos melhores e nem tinha pretensão de ser, o que não deve ser mal interpretado: a qualidade do autor é altíssima, apenas seu estilo que é peculiar. Não era romancista “no mesmo sentido em que Oscar Wilde, Tolstói ou Machado de Assis”, diz o prefacista. Ao nos dizer que “os romances (de Chesterton) querem provar algo”, Lima explica que o objetivo de GKC era sempre apresentar um argumento sobre determinado ponto de vista político, artístico e religioso e alguma visão de mundo como um todo, o que ele fazia de forma clara e perspicaz em suas críticas e de forma simbólica e igualmente inteligente em seus romances.

                  “Vi, hoje, algo pior do que a morte: e o seu nome é Paz.”                                                                           (GKC em “A taberna ambulante”)

The Flying Inn (A Taberna Ambulante) se passa numa Inglaterra islamizada, onde o establishment político atende aos anseios mulçumanos e cria uma lei que regula severamente a venda de bebidas alcoólicas. Humphrey Pump, dono da perseguida taberna O Velho Navio, junto com seu amigo de longa data, o capitão Dalroy, rebelam-se contra essa situação e percorrem o país driblando a lei e desafiando as autoridades com sua taberna ambulante. No entanto, esse enredo é apenas a “desculpa” para tratar de temas bem mais profundos. O mais interessante de tudo é que este livro, publicado em 1914, bem poderia ter sido escrito ontem: denuncia a hipocrisia da classe política (“democrática o escambau!” , diz o progressista ao revelar suas verdadeiras intenções) e do meio intelectual (“era ignorante: como tanta gente culta por aí”) e alerta sobre a ameaça de destruição da civilização ocidental pela corrupção de suas tradições e o sutil domínio de outra cultura não apenas diferente, mas extremamente oposta.
É também um prato cheio para quem ama a cultura britânica (como eu ❤): sua literatura, sua arte, seu povo. Chesterton exprime o espírito do homem simples e tradicionalmente inglês em cada detalhe desse livro: “aquela amabilidade incorruptível que lhe estava na raiz do que é ser inglês, e quem sabe um dia possa ainda salvar a alma da Inglaterra”.
Mais sobre esse livro nos seguintes links:
Trailer (campanha da SCB)
Resenha

         “Uma revolta contra a revolta” (GKC em “O homem que era Quinta Feira”)

No caso de “The man who was Thursday” (O homem que era Quinta Feira), a “desculpa” é um romance policial, o que já me agradou pois sou fã desse gênero. No início, dois poetas de ideologias opostas (Gregory, o anarquista e Syme, o conservador) se encontram e não se dão muito bem. Não vou dizer como isso se torna uma aventura detetivesca e muito menos o motivo pelo qual o tal homem era Quinta Feira. Não chegaria a ser spoiler, até por que a história mesmo se desenrola depois que descobrimos esses detalhes, mas acho que a beleza está nessas pequenas surpresas. Falando em surpresas, alguns pontos são bem óbvios, compensados por momentos de uma loucura que depois descobrimos ser lucidez, típico de Chesterton.
Há um debate político, filosófico e teológico interessantíssimo (cabe lembrar que GKC era grande estudioso de Tomás de Aquino). Mais uma vez, o autor nos mostra as contradições dos progressistas e a sutileza do mal, apontando novamente para os perigos já citados em “A taberna ambulante” (cronologicamente, foi o contrário, já que “Thursday” foi lançado em 1908) porém focando num segredo posto à vista para que ninguém repare nele: a conspiração dos “ativistas soft” (aqueles disfarçados de bonzinhos, como artistas, cientistas e intelectuais) contra a família e o Estado. Contra esse perigo, bravamente luta nosso herói, Gabriel Syme: “Ele era daqueles que cedo na vida são levados a tomar uma atitude demasiado conservadora por causa da loucura confusa da maioria dos revolucionários”

“Até as mais desumanizadas fantasias modernas dependem de qualquer figura simples e antiga”

O livro de março desse mesmo clube é O lobo da estepe (Herman Hesse), que terminei de ler hoje e menciono aqui apenas para fins de uma rápida comparação entre essas duas obras opostas E similares (não sei se a escolha foi proposital ou aleatória). O livro de Chesterton critica a negação da verdade, da realidade, das instituições e da própria lógica e prepara o terreno para entender o de Hesse, que tem uma tendência niilista ao mesmo tempo em que saúda o que é clássico ao apresentar um personagem (Harry Haller) que diz odiar e admirar o mundo civilizado, provando o ponto de GKC: precisamos da tradição.
Resenhas mais profundas sobre esse livro podem ser encontradas nos links abaixo (recomendo mais para quem já o leu, pois se tratam da discussão dos temas apresentados na história e não de uma apresentação da mesma, então contém spoilers) :

Chesterton Brasil

Pensar a realidade

Literatura e redenção

OBS.: peço que tenham a gentileza de perdoar meus erros, nem sempre tenho muita paciência para prestar atenção em coisas como o uso da vírgula e dos “por quês” hahahaha

ADICIONE À SUA LISTA DO SKOOB:  A TABERNA AMBULANTE  O HOMEM QUE ERA QUINTA FEIRA

Cartas de um diabo a seu aprendiz

” A fina flor da profanação só pode crescer se for plantada perto do Sagrado. Em nenhum lugar a nossa tentação é tão bem sucedida quanto nos próprios pés do altar”

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O professor de literatura (e filósofo por excelência) Clive Staples Lewis foi certamente um dos mais brilhantes e influentes pensadores do século XX e é um de meus autores favoritos. Mais conhecido pelos 7 livros da saga As Crônicas de Nárnia, C. S. Lewis também escreveu obras técnicas na área de literatura, como especialista, e amadoras na área de teologia, como fiel instruído e apaixonado. Alguns outros de seus escritos mais famosos, citando apenas os que eu li, são “O grande abismo”, “O problema do sofrimento”, “Um experimento na crítica literária” e o tema dessa resenha, “Cartas de um diabo a seu aprendiz”, que é leitura obrigatória ou recomendada em diversas escolas e universidades do Reino Unido.

O estilo de escrita de Lewis é sempre simples, o que não torna os livros nem um pouco simplórios, bem pelo contrário, os torna instrutivos, pois conseguem transmitir de maneira coerente e acessível para qualquer público uma série de complexos conceitos filosóficos, teológicos e literários dos quais o autor, como acadêmico dedicado, era grande entendedor. Sua tendência à ficção fantástica repele alguns leitores mais sérios (como minha mãe hahaha) mas atrai muita gente que se encanta com essa forma figurativa de expressar coisas tão profundas, além de ser um recurso que deixa os textos mais leves e divertidos sem perder sua importância.

Deixando isso claro, cabe dizer que a forma do livro em questão pode ser um tanto quanto estranha para aqueles que não estão familiarizados com Lewis. O autor finge ter encontrando cartas que Fitafuso, demônio de alto cargo nas profundezas do Inferno, escreveu para seu sobrinho Vermebile, um tentador em treinamento, dando-lhe orientações de como atormentar seu humano escolhido. Temas como a sutileza do mal, as dificuldades da conversão, o caráter positivo e negativo dos prazeres (o que os transforma em pecado ou não), o significado da guerra (lembrando que o livro foi escrito durante a Segunda Grande Guerra), os perigos da arte, as armadilhas da democracia, o valor das palavras, entre muitos outros assuntos (até a crise do ensino estatal e o projeto Escola Sem Partido encontram eco nesse livro!) que são tratados de maneira formidável e que seria impossível catalogar e explicar tudo aqui.

Fica subentendido que o objetivo de “Cartas de um diabo” é discutir a condição humana e Lewis joga muitos baldes de água fria em seus leitores, sobretudo nos cristãos. Essa não é uma obra religiosa, claramente pode ser lida por pessoas de qualquer religião ou sem nenhuma delas, uma vez que o assunto pode ser entendido de maneira universal, mas ela é dirigida de maneira especial para os praticantes do cristianismo (como o próprio C. S. Lewis), principalmente nas partes em que discute a relação do crente com o mundo e a situação da igreja contemporânea, momentos em que nos são revelados nossos pontos fracos e somos levados a refletir sobre nossas responsabilidades para com a sociedade e sobre nossa relação espiritual com o Absoluto, o que me lembrou bastante Soren Kierkegaard e Agostinho de Hipona, filósofos admirados por Lewis e que exerceram notável influência em sua vida pessoal e profissional.

Esse livro deveria ser leitura obrigatória para qualquer cristão pelos motivos já mencionados, bem como para estudantes de Filosofia, Letras/Literatura e Teologia, por ter qualidade estrutural e um conteúdo riquíssimo, merecendo um estudo atencioso. É também recomendável para o público em geral que simplesmente goste de ler, busque instrução, ame a virtude e não tenha medo da verdade.

“A coragem não é apenas mais uma das virtudes, e sim a forma que cada virtude assume quando é testada.”

OBS.: as frases em destaque são todas do livro

OBS 2: uma passagem interessante é a que Fitafuso comenta sobre a dessacralização da expressão “meu Deus”; se tornou algo muito corriqueiro e desprovido de qualquer significado divino, todo mundo fala como expressão linguística e não como expressão de fé, mas lembremos de um dos Dez Mandamentos: “Não tomarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão; por que o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão” (Êxodo 20:7)

Título: Cartas de um diabo a seu aprendiz

Autor: C. S. Lewis 

Ano da publicação original: 1942

Editora: Martins Fontes

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