Feminismo x Feminilidade: a vida de Katharina von Bora

Nesse dia em que comemoramos os 503 anos da Reforma Protestante e dando continuidade a série sobre feminilidade bíblica, trago algumas informações e considerações sobre Katharina von Bora, a esposa de Lutero. No entanto, não é tão fácil ter uma visão correta sobre quem foi Katharina, já que ela mesma não deixou nada escrito sobre suas convicções pessoais e não foi objeto de atenção especial para ser registrada em sua época – foi “apenas” uma hausfrau (senhora do lar) competente e esposa de alguém importante.

Como falei no texto inicial da série (para quem não leu, tem o link no fim do post), precisamos contar a história de mulheres que foram exemplos positivos (apesar de não perfeitos) de feminilidade segundo a Bíblia. Katharina foi uma dessas, sem dúvida. “A esposa e mãe mais feliz da Alemanha”, como supostamente ela mesma disse. Valdecélia Martins diz que “conhecer um pouco da sua vida pode nos fazer perceber como a vida de uma mulher comum pode contribuir grandemente para que os planos e a glória de Deus se manifestem na História” (grifos meus).

 Se não contarmos essas histórias, elas serão contadas e corrompidas por pessoas que querem distorcer o Evangelho e a história da igreja para que se encaixem em suas ideologias. Isso aconteceu com a história de Katharina. Uma de suas biografias, talvez a mais conhecida no Brasil (não por sua qualidade, mas pela escassez de material em português), tem um viés feminista. Trata-se do livro “A primeira-dama da Reforma”, de Ruth A. Tucker. Essa obra é cheia de contradições, especulações e informações mal colocadas. Nos últimos capítulos, ela deixa bem claro que “se projeta” em Katharina, então preenche as lacunas com seus próprios pensamentos como se fossem os sentimentos da biografada. Ela também parece ter prazer em apresentar Katharina como uma mulher secular e que gostava de retrucar seu marido. Comentarei sobre esses aspectos depois.

Talvez o artigo “A feminilidade bíblica e a esposa de Lutero” (Valdecélia Martins) tenha sido uma resposta ao livro “A primeira dama da Reforma: A extraordinária vida de Catarina von Bora” – começando pelo título, já que ela não é nem chamada pelo próprio nome, é a “esposa de Lutero”. Esse livreto tem uma abordagem bem diferente e mais positiva do ponto de vista cristão, apesar de menos relevante do ponto de vista histórico – o que não é um defeito, já que a proposta não é tratar da vida de Katharina como um todo, mas destacar um aspecto. Outro livro que usei de referência foi o “Kate Luther” de D.D. William Dallmann.  

Valdecélia Martins alerta sobre o movimento feminista, especialmente sobre “feministas inovadoras de uma teologia que redefine a mulher”, e nos diz que é preciso “olhar para as mulheres atuantes na Reforma sem os óculos do feminismo”, pois esta ideologia é incompatível com o ensinamento bíblico por colocar o ‘empoderamento’ da mulher justamente em não cumprir a “função de parceira e auxiliadora estabelecida por Deus desde a Criação (Gn 2:8)”.

 Interessante ela ressaltar esse último ponto, pois realmente o papel de auxiliadora não foi uma consequência da Queda. Foi algo ordenado antes.  Infelizmente, ela ainda repete o conto de que algumas conquistas sociais foram fruto da luta feminista, o que eu discordo, mas não é assunto para esse momento. Porém ela diz que é uma “luta ilegítima, pois pauta-se numa motivação egoísta”, comentando ainda que é uma estratégia para minar as tradições, destruir o casamento e alienar pais e filhos.

Martins diz que “a Reforma Protestante fundamentou-se, essencialmente, na volta a este padrão bíblico [de valor do casamento]”, ou seja, algo que já fazia parte do cristianismo primitivo e foi perdido ao longo do tempo, afirmando ainda que a Reforma favoreceu a dignidade da mulher como dona de casa, esposa e mãe. Particularmente, acho que o protestantismo talvez tenha deixado a mulher solteira desamparada, já que antes ela podia se refugiar na relativa segurança de um convento, mas esse é um problema que não vale a pena discutir.

Sobre a vida de Katharina de Bora, sabemos que ela nasceu em 1499 e foi mandada para um convento aos 5 anos, depois que a mãe morreu e o pai casou novamente. Fugiu do convento na Páscoa de 1523, junto com outras freiras, indo parar em Wittenberg, epicentro da Reforma Protestante. Lá, todas casaram ou voltaram para suas famílias, exceto ela.

 Depois de uma promessa de casamento não cumprida (pelo rapaz), ela continuou solteira, em parte por não aceitar qualquer um, em parte por talvez não ter aparecido mais ninguém. Dizem que ela sugeriu que só casaria com Nicolau Amsdorf ou o próprio Lutero. Em 1525, aos 26 anos, casou-se com o Doutor Lutero, que já tinha 42 anos.

O casamento de ex-monges com ex-freiras era um escândalo na época, já que ambos estavam quebrando um juramento feito perante Deus. Vale lembrar que o casamento de clérigos era comum antes de 1079, mas Tucker esquece de mencionar isso e trata como sendo algo inovador. Mais uma vez, era um retorno às origens.

O que pode parecer estranho para nossa época, é que os dois não se amavam, mas nutriam afeto e respeito um pelo outro, algo que é muito mais importante: amor se constrói com o tempo, o que inicialmente é fundamental é uma avaliação racional e a noção de responsabilidade e compromisso, algo que os dois foram cuidadosos de observar antes dos votos de casamento e que deu certo. Sabemos disso pelo que foi registrado nas cartas de Lutero, onde ele carinhosamente se refere a ela e deixa claro que passou a amá-la. Tucker reclama que por vezes ele zomba de Kathe e fala sobre ela de modo grosseiro. Nada fora do normal num casamento.

O casal teve seis filhos nascidos vivos, dos quais apenas 4 atingiram a idade adulta. A morte das filhas foi um momento marcante, como também um aborto natural que a deixou muito doente. A família ainda enfrentou invasões, perseguições e ondas de peste negra, além de problemas financeiros. Faleceu em 1552, aos 53 anos, cerca de 6 anos após o marido (que faleceu em 1546).

Durante sua vida, Katharina von Bora tomou conta do Mosteiro Negro como uma pensão,sendo conhecida por sua hospitalidade; atuou como uma espécie de curandeira (conhecimentos medicinais básicos aprendidos no convento), fazendeira, fabricante de cerveja, negociante e uma dona de casa diligente, mãe dedicada e uma boa esposa, uma hausfrau completa e exemplar.

Martins destaca a “relação perfeita de interdependência” que deve existir num casamento e que foi notável no casal Lutero. Ela pode não ter composto hinos ou ajudado com os sermões como fez Sarah Kalley, mas sua suposta falta de preocupação teológica não a fez menos importante. Ela cuidava da saúde e das finanças de Lutero, o que o ajudou a continuar seu trabalho, já que tinha um porto seguro em casa e não tinha que cuidar de tudo sozinho. Essa foi a forma de Katharina servir à obra de Deus. Dallmann cita algumas cartas de Lutero: “Em casa, eu deixo o domínio para Kate”. “Deus seja louvado, pois eu tenho uma mulher piedosa e fiel em quem o coração de um marido pode confiar. ” Ele a chamava de “estrela da manhã de Wittenberg”, por que ela acordava cedo para trabalhar. Também a chamava de “minha patroa”. Pelas cartas, é possível notar senso de humor e intimidade entre os dois.

A acusação de “secularismo” se baseia em alguns supostos questionamentos que ela teria feito ao marido, na falta de relatos sobre sua devoção e por seu marido, em cartas, lembrá-la de que deve orar e não se preocupar, pois preocupações faziam parecer que Deus não é Todo Poderoso – nada disso é suficiente para alegar que ela não ligava para a vida religiosa e temos motivos para pensar o contrário.

Ela o ajudou a enfrentar a depressão. Tem uma história de que numa das crises de Lutero, ela teria se vestido “no mais negro luto”, como diz Dallmann. Quando o marido perguntou o motivo, ela teria dito que “Deus morreu”. Nietzsche largou o seminário antes de ouvir o fim da história. Resumindo: ele teria se indignado e dado um pequeno sermão sobre como Deus é Eterno, ao que ela respondeu que pela atitude de desesperança dele, parecia mais que Deus tinha morrido, o que o teria feito retomar o ânimo e continuar o trabalho. Dallmann comenta que “se isso não é literalmente verdade, é verdade em espírito”.

Nas palavras de Martins, ela “soerguia o esposo para o lugar da sua missão”. Uma missão que poderia tirá-lo dela para sempre, como nos lembra essa autora. Isso mostra que ela não agia em interesse próprio, mas tinha noção de que estava envolvida em algo importante e que sua função era apoiar o marido e cuidar dele, dando suporte para que ele continuasse seu trabalho, ao invés de ser uma esposa mesquinha que apenas quer que seus desejos sejam satisfeitos.

Sobre a submissão, já postei um mini-texto no Instagram, por isso vou comentar brevemente aqui o que não expliquei lá (ainda que não tão bem quanto o Magister Philip explicaria): a palavra vem do latim sub (estar debaixo de) e missio (ser enviado para), ou seja, quer dizer estar sob a mesma missão. Martins diz que “a compreensão dessa verdade foi  evidência na vida de Catarina von Bora.” Ela não era igual ao marido – se fosse, não poderia ter preenchido os espaços em branco da vida dele.

Preserved Smith diz que Lutero inaugurou a “era do casamento”, contrastando tanto com a licenciosidade da antiguidade quanto com o asceticismo medieval, pois na Reforma, o casamento e a vida familiar foram exaltados como presente de Deus e como ambiente para desenvolver as virtudes cristãs. Dallmann diz que “Lutero devolveu ao pai cristão o sacerdócio original como cabeça da família”.

Claro que Katharina tinha seus defeitos e posso apostar que a maioria dos protestantes não imagina os líderes, mártires e demais figuras significativas da história da igreja como imaculadas. Talvez ela realmente retrucasse o marido, como diz Tucker. Algo comum e inevitável, mas certamente não algo legal como Tucker faz parecer. Parece que também era orgulhosa, talvez até fosse chatinha, não sabemos. O que sabemos é que realmente algumas pessoas não gostavam dela. No caso de alguns, é até compreensível a visão de Katharina como uma pedra no sapato, já que viam que seria melhor para os rumos da Reforma que Lutero estivesse mais livre e preocupado apenas com questões teológicas, sem ninguém o influenciando nem tomando seu tempo com coisas domésticas. Essas coisas não desmerecem o resto: “Temos esses tesouros em vasos de barro para que a excelência do poder seja de Deus e não nossa.” ( 2 Co 4:7 )

Minha observação particular sobre a feminilidade de Katharina é a falta de delicadeza. Francine Walsh (do blog e canal Graça em Flor) diz que tanto o feminismo quanto a “feminilidade açucarada” distorcem o verdadeiro papel da mulher. Muita gente tem uma visão de feminilidade como pura delicadeza e subserviência, o que não condiz com a verdade. Certamente a mulher deve ser gentil, mas também firme. Não se trata de ser uma princesinha frágil num castelo. Inclusive, se deixar levar pela própria fraqueza é uma falha na mulher. Uma camponesa com mãos calejadas de tanto trabalhar pode ser tão verdadeiramente feminina como uma sofisticada mulher da nobreza .

Martins comenta que “nem sempre nos damos conta, mas o feminismo sutilmente influencia nosso dia a dia, nossa maneira de administrar nosso lar, criar nossos filhos, nossa maneira de vestir, nossas relações conjugais e até mesmo nossa teologia.” Frequentemente vejo pessoas que não se identificam com o feminismo repetindo jargões feministas e indo na mesma direção que elas. Eu mesma já fui uma dessas pessoas. Deixamos nos levar por desejos pessoais e propaganda mundana.

Não é isso que o Senhor Deus quer de nós e se quisermos agir de acordo com Sua perfeita vontade, temos que deixar de lado nosso ego, aceitar correção e conselho e humildemente procurar a direção para nossas vidas na Palavra de Deus. Não podemos ignorar “dois ou três versículos” que dizem algo que não gostamos. Ainda que a mulher não queira casar, não deve ter desprezo pelos homens, nem pelo casamento ou pela maternidade. Não é por que essa não é sua vontade ou não é o seu chamado que a coisa em si deve ser desprezada. Também não é por não querer ser uma hausfrau como Katharina que você deve ser egoísta. É preciso encontrar uma forma de servir a Deus – não aos seus próprios interesses – e de acordo com sua natureza feminina – ou seja, sem tentar tomar um lugar social ou eclesiástico que não é seu.

O que devemos, em qualquer caso, seja no papel de solteira, casada, viúva, mãe, avó, etc, é buscar entender o que diz a Bíblia sobre como a mulher deve ser e também não podemos nos alienar em relação aos movimentos ideológicos que estão influenciando o mundo em que vivemos. Devemos estudar, ficar alertas e nadar contra a corrente sempre que necessário. O mesmo vale para os homens.

Ainda tinha muito que falar sobre Katharina e algumas críticas a fazer sobre o livro “A primeira-dama da Reforma”, mas ficará para outro dia, pois o assunto é extenso e escrevi esse texto de última hora, só para não passar em branco e para cumprir a agenda (como vocês devem ter percebido, estou levando cerca de 1 ano para escrever sobre cada assunto que comento que achei interessante, se eu seguir nesse ritmo, só vou escrever sobre Feminilidade Radical lá para o fim 2021, quando vocês já vão ter lido ou perdido o interesse, mas farei o possível para agilizar, por que esse é brilhante e importantíssimo, JURO). Espero que vocês tenham gostado. See you later, fellows!

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A necessidade do cavalheirismo

O dia 15 de julho é considerado o “dia do homem” (por razões que eu desconheço). Inspirada numa história que vi nas redes sociais e em coisas que tenho lido, vou aproveitar a data para escrever esse texto refletindo sobre o que o homem deveria ser e o que tem sido feito dele.

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The Accolade, Edmund Leighton, 1901

Clive Staples Lewis, durante a Batalha da Inglaterra (1940), escreveu um texto chamado A necessidade do cavalheirismo. Não poderia ter tido momento mais oportuno para destacar isso: a guerra, de fato, foi vencida por cavalheiros. E ninguém poderia escrever melhor sobre isso do que um professor de literatura inglesa medieval.

Em inglês, a palavra usada por Lewis é chivalry, que também significa “cavalaria”. Em português, fazemos uma distinção entre cavaleiro/cavalheiro (em inglês também, como no caso de knight e gentleman, mas o motivo é outro, não vou entrar em detalhes sobre a invasão normanda agora), mas a ideia é realmente remeter à Idade Média: o cavaleiro é aquele que representa o homem que pode até não ser nobre de berço, mas possui nobreza de espírito, pois é capaz de agir de forma corajosa e altruísta.

Em seu texto, ao citar Le Morte D’Arthur, Lewis destaca as palavras que Thomas Malory usou para descrever sir Lancelot: meekest e sternest, isto é, “o mais dócil” e “o mais firme”; isso resume como deve ser um cavaleiro/cavalheiro (vou usar apenas cavaleiro daqui em diante): como dito por Lewis, “um homem de sangue e aço, acostumado a ver cabeças esmagadas” (e talvez esmagava ele mesmo algumas), mas também “gentil e modesto”, capaz até de chorar, como fez Lancelot. O professor continua dizendo: “Talvez você me pergunte ‘qual a relevância disso para o mundo moderno?’ É intensamente relevante. Talvez seja ou não seja praticável – os homens medievais notoriamente falharam em obedecer isso – mas certamente é algo prático, tanto quanto seria prático para um homem no deserto encontrar água.”

O código dos cavaleiros (chilvary code) era composto por diretrizes militares e orientações de conduta social, algo tipicamente britânico (ainda que tenha se popularizado na cultura ocidental como um todo e encontrasse semelhança no ethos de outras ordens de cavalaria da Europa continental), pois mesclava o ideal de guerreiro saxão (como vemos na lenda de Beowulf, um homem forte e destemido) com o ideal de homem cristão (aquele que procura ser virtuoso como Cristo).

É interessante notar que a distribuição de papéis sociais para homens e mulheres tem por base a biologia e a própria natureza humana; se fosse uma “construção social” ou uma “imposição religiosa”, povos tão diferentes não teriam chegado à uma conclusão tão similar. Claro que existem exceções, mas de modo geral, é natural que a mulher seja mais física e emocionalmente frágil (em relação ao homem, não é o mesmo que dizer que a mulher é sempre fraca e o homem é sempre forte, atenção às palavras, linguagem é tudo) e por tanto voltada às atividades domésticas, o cuidado com o lar e com as pessoas, enquanto é natural que o homem seja provedor e protetor. Complementarismo. Isso é evidente e tem feito a humanidade funcionar de forma satisfatória (com seus defeitos, claro, mas com sua glória e beleza também) por mais de 5 mil anos.

O chivalry code está bem representado na literatura inglesa, sobretudo no Ciclo Arthuriano, série de contos que envolvem o Rei Arthur e Os Cavaleiros da Távola Redonda, personagens “semi-históricos” (provavelmente tem um fundo de verdade, como algumas pesquisas indicam). Em livros como “A morte de Arthur” (sir Thomas Malory) ou “Sir Gawain e o cavaleiro verde” (adaptado por Tolkien), vemos que era cobrado do homem que este prezasse pela bravura, lealdade (ao país, a Deus, à família, aos companheiros, à mulher amada, aos ideais, a si mesmo) e a honra (cumprir o dever, não trapacear, respeitar até mesmo os inimigos). Ao contrário do que dizem certos grupos ideológicos, não era bem visto que o homem adotasse comportamentos inadequados como a crueldade, a preguiça, a infidelidade, entre outros; também era sobre ele que recaíam as atividades mais penosas e perigosas, além de não ser tido como merecedor primário de conforto, sendo mais valoroso aquele que privava-se de luxos e os cedia aos mais frágeis como crianças, mulheres e idosos.

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God Speed, Edmund Leighton, 1900

Com a queda e/ou reestruturação das monarquias européias depois da fatídica Revolução Francesa, o código dos cavaleiros perdeu sua relevância, tendo seu esquecimento sido proporcional ao avanço das ideias progressistas, especialmente do feminismo, que tentam apagar da história qualquer traço da moral judaico-cristã e até mesmo do heroísmo pagão que estabelece um ideal de homem (no sentido específico da palavra), o que é não apenas lamentável, mas também insano, já que, como vimos, trata-se de algo instintivo e mudar isso é tentar alterar artificialmente a natureza humana.

Como se já não fosse óbvio que o resultado seria desastroso, podemos hoje em dia verificar as consequências desse experimento social que ganhou força da década de 1960 pra cá (indico os livros “O outro lado do feminismo” e “Feminilidade Radical”, depois vou escrever sobre eles também). Tanto homens quanto mulheres têm sido educados desde cedo (não só nas escolas, também na cultura) a ignorar os “ultrapassados e opressores estereótipos de gênero”. As meninas devem se igualar aos homens e os homens devem inibir seus instintos. O produto dessa inversão de valores é uma geração marcada pela depressão e pela ansiedade como nenhuma outra na história humana, nem mesmo as gerações das duas maiores guerras (bem pelo contrário, estas foram gerações extremamente antifrágeis), tem aumentado o número de suicídios (especialmente entre homens), de divórcios, de violência doméstica (também praticada por mulheres, vou deixar uns vídeos sobre isso no fim do post), sem contar as pessoas que se veem confusas quanto ao próprio gênero.

Claro que não existem seres humanos perfeitos, mas isso não significa que devemos extinguir os ideais, muito pelo contrário: a imperfeição de nossa natureza e nossa tendência de ceder aos caminhos mais fáceis torna necessário o estabelecimento de padrões que nos façam visualizar o melhor de nós mesmos; os estereótipos de mulher ideal ou homem ideal servem para que vejamos o que há de melhor nos seres humanos e tentemos alcançar esse ideal, nos aperfeiçoando durante a caminhada, ainda que saibamos que nunca atingiremos plenamente esse objetivo. É como a figura do filósofo descrita por Platão na obra O Banquete: o filósofo é aquele que não se contenta com a ignorância, ele aspira ao que é belo e bom e sábio, ainda que saiba que nunca será bom nem belo nem sábio, de modo que faz isso por querer elevar seu espírito e viver uma vida virtuosa.

Sobre o cavaleiro, Lewis diz que ele não é fruto da natureza humana, e sim uma obra de arte, pois une de forma bela duas tendências humanas: o cavaleiro é valente sem ser bárbaro, e doce sem ser covarde. Não é natureza pura, nem natureza alterada: é natureza educada. Como os veteranos de guerra que lutaram e não perderam o coração, por que foram combater não pela ação da batalha, mas por ter em mente o amor ao país, à família, à liberdade e à tradição. Em As Duas Torres, Tolkien diz:

“A guerra deve acontecer, enquanto estivermos defendendo nossas vidas contra um destruidor que poderia devorar tudo; mas não amo a espada brilhante por sua agudeza, nem a flecha por sua rapidez, nem o guerreiro por sua glória. Só amo aquilo que eles defendem: a cidade dos homens de Númenor, e gostaria que ela fosse amada por seu passado, sua tradição, sua beleza e sua sabedoria presente.”

Mas nem tudo está perdido. A natureza humana não pode ser realmente alterada – mesmo que por vezes isso pareça verdadeiro, é apenas uma ilusão, fruto de adestramento. Recentemente, o garoto Bridger Walker, de 6 anos, arriscou a vida para salvar a irmã mais nova de um ataque de cachorro. O menino ficou bastante ferido e teve que passar por uma cirurgia. Quando perguntado, ele falou que se alguém tivesse que morrer, que fosse ele. Numa sociedade em que somos ensinados a nos valorizar acima de tudo, uma auto-estima que mais parece egoísmo, é surpreendente ver alguém (e alguém tão pequeno) agir de forma altruísta e tão corajosa. Walker é realmente digno de ser chamado de herói, um verdadeiro cavaleiro.

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créditos: Nicole Walker

História de Bridger Walker : https://revistamarieclaire.globo.com/Noticias/noticia/2020/07/menino-salva-irma-de-ataque-de-cachorro-e-fica-com-rosto-desfigurado.html

Padre Paulo Ricardo sobre cristãos e armas : https://www.youtube.com/watch?v=RnTJiLgDlNM

Ana Campagnolo sobre violência contra homens: https://www.youtube.com/watch?v=BjpPrk3u2AM

Palestra “Encontrando a feminilidade bíblica em Nárnia”: https://www.youtube.com/watch?v=mCF9DW00_EU

Carlson e Peterson sobre o declínio da masculinidade: https://www.youtube.com/watch?v=coakHNk_vPQ

 

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Sarah Poulton Kalley

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Acredito que a maioria de vocês já saiba um pouco sobre o casal Kalley. Como gosto de datas temáticas, vou aproveitar o que seria o 195º aniversário da Sarah para trazer mais detalhes sobre ela (espero que meu cérebro não seja o único lento na hora de lembrar como se lê 195 em números ordinais). Fiz apenas um apanhado geral do que pude encontrar, mas creio que é o suficiente para o propósito desse projeto, que é tirar uma lição de vida a partir da biografia dessas mulheres que serão apresentadas.

Sarah Poulton Wilson nasceu na Inglaterra, em 25 de maio de 1825. Era considerada por todos como uma menina alegre e inteligente. Tinha talento com pintura, era fluente em francês e alemão desde cedo (mais tarde em português também), mas o maior destaque em sua vida foi a música (o que eu menos vou falar, já que é a parte mais conhecida). A mando de seu pai, começou a ensinar para rapazes na Escola Dominical; por conta própria, resolveu criar um curso noturno de conhecimentos gerais para jovens pobres, muitos dos quais mais tarde ajudaram a família Kalley no Brasil, como William D. Pitt. Sarah também liderou uma turma de garotas para ter  aulas de costura e fazer roupas para enviar aos missionários. As pessoas diziam que viam a santidade em seu rosto.

Conheceu Robert Reid Kalley, médico e missionário escocês (ex-ateu, deixei um link lá no final sobre isso), em 1851, quando foi à Síria com seu pai e seu irmão doente, Cecil Wilson. O doutor Kalley tratou Cecil, mas ele não resistiu e veio a falecer. Robert, que era viúvo e 16 anos mais velho, “apaixonou-se pela jovem Sarah e ficou impressionado com seu interesse e entusiasmo pela obra missionária” enquanto ela “ficou encantada com seu modo de orar e expor as Escrituras.” [1]Casaram-se em dezembro de 1852 e desde então, segundo Forsyth na biografia do doutor Robert (Uma Jornada no Império), suas vidas tornaram-se “tão entrelaçadas que é impossível separá-las, como por exemplo, Priscila e Áquila, nas Escrituras. Um nunca é mencionado sem o outro […] a biografia dele torna-se então a biografia deles” (grifo meu). O casal viveu nos Estados Unidos e na Ilha da Madeira antes de vir para o Brasil. O senhor Kalley costumava utilizar sua profissão para evangelizar, enquanto Sarah procurava fazer isso visitando as famílias e conversando com as senhoras.

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A chegada deles à nossa querida Terra de Santa Cruz se deu em maio de 1855, no Rio de Janeiro. Moraram em Petrópolis, numa casa batizada de Gernheim  (algo como “doce lar” em alemão). Em julho de 1858, os Kalley inauguraram a Igreja Evangélica Fluminense. Foi a primeira missão protestante que obteve sucesso em terras tupiniquins. Sarah começou ministrando estudos bíblicos durante as tardes de domingo para crianças inglesas; depois conseguiu reunir crianças de várias nacionalidades, com aulas em português, inglês e alemão. Procurava incentivar os alunos com prêmios (geralmente livros) e atividades extras (como passeios e lanches) e também incluía pessoas negras, o que era raro na época (mas eu não vejo muitos grupo falando sobre como as igrejas foram essenciais contra o racismo). Já adultos, muitos de seus pupilos enviaram cartas agradecendo imensamente por tudo.

Os Kalley tinham o objetivo de fundar uma escola, o que lhes foi negado até maio de 1872, quando foi inaugurada a Escola Evangélica Fluminense de Instrução Primária, ou “Escola Diária”, como era conhecida, que ficou sob o comando do professor José Vieira de Andrade; depois, a própria Sarah inaugurou um curso noturno para, nas palavras dela “saciar a sede de instrução da nossa sociedade”.[2] No ano seguinte, visitaram Recife e fundaram a segunda igreja congregacional brasileira, a Igreja Evangélica Pernambucana. Além da criação da primeira escola dominical e do primeiro ministério infantil, foi a senhora Kalley quem fundou a União Auxiliadora Feminina, que serviu de modelo para sociedades femininas protestantes posteriores.

O casal chegou a receber uma visita de Pedro II, com quem trocavam correspondência. O monarca interessou-se pelos Kalley por causa da intelectualidade deles e talvez tenha contribuído para a aceitação do protestantismo no Brasil, que era rechaçado por parlamentares católicos. No livro que trata sobre a influência britânica na modernização do Brasil (Britain and the onset of modernization in Brazil), Richard Graham não apenas destaca o papel dos Kalley para a transformação do país (no capítulo Individual Salvation, que trata sobre como, nas palavras de ninguém menos que Rui Barbosa, “onde há protestantismo, há prosperidade industrial, vigorosa e luxuriante como uma vegetação tropical”), mas afirma que depois da visita do Imperador ao casal, eles conseguiram converter algumas senhoras da Corte. Robert estava doente e quem recebeu o Imperador foi Sarah. O objetivo da visita era conversar sobre as viagens, mas devido à situação, não durou muito. Quando o marido estava doente, Sarah atuava como secretária, redigindo cartas, preparando esboços de sermões e orientando todo o trabalho da igreja e das demais atividades, com atenção especial para os colportores, pois a distribuição do material evangélico era de fundamental importância (material este boa parte traduzido pelos Kalley, como a primeira edição brasileira de O Peregrino).

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Além dos já mencionados trabalhos, a senhora Kalley também atuou como escritora, inclusive um de seus livros (A Alegria da Casa, 1866) foi usado para ensinar dicas de saúde e cuidados domésticos nas escolas femininas no Brasil e em Portugal. No entanto, seu trabalho mais conhecido é a sua contribuição para o primeiro e mais popular hinário brasileiro, o Salmos e Hinos, para o qual compôs ou traduziu cerca de 200 hinos, deixando evidentes seus talentos poéticos, pois não apenas traduzia, mas garantia a adequação e a beleza das músicas, ou, como disse Forsyth,“adornava e ilustrava a doutrina com sua capacitada poética”. Também ilustrava literalmente, pois fazia desenhos das passagens bíblicas.

 “O hábito de ordem exterior ajuda a adquirir hábitos de ordem no regulamento de idéias, pensamentos e costumes intelectuais. Não esquecer o que sempre deve ter o primeiro lugar no arranjo da vida espiritual. O grande mestre diz: ‘Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça’” KALLEY, Sarah Poulton. A alegria da casa, p. 7-8.

Os Kalley adotaram duas crianças, ambas brasileiras: o João Gomes da Rocha (que escreveu muito sobre o trabalho dos pais) e a Silvana Azara de Oliveira, que foi adotada já na Escócia, para onde o casal voltou em 1876 devido aos problemas de saúde do Robert. Lá, a casa em Edimburgo foi chamada de “Campo Verde” e eles realizavam cultos em português.  Robert Kalley faleceu 12 anos depois, por causa de problemas cardíacos. Foi uma morte dolorosa que a Sarah assistiu e relatou em cartas para as congregações de Recife e do Rio: “Mesmo com muita dor no peito e dificuldade de respirar, ele orava por todos: “Senhor, abençoa teus servos no Brasil, abençoa Santos, Jardim, Bernardino! Senhor, abençoa Tua obra em suas mãos! Senhor, abençoa os crentes em Pernambuco!”[3]. Segundo Forsyth, as últimas palavras dele foram “minha querida esposa”.

Depois da morte do marido, apesar de ter ficado desolada, Sarah continuou trabalhando. Fundou uma instituição de apoio missionário para o Brasil (Help for Brazil Mission, 1892) para recrutar e dar apoio aos missionários e também ajudava estudantes acolhendo-os em sua casa, pelo que ficou conhecida como “a mãe de Edimburgo”. Ela faleceu em casa, no ano de 1907, e foi sepultada junto ao esposo no Dean Cemetery. Na lápide, a pedido seu, está escrito “Herdeiros da Graça da Vida”.

Sarah e Sia

Voltando ao conceito que vamos trabalhar nessa série, o de “auxiliadora idônea”, note que Sarah foi assim por toda a vida: começou ajudando o pai, ensinando em escola dominical, depois auxiliou o marido, as congregações e comunidades em geral por onde passou. Tenho uma afeição particular por ela por tudo que ela tem para nos ensinar, em especial o fato de que existem várias formas de servir a Deus e uma delas é estudar. Nem todo mundo tem talento para pregar ou ensinar na igreja ou ir para campo evangelizar, ou algo tipo, mas redigir e traduzir material pode ser algo edificante na vida das pessoas também. Cabe notar também que essa é uma característica predominantemente protestante. Em seu trabalho “Educação e cultura protestante na transição do século XIX”, Afonso diz que “na perspectiva protestante, abrem-se possibilidades ao elemento feminino – seja numa participação efetiva, como no caso da publicação/distribuição/circulação do livro A Alegria da Casa, seja como redatoras, correspondentes, educadoras e gestoras das escolas protestantes”, o que aconteceu principalmente por causa da relevância dada à leitura das Escrituras Sagradas sem mediação, então desde o princípio houve uma preocupação com publicação de material e com a escolarização das pessoas, e também por que a Reforma deu mais relevância às mulheres, mas falarei disso depois.

Para além do assunto principal dessa postagem, que é feminilidade bíblica, ler sobre os Kalley é ler sobre a Era de Ouro da história do Brasil, sobre a importância da educação, da dedicação e do trabalho árduo. Encerro com um hino composto pela Sarah, Dedicação Pessoal, que representa bem sua vida e deve servir de inspiração para todos nós :

Eis-me, ó Salvador, aqui.

Corpo e alma oferto a Ti,

Servo inútil, sem valor,

Mas pertenço a Ti, Senhor!

Fraco em obra e no pensar,

Mui propenso a tropeçar,

Salvo estou por Teu amor,

E me voto a Ti, Senhor!

Subjugado em todo o ser,

Me submeto a Teu poder.

Grande é o preço do perdão.

Dá-me igual consagração!

Eu, remido pecador,

Me dedico ao Redentor.

Teu –  é este coração,

Teu – em plena sujeição.

Vem tomar-me aqui, Jesus,
Para andar contigo em luz,

Sem reservas nem temor,

Teu cativo, ó Salvador!

REFERÊNCIAS:

SITES

https://www.hinologia.org/sarah-kalley/

https://igrejacongregacional.org.br/?page_id=38

https://www.ultimato.com.br/conteudo/os-pioneiros

http://conexaoeclesia.com.br/2015/05/18/o-naturalista-e-o-missionario/

https://www.elevados.com.br/artigo/507/brasil:-500-anos-de-evangelizacao.html

ARTIGO

AFONSO, J.A.  et al. Educação e cultura protestante na transição do século XIX: circulação de impressos e diálogos luso-brasileiros. Cuiabá, 2012.

LIVROS

FORSYTH, WILLIAM B. Jornada no Império: vida e obra do dr. Kalley no Brasil. São José dos Campos: Editora Fiel, 2006.

GRAHAM, RICHARD. Britain and the onset of modernization in Brazil 1850-1914. Cambridge: Cambridge University Press: 1968.

[1] https://www.hinologia.org/sarah-kalley/#_ftn7

[2] https://www.hinologia.org/sarah-kalley/#_ftn7

[3] https://www.hinologia.org/sarah-kalley/#_ftn7

A folha de figueira: o feminismo e a Bíblia

Há um ano, prometi a alguns de vocês que faria um resumo para quem perdeu a palestra “Feminismo e machismo: o conflito à luz das Escrituras”, que a professora Isabella Barbosa realizou na 1ª IPB de Caruaru. Não esqueci, apenas demorei… Acontece que é muito material para ler e acabei tendo outras ideias no meio do caminho, o que só consegui desenvolver esse ano. Então, além do resumo, apresentarei uma série sobre feminilidade bíblica e sobre a vida de algumas mulheres cristãs, como Sarah Kalley, Katharina von Bora e Elisabeth Elliot. O objetivo de investir nisso é que considero que  num mundo em que o feminismo se tornou midiático e as garotas são atingidas o tempo todo por ideias de “empoderamento feminino” e “libertação das mulheres”, é dever nosso tomar esse espaço e apresentar a perspectiva cristã conservadora. Acredite, não adianta apenas falar o que é certo ou errado, a lógica nem sempre funciona, às vezes o exemplo e a emoção contam mais, então é hora de contar histórias encantadoras sobre verdadeiras servas de Deus. Mas primeiro, o resumo.

E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.

Gênesis 1:27-28

O Senhor Deus criou um mundo com uma ordem perfeita (para saber mais sobre isso, recomendo procurar as palestras do professor Adauto Lourenço sobre a cronologia da Criação) e impôs um mandado cultural, social e espiritual, que podemos ver na passagem acima, isto é, dominar a Terra e tudo que nela há. Esse mandado foi reiterado no capítulo seguinte, onde também é detalhado o processo de criação da mulher e a designação de sua função: auxiliadora idônea. Esse é o termo que fundamenta todo o debate sobre o assunto aqui tratado.

idoneo

E disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idônea para ele.
Havendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todo o animal do campo, e toda a ave dos céus, os trouxe a Adão, para este ver como lhes chamaria; e tudo o que Adão chamou a toda a alma vivente, isso foi o seu nome.

Gênesis 2:18-19

Voltando a tratar sobre a ordem, reparem que primeiro, o Senhor cria o homem e atribui-lhe a tarefa de nomear os animais (o que, em tempos antigos, significava tomar posse[1]), só depois a mulher é criada. Um detalhe significativo está em Gênesis 3:1, o início da Queda:

“Ora, a serpente era mais astuta que todas as alimárias do campo que o Senhor Deus tinha feito. E esta disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim?”.

Houve uma tentativa de subversão da ordem: para desestabilizar a confiança que Adão e Eva tinham no Senhor, a serpente dirige-se primeiramente à mulher e a convence a tentar seu próprio companheiro, corrompendo assim a tarefa que lhe foi dada de cuidar e ser um ponto de apoio e confiança. Porém Deus restaura a ordem ao confrontar Adão primeiro: “E chamou o Senhor Deus a Adão, e disse-lhe: Onde estás?” (Gênesis 3:9), pois a ele foi dada a responsabilidade maior.

DT5746
The Rebuke of Adam and Eve, Natoire (

Uma das críticas do feminismo ao cristianismo é de que a Bíblia é machista, mas essa é uma visão completamente equivocada e simplista, pois falha em analisar todo o contexto bíblico. Primeiramente, importa o que Deus definiu: o princípio de liderança é masculino e já existia antes da queda; o homem deve ser o líder servidor e a mulher deve ser a auxiliadora idônea, contestar isso é contestar a Palavra de Deus. No entanto, isso não é algo ruim, como muitos querem demonstrar. O próprio Deus é Auxiliador (veja a lista de Salmos no fim do post), logo, não é uma posição de inferioridade, ao contrário, é algo tão importante quanto a liderança. Vejam Provérbios 31:10-31 (muito grande para postar aqui) e observem que é a mulher que mantém a estabilidade no interior da casa (o que tem um efeito psicológico imenso em produzir o bem estar de quem nela vive). Lewis[2] explica que as mulheres, por razões biológicas óbvias, têm a tendência de cuidar melhor das atividades internas.  E antes que alguma mulher se sinta ‘”livre” por ser solteira e/ou não ser mãe, a natureza é a mesma, apenas muda o papel a ser cumprido; sua essência (de auxiliadora) se revela no desempenho de qualquer papel que seja: em casa, no trabalho, na igreja, como filha, como tia, como aluna; e se você não conhece sua função, você não tem como exercê-la adequadamente.

Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.

Gálatas 3:28

A verdade é que o princípio de idoneidade está presente em toda a Bíblia, na qual encontramos a valorização de mulheres sábias e fortes, como Rute, Ana e Ester; também constatamos que em momento algum elas são tratadas como inferiores, como em outras religiões; ao contrário, todo o tempo se diz para respeitar a mãe, ser dócil com a esposa e a lei mosaica garantia proteção para a mulher solteira ou viúva. Inclusive, na cultura hebraica, “o dote pago pela família da noiva à família do marido deveria ser mantido em depósito, para servir de provisão à esposa, caso ela enviuvasse ou fosse abandonada pelo marido” [3].

Organizações progressistas evangélicas usam essas passagens para conciliar as Escrituras Sagradas com o feminismo, mas essa visão apresenta muitas falhas, começando com o fato de que um movimento que prega a aceitação de modelos de vida que vão de encontro à vontade de Deus simplesmente não pode se tornar palatável ao cristão. A valorização das personagens femininas da Bíblia e da história do cristianismo não tem a ver com feminismo, e sim com o resgate da feminilidade bíblica. O feminismo, alegou a professora, “é uma folha de figueira, o reflexo de uma cultura caída e sua luta é por poder e hierarquia, não é por direitos.”

…e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais.

Gênesis 3:7

A folha de figueira representa a tentativa humana de esconder de Deus os seus erros e resolver os problemas por conta própria (só para deixar claro, o texto não está sendo tomado como metafórico; uma figura do texto está sendo retirada e aplicada à outra situação; a crença literal em Gênesis se mantém). No caso da mulher, esta passou a sofrer com a gravidez e a ser subjugada pelo homem, como vemos em Gênesis  3:16,  e o feminismo tenta corrigir isso pregando a desvalorização da família e promovendo uma suposta independência total das mulheres, desvinculando-as de sua função originária como forma de evitar seu sofrimento e sua subjugação. Para algumas mulheres, é fácil aderir ao movimento por causa da sensação de pertencimento a um grupo e do amparo que eles aparentam promover (a tal “sororidade”), umas apoiando as outras contra um inimigo comum: o patriarcado, criado e mantido pela cultura judaico-cristã.

Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo.

1 Coríntios 15:22

A verdade é que, como explica Jordan Peterson, isso torna as mulheres infelizes, pois perdem seu propósito de vida tentando ser o que não são: “Equidade absoluta requer o sacrifício do valor em si – com isso, não haveria nada pelo que viver.”[4] Peterson observa ainda que o cristianismo não prega a vitimização, e sim a aceitação heróica do sofrimento, o que é exemplificado com a morte de Cristo, que mostra “como andar com Deus apesar da tragédia do autoconhecimento”[5] . Ao contrário disso, o feminismo coloca a mulher como vítima, e ao invés de procurar a reconciliação com Deus através de Cristo, prega a reorganização de toda a hierarquia social e a alteração (ou até mesmo abolição) da moral.

Ainda tem muito sobre o que falar, mas vou ficar por aqui, já que essa parte é o diferencial que foi apresentado na palestra; o resto, sobre história do feminismo, pode ser encontrado em qualquer lugar. Vou deixar dicas de filmes, uma breve linha do tempo e uns vídeos da Ana Campagnolo para quem quiser saber mais. Só gostaria de mencionar sobre Shulamith Firestone, que não é tão conhecida como deveria. Ela era uma feminista radical e o trabalho dela define o coração do feminismo, apesar de todas as variações que esse movimento apresentou ao longo da história. O objetivo dela é o mesmo objetivo da serpente que tentou Eva: perverter toda a criação de Deus. Ela defendia coisas como pedofilia e incesto, o que pode ser constatado em seu mais famoso livro, “A Dialética dos Sexos”, de 1970. Conhecer essas coisas ajuda a não se deixar enganar por “feministas moderadas”, “feministas evangélicas” ou “católicas pelo direito de decidir”. Para combater algo assim, é preciso ter não apenas cuidado, mas conhecimento.

Todas as referências bíblicas (que consegui anotar) da palestra:

Gênesis  1:26-28; 2:7-8,15-25; 3:1,15

1 Samuel 1 e 2

Salmos 10:14; 20:2; 30:2; 70:5; 72: 12-14; 86:17

Provérbios 31

Lucas 1:35, 7:44-46, 8:1-3

Romanos 1; 5:1, 17-19;

1 Coríntios 11:3, 11-12; 15: 22

Gálatas 3: 26-28

Efésios 5: 22-33

Colossenses: 3:14

Livros indicados pela palestrante:

Confrontando o feminismo evangélico (Wayne Gruden)

Transformando cosmovisões (Paul G. Hilbert)

Minhas dicas de filmes/documentários:

She’s beauty when she’s angry (Dore, 2014)

As sufragistas (Gavron, 2015)

Vídeos da Ana:

Não devo nada ao feminismo : https://www.youtube.com/watch?v=LElE_cFxZ4k

Desconstruindo os mitos feministas: https://www.youtube.com/watch?v=jv_AfGY-YVQ

O regaste da feminilidade: https://www.youtube.com/watch?v=818JkSr2rF4

Sobre Shulamith Firestone:

https://www.acidigital.com/noticias/feminismo-ideologia-de-genero-e-pedofilia-especialista-explica-como-se-relacionam-24553

https://mmjusblog.wordpress.com/2018/04/11/o-mundo-ideal-de-shulamith/

Linha do tempo básica:

Século XIX  –  movimento sufragista (direito ao voto)

1949 – lançamento do livro O Segundo Sexo (Simone de Beauvoir), fundamental para o feminismo moderno por supostamente expor a condição feminina da época

1960/1970 – movimento de massa e reivindicação de liberdade sexual e reprodutiva (aborto e métodos contraceptivos)

1980 – período de declínio

1990 – teoria de gênero difundida por Judith Butler e repopularização do movimento

REFERÊNCIAS:

[1] Bíblia de Estudo Arqueológica. São Paulo: Editora Vida, 2013. Pg 9.

[2] LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2017. Pgs 156-157.

[3] Bíblia de Estudo Arqueológica. São Paulo: Editora Vida, 2013. Pg 3.

[4] PETERSON, J.B. 12 Rules for Life. Londres: Allen Lane, 2018. Pg 303. (Tradução livre)

[5] PETERSON, J.B. 12 Rules for Life. Londres: Allen Lane, 2018. Pg 59. (Tradução livre)