Conspiração, negacionismo e o Holocausto: como a memória e a imaginação iluminam tempos sombrios

Muito se tem falado atualmente sobre “teoria da conspiração” e “negacionismo científico”. É interessante ver essa fé cega que algumas pessoas depositam na “Ciência” como se esta fosse uma espécie de deus e não uma área do conhecimento na qual há divergências internas e pontos obscuros – assim como em qualquer outra. É igualmente interessante que essas mesmas pessoas se neguem a acreditar que a ordem atual das coisas pode sofrer alguma alteração. É até compreensível querer acreditar que a normalidade não será perturbada. É mais confortável psicologicamente e mais fácil intelectualmente, pois não exige que o indivíduo dedique tempo observando nuances na cultura e na política e estudando coisas antigas para tentar entender como a humanidade se desenvolveu até aqui, como enfrentou crises e qual o caminho que esse movimento histórico parece indicar para o futuro. Tudo isso dá trabalho e não é nem um pouco divertido.

Hoje é o Dia da Memória do Holocausto e o tema do “conspiracionismo” e “negacionismo” tem uma profunda relação com esse momento tão terrível da História recente. Muita gente se emociona com filmes que contam histórias dessa época, muita gente evoca o termo “nazista” para rotular oponentes políticos, tudo isso sem entender como as coisas realmente aconteceram.

Há 10 anos, li um livro chamado “Inverno na manhã”, de Janina Bauman (esposa de Zygmunt Bauman), uma jornalista judia polonesa que narra como ela e sua família conseguiram escapar da perseguição do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores da Alemanha (quem acompanha o blog desde o começo já deve ter notado que eu gosto de usar o nome completo do partido, isso por que lembro muito bem de professores socialistas criticando o “nazismo” como se fosse algo completamente apartado das ideais totalitárias que eles mesmos defendem e como se fosse uma ideologia de direita! Socialismo de direita!). É uma obra que gosto de recomendar, mas não vou fazer resenha no momento, quero apenas ressaltar um detalhe: o tio conspiracionista (obs.: não lembro se essa palavra é usada no livro).

Um tio da autora, antes da nomeação de Adolf Hitler como Chanceler do Reich em 1933, já alertava sobre os desdobramentos da influência política e cultural que o Partido Nacional-Socialista estava ganhando. Voltando 10 anos na História alemã, vemos o episódio que ficou conhecido como “Golpe da Baviera” ou “Putsch da Cervejaria”.  Era (mais um) momento difícil naquele recém-unificado país e o povo vivia debaixo da sombra da Grande Guerra(1914-1918), que além do prejuízo econômico e do luto, feriu também o orgulho nacional, deixando um rastro de ressentimento (e para entender melhor ainda como as coisas chegaram nesse ponto, é preciso estudar da Paz de Vestfália até a Primeira Guerra Mundial). Nesse contexto de crise, a Baviera resolve se separar do resto da Alemanha por discordar da política de Berlim. Foi então criado um governo provisório, regido por um triunvirato. Pouco tempo depois, enquanto os três líderes da Baviera discursavam numa cervejaria na capital (Munique), o local foi invadido por militantes do partido de Hitler, junto com ele próprio. O golpe fracassou – em parte. Hitler foi condenado à prisão em 1924, onde passou 9 meses – o tempo de gestação do seu livro “Minha Luta” (Mein Kampf).

Com todo esse histórico, e sabendo hoje o que aconteceu depois, quem de nós chamaria o tio da Janina de “conspiracionista”? Está claro hoje que ele foi capaz de perceber a infiltração de uma ideologia e uma tendência de prática política que estava ganhando forma. Ele fugiu antes das coisas piorarem, mas o resto da família não quis acreditar nos “exageros” dele. Foram então perdendo espaço pouco a pouco: uma família de bem estar financeiro que passou a morar no Gueto da Varsósia, primeiro com algumas restrições, depois de forma miserável, pois faltava comida, atendimento médico e acima de tudo, faltava liberdade.

Pouco a pouco, os judeus, eslavos e alguns outros grupos de “impuros” começaram a ser mandados para campos de trabalho forçado – locais onde também ocorriam experiências científicas cruéis e extermínio em massa.  Aliás, hoje passamos também por um momento de banalização das palavras: genocídio é um termo que carrega um significado de acordo com a etimologia e não com a vontade midiática de causar impacto emocional. Vem de geno = raça + cídio= matar, termo que foi criado por um advogado judeu para descrever o holocausto e foi usado nas descrições dos julgamentos do Tribunal de Nuremberg, a partir de onde se popularizou.

No início de 1933 aconteceu um atentado terrorista em Berlim: o incêndio do Reichstag (parlamento). Um comunista holandês foi identificado como autor do ataque e alegava que tinha feito isso sozinho. Hitler não era ainda o Führer, era apenas chanceler, mas soube aproveitar essa oportunidade para tomar o poder. A população assustada com o caos, acatou o aumento dos poderes do chanceler como sendo uma medida protetiva (“é para o seu bem”, igual o lockdown). Começou então uma caça aos comunistas que os professores socialistas gostam de ressaltar, da mesma forma que gostam de ressaltar que os soviéticos “ajudaram a derrotar os nazistas”, como se isso automaticamente tornasse o comunismo aceitável – o que requer que ignoremos a origem comum de ambas as ideologias, o breve momento de comunhão entre Hitler e Stalin, o fato de que o líder nacional-socialista apenas se aproveitou do acontecimento, a crueldade do Exército Vermelho e o modus operandi do regime soviético em geral. 

Voltando ao assunto principal, falemos da lição que esse momento histórico nos ensinou sobre ciência. Depois de ter consolidado o poder (perseguição aos opositores, desarmamento, censura,etc,o kit básico de totalitarismo), os planos do partido começaram a ser implementados. Eles já haviam sido divulgados antes, começando com “Minha Luta”, mas nesse momento, estavam sendo impostos com base numa suposta justificação histórica e científica.

Toda a cultura estava tomada: criaram a Reichskulturkammer, uma espécie de ministério da cultura, que utilizava a arte para propagar a ideologia do partido, criar uma sensação de união, paz e normalidade, ainda que houvessem muitos conflitos abaixo da superfície. Um breve comentário sobre a Reichskulturkammer e o ministério da propaganda: é um ponto que gostam de comparar com o conservadorismo por causa da ligação com os clássicos, a crítica ao modernismo e busca pelas raízes nacionais. No entanto, essa é uma visão muito rasa do conservadorismo. O “nazismo” era revolucionário e tinha o objetivo de criar uma nova e perfeita sociedade, através de engenharia social e controle tecnológico. O conservadorismo, ao contrário, está baseado na experiência histórica, e não num passado ou futuro utópicos; na percepção de que a natureza humana é imperfeita, e por isso não pode haver sociedade perfeita; de que a individualidade deve ser respeitada e a propriedade privada deve ser defendida (muita gente pensa apenas no sentido material, mas isso inclui a vida, que é nossa primeira propriedade); que instituições que historicamente se mostraram boas, úteis e belas devem ser mantidas e as demais devem ser reformadas ou destruídas; entre outros aspectos que podem ser melhor compreendidos ao ler obras como “Reflexões sobre a revolução na França” (Burke) e “Como ser um conservador” (Scruton).

A base do pensamento hitlerista, diferente de outros partidos nacionalistas ou trabalhistas, era a superioridade da raça ariana. Não era ser alemão que importava exatamente. Não era o passado em comum, o idioma ou as instituições que uniam a nação o que importava, e sim a aparência e a genética. Existiam livros escritos por cientistas que “comprovavam” a superioridade racial ariana. Era com base no avanço tecnológico que a eugenia era pregada e aplicada: eliminar deficientes e as raças inferiores para ter um futuro melhor (com base nisso Sanger criou as clínicas de aborto Planned Parenthood). Foram c-i-e-n-t-i-s-t-a-s que desenvolveram o projeto Lebensborn, cujo objetivo era criar crianças perfeitas, os melhores arianos possíveis. Para entender melhor, sugiro assistir a série “O Homem do Castelo Alto”, da Amazon, baseada na obra homônima de Philip K. Dick, que imagina um mundo em que Hitler venceu a guerra. Apesar de ser uma obra fictícia, o autor não inventou as ideias e as práticas do Partido Nacional-Socalista, tudo foi fundamentado no que está extensamente documentado. Vemos como a eugenia era tratada como a mais alta CIÊNCIA.

Olhando tudo que aconteceu entre 1923 e 1945, devemos pensar duas vezes antes de aceitar ou rejeitar qualquer ideia. Não estou dizendo para não tomar vacina ou que a China vai dominar o mundo, mas quero alertar que devemos refletir antes de criticar e considerar algumas coisas como possibilidades, ainda que não concordemos 100% com elas. A solução está em investigar tudo. Mas para investigar, não basta duvidar, tem que estudar.  Pesquise em várias fontes sobre as notícias, compare os dados com o que você vê no seu dia-a-dia, procure saber sobre como funcionam as instituições políticas, jurídicas e sociais, aprenda sobre história, leia ficção de qualidade, dessas que tratam de temas profundos, nos trazem informações importantes e nos levam a refletir sobre quem nós somos. O cultivo da imaginação e da memória nos liberta das amarras dos governos, da mídia, dos revolucionários e dos demais mecanismos que tentam nos dominar.

Imaginação não significa mentira, como muitos entendem: é uma campo que nos permite simular cenários aproximados da realidade ; inclusive, a imaginação é a chama da filosofia e das demais ciência, pois para ir além do que é imediatamente dado, é necessário ter essa capacidade de juntar as informações e formular hipóteses que depois serão analisadas.  Imaginação e memória, quando educadas, iluminam nosso caminho para que superemos tempos difíceis, assim como nossa fé é fortalecida através do conhecimento e nos sustenta frente às adversidades – não uma fé superficial (como a cientificista), que nos ilude, mas uma que liberta nossa consciência e abre nossos olhos para a verdade, ainda que não seja fácil ou confortável.

Espero que as pessoas não lembrem apenas da estética do holocausto, mas da história real e que as hashtags usadas nas redes sociais no dia 27 de janeiro não sejam apenas repetidas, mas entendidas por seu significado:

We Remember – lembre do que aconteceu

Never Forget – nunca esqueça

Never Again – para que não aconteça de novo

O silêncio em face do mal é o próprio mal: Deus não nos considerará inocente. Não falar é falar. Não agir é agir.

Outros posts sobre Holocausto:

https://discursosemmetodo.wordpress.com/category/shoah/

Ben Shapiro: A culpa do sangue judeu derramado leva ao anti-semitismo *

Texto original: Bloodguilt over jews leads to blood libels against jews

Publicado em 16 de julho de 2014

tradução: Samara de Oliveira

Se existe um lugar na Terra que deveria entender o perigo do ódios aos judeus, esse lugar é Frankfurt, na Alemanha.  Em 1933, os judeus foram alvo de boicote; em 1938, os alemães estavam queimando sinagogas. Entre 1933 e 1945, a população judaica da cidade foi dizimada, passando de 30.000 para 602. Atualmente, poucos judeus moram nessa cidade,  sendo a maioria deles soviéticos expatriados.

Então Frankfurt parece um local estranho para um novo rótulo sangrento para os judeus.  Ainda assim, nessa semana, 2.500 pessoas participaram de um protesto, incluindo muçulmanos e neo-nazistas – aliados mais uma vez¹  – apareceram no centro da cidade para gritar contra as ações de defesa de Israel em resposta ao ataque do Hamas na Faixa de Gaza. A polícia ajudou os manifestantes, permitindo que eles usassem um megafone e um veículo para gritar coisas contra Israel. “Vocês judeus são animais”, estava escrito num cartaz.

Enquanto isso, em Paris, muçulmanos atacaram sinagogas, incluindo uma na qual 150 judeus estavam reunidos em luto pela morte de 3 garotos  que foram assassinados pelo Hamas.  Esses muçulmanos, com bastões e cadeiras, entraram nas sinagogas e acabaram ferindo muitos judeus. Nos últimos anos, milhares de judeus franceses mudaram-se para Israel, em meio aos relatos de espancamentos, esfaqueamentos e ataques com machado.

Ao que parece, os europeus estão ficando confortáveis com o velho ódio aos judeus em seu meio, seja ela interno ou importado.

Aqui vai a razão para isso: na maior parte da Europa, a culpa do sangue judeu derramado no Holocausto ainda está sob a cabeça da população. De acordo com uma pesquisa de 2012 da Liga Anti-Difamação em países europeus, 45% dos austríacos, 35% dos franceses, 43% dos alemães, 63% dos húngaros e 53% dos poloneses, afirmaram que “provavelmente é verdade” que “os judeus ainda falam muito sobre o que aconteceu com eles no Holocausto”. Muitos desses que querem avançar e deixar para trás o que aconteceu no Holocausto, procuram uma forma de aliviar a culpa nacional – e que melhor forma de aliviar a culpa do que rotular o Estado judeu como agressor? Afinal, se os judeus se tornaram os vilões, então por que ficar tanto tempo pensando sobre a vitimização deles?

Claro, rotular os judeus como vilões com sede de sangue foi o que iniciou o Holocausto, em primeiro lugar. Adolf Hitler via os judeus como sanguessugas movidas pela ganância e dupla lealdade. Assim pensava boa parte da Europa também. Na mente daqueles que cometeram assassinato em massa, os judeus mereceram, por que, nas palavras de Hitler: “A luta pela dominação mundial será travada inteiramente entre nós – entre alemães e judeus. Todo o resto é ilusão.”

Todos aqueles que hoje em dia rotulam Israel como líder do mal usam a mentalidade de Hitler para retirar sua culpa por causa de Hitler. É por esse motivo que os manifestantes de Frankfurt, ameaçando os judeus, carregavam cartazes comparando os Israel aos nazistas: se os judeus são os novos nazistas, lutar contra os judeus se torna uma obrigação.

Toda Páscoa, os judeus recitam um parágrafo: “em toda geração, eles se levantam contra nós para nos destruir; e o Santíssimo, louvado seja Ele, nos livra das mãos deles!” Os nomes mudam, mas a mentalidade não. E o Deus de Israel está sempre vigiando, mesmo que aqueles que atacam os judeus tenham se convencido de que Ele vai fechar os olhos.

OBS.:

*Título levemente alterado para facilitar a tradução

¹ Os muçulmanos foram aliados do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores da Alemanha durante a 2ª Grande Guerra

Shoah – Edith Stein

“[…] não poderemos deixar de recordar todos os anos também o Shoah, aquele atroz plano de eliminação de um povo, que custou a vida a milhões de irmãos e irmãs judeus.”- Papa João Paulo II

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Encerro o mês de agosto com uma homenagem à filósofa Edith Stein, freira carmelita conhecida entre os católicos como santa Teresa Benedita da Cruz, (devido à sua canonização pelo papa João Paulo II em 1998), mais uma vítima do antissemitismo do partido nacional-socialista alemão.

Nascida na cidade de Breslau, Alemanha, durante a celebração judaica do Yom Kippur (Dia do Perdão) de 1891, foi criada na tradição hebraica de sua família e recebeu a melhor educação possível. Na adolescência, Stein abandou sua fé e seus costumes, dedicando-se apenas à vida acadêmica. Tendo ela grande talento para tal atividade, estudou História, Língua Alemã e Filosofia, sendo este último campo o seu favorito.

“Com plena consciência e por livre decisão, deixei de rezar. Meus anseios de conhecer a Verdade eram minha única oração.”

Interrompeu seus estudos para servir como enfermeira na Primeira Guerra Mundial, vindo a receber uma medalha da Cruz Vermelha por seus serviços prestados. Recebeu o título de doutora em 1916, destacando-se na área de Fenomenologia com uma tese sobre empatia que recebeu nota summa cum laude (“com a maior honra”) chegando a ser assistente do filósofo Edmund Husserl, conhecido como fundador da Fenomenologia e que, tal como Stein, era descendente de judeus e também foi perseguido por esse motivo.

“O estudo da filosofia é um contínuo caminhar à beira do abismo”.

Foi uma proeminente escritora, sendo sua obra mais famosa o seu último tratado, “A Ciência da Cruz”, que não foi concluído (ou, nas palavras do professor Felipe Aquino, ela a concluiu sim, mas não por escrito: a conclusão se efetivou com a entrega de sua própria vida”).

“A ciência da cruz não se pode adquirir sem que ela nos pese realmente sobre os ombros. Desde o primeiro instante eu estava convencida, e a mim mesma me dizia: Ave crux, spes unica!”  (grifo meu, tradução: “Salve a Cruz, nossa única esperança!”)

Sua definitiva conversão ao catolicismo ocorreu no ano de 1921, depois da leitura da autobiografia de santa Teresa D’Ávila, o que a comoveu bastante, mas também por influência de alguns amigos e de pesquisas acadêmicas inicialmente despropositadas. Começou seu trabalho na igreja como leiga,  atuando como professora de instituições de ensino católicas e também como conferencista, tendo sido notável nessa época seu empenho em estudar sobre Tomás de Aquino. Com a ascensão de Hitler ao poder e a implantação de sua política antissemita, ela foi proibida de exercer sua profissão. Encontrou abrigo na Ordem do Carmelo, tornando-se noviça em 1934 e confirmando seu voto perpétuo em 1938.

“Eu vivia no ingênuo auto-engano de que tudo em mim estava correto, como é frequente em pessoas sem fé, que vivem num tenso idealismo ético”.

Edith Stein foi transferida para a Holanda por conta da perseguição. Sua irmã Rosa, que em 1936 aderiu ao catolicismo e também decidiu seguir a vida religiosa, a acompanhou. No entanto, os nazistas invadiram a Holanda em 1941, e apesar das tentativas do convento de transferir as irmãs Stein para a Suíça, a burocracia impediu que elas evitassem a perseguição.

Em agosto de 1942, em retaliação ao apoio concedido pelos bispos holandeses aos judeus, oficiais da Gestapo capturaram as irmãs Stein e as levaram para o campo de concentração de Westerbork, onde Edith Stein ficou conhecida como “a freira alemã”. Segundo relatos dos sobreviventes, durante os poucos dias que passou lá, Edith dedicou seu tempo tentando cuidar das crianças e levar conforto para os demais prisioneiros. No dia 7 do mesmo mês foi transferida para Auschwitz-Birkenau, onde foi morta na câmara de gás.

“Quanto mais escuridão se faz ao nosso redor, mais devemos abrir o coração à luz que vem do alto”.

Sua postura no decorrer da Primeira Grande Guerra, durante a perseguição nazista e mais tarde já no campo de concentração,  estava em conformidade com sua Filosofia. Ao tratar sobre empatia em sua tese de doutorado, Stein alegava que esta era uma das maneiras possíveis do Ser se relacionar com o Outro na vida em comunidade. Dessa forma, ela também atribuía um papel importante para a Filosofia, afirmando que esta não deveria distanciar-se dos sofrimentos que as pessoas vivenciam, devendo por tanto ser uma ferramenta para pensar sobre isso e desenvolver melhores formas de relacionamento.

Como “eminente filha de Israel” (usando a frase de João Paulo II na homilia de canonização de Edith Stein) e também cristã, Stein abraçou seu destino : reconheceu suas origens e solidarizou-se com seu povo e entendeu o significado do que era servir inteiramente a Cristo e Nele encontrou conforto, deixando uma mensagem de força e esperança para as gerações futuras. Como filósofa, não deixou a empatia que tanto conceituou com complexos termos fenomenológicos manter-se na teoria, mas desenvolveu-a na prática. Em suas própria palavras:

“[…] mas agora se acendeu de repente uma luz em mim! Deus tinha colocado de novo sua mão bem pesada sobre seu povo e compreendi que a sorte desse povo era também a minha.”

 “[…] o que se poderia dizer a mim para consolo? Consolo humano certamente não há, mas quem coloca a cruz como passagem para a vida, entende que o peso se torna suave e leve.” (grifos meus)

Confira as outras postagens sobre o holocausto: O Diário de Anne Frank A Lista de Schindler

Minhas fontes de pesquisa:

http://cleofas.com.br/santa-teresa-benedita-da-cruz-edith-stein/

http://cleofas.com.br/10-ensinamentos-de-santa-edith-stein/

http://www.snpcultura.org/id_edith_stein.html

https://santo.cancaonova.com/santo/santa-teresa-benedita-da-cruz-edith-stein/

https://pt.aleteia.org/2017/03/10/edith-stein-filosofa-religiosa-e-martir/

http://franciscanos.org.br/?p=59435

https://padrepauloricardo.org/episodios/memoria-de-santa-teresa-benedita-da-cruz

http://agencia.fapesp.br/a-desafiadora-trajetoria-da-filosofa-edith-stein/21667/

http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/homilies/1998/documents/hf_jp-ii_hom_11101998_stein.html

 

 

 

 

 

 

Shoah – A lista de Schindler

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            Há muito o que falar sobre o que esse filme significa, desde sua idealização até o seu legado.  É um filme que não basta ser assistido, tem que ser estudado. Por enquanto, farei apenas uma introdução, mas ocasionalmente voltarei a escrever sobre ele.

              Como mencionei anteriormente, esse filme despertou em mim o interesse pelo holocausto judeu. Isso aconteceu pelo seguinte motivo: nos livros de História temos as informações mais básicas sobre o evento, mas parece algo muito distante, enquanto pelas  lentes de Steven Spielberg, os acontecimentos parecem tão próximos que podemos até sentir. Além disso, o empenho do diretor para preservar a memória do holocausto com recursos audiovisuais através da fundação “Shoah” é algo realmente interessante, inspirador e importante.

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           Lançado em 1993, o filme conta a história (real, diga-se de passagem) de como o empresário Oskar Schindler, filiado ao Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores da Alemanha (a.k.a “nazista”), arriscou tudo para salvar tantos judeus quanto fosse possível. O mais curioso é que isso começou de uma maneira desinteressada, quase egoísta, mas cresceu tanto que mudou a vida de Schindler e enraizou-se em sua alma, levando-o a comprometer-se profundamente à sua missão ao ponto de (em uma das cenas mais lindas da história do cinema) achar que o que fez foi tão pouco que não teve valor algum. Mas “quem salva uma vida, salva o mundo inteiro” (citada no filme, essa passagem encontra-se no Talmud, o livro sagrado do judaísmo) e luz pode ser encontrada e compartilhada nos momentos mais sombrios. Essa é a grande lição do filme.

(Obs.: Não, eu não estou dando spoiler. Esse é o tipo de filme que você assiste já sabendo o que acontece.)

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        A película conta com atuações incríveis, cabendo destacar os papéis de Ralph Fiennes como Amon Göth, um oficial da SS, e Ben Kingsley, como o contador judeu Itzhak Stern, que se tornou o braço direito de Schindler, mas acima de todos o de Liam Neeson, que interpreta o próprio Oskar Schindler e faz isso com uma intensidade avassaladora. Cada expressão do ator conecta o espectador com os sentimentos da personagem que ele interpreta.

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       Cada detalhe do filme foi cuidadosamente arranjado e mostra o desempenho de Spielberg em sua excelência, talvez por ser algo tão pessoal que o fez se comprometer mais além do esperado por um bom profissional.  A escolha da imagem em preto e branco aliada à sutileza de pequenos detalhes coloridos nos momentos certos  desperta a sensibilidade de quem assiste, o que, acompanhado da espetacular trilha sonora assinada por John Williams, colabora para fazer desse filme uma das mais geniais peças cinematográficas de todos os tempos.

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Quem salva uma vida, salva o mundo inteiro

PS.:  O filme foi vencedor de muitos prêmios, entre eles sete Academy Awards (vulgo “Oscar”):  filme, direção, roteiro adaptado, montagem, fotografia, trilha sonora e direção de arte.

Shoah – O diário de Anne Frank

 

No último dia 27, fiz uma postagem no Instagram sobre o Holocaust Remembrance Day (dia internacional da memória do holocausto), mas fiquei pensando em falar mais sobre isso, posto que, além da Segunda Grande Guerra ser uma das minhas matérias favoritas, tem crescido em mim certo interesse pela história de Israel. Resolvi então fazer uma série de postagens, ao longo do ano, relacionadas ao holocausto judeu. Falarei de filmes e livros sobre o tema. Escolhi nomear a série de “Shoah”, que significa algo como “calamidade” em hebraico, por que é como os judeus o chamam e também por ser o nome da fundação de Steven Spielberg para a memória audiovisual do holocausto, trabalho que fez com que eu me interessasse particularmente sobre o assunto quando assisti A Lista de Schindler há alguns anos e que hoje me inspira a estudar e escrever sobre isso mesmo sem ter nenhum parentesco com vítimas ou sobreviventes do shoah.

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A primeira coisa sobre a qual irei falar é a mais recente que li sobre a época: O Diário de Anne Frank. Publicado pela primeira vez em 1947, os textos escritos por Anne durante o período de confinamento num esconderijo foram salvos pelas secretárias que ajudavam a família Frank e organizados pelo pai da menina. O livro conta com diversas versões (inclusive em HQ) e edições especiais, além de tradução para mais de 60 idiomas.

NETHERLANDS ANNE FRANK

Filha de Otto e Edith, irmã mais nova de Margot, Annelies Marie Frank nasceu na Alemanha, no ano de 1929. Quatro anos mais tarde, com a ascensão do partido nacional-socialista ao poder e a aplicação de sua política antissemita, a família Frank mudou-se para a Holanda. Em 1940, os nazistas invadem os Países Baixos e passam a perseguir o povo judeu daquela região, restringindo a liberdade deste grupo e punindo aqueles que tentavam ajudá-lo. Dois anos depois, Anne e sua família, junto com mais quatro pessoas, refugiam-se no “Anexo Secreto”, um esconderijo na empresa que até então pertencia ao Sr. Frank. Permanecem no abrigo até agosto de 1944, quando o local é invadido e seus habitantes são presos e enviados para campos de concentração. Anne morreu aos 16 anos, no campo de trabalhos forçados de Bergen-Belsen, provavelmente por conta da epidemia de tifo. O único sobrevivente da família foi seu pai.

“Acho que mais tarde ninguém se interessará, nem mesmo eu, pelos pensamentos de uma garota de treze anos. Bom, não faz mal. Tenho vontade de escrever e uma necessidade ainda maior de desabafar tudo o que está preso no meu peito.”

Desde seu aniversário de treze anos, em 12 de junho de 1942, pouco antes de partir para o Anexo, até o dia 01 de agosto de 1944, três dias antes de ser presa pela Schutzstaffel (SS), Anne manteve um diário. Manifestou o desejo de publicá-lo em parte por conta de um comunicado do governo holandês no exílio sobre o interesse em publicar relatos da guerra quando esta acabasse, mas também por sua vontade de ser escritora ou jornalista.

“Não quero que minha vida tenha passado em vão, como a da maioria das pessoas. Quero ser útil ou trazer alegria a todas as pessoas, mesmo àquelas que jamais conheci. Quero continuar vivendo depois da morte!”  

Apesar da pouca idade, Anne Frank demonstrou talento para escrita, avidez pela leitura e grande sensibilidade.  Em seus textos acompanhamos seus medos e esperanças, encontramos opiniões fortes e análises sérias e sinceras tanto das pessoas com quem convivia quanto dos eventos que aconteciam fora do abrigo. Também é marcante a feroz crítica que fez de si mesma e o seu esforço para amadurecer e se tornar uma pessoa melhor. Aprendemos com Anne a diminuir as reclamações e aumentar a gratidão, a julgar menos os erros dos outros e reconhecer mais suas qualidades e somos inspirados por sua humildade, compaixão e por sua tão firme e crescente .

“É Deus que nos fez do jeito que somos, mas também é Deus que irá nos erguer no fim. Aos olhos do mundo, estamos condenados, mas se depois de todo esse sofrimento ainda sobrarem judeus, o povo judeu servirá de exemplo. Quem sabe, talvez nossa religião ensine ao mundo e às pessoas o que é a bondade, e talvez esse seja o único motivo de nosso sofrimento. Nunca poderemos ser apenas holandeses, ou ingleses, ou de qualquer outra nacionalidade, seremos sempre também judeus. E teremos de continuar sendo judeus, mas, afinal, vamos querer ser.

Ser corajosos! Vamos lembrar nossos deveres e realizá-los sem reclamar. Haverá uma saída. Deus nunca abandonou seu povo. Ao longo das eras, os judeus sofreram, mas continuaram vivendo, e os séculos de sofrimento só os tornaram mais fortes. Os fracos cairão, e os fortes sobreviverão e não serão derrotados!”

Ao ler O Diário de Anne Frank honramos não só a memória dela, mas a de todos aqueles que viveram sob a opressão do regime hitlerista e daqueles que lutaram contra ela, dando suas vidas pelo bem de todos. Manter essa lembrança é importante para que não esqueçamos o quanto o mundo sofreu e para que conheçamos a crueldade de que a humanidade é capaz, mas também saibamos o quanto de força e altruísmo pode haver no coração de cada ser humano.           

            “Vou fazer com que minha voz seja ouvida.

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Título: O Diário de Anne Frank

Autor/Organização: Anne Frank; edição definitiva organizada por Otto H. Frank e Mirjam Pressler

Ano: 2013

Editora: BestBolso

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OBS.: Certo momento me deixou, digamos, indignada, com Anne. Ela lê num livro que o sofrimento das mulheres em relação ao parto é maior que a de um herói de guerra. Ela parece concordar com isso e chega a dizer que os homens jamais conhecerão um fardo tão grande como o das mulheres. Achei isso um absurdo, afinal, mais do que qualquer um de nós hoje em dia, Anne deveria saber o quanto um homem sofre no campo de batalha e qual o valor de seu sacrifício, ao menos quando luta pelo que é certo. Entendo que ela foi induzida a pensar isso por um livro sem importância e certamente se arrependeu posteriormente, o que fica claro por sua imensa admiração por Winston Churchill (“Ele não parece saber o que é o medo – uma característica invejável!”) e por considerar os soldados americanos e ingleses como amigos.

PS.: Uma passagem em particular me chamou atenção: Eles dormiram no ponto durante os anos em que a Alemanha se rearmou. […] A Inglaterra e o restante do mundo descobriram que não adianta enterrar a cabeça na areia, e agora cada um deles, em especial a Inglaterra, está pagando um alto preço por sua política de avestruz.” Essa “política de avestruz” me parece bastante atual se compararmos com a atitude de alguns países em relação ao Estado Islâmico, sobretudo a Inglaterra. Não é o objetivo desse texto tratar de política, relações internacionais ou algo do tipo, apenas quis deixar esse trecho para que os leitores reflitam e tirem suas próprias conclusões.