Frankenstein, ou o Prometeu moderno (Mary Shelley)

Título original : Frankenstein, or the modern Prometheus

Primeira edição: 1818

Autora: Mary Wollstonecraft Shelley, nascida Godwin (1797-1851)

Formato: divide-se em 3 livros menores e traz tanto o formato epistolar (as cartas que o capitão Walton envia à irmã narrando os acontecimentos presentes), quanto a narrativa clássica em primeira pessoa por parte de Viktor Frankenstein, falando do passado (criação do monstro e sua relação com ele)

Gênero: romance gótico

Marco literário: é considerado o embrião da ficção científica

Influências: romantismo inglês (especialmente o poeta Samuel Taylor Coleridge e sua forma de usar elementos sobrenaturais), Rousseau e Locke (sobre a natureza humana e a aprendizagem), Burke (espírito anti-revolucionário), experimentos científicos da época (eletricidade e galvanismo)

RESUMO:

a) o capitão Walton manda cartas à sua irmã sobre a situação em que se encontra; Viktor Frankenstein chega até seu navio, fugindo do monstro

b) Viktor Frankenstein passa a narrar a história:

  1. o doutor Viktor Frankenstein cria o monstro e foge horrorizado com sua criação
  2. o monstro aprende a viver sozinho e decide vingar-se do criador
  3. o monstro persegue Frankenstein e sua família

c) o monstro chega até o navio; o capitão volta a contar os acontecimentos à sua irmã em cartas

Depois do período Puritano, a literatura inglesa experimentou uma fase de racionalismo e neoclassicismo. Pouco depois, em reação a isso, começou a despontar uma literatura de teor romântico: valorização dos sentimentos, da natureza e da metafísica. Os autores dessa época foram influenciados pela crítica ao Iluminismo e pela filosofia subjetivista, dando especial destaque à imaginação.

Entre os pré-românticos, podemos destacar Robert Burns e William Blake, que apresentaram temas nacionais e religiosos que viriam a ser muito discutidos no Romantismo Inglês já mais desenvolvido. Dois poetas se sobressaíram como principais expoentes dessa corrente literária: William Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge. Eles eram amigos e chegaram a escrever juntos uma coletânia de poesias chamada “Lyrical Ballads” (sobre a qual falarei melhor depois, num post específico sobre esses poetas). Enquanto Wordsworth falava da natureza e da vida cotidiana, Coleridge tratava dos sentimentos e do sobrenatural. Samuel T. Coleridge era amigo de William Godwin, o pai da Mary Shelley e um influente filósofo ateu. Frequentava sua casa e chegou a recitar seus poemas lá, tendo sido apreciado pela pequena Mary Wollstonecraft Godwin.

Seu mais importante poema, considerado um dos maiores épicos da literatura em língua inglesa, é “The rime of the ancyent marinere” (na grafia original), que conta a história de um marinheiro que foi amaldiçoado por matar um albatroz, uma ave de bom agouro na tradição britânica. Alguns desses elementos foram “copiados” por Mary Shelley mais tarde.

Outros poetas de destaque foram os chamados “poetas do Lago” (pois viviam na região do Lake District), a saber, o lorde George Gordon Byron, Percy Bysshe Shelley (que viria a se casar com Mary Godwin) e John Keats. Estes foram influenciados pela cultura grega, mas não da mesma forma que os neoclássicos, pois se inspiravam mais nos elementos mitológicos e culturais do que na razão e na filosofia clássica. Percy B. Shelley chegou a traduzir Platão e escreveu “Prometheus unbound” (Prometeu desacorrentado), o que certamente influenciou Mary.

Além do Romantismo, outra obra que excerceu influência na construção de “Frankenstein” foi “The castle of Otranto” (O castelo de Otranto, 1764), escrito por Horace Walpole, conde de Oxford. Esse livro é considerado o primeiro romance gótico e foi um sucesso (contrariando as expectativas do autor, que fingiu ser o tradutor dessa história, que seria um manuscrito napolitano datado de 1529, pois teve medo da recepção que teria). É chamado “gótico” em referência à arquitetura gótica, mais sombria, em oposição à arquitetura clássica greco-romana e neoclássica. O próprio Walpole vivia num castelo gótico no sudoeste de Londres, chamado Strawberry Hill. O cenário da literatura gótica, no entanto, não se restringe aos castelos e catedrais. Qualquer local lúgubre e decadente, onde se possa desenvolver uma história que envolva medo, incerteza, angústia e terror, serve, como podemos verificar em “Frankenstein”. Mas o amor também se faz presente nessa literatura, ainda que de forma incomum, como vemos em “Drácula” (Bram Stoker, 1897).

A melhor edição em português de “Frankenstein” é, sem dúvida, a da Companhia das Letras/Penguin, que conta com artigos de apoio, é baseada na edição de 1831 (com revisões da Mary Shelley), texto de Percy B. Shelley e dois contos de amigos do casal: “Um fragmento” (Lord Byron) e “O vampiro: um conto” (dr John William Polidori). Esses contos foram escritos durante uma viagem que Byron, o dr Polidori (seu médico) e o casal Shelley fizeram para a Suíça e lançaram entre si o desafio de escrever um conto de terror. “Frankenstein” é fruto tardio desse desafio.

O segundo título do livro, “O Prometeu moderno”, é uma referência ao mito grego de Prometeu,o titã que teria roubado o fogo dos deuses para dar aos homens e foi castigado por Zeus, que o acorrentou numa rocha para ter o fígado devorado por uma ave todos os dias eternamente – ou até que peça perdão. Vale a pena ler a tragédia “Prometeu acorrentado” (Ésquilo) para entender melhor o significado desse mito. Viktor Frankenstein desafia Deus e até a moral secular ao tentar reconstituir a vida de forma tão sombria. A obra de Mary Shelley fala do que hoje chamaríamos de bioética e discute nas entrelinhas sobre moral, salvação da alma, livre-arbítrio e responsabilidade.

Apesar do grande potencial filosófico apresentado, ela não desenvolve tão bem esses conceitos, apresenta uma visão ingênua de alguns pontos (como a questão do mal ser apenas consequência da rejeição) e se baseia em algumas teorias questionáveis sobre educação (Emílio, de Rousseau, foi uma obra que ela leu várias vezes). Alguns momentos são empolgantes, mas a maior parte da narrativa é cansativa. No entanto, essa obra é um diamante bruto. Tem muito o que dizer e instiga o leitor a refletir sobre diversos temas. Não deve deixar de ser lida!

Vale também notar que é um livro apoiado na literatura clássica (greco-romana) e na literatura inglesa, especialmente em John Milton. Inclusive alguns livros são mencionados pelo monstro de Frankenstein. Isso mostra como a literatura clássica é essencial para termos uma compreensão maior de várias obras de arte (seja literatura, cinema, artes plásticas, etc) e termos uma perspectiva mais ampla sobre a vida e a natureza humana, pois desde Homero, esses temas estão sempre presentes e continuam atuais.

Tolkien e as guerras

A trilogia O Senhor dos Anéis (A Sociedade do Anel, As Duas Torres e O Retorno do Rei) foi escrita por J. R. R. Tolkien entre as décadas de 1930 – 1940 e lançada na de 1950. Para quem ainda não conhece, o acesso mais fácil é através dos filmes do diretor Peter Jackson (inclusive O Retorno do Rei é um dos meus 3 filmes favoritos da vida, junto com A Lista de Schindler e Gladiador).  

O autor serviu no Exército Britânico durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e o desenvolvimento do livro se deu durante a ascensão do nacional-socialismo na Alemanha (Tolkien inclusive enviou uma carta de resposta aos nazistas, link no fim do post) e o fascismo na Itália, além do comunismo que já se instalara na União Soviética e a subsequente Segunda Guerra.

Essa informação é importante por que a vida dele e o contexto histórico no qual estava inserido pode não ter uma ligação explícita com o mundo fictício que ele criou, mas é notável que o sentimento do que foi vivido e observado influenciou sua obra: temos Sauron, um ditador que usa de magia, manipulação e força física para expandir seu território e dominar outras raças; temos também alguns seres como hobbits, anões e elfos, que deixam a segurança do lar e vão para o campo de batalha enfrentar um mal terrível que pretende despedaçar tudo o que mais amavam. Podemos entender isso ao observar o seguinte trecho do segundo volume da trilogia que é uma das minhas citações favoritas de toda a literatura:

A guerra deve acontecer, enquanto estivermos defendendo nossas vidas contra um destruidor que poderia devorar tudo; mas não amo a espada brilhante por sua agudeza, nem a flecha por sua rapidez, nem o guerreiro por sua glória. Só amo aquilo que eles defendem: a cidade dos homens de Númenor, e gostaria que ela fosse amada por seu passado, sua tradição, sua beleza e sua sabedoria presente.

J.R.R.Tolkien em “As Duas Torres”

       Durante as Grandes Guerras do século passado, as pessoas comuns tiveram que arriscar suas vidas para garantir a segurança de toda a nação. Passaram por grande sofrimento, tanto quem combatia diretamente, quanto quem dava suporte – cidadãos que colaboraram com o esforço de guerra em vários setores como produção de alimentos e medicamentos, telefonia e serviço postal. Nessa situação, foi possível perceber que até o menor dos indivíduos, assim como os pequenos hobbits, era fundamental para alcançar a vitória.

          Havia várias camadas nessas guerras: questões políticas, socais, economias e ideológicas. No entanto, para as pessoas comuns, a guerra era necessária por outras razões: proteger a família, preservar a tradição e a liberdade. Essas pessoas são representadas por Tolkien nas criaturas (hobbits, anões, elfos, humanos e magos) que participam ou dão apoio à Sociedade do Anel – o grupo cuja missão é destruir o Um Anel (artefato que dá poder ao vilão Sauron) para libertar os habitantes da Terra Média da opressão a qual eram submetidos.

“A coragem pode ser encontrada em lugares improváveis”

J. R. R. Tolkien em “A Sociedade do Anel”

            O autor atribui às personagens sentimentos de medo, dor, cansaço; também mostra suas virtudes, como lealdade, amizade, honra, coragem, solidariedade e muitas outras. Isso de fato se assemelha às histórias reais de sacrifício e altruísmo que aconteceram durante as guerras, como os casos de Irena Sendler e Oskar Schindler. O plano é fictício, mas os sentimentos são reais e muitas vezes causam um impacto maior do que uma biografia ou documentário fariam. Em “Para ler literatura como um professor”, Thomas Foster diz:

“Ler literatura é uma atividade altamente intelectual, mas também envolve afeto e instinto em graus elevados. Muito do que pensamos sobre a literatura, antes sentimos. Ter instintos, no entanto, não quer dizer automaticamente que funcionam no nível mais alto. […] Quanto mais você exercita a imaginação simbólica, melhor e mais rápido ela funciona. […] Imaginação não é fantasia. […] A imaginação do leitor é o ato de inteligência criativa que se envolve com outra.”

            Meu trabalho de conclusão de curso foi basicamente sobre isso e esse post é uma adaptação de parte dele. Mas não foi só sobre “imaginação simbólica”. No artigo, peguei o exemplo de alguns livros como Contos da Cantuária e O Mercador de Veneza para tratar sobre como clássicos da literatura podem ser aproveitados de várias formas.  O Senhor dos Anéis também pode ser aproveitado de outra forma além da moral e afetiva. Dá para aprender muito sobre inovações militares da época, só é preciso pesquisar, já que não é algo tão óbvio para quem não entende do assunto.  Por exemplo, os nazgûl são descritos de forma similar à cavalaria alemã, enquanto os olifantes exercem uma função que pode ser comparada à dos tanques de guerra. Porém, a coisa que mais me chama atenção é o efeito que o Um Anel e toda a jornada causaram em Frodo: é como o shell shock, estresse pós-traumático identificado nos veteranos da Primeira Guerra.

     Os sintomas se manifestavam de forma física e psicológica, como cegueira temporária, paralisia, ânsia de vômito, tremores e fortes crises de ansiedade e depressão. Não vi nenhum registro sobre o próprio Tolkien ter passado por isso, mas certamente conheceu pessoas que adquiriram esse quadro clínico. Simon Tolkien, neto do autor, em matéria da BBC, disse:

“O companheirismo de Frodo e Sam nos últimos estágios da jornada ecoa os laços profundos que foram formados pelos soldados britânicos ao enfrentarem tão grandiosas adversidades. Todos eles compartilharam da coragem que é a mais valorizada das virtudes em O Senhor dos Anéis. E então, quando a guerra acabou, Frodo teve o mesmo destino que muitos veteranos que permaneceram com cicatrizes invisíveis quando voltaram para casa como pálidas sombras das pessoas que um dia eles foram” (tradução livre)

O Senhor dos Anéis é uma saga complexa, importante e preciosa (beijos pra quem entendeu a referência) (quem não entendeu, assista/leia Senhor dos Anéis). Sua relevância é cultural, histórica e até mesmo pedagógica, pois pode contribuir muito para a aquisição de conhecimento de forma lúdica, porém rica de significado. A complexidade da estrutura literária e da estética linguística de Tolkien (mais no original, mas muito foi preservado na tradução também) não deve ser um empecilho, mas uma motivação para se aventurar por esse mundo tão encantador, que mistura tradição com inovação e fantasia com realidade, capaz de fascinar um público de qualquer idade.        

Padre Paulo Ricardo sobre O Senhor dos Anéis e o cristianismo:

REFERÊNCIAS:

FOSTER, Thomas C. Para ler literatura como um professor. Tradução de Frederico Dentello.  São Paulo: Lua de Papel, 2010.

TOLKIEN, John Ronald Reuel. A Sociedade do Anel. Tradução de Lenita Maria Rímoli Esteves e Almiro Pisetta. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

_______________. As Duas Torres. Tradução de Lenita Maria Rímoli Esteves e Almiro Pisetta 2.ed. 13. reimpressão. São Paulo: Martins Fontes, 2014.

BBC. Tolkien’s grandson on how World War I inspired The Lord of The Rings. London, 2017. Disponível em <https://www.bbc.com/culture/article/20161223-tolkiens-grandson-on-how-ww1-inspired-the-lord-of-the-rings>

Resposta de Tolkien aos nazistas:  https://oportaln10.com.br/o-dia-em-que-jrr-tolkien-criticou-o-nazismo-e-adolf-hitler-75750/

Curiosidades sobre Tolkien: https://www.megacurioso.com.br/literatura/49176-10-coisas-que-voce-provavelmente-nao-sabe-sobre-j-r-r-tolkien.htm

Piores e melhores livros de 2019

Em 2019, prezei pela qualidade (mas não vou negar que li pouco por que procrastinei muito) e li alguns dos melhores livros da minha vida, mas também peguei alguns decepcionantes e/ou de qualidade duvidosa. Já li muita coisa ruim e inútil, mas nos últimos anos tenho prestado mais atenção aos títulos que escolho para não perder tempo. Disse Benjamin Disraeli (Primeiro-Ministro britânico e fundador do Partido Conservador):

“A vida é muito curta para ser pequena. É preciso engrandecê-la. […] Tem muita gente que cuida demais do urgente e deixa de lado o importante.”

Isso vale para a vida literária também. A leitura pode servir para distração, mas o ideal é que ela seja instrutiva: temos muitos livros preciosos escritos ao longa da história da humanidade sobre os mais diversos assuntos que nos dão uma visão mais abrangente da vida e do mundo, não devemos desperdiçar tempo com coisas irrelevantes que não nos ajudarão a melhorar enquanto pessoas.

A seguir, algumas dicas do que ler e do que evitar:

Piores livros de 2019

1- A Metamorfose (Franz Kafka): Esse provavelmente é o livro mais comentado do autor. No entanto, a história do homem que se transforma numa barata não é lá essas coisas. Não é totalmente ruim e é bem curtinho (só 3 capítulos, se não me engano), mas eu esperava algo bem mais impressionante, por isso fiquei decepcionada.

2- O Duplo (Fiódor Dostoiévski): Esse foi interessante até o último capítulo, mas terminou de forma um tanto quanto abrupta e previsível. Não recomendo. Gosto muito do escritor, por isso estava confiante de que valeria a pena aguentar os nomes russos e os diálogos estranhos e repetitivos; além disso, o tema me manteve curiosa até o fim: um homem descobre que uma espécie de clone seu apareceu em seu trabalho e age como se fosse tomar seu lugar, mas ninguém sabe ao certo quem é essa pessoa e algumas situações peculiares acontecem. Como não se trata de ficção fantástica ou científica,nem realismo mágico, só duas soluções eram possíveis, mas eu esperava algo mais criativo na conclusão e que o desenrolar da história tivesse um tom mais “filosófico”, como “Memórias do Subsolo” (do mesmo autor).

3- Origem (Dan Brown): Sem dúvida alguma esse foi o pior de todos, principalmente por que retomei a leitura assim que conclui “Não tenho fé suficiente para ser ateu“, o que ressaltou ainda mais a besteira central dessa obra. A discussão sobre tecnologia foi boa, mas além de apresentar como positiva uma visão do futuro que é distópica não só na minha opinião, mas é assim apresentada tradicionalmente na literatura e no cinema (assistam “Matrix” e leiam “1984“, só para começar), do ódio contra conservadores e da típica má interpretação sobre temas religiosos e políticos, o que mais me fez detestar esse livro foi que o tipo de arte escolhida pelo autor para sustentar essa aventura de Robert Langdon foi a arte contemporânea. Isso nem é arte! Nos livros anteriores (“O Código da Vinci”, “Anjos e Demônios”, “O Símbolo Perdido” e “Inferno” – este último foi o melhor, aliás), o que me fazia ignorar as heresias era a narrativa empolgante, o plano de fundo artístico clássico e a neutralidade socio-política. Cada um desses pontos foi por água abaixo em “Origem”. Só conclui por que fiquei curiosa para saber qual era a tal chocante solução encontrada para a origem da vida. Não que eu não soubesse que não teria a resposta, simplesmente queria ver se a argumentação seria minimamente inteligente, o que não é, além de focar mais no destino do que na origem, apesar dessa última dar nome ao livro.

Melhores livros de 2019

1- 12 Regras para a vida (Jordan B. Peterson): É até difícil escrever sobre ele. No Twitter, Matt Walsh (The Daily Wire, ou “o jornal do Ben Shapiro”) perguntou aos seus seguidores: “Além da Bíblia, qual livro mais impactou sua vida?”. Minha resposta imediata foi: “12 Regras para a vida“. É uma obra impactante, que tem um conteúdo riquíssimo e várias camadas de interpretação para diversas fases e áreas da vida. Um livro que nunca se esgota. Parece título de auto-ajuda comum, mas é psicologia densa. Depois escreverei mais sobre esse livro. Resumindo, trata-se de lições básicas para aplicação prática que vão te ajudar a desenvolver seu caráter, tudo com base na sabedoria antiga. Recomendo ler “O sagrado e o profano” (Mircea Eliade) antes, ou ler o primeiro livro do dr. Peterson, “Mapas do significado“, que é bastante similar, só que foca mais na questão psicológica dos arquétipos das crenças (pelo que entendi, não sei bem pois ainda não li esse), enquanto o de Eliade tem uma abordagem mais voltada à antropologia filosófica e à filosofia da religião. Não é obrigatório, mas facilitará bastante.

2- Por que crer na Bíblia (John MacArthur) : O pastor John MacArthur foi minha melhor descoberta do ano passado. Vou falar mais sobre esse livro agora em 2020, numa série sobre apologética, mas já posso adiantar que é maravilhoso e muito instrutivo. Foi nessa obra que aprendi sobre a questão do método para estudo bíblico. Ele é basicamente dividido em duas partes: apologética e método; isso é bem interessante, por que primeiro te dá motivos para crer na Bíblia e, pressupondo que você aceitou pelo menos que é um livro confiável que merece ser estudado, te ensina como ler e entender melhor. A segunda parte tem um tom mais espiritual, mas é bom para ateus ou pessoas de outras religiões que estejam dispostos a aprender sobre o livro mais importante do mundo (você goste ou não, considere sagrado ou não, continua sendo uma obra fundamental para entender a História e a cultura do Ocidente, no mínimo).

3- O Comunista Exposto (W. Cleon Skousen): Também farei uma resenha só desse livro posteriormente. Skousen foi agente do FBI, um dos favoritos de J. Edgar Hoover (o fundador do FBI) e estudou muitas obras sobre o comunismo, teve acesso a vários documentos e viveu os anos mais importantes da Guerra Fria. Nessa obra ele ensina muito sobre História (detalhes que não vemos nos livros didáticos) e descreve os planos da esquerda para conquistar a América (e o resto do mundo), planos estes que vemos sendo postos em prática até hoje.

4- Cristianismo puro e simples (C.S. Lewis): Já fiz resenha sobre ele, mas não poderia deixar de mencionar, afinal, foi um dos melhores da vida.

5- Frankenstein ou O Prometeu Moderno (Mary Shelley): Essa obra de Mary Shelley é um diamante bruto. Tem um conteúdo excelente, apesar deste não ser bem desenvolvido. Apresenta alguns problemas técnicos na narrativa e na estruturação dos personagens, além de incluir uma filosofia pobre (Rousseau …) comparada com as outras que estão nas entrelinhas desse que é um dos mais famosos livros da Literatura Inglesa. Foi a obra inaugural da autora e alguns a consideram a fundadora do que viria a se desenvolver como ficção científica, apesar de ser tradicionalmente classificada como romance gótico. Farei resenha desse livro, mas já adianto que essa história é uma ode à Literatura e traz questionamentos sobre ética e os limites da ação humana.

6- Não tenho fé suficiente para ser ateu (Norman Geisler & Frank Turek): Esse é um dos mais didáticos livros de apologética, ideal para iniciantes. Aborda diversos assuntos de forma objetiva e fácil de entender. É fundamental para ajudar qualquer cristão a defender sua fé e qualquer não cristão a entender os pontos do cristianismo e passar levá-lo a sério. Também estará na série sobre apologética!

7- Tolos, fraudes e militantes (Roger Scruton): No início de 2020, fomos surpreendidos com a notícia do falecimento de sir Roger Scruton, um dos maiores filósofos que já existiu. O conheci em 2017, graças a um amigo que recomendou “Como ser um conservador”, um dos meus livros favoritos. Voltando à pergunta de Walsh, minha segunda resposta seria “Como ser um conservador”. Logo assisti o documentário “Why Beauty Matters?” e várias entrevistas e palestras. Sem contar com a questão religiosa (DEUS ACIMA DE TODOS), considero Scruton e Peterson como meus maiores mestres. Nesse livro, ele analisa o discurso de pensadores de esquerda como Derridas, Habermas, Foucault e Zizek, destrinchando as estratégias de persuasão e tudo que a fala deles carrega de forma genial e irônica. Talvez eu fale mais um pouco sobre ele quando fizer a resenha de “Beleza”.

8- A moral universe torn apart (Ben Shapiro): Trata-se de uma reunião de artigos do Ben Shapiro sobre a política americana nos últimos anos do governo Obama. As análises do autor sobre relações internacionais, políticas públicas e guerra cultural são sempre precisas e bem fundamentadas. Apesar dos textos abordarem eventos que já não estão na mídia, o assunto em si continua atual e é interessante ver que muitas previsões de Shapiro se concretizaram. Pretendo traduzir alguns dos artigos e trazer aqui para o blog. Aguardem 🙂

9- O melhor do teatro grego (vários autores) : Essa edição contém quatro peças gregas, sendo três tragédias (Prometeu, Medéia e Édipo Rei) e uma comédia (As Nuvens), todas com uma introdução muito boa explicando sobre o autor e o contexto de cada história. Eu já estava familiariza com algumas tragédias, mas a comédia clássica foi novidade, pois conhecia apenas a shakespeariana. Não gostei muito no sentido da comédia em si, não consegui rir, mas gostei do debate sobre educação que essa obra de Aristófanes traz. “As Nuvens” é a peça citada no “Banquete” de Platão e Sócrates é um dos personagens: um homem endividado resolve matricular o filho na escola de Sócrates para que ele aprenda a mentir. Vale apena para fins de estudo. As tragédias são bem melhores. Li Prometeu para complementar a leitura de “Frankenstein“, já que foi a inspiração para o livro de Mary Shelley, dando até subtítulo à obra. Trata do caso do titã que desafiou Zeus em favor da humanidade. Seu maior crime, no entanto, foi a arrogância. Tenho muito que falar sobre essa peça, então fica para uma resenha posterior (provavelmente em conjunto com “Frankenstein“). É um texto interessantíssimo e apesar de “Electra” ainda ser minha tragédia grega favorita, “Prometeu” é certamente a melhor quanto ao conteúdo. As outras duas tragédias eu já conhecia. São boas e recomendo a leitura sobretudo de “Édipo Rei“, pois Freud popularizou a história de forma errada. O ponto central é o destino, todos os acontecimentos giram em torno de profecias e fica a questão sobre ser ou não possível evitar o cumprimento das mesmas. Recomendo também ler “Poética” (Aristóteles) antes ou depois de ler as peças. Aristóteles critica “Medéia“, mas eu gostei por ser um drama intenso, apesar dos recursos exagerados, pois não é uma história apenas sobre ciúme e vingança, mas sobre loucura.

10- O Homem que era Quinta-Feira (G.K. Chesterton) : Já tem resenha deste livro, junto com outro de Chesterton que li em 2018, “A taberna ambulante“. O livro pode parecer estranho, mas é empolgante e traz excelentes reflexões. Gilbert Keith Chesterton (assim como C.S. Lewis) é essencial para compreender o mundo de hoje.

Menções honrosas:

1- O lobo da estepe (Herman Hesse): Já tem resenha desse livro. É uma obra influente e interessante que traz uma boa discussão sobre estética.

2- As intermitências da morte (José Saramago): Eu não gosto da escrita de Saramago (acho absurdo que ele tenha ganhado um Nobel apesar de não escrever direito propositalmente), mas esse autor tem um potencial imaginativo incrível. Essa história é sobre a Morte (personificada) e sua relação com os humanos de um lugar específico no qual ela decide “tirar férias” e depois voltar com algumas novidades curiosas. O livro é dividido em três momentos, cada um com uma problemática própria, capaz de manter a atenção do leitor até o final (começando com: o que aconteceria se as pessoas parassem de morrer?). Além do tema ser instigante, o ritmo do livro é bom, só a estrutura narrativa que é desagradável (na minha opinião).

3- Lições de vida: Kierkegaard (R. Ferguson): Soren Kierkegaard, pai do existencialismo, é um dos filósofos mais complexos e mais interessantes da História da Filosofia. É bom começar com uma breve introdução, como esse livro bem curto da série “Lições de vida“, que apresenta a biografia e uma visão geral do trabalho do pensador escolhido. O ateísmo de quem escreveu esse livro contrasta com o pensamento essencialmente cristão do filósofo, mas ressalta ainda mais sua universalidade e sua influência. Contém trechos das obras originais e a ligação destas com trabalhos artísticos de outras pessoas, como o dramaturgo norueguês Henrik Ibsen.

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A HISTÓRIA DE JOHN BUNYAN

A seguir está a tradução de um texto que apresenta uma breve visão sobre a vida de John Bunyan e suas duas principais obras, “O Peregrino” e “Graça abundante para com o principal dos pecadores“. Sei que as NTs (notas da tradutora) deveriam ficar no fim da postagem, mas acabei colocando durante o texto, porém estão sinalizadas, espero que não tomem meus comentários como parte do texto original. Os destaques (cor, negrito, itálico, etc) são todos meus, bem como os acréscimos entre colchetes. Dos livros citados, excetuando-se a Bíblia, só li “O Peregrino“, que, como já mencionei antes, será objeto de estudo mais para a frente. A autoria do texto original é de Scott Hubbard e foi postado no dia 12 de novembro de 2019 no Desiring God.

“Tudo que nós fazemos é obter sucesso”: A história de “O Peregrino” de John Bunyan

Na manhã de 12 de novembro de 1660, um jovem pastor entrou numa pequena casa de reuniões em Lower Samsell, Inglaterra, preparado para ser preso. Ele não percebeu os homens vigiando a casa do lado de fora, mas nem precisava. Um amigo o tinha alertado de que iriam atrás dele. Ainda assim, ele foi. Ele tinha aceitado pregar.

Os policiais adentraram a reunião e começaram a procurar, analisando cada rosto até encontrar aquele que estavam buscando: um homem alto, de bigode ruivo e roupas simples, parado fazendo uma oração. John Bunyan era seu nome.

Se eu tivesse bancado o covarde, eu poderia ter escapado, Bunyan lembrou mais tarde. Mas ele não tinha cabeça para aquilo no momento. Ele falou a exortação final como pode, enquanto os policiais o forçavam para fora da casa, [Bunyan era] um homem com nenhuma outra arma exceto sua Bíblia.

Depois de dois meses e vários processos judiciais, Bunyan foi tirado de sua igreja, de sua família e de seu trabalho para cumprir “uma das mais longas penas na cadeia …[jamais cumprida] por um dissidente na Inglaterra” (On Reading Well). Por doze anos, ele dormiria num tapete de palha numa cela fria. Por doze anos, ele acordaria longe de sua esposa e de seus quatro filhos. Por doze anos, ele esperaria para ser  solto, exilado ou executado.

E nesses doze anos, ele começou a escrever um livro sobre um peregrino chamado Cristão — um livro que se tornaria, por mais de dois séculos, o escrito em língua inglesa mais vendido do mundo.

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John Bunyan (1628–1688) não era o homem inglês mais provável para escrever “O Peregrino” (The Pilgrim’s Progress), um livro que seria traduzido para mais de duzentos idiomas, que capturaria a imaginação de crianças e acadêmicos igualmente, e que num ranking de influência e popularidade no mundo anglofônico, estaria atrás apenas da Bíblia King James. “Bunyan foi o primeiro grande escritor inglês que não morava em Londres nem tinha educação universitária”, escreve Christopher Hill. Ao invés disso, “o exército foi sua escola, e a prisão foi sua universidade” (The Life, Books, and Influence of John Bunyan).

Como Paulo disse sobre os Coríntios, podemos dizer de Bunyan: ele tinha poucas vantagens “de acordo com os padrões do mundo” (1 Coríntios 1:26). Em sua autobiografia espiritual, “Graça abundante ao principal dos pecadores” ( Grace Abounding to the Chief of Sinners), ele confessa que a casa de seu pai era “classificada como a mais mesquinha e desprezível de todas as famílias daquela terra”. Thomas Bunyan era um latoeiro, um viajante que consertava panelas, tachos, e outros utensílios de metal. Thomas mandou seu filho para a escola apenas por um breve período, onde John aprendeu a ler e escrever. Mais tarde, depois de um tempo no exército, ele seguiu seu pai no negócio como latoeiro.

Enquanto isso, Bunyan relembra, “Existiam poucos iguais a mim, especialmente considerando minha tenra idade, no que diz respeito a amaldiçoar, xingar, mentir e blasfemar o nome de Deus” (Graça abundante). No entanto, algumas vezes, quando Bunyan tinham cerca de 20 anos, Deus colocou sua mão no latoeiro blasfemador e começou a pressionar. Pela primeira vez, Bunyan sentiu a carga do pecado e da culpa em suas costas, e o desespero quase o fez afundar. Sua alma agonizou por anos antes de finalmente estar apto para dizer, “Grandes pecados de fato atraem grande graça*; e onde a culpa é mais forte e terrível, é onde a misericórdia de Deus através de Jesus, quando mostrada à alma, aparece mais alta e mais poderosa” (Graça abundante). (*NT.: a referência é Romanos 5:20, “Veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse; mas, onde o pecado abundou, superabundou a graça.” – Almeida Corrigida Fiel)

Bunyan logo levou seu trabalho e o triunfo da graça para o púlpito de uma igreja em Bedford, onde ele anunciou Cristo com tanto poder que as congregações do condado de Bedfordshire começaram a pedir pelas pregações do latoeiro que tornou-se pastor — incluindo um pequeno grupo de crentes em Lower Samsell.

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No entanto, nem todos na Inglaterra tiveram uma reação tão acalorada em relação às pregações de Bunyan. “Ele viveu em dias de maior provação do que os que nós passamos”, escreveu John Newton um século depois (em seu prefácio para “O Peregrino”; NT.: John Newton é o compositor do hino Amazing Grace, ou ‘Sublime Graça’, na versão brasileira). Sim, aqueles eram dias de provação — pelo menos para pastores dissidentes como Bunyan, que se recusavam a participar da Igreja Anglicana. Durante o século XVII, os dissidentes algumas vezes foram honrados, outras vezes foram ignorados, e por vezes foram presos pelas autoridades inglesas.  A parte de Bunyan foi essa última opção.

Alguns dissidentes não ajudavam muito. Uma seita puritana chamada “Homens da Quinta Monarquia”, por exemplo, pegaram em armas em 1657 e 1661 para tomar o trono da Inglaterra para Cristo que, segundo eles, estaria retornando naquele momento. Frequentemente, naquela época, “as autoridades não procuravam suprimir os dissidentes como hereges, mas como perturbadores da lei e da ordem,” explica David Calhoun (“Life, Books, and Influence”). Bunyan não era um radical — era simplesmente um latoeiro que fazia pregações sem ter uma licença oficial para tanto. Ainda assim, as autoridades de Bedfordshire pensaram que seria mais seguro silenciá-lo.

Uma vez preso, foi dado um ultimato a Bunyan: se ele concordasse em parar de pregar e permanecesse quieto em seu trabalho como latoeiro, poderia voltar para sua família de uma vez por todas. Se recusasse, encarceramento e possível exílio esperariam por ele.  Em determinado ponto do processo judicial (que durou várias semanas), Bunyan respondeu:

“Se qualquer homem puder me acusar de alguma coisa, seja na doutrina ou na prática, em particular, que possa ser provada como erro ou heresia, eu estou disposto a abdicar [da pregação pública], até mesmo no mercado; mas se for verdade [o que é dito],  então permanecerei firme até a minha última gota de sangue.” (Graça abundante)

Bunyan tinha 32 anos. Ele não seria um homem livre novamente até ter 44.

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Estátua de Bunyan em Bedford 

Apesar da ousadia de Bunyan para com os magistrados, sua decisão não foi fácil.  O mais difícil de tudo foi separar-se de Elizabeth, sua esposa, e das quatro crianças deles, uma das quais era cega. Em seus anos de confinamento, ele escreveria , “A separação de minha esposa e de minhas pobres crianças é para mim como arrancar a carne dos meus ossos” (Graça Abundante). Ele fabricaria cadarços por doze anos para ajudar a sustentar a família.

Mas Bunyan não se arrependeria de sua decisão. Apesar de estar distante do conforto de sua família, não estava distante do conforto de seu Mestre. “Jesus Cristo … nunca foi tão real e visível como agora, escreveu o encarcerado Bunyan. “Aqui eu o vi e o senti de verdade” (Graça Abundante).

Com conforto em sua alma, então, Bunyan deu a si mesmo qualquer ministério que foi capaz. Ele aconselhou visitantes. Ele e outros prisioneiros pregaram uns para os outros nos domingos. Porém, mais do que tudo, Bunyan escreveu.  Na cadeia, com sua Bíblia e seu “Livro dos Mártires”, escrito por Foxe, em suas mãos, ele escreveu Graça Abundante. Lá também, enquanto ele trabalhava em outro livro, a imagem de um caminho e um peregrino surgiram em sua mente. “E assim foi que,” Bunyan escreveu num poema,

Eu, escrevendo sobre o caminho
E a carreira dos santos,  nesses nossos dias do Evangelho,
Repentinamente caí numa alegoria,
Sobre a jornada deles, e o caminho para a glória. (O Peregrino)

Assim começou o livro que seria em breve lido, não só na Bedford de Bunyan, mas em Sheffield, Birmingham, Manchester, Londres — e, afinal, muito além desses lugares. Os magistrados de Bedford tentaram silenciá-lo na cadeia. Na cadeia, Bunyan soou uma trombeta que alcançou os ouvidos de todo o Ocidente, e até do mundo inteiro.

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Marco do local onde Bunyan esteve encarcerado entre 1660 e 1672

A genialidade do livro de Bunyan, juntamente com sua imediata popularidade, tem muito a ver com o escritor ter escolhido usar uma alegoria. Como uma alegoria, “O Peregrino” opera em dois níveis. No primeiro, o livro é um celeiro de teologia puritana — “a Confissão de Fé de  Westminster com pessoas,” como alguém disse uma vez. Em outro nível, contudo, é uma fascinante história de aventura— uma jornada de vida e morte da Cidade da Destruição e da Cidade Celestial. O poeta Samuel Taylor Coleridge escreveria mais tarde, “Antes eu jamais poderia ter acreditado que o calvinismo* poderia ser pintado com cores tão requintadamente agradáveis” (Life, Books, and Influence). (NT.: creio que calvinismo aqui deve ser entendido como sinônimo de puritanismo e não como doutrina soteriológica específica; é muito comum chamar puritanos e reformados em geral de “calvinistas” pois a maioria o era/são, porém nem todos! você pode saber mais sobre isso clicando aqui: Nem todos os puritanos eram calvinistas)

Aqueles que leem “O Peregrino” encontram teologia vinda até deles em masmorras e cavernas, em lutas de espada e feiras, em amigos honestos e bajuladores duas-caras. Bunyan não apenas nos diz que nós devemos renunciar tudo por amor a Cristo; ele nos mostra Cristão deixando seus vizinhos e sua família, com os dedos tapando os ouvidos, clamando, “Vida! Vida! Vida eterna!” (O Peregrino). Bunyan não simplesmente nos instrui sobre nossos conflitos espirituais; ele nos faz ficar de pé no Vale da Humilhação com um “desprezível demônio . . . terrível de olhar” caminhando até nós. Bunyan não somente nos alerta sobre a sutileza da tentação; ele nos dá pés doloridos num caminho rochoso, então nos revela um caminho suave “do outro lado da cerca” — é mais confortável para os pés, mas é um caminho direto para um gigante chamado Desespero.

O elenco de personagens de “O Peregrino”  nos lembra que o caminho para a Cidade Celestial é estreito — tão estreito que poucos conseguem encontrá-lo, muitos caem no esquecimento. Aqui nós encontramos Temeroso, que foge quando vê os leões; Senhor Apegado-ao-Mundo, que cai na caverna; Falante, para quem a religião é da boca para fora; Ignorância, que procura entrar na cidade por seus próprios méritos; e muitos outros que , por uma ou outra razão, não perseveram até o fim.

E aqui está o drama da história. Bunyan, um fiel crente na doutrina da perseverança dos santos, recusou-se a tomar essa perseverança como garantida. Enquanto nós estamos no caminho, nós “não estamos de fora da mira do demônio”. Entre aqui e nosso [verdadeiro] lar, muitos inimigos aparecem na estrada. Entretanto, que cada peregrino tome coragem: “você tem todo poder no Céu e na terra do seu lado” . Se a graça nos trouxe até o caminho, a graça nos guardará em cada passo.

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Em dez anos desde sua data de publicação em 1678, O Peregrino já contava com onze edições e fez o latoeiro de Bedford se tornar um fenômeno nacional. De acordo com Calhoun, “Cerca de três mil pessoas foram para Londres ouvi-lo num domingo, e mil e duzentas apareceram para um culto em dia de semana durante o inverno” (Life, Books, and Influence).

Se os magistrados de Bedford tivessem permitido que Bunyan continuasse pregando, nós ainda hoje nos lembraríamos dele como o autor de dúzias de livros e um dos muitos iluminados puritanos. No entanto, ele não seria lido hoje em mais de duzentos idiomas, mas apenas no seu próprio. Pois “O Peregrino” é um trabalho literário fruto da prisão  — e contém a marca do confinamento de Bunyan. Sem a prisão, nós não teríamos o peregrino.

A história de Bunyan e seu livro, então, é mais uma ilustração de como os caminhos de Deus estão bem acima dos nossos (Isaías 55:8–9), e que os planos mais elaborados do diabo apenas servem para o progresso do peregrino de Deus (Gênesis 50:20). John Piper, refletindo sobre o encarceramento de Bunyan, diz, “Tudo que nós fazemos é obter sucesso — de forma dolorosa ou agradável.” (The Chief Design of My Life).

Sim, se nós deixamos nossa carga na Cruz, e agora nos encontramos no caminho do peregrino, tudo que nós fazemos é obter sucesso. Nós teremos sucesso seja festejando com os santos no Lindo Palácio ou lutando com Apollyon no Vale da Humilhação. Nós teremos sucesso seja em amizade com os pastores nas Montanhas Deleitáveis ou sangrando na Feira das Vaidades. Nós teremos sucesso mesmo quando caminharmos direto para o último rio, nossos pés buscando tocar o chão enquanto a água se eleva acima das nossas cabeças. Pois no fim do caminho está um príncipe que “ama tanto os pobre peregrinos, que não se pode encontrar igual a ele de leste a oeste” (O Peregrino ).

Na companhia desse príncipe está John Bunyan, um peregrino que agora se juntou à nuvem das testemunhas (Hebreus 12:1). “Depois de morto, ainda fala” (Hebreus 11:4) — e incentiva o resto de nós a seguir em frente.

Luto pela nação: Por que o Brasil é um país atrasado?

(Eu) Luto pelo nação nos dois sentidos da palavra: lamento os rumos que o país tomou com a proclamação da república no funesto 15 de novembro de 1889 e me empenho em defender o processo de restauração dos nossos tempos de glória. Muitas pessoas têm uma visão caricata do que foi o Império Brasileiro e do que significa a Monarquia de modo geral, por isso repudiam essa ideia e só não temem sua volta por considerar impossível esse ‘retrocesso’ (como dizem). Contudo, é preciso esclarecer alguns pontos da nossa história e ter um aprofundado debate sobre estruturas de poder e funcionamento do Estado para podermos entender esse assunto. No entanto, esse não é o momento para explicar meus motivos para defender o sistema monárquico (farei isso depois, uma vez que é um tema complexo e requer uma série de posts com mais fundamentação teórica) e sim para apresentar um livro. Para os que querem uma informação mais rápida, recomendo assistir a série “A Última Cruzada” (Brasil Paralelo) e essa aula do professor Rafael Nogueira, bem como ler esse texto do filósofo britânico sir Roger Scruton.

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Construído com base numa excelente bibliografia, que vai de Platão até Garschagen, observada através de um olhar perspicaz de uma mente bem treinada para lidar com assuntos relacionados à Ciência Política (tanto por sua formação acadêmica quanto por sua tradição familiar), “Por que o Brasil é um país atrasado?” é obra de Dom Luiz Philippe de Orleans e Bragança, publicado pela primeira vez em 2017 e que ganhou uma nova edição (revista e ampliada) em agosto de 2019.

O autor é membro da Família Imperial do Brasil, empresário, administrador, mestre em Ciência Política pela Stanford University, co-fundador do Movimento Liberal Acorda Brasil (um dos grandes atuantes na campanha pró-impeachment da então presidente Dilma Rousseff) e atualmente cumpre seu primeiro mandato como deputado federal pelo estado de São Paulo, posição que tem usado para lutar por propostas como recall do mandato dos parlamentares, voto distrital, transparência tributária, entre outras causas que o leitor pode acompanhar através de seu canal no Youtube  e suas redes sociais, como Instagram .

“O capitalismo é a maior arma contra o lucro exorbitante e ao mesmo tempo o maior causador de ascensão e mobilidade social. Como assim?”(pág. 61)*

Nesse livro, diversas questões importantes são trazidas no que diz respeito à Economia, ao Direito e à Cultura, de maneira compreensível para quem não é familiarizado com tais assuntos, mas que quer entender do que se trata. Termos facilmente confundíveis, como “Estado” e “Governo”, ou que se popularizaram sem fundamentação alguma, como “democracia” e “fascismo” (que parecem significar qualquer coisa desejável ou indesejável) ou “capitalismo” e “liberalismo”, são explicados em sua origem e é possível entender não só sua aplicação original mas também a forma pela qual essas palavras se tornaram vagas.

“A construção de um Estado de direito que ordena, limita e equilibra os poderes legítimos do ecossistema político por meio de leis é que deve ser o objetivo final de todo e qualquer estadista. Era esse o intento que os pais fundadores dos Estados Unidos detinham quando da elaboração da Constituição daquele país. Era também o objetivo de José Bonifácio, D. Leopoldina e Pedro I quando encomendaram a primeira Constituição do Brasil. Foi esse o intento que se perdeu ao longo da história do nosso país.”(pág.200)

Passeando pela História do Brasil, D. Luiz Philippe identifica os pontos fracos do nosso país, mostrando o momento em que eles apareceram e a consequência dos mesmos para o enfraquecimento de uma nação que um dia foi um forte Império, um lugar cheio de riquezas tanto naturais quanto humanas. Através de gráficos, as explicações são ilustradas e podemos nós mesmos analisar os dados que nos são mostrados, conhecendo a metodologia através da qual foram recolhidos.

Uma parte importante da obra é dedicada à Constituição. Segundo o autor, precisamos entender o que é (ou deveria ser) uma Constituição e ele retorna aos primórdios da Lei, desde o Código de Hamurabi, o Código de Manu e a Lei de Moisés (que vai além dos 10 Mandamentos) até as atuais Constituições dos Estados Unidos da América e do Japão, nos dando uma visão abrangente de como se deu o funcionamento de tais legislações ao longo do tempo e como elas afetaram a vida dos cidadãos.

“Constituições são como aquários. Elas delimitam a amplitude do sistema político do ser humano – seu “meio ambiente político”, por assim dizer. E quando esse ser humano é sujeito a mudança do ambiente, ele também vai alterar seu comportamento.” (pág.40)

A citação anterior, por exemplo, é uma observação interessantíssima: com uma Constituição frágil, que premia a mediocridade e protege criminosos, pessoas de índole mais fraca tendem a ceder ao seu lado ruim, enquanto um Código mais rígido inibe comportamentos inadequados na maioria das pessoas e fortalece a nação ao valorizar o indivíduo virtuoso. Daí, logo nos primeiros capítulos, já podemos perceber duas coisas: qual a raiz dos nossos problemas e qual a maneira de superar isso (apesar dessa parte ser subentendida e ser mais bem respondida em obras como “Como ser um conservador” de sir Roger Scruton e “12 Regras para a vida” do doutor Jordan B. Peterson). São analisadas nossas Constituições desde a época do Império, também nos são explicados temas gerais que acabaram por exercer influência aqui na Terra de Santa Cruz, como a Revolução Francesa e a Guerra Fria.

“No Brasil, o povo não é soberano.”

A ideia de eunomia, a boa ordem (em grego), é um dos pontos centrais desse trabalho e somos levamos a pensar que nosso dever, para mudar o Brasil, é fazer parte desse movimento de transformação: tomar o poder que é nosso por direito, garantir que as instituições estejam alinhadas com nossa tradição e estabelecer nossa soberania enquanto povo auto-determinado, isto é, que governa a si mesmo e não se submete ao poder de oligarquias, grupos ideológicos, órgãos internacionais ou coisas do tipo, um povo que se reconhece enquanto possuidor de um território e herdeiro de um legado histórico comum que unifica a nação e dá propósito à mesma. Um povo INDEPENDENTE que defende PRINCÍPIOS, alguns dos quais foram elencados por D. Luiz Philippe (pág.226):

1-      Tradição judaico-cristã

2-      Trabalho e prosperidade

3-      Liberdade e livre-iniciativa

4-      Estabilidade e cidadania

5-      Justiça, segurança e igualdade de todos perante a lei.

É preciso educar-se para entender os mecanismos que nos aprisionam e lutar contra eles. “Por que o Brasil é um país atrasado?” é um excelente ponto de partida para essa tarefa. Não devemos fazer como aqueles que, nas palavras do autor, “agiram como se não tivessem entendido as lições da História”, mas que “tenhamos a sabedoria de examinar as experiências greco-romana, norte-americana, europeia e mesmo o nosso passado. Que a História política seja respeitada e não descartada em nome de rótulos da moda.”

OBS.: só para deixar claro, o livro não é uma apologia da Monarquia, apenas mostra FATOS e, parafraseando Ben Shapiro,”os fatos não se importam com seus sentimentos republicanos.”

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AVE IMPÉRIO

 OBS.:* “Vale lembrar que somente com a experiência de mais de 250 anos de história econômica, desde o final do mercantilismo até hoje, é que podemos concluir que o sistema de livre mercado descrito por Adam Smith foi o melhor modelo para combater a pobreza, mesmo que essa não seja sua “razão de ser” como teoria econômica” (pág.168) – vale lembrar também que uma obra importante de Smith é “Uma teoria dos sentimentos morais”, que não deve estar separada de “A riqueza das nações” e que nunca se tornará ultrapassada por tratar da natureza humana (ainda não a li diretamente, apenas sei o que Edmund Burke trata sobre ela em “Reflexões sobre a revolução na França”, minha leitura do momento).

Clássicos cristãos: Cristianismo puro e simples

“O fato de termos tornado o pecado obsoleto não diminuiu o sofrimento humano [e] a grande batalha religiosa não se trava em um campo de batalha espetacular, mas dentro do coração humano comum” – Kathleen Norris no prefácio de Cristianismo Puro e Simples.

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O livro “Mere Christianity” traz uma série de palestras que o professor C. S. Lewis concedeu à rádio BBC entre 1942 e 1944 com o objetivo de tratar da espiritualidade num momento tão sombrio para a história da humanidade como foi a Segunda Grande Guerra. Dividido em 4 seções que reúnem diversos tópicos como fé, graça, perdão, caridade, entre outros, o autor se dispõe a tratar sobre em que acreditam os cristãos e qual deve ser a conduta deste grupo, trabalhando  os pontos comuns entre as várias vertentes dessa religião, ou seja, o que os distingue do mundo (o que, segundo Lewis, é um abismo enorme comparado com as pequenas divergências internas e é o que deve ser levado em conta por ser muito mais importante do que disputas teológicas;  não que essas devam ser negligenciadas, mas você não vai ajudar ninguém a se converter se ficar se apegando a isso). Nesse tratado, encontramos de forma mais didática os assuntos que são debatidos em “Cartas de um diabo ao seu aprendiz” e que se encontram nas entrelinhas de “As crônicas de Nárnia” (li, infelizmente não lembro onde, que “Cristianismo puro e simples” é o que explica o verdadeiro conteúdo de Nárnia).

“Quando tiver se dado conta de que nossa situação é desesperadora, começará a compreender do que os cristãos estão falando.”

É um livro essencial para qualquer cristão, independente de ser protestante ou católico, mas deveria ser lido também por aqueles que não são cristãos, pois esclarece o que verdadeiramente é esse tal “cristianismo”. Tendo sido ateu até os 30 e poucos anos, Lewis sabia qual a visão que as pessoas de fora tinham sobre essa religião e possuía talento para dialogar com esse público, por isso foi um dos maiores apologetas de seu tempo. Nesse livro, o professor argumenta que ateus ou adeptos de outras crenças muitas vezes criam uma versão infantilizada do cristianismo e a tornam alvo de ataques ferrenhos, como um adulto atacando uma criança de 6 anos. Essa falácia do espantalho é baseada em fragmentos doutrinários analisados fora de contexto, o que deve ser combatido principalmente por que nem sempre é proposital (é intencional no caso de pessoas como Richard Dawkins, que têm como objetivo de vida prestar um desfavor ao bom senso e que, portanto, “se não conseguem entender um livro escrito para adultos, não deveriam falar sobre eles”). Porém, esclarecer sobre o que é a doutrina cristã é só a ponta do iceberg: “Cristianismo puro e simples” traz uma discussão sobre a condição e a natureza dos seres humanos, destrinchando temas relacionados à conduta social, à ciência, à política, entre tantas outras questões ainda pertinentes para o leitor religioso ou mundano do século XXI (tanto quanto foram para os gregos que deram origem à Filosofia no século V antes de Cristo).

“Toda regra moral existe para evitar um colapso.”

Lewis nos diz (assim como Scruton[1] e Peterson[2] depois dele) que o problema é NOSSO e que nós SOMOS o problema. Uma reavaliação das nossas vidas é a grande proposta por trás de “Mere Christianity”. Sobre a ética (tema que ocupa a maior parte do tratado em questão), o professor aponta o anseio humano por um padrão de comportamento que considere a dignidade do homem enquanto ser dotado de logos (razão e espírito) e como este padrão não só exige a aceitação de uma verdade absoluta como pressupõe o conhecimento da mesma, ou seja, ela é algo natural e universal, uma LEI que pode ser detectada (e não inventada), assim como foram detectadas as verdades da matemática e da biologia.

“Se quisermos alcançar qualquer felicidade nesse mundo, será necessário muito comedimento.”

Esse tema não é novo e nunca se esgota. Além dos autores que citei entre parênteses, posso mencionar também Aristóteles com sua obra “Ética a Nicômaco[3], que versa sobre as mesmas coisas que Lewis fala, apenas com outra perspectiva. A felicidade (ou eudaimonia, em grego, entendida não como sentimento, mas como estilo de vida caracterizado pela busca do bem) é encontrada na justa medida das coisas, algo que C. S. Lewis também apresenta em “Cartas de um diabo” ao distinguir os prazeres dos vícios. Treinar os hábitos da alma para praticar as virtudes é não só o que forma o bom cristão, mas o bom cidadão. Só que para aquele que crê em Cristo, o que importa é a transformação interior e não a mera prática de boas ações, sendo esta a principal preocupação do professor.

“Falhamos em adotar o comportamento que esperamos dos outros.”

C. S. Lewis quer incomodar o leitor e forçá-lo a sair da zona de conforto. Isso fica bem interessante quando ele começa a escrever sobre pecados e virtudes e nos mostra o quanto o que achamos saber sobre o significado das coisas não passa de uma vaga noção, uma sombra do que elas realmente são, sobretudo coisas como humildade e orgulho; a consequência dessa falta de profundidade de conhecimento sobre os conceitos nos leva ao erro pois não sabemos o que estamos buscando e quando pensamos ter atingido o melhor nível possível, estamos ainda mais distantes do objetivo almejado : “se você pensa que não está sendo prepotente, está, na verdade, sendo prepotente demais”.

“Se você sair em busca da verdade, poderá encontrar consolo no final: se sair em busca de consolo, não alcançará nem o consolo nem a verdade – apenas conversa mole e ilusões.”

O autor afirma que a realidade é bem mais densa do que aparenta e nos exorta a assumir responsabilidade, tecendo duras críticas aos que se abstém disso e procuram uma “solução” simplista, seja distanciando-se do cristianismo com argumentos débeis ou (pior ainda) remodelando a doutrina cristã de modo que esta corresponda a seus anseios pessoais. Mas o cristianismo é inflexível e o critério de sua validade é a verdade e não a agradabilidade. Muitas pessoas escolhem alternativas fáceis para não assumir riscos e lidar com as consequências de suas ideias. Lewis nos alerta não só que “a preguiça da mais trabalho no longo prazo” mas que “o modo covarde de agir é, ao mesmo tempo, também o mais perigoso. Os castelos de areia se desmancham e os indivíduos são jogados no Vazio existencial, daí a importância da construção de uma base sólida, como nos mostra a parábola da casa edificada sobre a rocha, no Evangelho de Mateus (7:24-29), tema que também é trabalhado pelo dr. Jordan B. Peterson na Regra nº 7  de  “12 regras para a vida” : vá atrás daquilo que tem significado, não daquilo que  é conveniente.

“Todo cristão deve se tornar um pequeno Cristo”

Por fim, como recado direto aos leitores cristãos, ele nos diz o óbvio, aquilo que deveríamos saber desde o princípio: ser cristão não é ser membro da igreja A ou B, mas ser membro da Igreja com I maiúsculo, o corpo de Cristo. Apesar de deixar claro que sempre falhamos na tentativa de fazer o que é correto, Lewis afirma que devemos continuar tentando. É a caminhada que nos aperfeiçoa, tal qual a postura do filósofo descrita por Sócrates no “Banquete”[4]: nunca será sábio, tampouco se contenta com a ignorância, ele é um ser que busca a sabedoria e aquilo que é bom e belo mesmo sabendo que nunca se tornará plenamente sábio ou bom ou belo. A diferença é que nós cristãos nos tornaremos bons e belos ao partilhar da glória de Cristo na vida eterna (e aqui corrijo a frase anterior: não é a caminhada que nos aperfeiçoa, é CRISTO que o faz). Uma vez que tenhamos isso em mente, consequentemente participaremos do que C. S. Lewis chama de “o bom contágio”, também conhecido como “a grande comissão” (mais conhecido ainda como “ide”) descrita no Evangelho de Mateus (28: 18-20), o que também nos permite ter uma visão mais clara do que Jesus representa e de qual é o nosso papel no cosmo quando passamos de criaturas para filhos de Deus.

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Esse livro apresenta 3 defeitos notáveis (o que me surpreendeu pois eu nunca antes tinha discordado de Lewis): no único capítulo ruim, o intitulado “Moralidade social”, ele confunde socialismo com livre-mercado (o que realmente não consegui entender como foi possível isso vindo de uma pessoa como o professor C. S. Lewis, mesmo que ele deixe bem claro nos parágrafos seguintes que aquilo não correspondia à realidade), faltou referências precisas (sabemos que ele baseia-se na Bíblia, em Agostinho, Kierkegaard, Chesterton, Leibniz, etc, mas ele não faz as citações adequadamente, quando muito menciona de maneira vaga; tudo bem que era para um público leigo, ainda assim, fundamentar de maneira mais profunda os argumentos é uma forma de instruir a todos) e é muito manso em alguns pontos, sobretudo no que diz respeito a ‘tratar os jovens de acordo com sua época’, pois ele diz para os leitores mais velhos serem menos rigorosos com os mais novos, pois ‘os tempos mudaram’, o que não faz o menor sentido já que o próprio Lewis estava falando não de um moralismo barato mas do ethos bíblico, isto é, um modo de vida determinado por leis divinas de forma que é imutável e serve de padrão para ser adotado por todos os seres humanos independente da época, da região e de qualquer outro fator. Claro que essa tolerância nos educa sobre gentileza e sobre ouvir o outro (o que também é uma das regras de Peterson em “12 regras para a vida”, que será tema do próximo texto), mas é bom lembrar o que John Wesley dizia : o que uma geração tolera, a outra aceita.

“Aspire ao Céu e terás a Terra de lambuja; aspire a Terra e não terás nenhum dos dois.”

Minha avaliação geral é de que este é um livro excelente, bastante instrutivo, cheio de analogias para explicar os argumentos de maneira acessível para qualquer público de modo a não deixar dúvidas sobre o que o autor queria expressar. É uma rica leitura que traz conhecimento de várias áreas como lógica e psicanálise sem perder a coerência e sem deixar de ser objetivo nos temas que se propõe a discutir. Tanto assuntos propriamente religiosos como o problema do mal, a salvação e a existência de Deus, como temas mais gerais, tais como legítima defesa e patriarcado, são abordados sem que o autor tenha medo de dizer a verdade sobre o que acredita, por mais inconveniente que esta possa parecer. Esse é maior triunfo dessa obra: a coragem de dizer a verdade. O cristianismo é apresentado como puro, ou seja, sem maquiagem, e simples, quer dizer, sem rodeios para confundir o leitor, deixando clara a conclusão de que não é nem um pouco fácil ser cristão: “se você está considerando a possibilidade de se tornar cristão, devo alertá-lo para o fato de que está embarcando em algo que vai exigir você por inteiro.” Entretanto, em cada linha fica nítido o quão preciosa e animadora é a vida com e para Cristo. É uma obra que urge o leitor a pensar e tomar uma decisão:

“Dessa vez Deus virá sem disfarce; algo tão impressionante que causará reações de amor ou horror irresistível a toda criatura. Então, será tarde demais para escolher o seu lado. Não adianta dizer que você decidiu deitar quando já é impossível ficar de pé. Essa já não será hora de escolher; será hora de descobrir de que lado realmente nós escolhemos ficar. […] Deus está delongando para nos dar essa chance. E ela tem prazo de validade. É pegar ou largar.”

Espero que todos vocês alegrem-se nessa Páscoa ao lembrar o verdadeiro significado dela e comemorem o fato de que (nas palavras de C. S. Lewis) “o Homem reviveu“.

PS: A série “Clássicos cristãos” será seguida de “O peregrino” (John Bunyan) e “Confissões” (Agostinho de Hipona). Quem tiver alguma sugestão para essa coluna, pode me mandar mensagem pelo Instagram (@samara_glicia) ou fazer um comentário aqui mesmo.

POSTAGENS RELACIONADAS:  Cartas de um diabo a seu aprendiz , A filosofia para o cristão, A bruxa e o demônioO verdadeiro presente, Deus é vermelho.

… Worthy is the Lamb who was slain. Worthy is the King who conquered the grave…

(Digno é o cordeiro que foi morto. Digno é o Rei que venceu a morte.*)

Frase da música  This is amazing grace  / a imagem abaixo é a música  Quebrantado , cuja versão original é Sweetly Broken

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REFERÊNCIAS:

LEWIS, Clive S. Cristianismo Puro e Simples. Thomas Nelson Brasil: Rio de Janeiro, 2017.

Bíblia Sagrada

[1] SCRUTON, Roger. Tolos, fraudes e militantes. Record: Rio de Janeiro, 2018.

[2] PETERSON, Jordan B. 12 rules for life. Allen Lane: London, 2018.

[3] ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. 6º reimpressão. Martin Clarent: São Paulo, 2013.

[4] PLATÃO. O banquete. L&PM: Porto Alegre, 2012.

* em tradução livre pois acho que em português isso soa melhor do que “Digno é o Rei que conquistou a sepultura”.

 

Só para os loucos…só para os raros:

“Lobo da estepe, acredito na tua dor” 20140103-182203

O livro escolhido para o mês de março no grupo de leitura foi “O lobo da estepe” (1927) do escritor alemão Hermann Hesse. Fui imediatamente pesquisar o motivo do livro de Hesse constar como um grande clássico para avaliar se valeria ler. Nem sempre o motivo me convence e não vacilo em dispensar livros por mais famosos que sejam (abandonei Cem anos de solidão depois de poucas páginas e Madame Bovary é um exemplo dos que não pretendo dar a menor chance). Não sou obrigada a admirar um livro só por que o mesmo possui uma áurea de intelectualidade – que muitas vezes é artificial, afinal, algumas obras de “arte” são consideradas importantes simplesmente por questionarem a sociedade, como se isso fosse não apenas um motivo, mas um motivo suficiente (algumas delas não são nada mais que uma demonstração da degeneração do espírito humano ou uma grande piada, como mostram alguns vídeos que você encontrará no final dessa postagem, dentre os quais o mais importante é Why Beauty Matters?).

Encontrei uma aula de um professor de literatura alemã (link no final da postagem) que falou algo que me chamou atenção e me fez ter vontade de analisar essa obra, ainda que tenha deixado claro o seu conteúdo subversivo: há respeito à estética. Isso me fez respeitar “O lobo da estepe” mesmo sabendo de antemão que não nutriria qualquer tipo de afeição por ele.

“(A música contemporânea) naturalmente era uma baboseira, comparada com Bach e Mozart e a música dos grandes mestres; mas assim também era toda nossa arte, todo nosso pensamento, toda nossa aparência de cultura, quando comparada com a verdadeira cultura.”

É importante saber ao menos o básico sobre o autor, a obra e o contexto histórico e artístico da época em que a mesma foi construída para aproveitar ao máximo as referências e todos os detalhes do livro. Sabemos, por exemplo, que Hermann Hesse era grande admirador de Goethe e que viveu um período de transição cultural e política que influenciou seu estilo de escrita e o conteúdo de seus textos. O protagonista de “O lobo da estepe”, Harry Haller, apresenta similaridades com o autor, como a paixão pela arte clássica e os problemas psiquiátricos, especialmente a tendência suicida.

A influência de Nietzsche já é óbvia, mas cabe destacar também que tem muito da “Fenomenologia do Espírito” de Hegel (dois filósofos que eu não gosto hahaha). Sobre Nietzsche, além do evidente niilismo, vemos nas entrelinhas que Harry Haller se sente um homem superior que não deveria ter que se submeter às regras da burguesia medíocre. Sobre Hegel, talvez não tenha sido proposital, mas podemos observar um movimento de tese, antítese e síntese na formação do pensamento do protagonista no contato que ele tem com as outras “consciências-de-si” e também a luta interna da própria consciência de Haller: o homem e o lobo atuam como as figuras da “dialética do senhor e do escravo” descrita pelo filósofo alemão. O movimento filosófico chamado de idealismo alemão trouxe o pensamento sobre o “Eu” (sujeito transcendental) versus o “Não-Eu” (o mundo exterior) e isso é o que vemos no livro em questão.

 “Harry compreendia de súbito que essa liberdade era a morte”

Durante a leitura, lembrei de Clube da Luta, de Chuck Palahniuk (que li em 2012 e na época foi um dos meus favoritos; apesar de ter caído no meu ranking, continuo indicando como uma obra bem construída e interessantíssima). A questão da divisão da personalidade e da perturbação da mente, o desprezo pela sociedade tradicional, o enfrentamento dos medos visando quebrar as convenções, a libertação através da desesperança e da morte, todos esses temas estão presentes em ambos os escritos. Palahniuk também faz uso de elementos inusitados e situações absurdas para desenvolver a obra em determinados momentos e possui uma escrita precisa, apesar de não ser elegante como Hesse.

“Havia chegado ao momento em que a solidão e a independência já não eram seu objetivo e seu anseio, mas antes sua condenação e sua sentença”

Harry Haller odeia o mundo do qual se aproveita e não nega sua própria hipocrisia. Em seus pensamentos, por mais que se divirta por fora, ele não é feliz, está sempre se consumindo. A vida burguesa o incomoda não por ser realmente ruim, mas por ser algo com o qual ele sabe que não irá se ajustar, um conforto que ele não poderá ter por não querer sair do pedestal no qual se colocou: ele é aquela pessoa que tem que ser “do contra” para mostrar que sabe mais (como ele demonstra ao julgar a opinião dos outros), como se aceitar o que aceitam as pessoas comuns fosse um crime , ainda que saiba que na verdade é seu orgulho o pecado que o condenará ao inferno.

Cheguei a pensar que em outros tempos eu teria um sentimento mais amigável para com essa obra, pois apesar de nunca ter me identificado com o pensamento niilista ou com um estilo de vida desajustado, durante a época mais idealista da minha adolescência, Jack Kerouac foi meu escritor favorito e amei livros como On The Road e Os vagabundos iluminados. A figura do “vagabundo iluminado” me cativava, eu os via como criaturas incompreendidas que não se encaixavam no mundo normal e deveriam ser perdoadas por isso. No entanto, há uma diferença importante entre os personagens de Kerouac (que eram ele próprio e seus amigos) e os de Hesse: Sal Paradise e os demais não tinham um espírito destrutivo, não odiavam os costumes e a sociedade, eles criavam seu próprio universo e lá viviam como bem entendiam sem perturbar ninguém. O próprio Jack detestava os hippies, que considerava baderneiros, e os comunistas, que desrespeitavam a liberdade e todos os demais valores da América que ele tanto amava.

“Aquele teatro mágico, estava percebendo, não era nenhum paraíso. Todo o inferno estava reunido sob sua bela superfície”

O mundo do Lobo da Estepe não trouxe nenhuma paz, apenas agonia. O teatro mágico explorou a loucura que a parte racional de Haller tentava conter ou mediar. A liberdade não passou de ilusão justamente por ter se desvinculado da realidade. Tudo isso é narrado em estilo introspectivo num cenário caótico, uma mistura de Dostoievsky e Lewis Carroll. São notáveis também alguns traços do movimento surrealista, que despontava naquela época, com resquícios do romantismo alemão que estava se extinguindo.

O autor alega que o livro não foi bem compreendido, que não se trata de negação: “Não é o livro de um homem em desespero, mas de um homem que crê.” É difícil interpretar apenas dessa forma, mas não se pode negar que é um argumento verdadeiro. Apesar de tudo, o protagonista se apega ao mundo e acredita em verdades absolutas, como já foi mencionado em relação à cultura (e quem leu sabe o que ele pensa sobre o pinheirinho). Algumas coisas (ou pessoas) funcionam para ele como uma espécie de âncora psicológica e ele realmente está em busca de redenção, não no sentido de ser purificado mas de encontrar um significado para sua vida, exatamente o oposto do niilismo que o assombra. Ele sofre e procura remédio no mundo exterior: alguns são placebo, como as danças, outros apresentavam ao menos um alívio real para suas perturbações (talvez incuráveis), como quando ouvia Mozart. Isso era a arte cumprindo seu papel enquanto arte, que segundo grandes filósofos (que divergiam em vários pontos porém conservavam isso como essência) deve provocar catarse*, ou seja, uma terapia que causa uma espécie de elevação do espírito humano.

“Carolina, você sabe que esse homem era um lobo; esse lobo nunca mais vai uivar”

É um livro curto/médio (cerca de 250 páginas, dependendo da edição), que encontra um lugar importante na história da literatura mundial por ter qualidade estética e tratar (mesmo que indiretamente) de vários assuntos relevantes, como Filosofia e Psicanálise, bem como da cultura em si. No geral, pode não ser o mais agradável dos livros e talvez seja uma perda de tempo para a maioria das pessoas. Existem livros bem melhores para você ler tanto por distração quanto para adquirir conhecimento. Essa obra não é boa para nenhuma dessas finalidades: é uma distração bizarra e não é instrutivo. Me senti no dever de ler “O lobo da estepe” por ser estudante de literatura (apesar de ser literatura inglesa, é necessário ter conhecimento de teoria literária no geral, além de Hesse ter exercido influência na obra de diversos escritores em todas as partes do mundo, até mesmo no Brasil, onde era admirado por pessoas como Clarisse Lispector) e recomendo sobretudo para quem estuda coisas como Filosofia, Psicologia e Letras (quem tem interesse por essas coisas, independente de ter estudo formal), por ser uma forma de analisar a aplicação de métodos e/ou tendências de pensamento aprendidas durantes estudos mais específicos. Foi uma leitura mais por utilidade do que por prazer, o que não significa de modo algum que tenha sido um desperdício, pois é um excelente plano de análise sobre uma série de assuntos, sobretudo a arte e o que ela representa para o ser humano.

As frases em azul são da seguinte música (um excelente southern rock brasileiro): O Lobo da Estepe (Os Cascavelletes)

OBS.:

1) essa é a definição específica de Aristóteles, apresentada na Poética

2) Falei um pouco desse livro no post sobre Chesterton, lá no finalzinho.

3) No Brasil, temos uma banda chamada “Teatro Mágico”, cujas composições são inspiradas nas obras de Hesse (não posso julgar a qualidade por que não faz meu estilo) e o cantor e compositor Ventania (que parece um sujeito legal, exceto por fazer apologia ao uso de coisas como “cogumelos azuis”) tem uma música chamada “Só para loucos” , que apesar da letra não aparentar ligação com “O lobo da estepe”,  pode ser uma referência ao mesmo (ou pode ter sido coincidência).

Sugestão de vídeos:

Literatura Fundamental: O lobo da estepe (professor Helmut Galle) –  https://www.youtube.com/watch?v=KoN5n2ZLTBg

Roger Scruton e a reconquista da beleza –  https://www.youtube.com/watch?v=R-J90ufmOo4

Why beauty matters?  (sir Roger Scruton – legendado) – https://www.youtube.com/watch?v=bHw4MMEnmpc&t=48s

Eu estudei arte. Paula Lavigne não. (Senso Incomum) –  https://www.youtube.com/watch?v=7bNQWeUlz-8

Paul Joseph Watson sobre a degradação da arte (legendados):

1)    A verdade sobre a arte moderna – https://www.youtube.com/watch?v=qZN_MsWyD5o

2)    As recentes atrocidades da arte moderna –  https://www.youtube.com/watch?v=Toe9x1UFMks

3)    A arte moderna continua uma merd@ –https://www.youtube.com/watch?v=57MYtVbLoOo

Sugestão de leitura (link para adicionar à sua lista do Skoob):

O lobo da estepe https://www.skoob.com.br/o-lobo-da-estepe-1338ed1830.html

Clube da luta https://www.skoob.com.br/clube-da-luta-1436ed1939.html

Pé na estrada https://www.skoob.com.br/on-the-road-923ed1202.html

Os vagabundos iluminados https://www.skoob.com.br/os-vagabundos-iluminados-4257ed5312.html

Fausto & Os sofrimentos do jovem Werther https://www.skoob.com.br/fausto-e-werther-27143ed29520.html

Alice no país das maravilhas https://www.skoob.com.br/alice-no-pais-das-maravilhas-1172ed703379.html

Memórias do subsolo (Notas do Subsolo ou Notas do Subterrâneo) https://www.skoob.com.br/memorias-do-subsolo-1751ed363086.html

Fenomenologia do espírito (esse é chato, mas vale estudar os primeiros capítulos) https://www.skoob.com.br/fenomenologia-do-espirito-20543ed22150.html

 

VIVA CHE…STERTON!

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Há muito venho adiando uma resenha de “A Taberna Ambulante”, pois não tinha nem uma vaga ideia de por onde começar. Em fevereiro desse ano, comecei a participar de um clube de leitura online, cujo livro do mês foi justamente do mesmo autor: “O homem que era Quinta Feira”. Resolvi então fazer uma resenha dupla, sem nenhuma intenção de aprofundamento filosófico ou literário, apenas por vontade de falar sobre o trabalho do excelente escritor britânico Gilbert Keith Chesterton, que muito influenciou grandes nomes como Neil Gaiman e meu querido C.S. Lewis.
A edição brasileira de “A Taberna Ambulante”, veio à luz em 2018, fruto do trabalho belíssimo da Sociedade Chesterton Brasil. Conta com prefácio de Raul Martins Lima (também seu tradutor e editor), que nos dá algumas informações históricas e técnicas que ajudam bastante na compreensão do autor e de suas obras (não apenas essa em particular) por nos esclarecer alguns detalhes que poderiam passar despercebidos ou ser entendidos como mera maluquice. O final desse livro é um tanto quanto “inacabado” (por assim dizer), recurso que também foi utilizado em “Quinta Feira”. Além disso, ambos os romances são repletos de poesia, coisa que GKC gostava muito (particularmente prefiro algo menos poético, mas admito que é uma característica interessante do autor).

  “Os romances querem provar algo” (R.M.Lima)

Raul Martins Lima nos avisa que como romancista, GKC não era dos melhores e nem tinha pretensão de ser, o que não deve ser mal interpretado: a qualidade do autor é altíssima, apenas seu estilo que é peculiar. Não era romancista “no mesmo sentido em que Oscar Wilde, Tolstói ou Machado de Assis”, diz o prefacista. Ao nos dizer que “os romances (de Chesterton) querem provar algo”, Lima explica que o objetivo de GKC era sempre apresentar um argumento sobre determinado ponto de vista político, artístico e religioso e alguma visão de mundo como um todo, o que ele fazia de forma clara e perspicaz em suas críticas e de forma simbólica e igualmente inteligente em seus romances.

                  “Vi, hoje, algo pior do que a morte: e o seu nome é Paz.”                                                                           (GKC em “A taberna ambulante”)

The Flying Inn (A Taberna Ambulante) se passa numa Inglaterra islamizada, onde o establishment político atende aos anseios mulçumanos e cria uma lei que regula severamente a venda de bebidas alcoólicas. Humphrey Pump, dono da perseguida taberna O Velho Navio, junto com seu amigo de longa data, o capitão Dalroy, rebelam-se contra essa situação e percorrem o país driblando a lei e desafiando as autoridades com sua taberna ambulante. No entanto, esse enredo é apenas a “desculpa” para tratar de temas bem mais profundos. O mais interessante de tudo é que este livro, publicado em 1914, bem poderia ter sido escrito ontem: denuncia a hipocrisia da classe política (“democrática o escambau!” , diz o progressista ao revelar suas verdadeiras intenções) e do meio intelectual (“era ignorante: como tanta gente culta por aí”) e alerta sobre a ameaça de destruição da civilização ocidental pela corrupção de suas tradições e o sutil domínio de outra cultura não apenas diferente, mas extremamente oposta.
É também um prato cheio para quem ama a cultura britânica (como eu ❤): sua literatura, sua arte, seu povo. Chesterton exprime o espírito do homem simples e tradicionalmente inglês em cada detalhe desse livro: “aquela amabilidade incorruptível que lhe estava na raiz do que é ser inglês, e quem sabe um dia possa ainda salvar a alma da Inglaterra”.
Mais sobre esse livro nos seguintes links:
Trailer (campanha da SCB)
Resenha

         “Uma revolta contra a revolta” (GKC em “O homem que era Quinta Feira”)

No caso de “The man who was Thursday” (O homem que era Quinta Feira), a “desculpa” é um romance policial, o que já me agradou pois sou fã desse gênero. No início, dois poetas de ideologias opostas (Gregory, o anarquista e Syme, o conservador) se encontram e não se dão muito bem. Não vou dizer como isso se torna uma aventura detetivesca e muito menos o motivo pelo qual o tal homem era Quinta Feira. Não chegaria a ser spoiler, até por que a história mesmo se desenrola depois que descobrimos esses detalhes, mas acho que a beleza está nessas pequenas surpresas. Falando em surpresas, alguns pontos são bem óbvios, compensados por momentos de uma loucura que depois descobrimos ser lucidez, típico de Chesterton.
Há um debate político, filosófico e teológico interessantíssimo (cabe lembrar que GKC era grande estudioso de Tomás de Aquino). Mais uma vez, o autor nos mostra as contradições dos progressistas e a sutileza do mal, apontando novamente para os perigos já citados em “A taberna ambulante” (cronologicamente, foi o contrário, já que “Thursday” foi lançado em 1908) porém focando num segredo posto à vista para que ninguém repare nele: a conspiração dos “ativistas soft” (aqueles disfarçados de bonzinhos, como artistas, cientistas e intelectuais) contra a família e o Estado. Contra esse perigo, bravamente luta nosso herói, Gabriel Syme: “Ele era daqueles que cedo na vida são levados a tomar uma atitude demasiado conservadora por causa da loucura confusa da maioria dos revolucionários”

“Até as mais desumanizadas fantasias modernas dependem de qualquer figura simples e antiga”

O livro de março desse mesmo clube é O lobo da estepe (Herman Hesse), que terminei de ler hoje e menciono aqui apenas para fins de uma rápida comparação entre essas duas obras opostas E similares (não sei se a escolha foi proposital ou aleatória). O livro de Chesterton critica a negação da verdade, da realidade, das instituições e da própria lógica e prepara o terreno para entender o de Hesse, que tem uma tendência niilista ao mesmo tempo em que saúda o que é clássico ao apresentar um personagem (Harry Haller) que diz odiar e admirar o mundo civilizado, provando o ponto de GKC: precisamos da tradição.
Resenhas mais profundas sobre esse livro podem ser encontradas nos links abaixo (recomendo mais para quem já o leu, pois se tratam da discussão dos temas apresentados na história e não de uma apresentação da mesma, então contém spoilers) :

Chesterton Brasil

Pensar a realidade

Literatura e redenção

OBS.: peço que tenham a gentileza de perdoar meus erros, nem sempre tenho muita paciência para prestar atenção em coisas como o uso da vírgula e dos “por quês” hahahaha

ADICIONE À SUA LISTA DO SKOOB:  A TABERNA AMBULANTE  O HOMEM QUE ERA QUINTA FEIRA