CRISTIANISMO AÇUCARADO

“Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada.”

palavras de Jesus no Evangelho segundo Mateus (capítulo 10, versículo 34)

“Religião não é para promover o ódio, nem para dividir. A religião pode fortalecer valores que priorizem a construção de uma cultura de paz, de tolerância, de menos ódio, de mais aceitação mútua e assim por diante.”

Romi M. Bencke (grifos meus*)

*OBS.: esse texto foi escrito em conjunto com meu namorado, Djesniel Krause, que é teólogo; as referências pessoais não identificadas (ex.: “grifos meus”, “uso uma Bíblia”, etc) são minhas, ainda que eu não tenha escrito o parágrafo inteiro sozinha.

Uso uma Bíblia de estudo que trata de algumas seitas pseudo-cristãs, isto é, que se dizem cristãs, mas não o são, uma vez que violam pontos fundamentais do cristianismo. Na maioria delas, uma pessoa diz ter recebido uma nova revelação, colocando a Bíblia Sagrada em segundo plano, apenas para utilizar um ou outro versículo aleatório que pareça “aprovar” sua nova religião. Uma delas, por exemplo, é a “igreja apostólica da santa vó Rosa”, fundada por uma senhora que dizia ser ela mesma o “espírito consolador” que Cristo prometeu enviar, conforme encontramos no Evangelho de João 15:26. Hinos de louvor são cantados no nome dela. Ela “corrigiu” a Bíblia.

Nem sempre o desvio é tão óbvio. Nem sempre os falsos mestres lançam novos “evangelhos” ou se colocam como ídolos, mas são igualmente perigosos por tentar remodelar o cristianismo de acordo com sua ideologia. Um exemplo recente foi o Ed René Kivitz, que disse que a Bíblia deveria ser atualizada. Não no sentido de uma nova tradução, com o objetivo de deixar sua mensagem mais compreensível, mas sim de acomodar seu conteúdo ao contexto contemporâneo, ignorando assim o que Jesus Cristo diz no Evangelho de Mateus: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar” (Mt 24:35). Outro caso, mais antigo, foi do Leonardo Boff, que tentou infiltrar o marxismo na igreja católica, tirando o foco da salvação pela morte e ressurreição de Cristo, ignorando as críticas de Marx ao cristianismo e fechando os olhos para o fato de que todo país socialista/comunista persegue cristãos em maior ou menor grau, pois não há espaço para Deus, apenas para o Estado, a classe operária, ou o que quer que eles coloquem como redentores da História. A ideia de progresso e escatologia é secularizada, transformando-se em uma utopia materialista.

O caso que me motivou a escrever esse texto foi uma citação com a qual me deparei numa rede social (e que coloquei no início dessa postagem), as aparentemente inofensivas palavras da senhora Romi Márcia Bencke, que a despeito de sua formação teológica e sua posição como pastora luterana, defende pautas progressistas, tais como aborto, ideologia de gênero e ecumenismo inter-religioso – para dizer o mínimo, mas eu não ficaria surpresa com mais nada vindo dela, do Kivitz, do Boff ou de qualquer desses. Como todos esses estudaram Teologia, não têm a desculpa da falta de conhecimento, então é uma perversão deliberada; só que muitas coisas que eles falam parecem bonitas e sensatas, enganando facilmente aquelas pessoas que tem em mente a imagem de um Jesus hippie, advinda da cultura popular. Como diz Austin Fischer no livro “Jovem, incansável, não mais reformado”:

“Conforme Mark Driscoll observa, muitos querem “remodelar Jesus como um hippie […] que fazia comentários zen incisivos acerca da vida […]. Esse Jesus jamais poderia enviar alguém para o inferno, pois isso violaria o seu principal atributo, agradabilidade.”

FISCHER, 2015, p.55-56 (grifos meus)

Também Wayne H. House comenta sobre isto:

“A igreja é vista com judiciosa, ao passo que se diz que Jesus não julga as pessoas. A igreja fala contra os pecados como a homossexualidade, ao passo que Jesus amava todas as pessoas independentemente de seus pecados, como aconteceu com a mulher pega em adultério. A igreja tem interesse em questões políticas, mas Jesus não se envolveu com política e só trabalhou para aliviar o fardo das pessoas. […]. Essa tentativa para compreender Jesus, com frequência, é feita sem qualquer referência sobre o que realmente conhecemos a respeito dele. Simplesmente adivinhamos quem ele é e como ele age – muito frequentemente, como achamos que ele deve ser e agir para ser aceitável à mente do homem do século XXI. À parte do apelo da revelação divina, essa é a maneira pela qual ele tem sido visto ao longo dos séculos, incluindo o século em que ele viveu aqui na terra”.

HOUSE, 2009, p. 26

Devemos deixar de lado o Evangelho segundo Mateus, Marcos, Lucas e João, que falam sobre pecado, condenação e arrependimento, para aceitar as boas-novas de Kivitz, Romi, Boff e Antônio Carlos Costa (outro marxista) se quisermos ser politicamente corretos e nos conformar com o espírito da época. Fomos chamados, de acordo com esses novos profetas, para tolerar qualquer prática e aceitar qualquer idéia, pois nada desagrada a Deus. Aceitação e tolerância se tornaram as virtudes máximas e devem ser priorizadas em detrimento do arrependimento do pecado – pois não existe mais pecado, uma vez que esse é um conceito opressor. Usam o martelo de Nietzsche para livrar os fiéis das amarras metafísicas, por isso vêem tudo sob uma perspectiva materialista-histórica e se vêem no direito de alterar o Livro Sagrado – já que não existe mais Sagrado. É um niilismo disfarçado: no fundo, não há Deus, não há nada, pois se houvesse Deus, sua Palavra revelada deveria ser a autoridade máxima, ainda que esteja em desacordo com o que é mais popular nesse século.

Parece que faltam páginas na Bíblia de algumas pessoas que dizem lê-la; ou falta atenção. Ler em si não é a questão. Até meados do século XX, muitos convertidos nem sabiam ler, mas tiveram contato com o Evangelho verdadeiro, pregado por pastores fiéis em épocas difíceis, que enfrentaram perseguição em nome de Cristo, como o médico e missionário presbiteriano William Butler, que veio dos Estados Unidos para plantar igrejas em Pernambuco. Essas pessoas entendiam a mensagem e não seguiam modinhas. A mensagem clara é: existe uma verdade objetiva, que é Jesus Cristo, que foi enviado para pagar o preço pelos nossos pecados e aplacar a ira de Deus, que é um Deus justo e santo, que não tolera o pecado; Ele morreu para que todo aquele que nele crer seja salvo (Jo 3:15), mas quem não crê, já está condenado (Jo 3:18).

Jamais fui capaz de ler os evangelhos sem me encolher um pouco com medo. As palavras e ações de Jesus geralmente são um pouco espinhosas. […]Uma análise honesta dos evangelhos deixa claro para mim que Jesus é bem duro. Ele tem um senso robusto da depravação humana. Ele geralmente fala claramente acerca da ira sob a qual estamos como resultado de nossa depravação. […] E um dia Ele virá com uma espada para julgar “mortos, grandes e pequenos” .

FISCHER, 2015, p.57 (grifos meus)

As tendências culturais precisam ser avaliadas e julgadas à luz das Escrituras, e não o oposto. Não podemos permitir que elas sejam normativas. Também precisamos buscar conhecimento para compreender as coisas, ao invés de apenas adotar uma ideia superficial.

Isso é muito importante de ressaltar, por que algumas dessas pessoas que concordam com esses falsos mestres, acreditam que estão agindo em nome do amor. Acham que amar o próximo é deixá-lo confortável nesse mundo e com isso só colaboram com a condenação deles. Onde está o amor nisso? Se um cristão ama alguém de verdade, quer que essa pessoa conheça Cristo. Voltando ao livro de Austin Fischer, ele diz:

“O cristianismo ocidental tem um problema com o amor, a saber, diminuímos por demais o amor ao fazermos muito caso dele. Amor é tolerância, amor é inclusão, amor é autoestima, amor é conforto. E, ao transformar o amor nessas coisas, o amor se tomou em nada. […] Para fins de simplicidade, vamos chamar isso de o problema do “amor brando”, ao se tornar tudo, o amor se torna nada.”

FISCHER, 2015, p.68 (grifos meus)

Eu (Djesniel) nem mesmo chamaria isto de amor, apenas de indiferença. É a aceitação de um conceito sem conhecê-lo. Fischer continua:

“Você sabia que o Livro de Atos não menciona o amor uma vez sequer? Quer esteja procurando pelo substantivo ou pelo verbo, faça uma pesquisa pela palavra “amor/amar” e você irá saltar direto de João para Romanos. Longe de ser uma casualidade retórica, penso que o escritor está tentando ensinar-nos algo. Não somos nós que devemos definir o que é amor; Deus é quem define. E essa é a primeira coisaque precisamos saber acerca do amor de Deus. Se quisermos entendê-lo, então devemos ir ao lugar onde Deus o define, a saber, Jesus Cristo, crucificado.[…]Não devemos falar de amor de forma abstrata, como algum ideal humano fofo de boa vontade.”

FISCHER, 2015, p.69

Isto nos remete a C.S. Lewis: “a verdade segundo a qual Deus é amor poderá furtivamente vir a significar para nós o oposto – que o amor é Deus” (LEWIS, 2009, p. 9), e então, precisamos complementar, o amor “passa a ser um demônio no instante em que passa a ser um deus” (LEWIS, 2009, p. 9).

Claro que as palavras de Cristo em Mateus 10:34 não são no sentido de o cristão sair por aí matando quem discordar dele, mas sim de que o cristianismo não seria baseado na simples união e tolerância, mas causaria divisão, seria uma religião perseguida, considerada escandalosa e insana (1 Coríntios 1:23) e cujos adeptos teriam que fazer uma escolha entre Cristo e o mundo, ao invés de “atualizar” algo ou priorizar a paz em detrimento da Verdade.

Alguns de vocês podem pensar : “Ah, Samara, mas você não é teóloga para ter autoridade de discutir com essas pessoas.” (mas eu, Djesniel, sou ;D) (e um muito dedicado ♥) Ainda assim, vamos considerar algumas coisas:

1) A autoridade não está na pessoa, e sim na Bíblia, então até um ateu instruído estaria certo em contestar. Qualquer um dos irmãos mais simples, que nem ao menos sabe ler, mas possui conhecimento, pode contestar.

2) Estudei Filosofia, sei de onde essas ideias vêm, sei o trabalho que os pais da igreja tiveram para desvincular o cristianismo do paganismo grego e também sei o ideal pós-moderno de propagar o relativismo. O apóstolo Paulo já alertava: “Tenham cuidado para que ninguém os escravize a filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo, e não em Cristo” (Cl 2:8) .O problema não é a filosofia, mas o fundamento dela: quem tenta adequar o cristianismo à filosofia ao invés de fazer o caminho contrário, cai nesse erro. 

Devemos antes, como Lutero, manter nossa consciência cativa à Palavra de Deus.

Você foi chamado para ser sal, não açúcar.

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BIBLIOGRAFIA:

FISCHER, Austin. Jovem, incansável, não mais reformado. Maceió: Sal Cultural, 2015.

HOUSE, H. Wayne. O Jesus que nunca existiu. São Paulo: Hagnos, 2009.

LEWIS. C.S. Os quatro amores. 2. Ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009.

O ateísmo da igreja primitiva – e por que o cristão deve se posicionar politicamente

O estudo sobre a igreja primitiva tem sido negligenciado fora dos círculos acadêmicos cristãos, o que é lamentável. Eu mesma era uma dessas pessoas que tem uma visão superficial sobre o assunto, acreditando que era um período de perseguições e martírios relevantes do ponto de vista histórico, mas que não encontrava paralelo com a atualidade; por tanto, deveríamos saber sobre os acontecimentos apenas para honrar a memória daqueles que lutaram para que o Evangelho fosse propagado e para que hoje possamos livremente professar nossa fé em Jesus Cristo, ao menos no Ocidente. Não poderia estar mais enganada…

No Oriente islâmico e/ou comunista, a perseguição é declarada e violenta: os cristãos são proibidos de exercer cargos públicos, de realizar reuniões, são presos, torturados, entre outras coisas (já fiz resenha de “Deus é vermelho“, um livro sobre o cristianismo na China, o link está no fim desse post). No Ocidente, a perseguição é mais sutil e a principal arma anticristã é o ativismo judicial. Questões como aborto e legalização de drogas são alguns dos temas que fazem o cristão ser visto como um opressor que quer impor suas opiniões sobre os demais membros de um Estado supostamente laico. O fato de não podermos professar nossa fé publicamente sem sermos alvo de chacota, processos e até violência, deveria nos fazer buscar conhecimento sobre a história do cristianismo para entender como a Igreja tem enfrentado esse problema ao longo do tempo.

A relação entre cristianismo e política é importantíssima de ser observada e esse livro apresentada uma perspectiva relevante sobre o assunto. “O ateísmo na igreja primitiva” (Rousas J. Rushdoony ) é bem curto, pode ser lido num dia só, e apesar ter sido escrito nos anos 1980, continua bem atual, até por que parece que estamos passando por uma fase bastante similar. A explicação do título é simples: os primeiros cristãos, por adorarem um Deus invisível e se recusarem a reconhecer a divindade de César, eram considerados ateus e inimigos do Império Romano. Depois de explicar isso, o autor passa a comparar a igreja primitiva com a igreja contemporânea acerca de alguns assuntos.

“Enfrentamos ainda hoje duas lutas que marcaram a Igreja Primitiva desde o princípio. A primeira era a questão da soberania e do senhorio e a segunda, a do aborto.”

R. J. Rushdoony

Como mencionado na frase em destaque, o autor argumenta que os principais motivos pelos quais a igreja primitiva foi perseguida são os mesmos pelos quais a igreja contemporânea é perseguida.

Recentemente testemunhamos dois casos nesse sentido. Um deles foi o do pastor John MacArthur (link do texto sobre isso no fim do post), que se opôs à tirania do governador da Califórnia, afirmando que quem tem soberania sobre a Igreja é Deus e não o Estado. MacArthur declarou que o que está acontecendo é uma “discriminação intencional contra o cristianismo bíblico e a igreja”. As palavras foram bem calculadas: cristianismo BÍBLICO para diferenciar do “cristianismo” progressista que prega a não intervenção da igreja em questões morais por que o “Estado é laico”.

O outro caso foi o da menina de 10 anos que além de ter sido estuprada por anos e ter engravidado, foi submetida a um aborto. Os protestos dos cristãos conservadores contra um ato que torturaria duas crianças, matando uma e colocando em risco a vida de outra quando havia a opção de um parto seguro e pessoas dispostas a adotar o bebê, foi entendida como “fanatismo religioso” não apenas por esquerdistas e insentões ateus ou de qualquer outra religião, mas também por ditos “cristãos”. Se tivessem usado o termo “fundamentalistas”, eu não poderia reclamar: o cristão deve ter seus princípios religiosos como fundamento da sua vida, caso contrário, algo está errado.

Nenhuma decisão seria fácil nesse caso e todas as opiniões deveriam ser ouvidas e debatidas com respeito, mas o curioso é que a mídia passou a focar na atitude anti-aborto dos cristãos como se esse fosse o problema e – mais sórdido ainda – como se isso significasse apoio ao real criminoso. Uma atriz chegou a dizer que “fundamentalistas religiosos esbravejam e expõe uma criança para que ela seja obrigada a parir”. A abordagem foi completamente enviesada. Não foi isso que aconteceu. Tenho um amigo frade que falou que vários jovens “católicos” estavam criticando a Igreja Católica por ter oferecido ajuda para a menina manter a gravidez e entregar a criança para adoção, tratando isso como crueldade por parte da igreja. No entanto, essas mesmas pessoas que são contra o aborto, defendem prisão perpétua (e até pena de morte) para pedófilos e estupradores em geral, enquanto os que acusam os cristãos são os primeiros a dizer que pedofilia é doença e que criminosos são vítimas da sociedade que merecem receber tratamento humanizado.

Até mesmo certo teólogo famoso no Youtube resolveu tratar o assunto dessa maneira, falando contra o “cristianismo cultural” e tomando as ações de uma ativista específica como se esta representasse o pensamento geral. No caso dele (que também foi contra MacArthur) é notável uma vontade de se distanciar de “ideologias políticas”. O discurso comum é de que não se deve misturar religião com política e que o cristianismo está acima de ideologias – o que é verdade, mas isso não é razão para não se posicionar, muito pelo contrário: “porque você é morno, nem frio nem quente, estou a ponto de vomitá-lo da minha boca.” (Ap 3:16).

A diferença é que o cristão sabe que filosofias humanas são imperfeitas e não há homem que possa salvar o mundo e estabelecer um Paraíso na Terra. O credo de alguns grupos políticos se assemelha mais aos princípios cristãos do que outros. Não é difícil escolher, basta checar na Bíblia se o Senhor Deus aprova homossexualismo, a consideração de mais de dois gêneros, o aborto voluntário, o confisco de propriedade privada, etc. E tomar partido na guerra político-cultural não significa concordar cegamente com as reivindicações de um grupo. Ter uma postura cautelosa e crítica é um dever.

“As passagens usadas por algumas pessoas para sustentar a idéia de que o Novo testamento passa ao Estado um cheque em branco para fazer (quase) tudo o que quiser (Rm 13: 1-5; 1Tm 2: 1-2), eram, na verdade, declarações de guerra contra a alegação de Roma a uma autoridade absoluta”

R. J. Rushdoony

O livro apresenta esclarecimento sobre algumas passagens bíblicas acerca da relação cristão x Estado, afirmando que é preciso conhecer o contexto no qual tais passagens foram escritas e para quem elas estavam sendo dirigidas. Sobre a questão do “Estado laico” e de “não misturar política com religião”, é preciso prestar atenção na História. O autor argumenta que o Estado sempre é religioso, pois ele mesmo se torna um deus. Isso era mais claro na Antiguidade, quando o homem se colocava abaixo dos deuses. Na nossa época, na qual o homem se vê como centro do universo, isso não parece tão claro, mas não deixa de ser verdadeiro. É mais notável nos casos das ditaduras comunistas como a antiga União Soviética, na qual o Estado era a solução para tudo e deveria ser reverenciado. Não se tratava de um sentimento de unidade nacional e tradição cultural, como observamos no patriotismo do Ocidente livre, mas dos cidadãos depositando a esperança no governo e este sendo o responsável por regular a vida pública e privada dos indivíduos. No caso da Coréia do Norte, a família Kim é literalmente adorada e até corte de cabelo é definido pelo Estado. Em “O Sagrado e O Profano”, o filósofo e historiador Mircea Eliade diz que o homem necessariamente tem um comportamento religioso (mesmo que se diga ateu). Isso significa, continua o autor, que no momento que retiramos Deus do debate moral, cabe ao Estado (o novo deus) determinar arbitrariamente o que é certo ou não.

No momento que o cristão decide se posicionar política e culturalmente, ele não está querendo impor seus ideais. A conversão não pode ser forçada. Ela acontece “de cima para baixo” sim, mas não é um processo [Estado –> indivíduo] através de leis, e sim [ Deus –> indivíduo]. A cristandade está ciente disso (diferente dos muçulmanos). Afinal, como disse o autor, esperamos a “salvação, não pela revolução, mas pela regenaração”. Defender os ideais cristãos através da legislação (e sua propagação através da cultura) tem a ver com garantir direitos universais concedidos por Deus: a vida e a dignidade humana. Se retirar do debate é o mesmo que relativizar a verdade e dizer que quem tem autoridade soberana é o Estado. Separar a vida religiosa da vida pública é o mesmo que transformar a religião num passatempo. O fundamento da sua vida tem que ser um só: Estado ou Deus. Igualar os dois é inferiorizar um.

 

“Vivemos, de fato, num tempo crítico no qual o mundo está desmoronando ao nosso redor e o que nos falta é aquilo que Roma denominava de “ateísmo” da Igreja Primitiva: o reconhecimento de que somente Deus é o Senhor.”

R. J. Rushdoony

Os cristãos primitivos não se curvaram ao Império Romano. Oravam por César, não para César. Isso colocava um cidadão comum no mesmo patamar (ou até acima) do imperador. Por isso foram perseguidos. Rushdoony argumenta (e eu concordo) que quando somos biblicamente orientados a obedecer as autoridades, isso não significa que devemos ficar quietos e aceitar tudo sem questionar, pois o Estado não é nem a única nem a principal autoridade. Nós também somos e devemos agir. Como servos de Deus, temos responsabilidades sociais, políticas e culturais. O autor critica a atitude de “deixar o cristianismo para o pastor”, quando cada crente deveria se engajar. Mas antes de se engajar, é preciso ter noção do que deve ser feito. É necessário estudar a Bíblia e buscar conhecimento extra-bíblico também: história do cristianismo, política, filosofia e demais questões culturais. É essencial conhecer o terreno no qual estamos pisando e “O ateísmo da igreja primitiva” é um excelente ponto de partida.

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DEUS É VERMELHO: https://discursosemmetodo.wordpress.com/2018/08/11/in-hoc-signo-vinces-%e2%9c%9d-parte-i/

CASO MACARTHUR: https://discursosemmetodo.wordpress.com/2020/08/21/igreja-e-estado-o-caso-john-macarthur-x-governo-da-california/

SOBRE O CASO DA MENINA: https://sensoincomum.org/2020/08/18/aborto-foi-realizado-com-substancia-proibida-ate-para-sacrificar-animais/

Igreja e Estado: o caso John MacArthur x Governo da Califórnia

O pastor John MacArthur está desafiando as ordens de quarentena do Estado da Califórnia. A igreja, que inicialmente seguiu todas as regras, deveria permanecer ainda mais tempo fechada durante a pandemia do vírus chinês, segundo os decretos locais. Em entrevista a Billy Hallowell, o pastor afirmou o seguinte: “Eu estou nesse lugar há 50 anos. Essa igreja (Grace Community Church em Sun Valley) tem 63 anos e nunca antes recebeu ordens do governo para fechar. Então, quando chegaram aqui com esse mandato, foi algo tão raro e estranho que nós escutamos e obedecemos.” Disse ainda que “essa não é a América que eu conheço […] é apenas uma realidade bizarra.”

DON’T TREAD ON US !

Ele afirmou que devido às previsões alarmantes, qualquer pessoa com bom senso faria uma pausa para analisar melhor a questão e garantir a segurança de todos. Então a igreja começou a transmitir suas atividades pela internet. MacArthur alegou que os políticos e demais envolvidos na promoção do lockdown perceberam que suas previsões não se concretizavam: “O número de mortos na Califórnia foi 8500. Metade eram pessoas com mais de 80 anos e que tinha comorbidades.” Isso corresponde a 0,02% da população estadual. O pastor continuou: “Me parece que 99,98% das pessoas estão bem o suficiente para frequentarem a igreja. E as pessoas estão implorando para reabrir as igrejas (buscando conforto) por causa do medo – e claro que a igreja é o centro da vida daqueles que amam ao Senhor.” Quando a igreja reabriu, cerca de 3000 pessoas compareceram na primeira semana e 6000 na segunda. Apesar das ameaças do governo, MacArthur não mudou de idéia. O pastor falou que o governo tem certa autoridade concedida por Deus, mas essa autoridade tem limites e não tem poder quanto aos assuntos que dizem respeito ao Reino de Deus.

Enquanto algumas pessoas têm criticado o fato de que a igreja violou ordens governamentais e permitiu aglomeração, outros debatem a questão de até onde o governo pode interferir na vida dos indivíduos. MacArthur acredita que o governador Gavin Newsom (Partido Democrata) não tem autoridade para definir igrejas como “não-essenciais”. Nas palavras do pastor, o que está acontecendo é uma “discriminação intencional contra o cristianismo bíblico e a igreja” e fez a seguinte declaração: “O governador disse que igrejas não são essenciais. Algumas coisas são essenciais: lojas de bebidas, clínicas de aborto …  mas as igrejas não. Com base na Constituição, o governador não tem autoridade para dizer o que é essencial. Ele não tem autoridade constitucional para dizer que a igreja não é essencial.” O caso foi parar na Justiça.

No sermão do dia 09 de agosto, antes da decisão do juiz, o pastor chamou o culto de “protesto pacífico”. Disse que “com base na Palavra de Deus, essa igreja é pró-vida, pró-família, pró-lei e ordem e pró-Igreja do Senhor Jesus Cristo” e pregou sobre 1 Coríntios 1, que diz “ a loucura de Deus é mais sábia do que a sabedoria dos homens e a fraqueza de Deus é mais forte do que a força dos homens.”.Alguns trechos da pregação foram destaque na impresa, tais como:

“Nós estamos aqui por que obedecemos a Deus e por que Ele nos deu ordens, não de uma forma esotérica e pessoal, através de visões e sonhos ou vozes do Céu, mas através da Bíblia. A Grace Community Church é definida por seu compromisso com as Santas Escrituras. Para o verdadeiro cristão, a Bíblia é o maior tesouro.[…] Se esse púlpito não fosse lugar de proclamar a Palavra de Deus, esse lugar começaria a esvaziar. É por isso que vocês estão aqui, está claro para mim que vocês amam a Palavra de Deus, por isso estão aqui.[…] Nós não estamos espalhando nada mais do que o Evangelho”.

Donald Trump encarregou uma de suas advogadas e conselheiras de campanha, Jenna Ellis, de se juntar aos advogados da igreja e cuidar do caso. Enquanto o governo estadual tentava impor uma ordem de restrição para forçar o pastor a parar com os cultos presencias – e principalmente com os louvores durante os cultos, o juiz James Chalfant, da Suprema Corte de Los Angeles, concordou com MacArthur que a igreja está constitucionalmente protegida pelo direito de livre expressão religiosa.  De acordo com Ellis, essa foi uma vitória histórica. Ela postou no Twitter: “ a primeira Corte da Califórnia a reconhecer que #Igrejaéessencial.” Ela disse ainda que a Grace Community está “ao lado da lei contra a tirania sem limites daqueles que estão desafiando o juramento que fizeram ao assumir seus cargos definidos pela Constituição para preservar e proteger o direito da livre expressão religiosa.”

Os advogados da igreja argumentaram que as restrições impostas pelo Estado não tinham fundamento e não eram razoáveis. A igreja também concordou em manter certa distância entre os membros e fazê-los usar máscaras até que tudo seja resolvido. A audição final para resolver esse caso será no dia 4 de setembro, pois até aqui apenas foi decidido que MacArthur estava certo quanto ao governo estadual não poder definir o que é ou não essencial, ou seja, o caso é federal agora. Os advogados também destacaram que não houve ordem de restrição contra os grupos que organizaram manifestações recentemente contra “brutalidade policial e racismo”, tais como Antifa e Black Lives Matters, que promoveram não apenas aglomerações, mas também roubos e depredação de patrimônio público e privado.

John MacArthur declarou:  “Estou bastante grato que a Corte permitiu nossas reuniões e nas próximas semanas estaremos felizes em respeitar as exigências que o juiz fez para que possamos nos encontrar. A reivindicação é de que a igreja possa permanecer aberta e servindo as pessoas. Isso também nos dá a oportunidade de mostrar que não estamos tentando mostrar rebeldia nem loucura, mas vamos ser firmes em defender nossa igreja de restrições inconstitucionais e sem sentido.”  

“Nós preferimos obedecer a Deus do que aos homens. Nós seremos fiéis ao Senhor Deus e deixaremos os resultados para Ele. O que quer que aconteça, será o que Ele permitiu acontecer. Mas Ele estará ao nosso lado por que nós vamos ser obedientes e fiéis à sua Palavra. Não vamos nos ajoelhar perante César. O Senhor Jesus Cristo é o nosso Rei.”

Já fiz resenha de um livro do Rev. John MacArthur: Apologética 02 – Por que crer na Bíblia?

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MATÉRIAS ORIGINAIS:

https://www.christianpost.com/news/not-the-america-ive-known-pastor-john-macarthur-doubles-down-on-covid-19-defiance-238361/

https://www.christianpost.com/news/john-macarthurs-church-can-worship-sunday-with-singing-no-attendance-cap-judge.html

https://www.christianpost.com/news/john-macarthur-sunday-service-welcome-to-the-peaceful-protest-preaches-on-obedience-to-scripture.html

Apologética 02: Por que crer na Bíblia (John MacArthur)

“É preciso buscar nas Escrituras a regra precisa tanto do pensar quanto do falar, pela qual se pautem não apenas todos os pensamentos da mente, como também as palavras da boca”. – João Calvino (comentário à Confissão de Fé de Westminster)

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Foi difícil escolher por qual livro começar e talvez “Não tenho fé suficiente para ser ateu” deveria ter sido o primeiro, mas vocês sabem o quanto eu gosto do pastor John MacArthur, então não poderia não começar com “Por que crer na Bíblia”. Tem outro motivo também, que é o fato desse livro tratar sobre a organização do estudo bíblico mais do que de apologética em si, e isso é importante, pois você não pode defender algo que você não conhece. Dá desgosto o tanto que eu vejo de cristão confundindo ditado popular com versículo bíblico… Então estudar a Bíblia é o ponto mais importante e tem que vir antes da Filosofia, da Ciência e do que quer que seja.

“As verdades atemporais da Bíblia nunca se tornam obsoletas”

Foi o primeiro livro do MacArthur que eu li e imediatamente gostei muito da escrita precisa e dinâmica dele, com alto nível acadêmico ao mesmo tempo em que é perfeitamente compreensível. Quem me conhece pessoalmente sabe que eu não paro de falar desse livro (está no meu TOP 5 junto com “12 Regras para a vida”,“Como ser um conservador”, “Cristianismo Puro e Simples” e “Cartas de um diabo a seu aprendiz”) e sempre digo que deveria ser usado nas escolas dominicais por ser bem mais interessante e útil do que aquelas revistinhas. Algumas são boas, admito, mas isso aqui é bem mais educativo e vai ajudar muito mais quando a pessoa tiver que defender sua fé. Aliás, esse livro tem umas perguntas e uns versículos-chave no final de cada capítulo, então ele seria realmente bem prático para essa finalidade.

“Minha esperança é que, se você é cristão, este livro não só aumente sua confiança na autoridade e confiabilidade da Palavra de Deus, mas também o motive a se tornar um estudante e amante da Bíblia. E se você ainda não é cristão, confio que você considerará seriamente as pretensões da Bíblia com um coração aberto.”

A obra se divide em duas partes: “Podemos realmente crer na Bíblia?” e “O que a Palavra de Deus faz por nós?”, além de ter a “Declaração de Chicago sobre a inerrância bíblica” como apêndice (documento que MacArthur cita e explica durante todo o livro). No começo, ele trata das razões pela quais podemos confiar na Bíblia como documento histórico e como palavra revelada de Deus, abordando questões como erros de tradução, definição do cânon e o que significa a inspiração divina. No entanto, o que mais chamou minha atenção é a crítica que ele faz ao “cristianismo progressista”. É um tom diferente de “Não tenho fé” por que o ponto principal não é exatamente convencer quem está de fora e sim resgatar a importância integral e exclusiva da Bíblia como autoridade e fundamento da fé cristã (inclusive, aproveito para indicar “O resgate da fé cristã” de Carl Henry, mas não vou fazer resenha por que é um pouco complicado; não que eu esteja desencorajando a leitura, é que é o tipo compreensível, porém difícil de explicar).

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“A vida preenchida pelo Espírito não é nenhum mistério; é simplesmente a consciência de estar em Cristo.”

Na segunda parte, a discussão é sobre como a Palavra de Deus se aplica à nossa vida, então o pastor nos fala sobre comportamento, santificação, testemunho e o agir do Espírito Santo. Ele apresenta algumas razões pelas quais é importante ter argumentos para defender a fé: para que possamos mostrar que ela não tem por base coisas fantasiosas, ao contrário, tem respaldo histórico e científico e mantém uma coerência interna impressionante, o suficiente não para ser provada, mas para ser levada a sério; isso é uma importante porta de entrada para os passos seguintes que são puramente espirituais.

“Muitos de nós gostamos de brincar de cristianismo e manter as práticas e os valores mundanos em nossas vidas. Mas na vida do cristão não há espaço para o lixo do mundo.”

Ele fala sobre como nosso comportamento serve de exemplo da presença de Deus para os outros e sobre como é preciso se fortalecer na fé para atuar na obra de Deus. O autor nos diz que a falta de crescimento espiritual se dá pela falta de contato com as Escrituras Sagradas e também analisa o que ele chama de “consumo de lixo espiritual”, seja a busca por sabedoria mundana, seja o contato com uma teologia pobre com aparência agradável (falando nisso, quem ainda não ouviu o mais famoso sermão do Paul Washer, pesquise no YouTube por “Uma pregação chocante”, tem dublado e legendado). MacArthur nos diz que é preciso procurar alimento sólido e ressalta que a Bíblia não é apenas alimento, é também uma arma. Nas palavras do apóstolo Paulo, ela é uma machaira, espada usada para defesa pessoal, que estava sempre à mão para cortes rápidos e precisos (leiam Efésios 6: 10-20). Além de usar machaira e não outro tipo de espada, Paulo no mesmo texto usa “rema” ao invés de outro termo para dizer “palavra”, pois significa algo como “palavra usada para uma finalidade específica”, o que leva o pastor a concluir que o apóstolo nos instrui a conhecer a Palavra de Deus para poder saber como citá-la e argumentar de forma precisa. Isso nos leva à última e principal parte: o método de estudo.

“As Escrituras existem para lhe dar conhecimento. E adquirir esse conhecimento exige esforço. Quanto mais você estiver disposto a fazer esse esforço, mais proveito você tirará das Escrituras. […] O Espírito opera por meio da Palavra e precisamos ser diligentes para obter sua mensagem.”

John MacArthur desenvolveu um método que eu vou deixar resumido no final do post, mas já adianto que é (na minha opinião) mais recomendável para quem já está  familiarizado com a Bíblia, pois torna a leitura mais demorada, apesar de mais eficiente. O objetivo é fazer o leitor destrinchar cada pedaço das Escrituras e decorar suas passagens (no sentido original da palavra em latim: guardar no coração). É preciso ter um plano de estudos, mas ele não serve de nada sem disciplina. O autor fala sobre o quão importante é se dedicar com amor ao trabalho de conhecer a Palavra de Deus. Reserve um tempo, separe um material, ore muito antes e depois de começar. Medite bastante sobre o que aprendeu. Ele também ressalta a relevância da hermenêutica: não precisa se tornar um grande estudioso, mas tem que conhecer o básico (conceitos-chave, contexto de cada palavra – como vimos no caso de rema e machaira, coisas do tipo) para evitar erros. MacArthur diz que o principal ponto para uma boa hermenêutica é deixar de lado a interpretação pessoal e deixar que a Bíblia interprete a si mesma: separe a passagem, procure referências cruzadas, avalie e por fim veja qual a aplicação daquilo.

“Você deve permanecer em Cristo. Permita que Ele desenvolva o caráter Dele em você as oportunidades virão. Concentre-se Nele, e Ele o colocará em situações de testemunho que serão criadas especialmente para você.”

Para o leitor não-cristão, o livro é feliz em esclarecer o significado e a relevância da Bíblia. Para o leitor cristão, ele é claro em mostrar o objetivo maior da preocupação com a apologética, que é produzir frutos, conquistando almas para Cristo, ao mesmo tempo em que a pessoa  louva a Deus e desenvolve seu caráter à semelhança de Jesus. O último capítulo fecha com dois versículos que ilustram todo o conteúdo: “Procure apresentar-se a Deus aprovado, como obreiro que não tem do que se envergonhar, que maneja corretamente a palavra da verdade.” (2 Timóteo 2:15) & “Habite ricamente em vocês a palavra de Cristo; ensinem e aconselhem-se uns aos outros com toda a sabedoria.” (Colossenses 3:16).

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MÉTODO MACARTHUR

LEITURA SISTEMÁTICA + ESTUDO INDUTIVO (ÊNFASE NO NOVO TESTAMENTO) : seguidos, se você puder tirar cerca de 1 hora ou mais do seu dia para se dedicar, ou alternado se for durante cerca de 30 minutos.

                       ↓

a) ANTIGO TESTAMENTO:  ler por ordem, em média 2 ou 3 capítulos por dia

b) NOVO TESTAMENTO: aqui vem a parte peculiar do método MacArthur, ele sugere a leitura diária de um único livro durante 30 dias seguidos; ou partes, se for um livro longo: exemplo Atos, com 28 capítulos, você divide por 4, dá 7 capítulos por dia durante cada mês.

Eu amo a Bíblia, eu leio-a todos os dias e, quanto mais a leio tanto mais a amo. Há alguns que não gostam da Bíblia. Eu não os entendo, não compreendo tais pessoas, mas, eu a amo, amo a sua simplicidade e amo as suas repetições e reiterações da verdade. Como disse, eu leio-a quotidianamente e gosto dela cada vez mais. – Imperador Pedro II do Brasil

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Sarah Poulton Kalley

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Acredito que a maioria de vocês já saiba um pouco sobre o casal Kalley. Como gosto de datas temáticas, vou aproveitar o que seria o 195º aniversário da Sarah para trazer mais detalhes sobre ela (espero que meu cérebro não seja o único lento na hora de lembrar como se lê 195 em números ordinais). Fiz apenas um apanhado geral do que pude encontrar, mas creio que é o suficiente para o propósito desse projeto, que é tirar uma lição de vida a partir da biografia dessas mulheres que serão apresentadas.

Sarah Poulton Wilson nasceu na Inglaterra, em 25 de maio de 1825. Era considerada por todos como uma menina alegre e inteligente. Tinha talento com pintura, era fluente em francês e alemão desde cedo (mais tarde em português também), mas o maior destaque em sua vida foi a música (o que eu menos vou falar, já que é a parte mais conhecida). A mando de seu pai, começou a ensinar para rapazes na Escola Dominical; por conta própria, resolveu criar um curso noturno de conhecimentos gerais para jovens pobres, muitos dos quais mais tarde ajudaram a família Kalley no Brasil, como William D. Pitt. Sarah também liderou uma turma de garotas para ter  aulas de costura e fazer roupas para enviar aos missionários. As pessoas diziam que viam a santidade em seu rosto.

Conheceu Robert Reid Kalley, médico e missionário escocês (ex-ateu, deixei um link lá no final sobre isso), em 1851, quando foi à Síria com seu pai e seu irmão doente, Cecil Wilson. O doutor Kalley tratou Cecil, mas ele não resistiu e veio a falecer. Robert, que era viúvo e 16 anos mais velho, “apaixonou-se pela jovem Sarah e ficou impressionado com seu interesse e entusiasmo pela obra missionária” enquanto ela “ficou encantada com seu modo de orar e expor as Escrituras.” [1]Casaram-se em dezembro de 1852 e desde então, segundo Forsyth na biografia do doutor Robert (Uma Jornada no Império), suas vidas tornaram-se “tão entrelaçadas que é impossível separá-las, como por exemplo, Priscila e Áquila, nas Escrituras. Um nunca é mencionado sem o outro […] a biografia dele torna-se então a biografia deles” (grifo meu). O casal viveu nos Estados Unidos e na Ilha da Madeira antes de vir para o Brasil. O senhor Kalley costumava utilizar sua profissão para evangelizar, enquanto Sarah procurava fazer isso visitando as famílias e conversando com as senhoras.

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A chegada deles à nossa querida Terra de Santa Cruz se deu em maio de 1855, no Rio de Janeiro. Moraram em Petrópolis, numa casa batizada de Gernheim  (algo como “doce lar” em alemão). Em julho de 1858, os Kalley inauguraram a Igreja Evangélica Fluminense. Foi a primeira missão protestante que obteve sucesso em terras tupiniquins. Sarah começou ministrando estudos bíblicos durante as tardes de domingo para crianças inglesas; depois conseguiu reunir crianças de várias nacionalidades, com aulas em português, inglês e alemão. Procurava incentivar os alunos com prêmios (geralmente livros) e atividades extras (como passeios e lanches) e também incluía pessoas negras, o que era raro na época (mas eu não vejo muitos grupo falando sobre como as igrejas foram essenciais contra o racismo). Já adultos, muitos de seus pupilos enviaram cartas agradecendo imensamente por tudo.

Os Kalley tinham o objetivo de fundar uma escola, o que lhes foi negado até maio de 1872, quando foi inaugurada a Escola Evangélica Fluminense de Instrução Primária, ou “Escola Diária”, como era conhecida, que ficou sob o comando do professor José Vieira de Andrade; depois, a própria Sarah inaugurou um curso noturno para, nas palavras dela “saciar a sede de instrução da nossa sociedade”.[2] No ano seguinte, visitaram Recife e fundaram a segunda igreja congregacional brasileira, a Igreja Evangélica Pernambucana. Além da criação da primeira escola dominical e do primeiro ministério infantil, foi a senhora Kalley quem fundou a União Auxiliadora Feminina, que serviu de modelo para sociedades femininas protestantes posteriores.

O casal chegou a receber uma visita de Pedro II, com quem trocavam correspondência. O monarca interessou-se pelos Kalley por causa da intelectualidade deles e talvez tenha contribuído para a aceitação do protestantismo no Brasil, que era rechaçado por parlamentares católicos. No livro que trata sobre a influência britânica na modernização do Brasil (Britain and the onset of modernization in Brazil), Richard Graham não apenas destaca o papel dos Kalley para a transformação do país (no capítulo Individual Salvation, que trata sobre como, nas palavras de ninguém menos que Rui Barbosa, “onde há protestantismo, há prosperidade industrial, vigorosa e luxuriante como uma vegetação tropical”), mas afirma que depois da visita do Imperador ao casal, eles conseguiram converter algumas senhoras da Corte. Robert estava doente e quem recebeu o Imperador foi Sarah. O objetivo da visita era conversar sobre as viagens, mas devido à situação, não durou muito. Quando o marido estava doente, Sarah atuava como secretária, redigindo cartas, preparando esboços de sermões e orientando todo o trabalho da igreja e das demais atividades, com atenção especial para os colportores, pois a distribuição do material evangélico era de fundamental importância (material este boa parte traduzido pelos Kalley, como a primeira edição brasileira de O Peregrino).

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Além dos já mencionados trabalhos, a senhora Kalley também atuou como escritora, inclusive um de seus livros (A Alegria da Casa, 1866) foi usado para ensinar dicas de saúde e cuidados domésticos nas escolas femininas no Brasil e em Portugal. No entanto, seu trabalho mais conhecido é a sua contribuição para o primeiro e mais popular hinário brasileiro, o Salmos e Hinos, para o qual compôs ou traduziu cerca de 200 hinos, deixando evidentes seus talentos poéticos, pois não apenas traduzia, mas garantia a adequação e a beleza das músicas, ou, como disse Forsyth,“adornava e ilustrava a doutrina com sua capacitada poética”. Também ilustrava literalmente, pois fazia desenhos das passagens bíblicas.

 “O hábito de ordem exterior ajuda a adquirir hábitos de ordem no regulamento de idéias, pensamentos e costumes intelectuais. Não esquecer o que sempre deve ter o primeiro lugar no arranjo da vida espiritual. O grande mestre diz: ‘Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça’” KALLEY, Sarah Poulton. A alegria da casa, p. 7-8.

Os Kalley adotaram duas crianças, ambas brasileiras: o João Gomes da Rocha (que escreveu muito sobre o trabalho dos pais) e a Silvana Azara de Oliveira, que foi adotada já na Escócia, para onde o casal voltou em 1876 devido aos problemas de saúde do Robert. Lá, a casa em Edimburgo foi chamada de “Campo Verde” e eles realizavam cultos em português.  Robert Kalley faleceu 12 anos depois, por causa de problemas cardíacos. Foi uma morte dolorosa que a Sarah assistiu e relatou em cartas para as congregações de Recife e do Rio: “Mesmo com muita dor no peito e dificuldade de respirar, ele orava por todos: “Senhor, abençoa teus servos no Brasil, abençoa Santos, Jardim, Bernardino! Senhor, abençoa Tua obra em suas mãos! Senhor, abençoa os crentes em Pernambuco!”[3]. Segundo Forsyth, as últimas palavras dele foram “minha querida esposa”.

Depois da morte do marido, apesar de ter ficado desolada, Sarah continuou trabalhando. Fundou uma instituição de apoio missionário para o Brasil (Help for Brazil Mission, 1892) para recrutar e dar apoio aos missionários e também ajudava estudantes acolhendo-os em sua casa, pelo que ficou conhecida como “a mãe de Edimburgo”. Ela faleceu em casa, no ano de 1907, e foi sepultada junto ao esposo no Dean Cemetery. Na lápide, a pedido seu, está escrito “Herdeiros da Graça da Vida”.

Sarah e Sia

Voltando ao conceito que vamos trabalhar nessa série, o de “auxiliadora idônea”, note que Sarah foi assim por toda a vida: começou ajudando o pai, ensinando em escola dominical, depois auxiliou o marido, as congregações e comunidades em geral por onde passou. Tenho uma afeição particular por ela por tudo que ela tem para nos ensinar, em especial o fato de que existem várias formas de servir a Deus e uma delas é estudar. Nem todo mundo tem talento para pregar ou ensinar na igreja ou ir para campo evangelizar, ou algo tipo, mas redigir e traduzir material pode ser algo edificante na vida das pessoas também. Cabe notar também que essa é uma característica predominantemente protestante. Em seu trabalho “Educação e cultura protestante na transição do século XIX”, Afonso diz que “na perspectiva protestante, abrem-se possibilidades ao elemento feminino – seja numa participação efetiva, como no caso da publicação/distribuição/circulação do livro A Alegria da Casa, seja como redatoras, correspondentes, educadoras e gestoras das escolas protestantes”, o que aconteceu principalmente por causa da relevância dada à leitura das Escrituras Sagradas sem mediação, então desde o princípio houve uma preocupação com publicação de material e com a escolarização das pessoas, e também por que a Reforma deu mais relevância às mulheres, mas falarei disso depois.

Para além do assunto principal dessa postagem, que é feminilidade bíblica, ler sobre os Kalley é ler sobre a Era de Ouro da história do Brasil, sobre a importância da educação, da dedicação e do trabalho árduo. Encerro com um hino composto pela Sarah, Dedicação Pessoal, que representa bem sua vida e deve servir de inspiração para todos nós :

Eis-me, ó Salvador, aqui.

Corpo e alma oferto a Ti,

Servo inútil, sem valor,

Mas pertenço a Ti, Senhor!

Fraco em obra e no pensar,

Mui propenso a tropeçar,

Salvo estou por Teu amor,

E me voto a Ti, Senhor!

Subjugado em todo o ser,

Me submeto a Teu poder.

Grande é o preço do perdão.

Dá-me igual consagração!

Eu, remido pecador,

Me dedico ao Redentor.

Teu –  é este coração,

Teu – em plena sujeição.

Vem tomar-me aqui, Jesus,
Para andar contigo em luz,

Sem reservas nem temor,

Teu cativo, ó Salvador!

REFERÊNCIAS:

SITES

https://www.hinologia.org/sarah-kalley/

https://igrejacongregacional.org.br/?page_id=38

https://www.ultimato.com.br/conteudo/os-pioneiros

http://conexaoeclesia.com.br/2015/05/18/o-naturalista-e-o-missionario/

https://www.elevados.com.br/artigo/507/brasil:-500-anos-de-evangelizacao.html

ARTIGO

AFONSO, J.A.  et al. Educação e cultura protestante na transição do século XIX: circulação de impressos e diálogos luso-brasileiros. Cuiabá, 2012.

LIVROS

FORSYTH, WILLIAM B. Jornada no Império: vida e obra do dr. Kalley no Brasil. São José dos Campos: Editora Fiel, 2006.

GRAHAM, RICHARD. Britain and the onset of modernization in Brazil 1850-1914. Cambridge: Cambridge University Press: 1968.

[1] https://www.hinologia.org/sarah-kalley/#_ftn7

[2] https://www.hinologia.org/sarah-kalley/#_ftn7

[3] https://www.hinologia.org/sarah-kalley/#_ftn7

A folha de figueira: o feminismo e a Bíblia

Há um ano, prometi a alguns de vocês que faria um resumo para quem perdeu a palestra “Feminismo e machismo: o conflito à luz das Escrituras”, que a professora Isabella Barbosa realizou na 1ª IPB de Caruaru. Não esqueci, apenas demorei… Acontece que é muito material para ler e acabei tendo outras ideias no meio do caminho, o que só consegui desenvolver esse ano. Então, além do resumo, apresentarei uma série sobre feminilidade bíblica e sobre a vida de algumas mulheres cristãs, como Sarah Kalley, Katharina von Bora e Elisabeth Elliot. O objetivo de investir nisso é que considero que  num mundo em que o feminismo se tornou midiático e as garotas são atingidas o tempo todo por ideias de “empoderamento feminino” e “libertação das mulheres”, é dever nosso tomar esse espaço e apresentar a perspectiva cristã conservadora. Acredite, não adianta apenas falar o que é certo ou errado, a lógica nem sempre funciona, às vezes o exemplo e a emoção contam mais, então é hora de contar histórias encantadoras sobre verdadeiras servas de Deus. Mas primeiro, o resumo.

E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.

Gênesis 1:27-28

O Senhor Deus criou um mundo com uma ordem perfeita (para saber mais sobre isso, recomendo procurar as palestras do professor Adauto Lourenço sobre a cronologia da Criação) e impôs um mandado cultural, social e espiritual, que podemos ver na passagem acima, isto é, dominar a Terra e tudo que nela há. Esse mandado foi reiterado no capítulo seguinte, onde também é detalhado o processo de criação da mulher e a designação de sua função: auxiliadora idônea. Esse é o termo que fundamenta todo o debate sobre o assunto aqui tratado.

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E disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idônea para ele.
Havendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todo o animal do campo, e toda a ave dos céus, os trouxe a Adão, para este ver como lhes chamaria; e tudo o que Adão chamou a toda a alma vivente, isso foi o seu nome.

Gênesis 2:18-19

Voltando a tratar sobre a ordem, reparem que primeiro, o Senhor cria o homem e atribui-lhe a tarefa de nomear os animais (o que, em tempos antigos, significava tomar posse[1]), só depois a mulher é criada. Um detalhe significativo está em Gênesis 3:1, o início da Queda:

“Ora, a serpente era mais astuta que todas as alimárias do campo que o Senhor Deus tinha feito. E esta disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim?”.

Houve uma tentativa de subversão da ordem: para desestabilizar a confiança que Adão e Eva tinham no Senhor, a serpente dirige-se primeiramente à mulher e a convence a tentar seu próprio companheiro, corrompendo assim a tarefa que lhe foi dada de cuidar e ser um ponto de apoio e confiança. Porém Deus restaura a ordem ao confrontar Adão primeiro: “E chamou o Senhor Deus a Adão, e disse-lhe: Onde estás?” (Gênesis 3:9), pois a ele foi dada a responsabilidade maior.

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The Rebuke of Adam and Eve, Natoire (

Uma das críticas do feminismo ao cristianismo é de que a Bíblia é machista, mas essa é uma visão completamente equivocada e simplista, pois falha em analisar todo o contexto bíblico. Primeiramente, importa o que Deus definiu: o princípio de liderança é masculino e já existia antes da queda; o homem deve ser o líder servidor e a mulher deve ser a auxiliadora idônea, contestar isso é contestar a Palavra de Deus. No entanto, isso não é algo ruim, como muitos querem demonstrar. O próprio Deus é Auxiliador (veja a lista de Salmos no fim do post), logo, não é uma posição de inferioridade, ao contrário, é algo tão importante quanto a liderança. Vejam Provérbios 31:10-31 (muito grande para postar aqui) e observem que é a mulher que mantém a estabilidade no interior da casa (o que tem um efeito psicológico imenso em produzir o bem estar de quem nela vive). Lewis[2] explica que as mulheres, por razões biológicas óbvias, têm a tendência de cuidar melhor das atividades internas.  E antes que alguma mulher se sinta ‘”livre” por ser solteira e/ou não ser mãe, a natureza é a mesma, apenas muda o papel a ser cumprido; sua essência (de auxiliadora) se revela no desempenho de qualquer papel que seja: em casa, no trabalho, na igreja, como filha, como tia, como aluna; e se você não conhece sua função, você não tem como exercê-la adequadamente.

Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.

Gálatas 3:28

A verdade é que o princípio de idoneidade está presente em toda a Bíblia, na qual encontramos a valorização de mulheres sábias e fortes, como Rute, Ana e Ester; também constatamos que em momento algum elas são tratadas como inferiores, como em outras religiões; ao contrário, todo o tempo se diz para respeitar a mãe, ser dócil com a esposa e a lei mosaica garantia proteção para a mulher solteira ou viúva. Inclusive, na cultura hebraica, “o dote pago pela família da noiva à família do marido deveria ser mantido em depósito, para servir de provisão à esposa, caso ela enviuvasse ou fosse abandonada pelo marido” [3].

Organizações progressistas evangélicas usam essas passagens para conciliar as Escrituras Sagradas com o feminismo, mas essa visão apresenta muitas falhas, começando com o fato de que um movimento que prega a aceitação de modelos de vida que vão de encontro à vontade de Deus simplesmente não pode se tornar palatável ao cristão. A valorização das personagens femininas da Bíblia e da história do cristianismo não tem a ver com feminismo, e sim com o resgate da feminilidade bíblica. O feminismo, alegou a professora, “é uma folha de figueira, o reflexo de uma cultura caída e sua luta é por poder e hierarquia, não é por direitos.”

…e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais.

Gênesis 3:7

A folha de figueira representa a tentativa humana de esconder de Deus os seus erros e resolver os problemas por conta própria (só para deixar claro, o texto não está sendo tomado como metafórico; uma figura do texto está sendo retirada e aplicada à outra situação; a crença literal em Gênesis se mantém). No caso da mulher, esta passou a sofrer com a gravidez e a ser subjugada pelo homem, como vemos em Gênesis  3:16,  e o feminismo tenta corrigir isso pregando a desvalorização da família e promovendo uma suposta independência total das mulheres, desvinculando-as de sua função originária como forma de evitar seu sofrimento e sua subjugação. Para algumas mulheres, é fácil aderir ao movimento por causa da sensação de pertencimento a um grupo e do amparo que eles aparentam promover (a tal “sororidade”), umas apoiando as outras contra um inimigo comum: o patriarcado, criado e mantido pela cultura judaico-cristã.

Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo.

1 Coríntios 15:22

A verdade é que, como explica Jordan Peterson, isso torna as mulheres infelizes, pois perdem seu propósito de vida tentando ser o que não são: “Equidade absoluta requer o sacrifício do valor em si – com isso, não haveria nada pelo que viver.”[4] Peterson observa ainda que o cristianismo não prega a vitimização, e sim a aceitação heróica do sofrimento, o que é exemplificado com a morte de Cristo, que mostra “como andar com Deus apesar da tragédia do autoconhecimento”[5] . Ao contrário disso, o feminismo coloca a mulher como vítima, e ao invés de procurar a reconciliação com Deus através de Cristo, prega a reorganização de toda a hierarquia social e a alteração (ou até mesmo abolição) da moral.

Ainda tem muito sobre o que falar, mas vou ficar por aqui, já que essa parte é o diferencial que foi apresentado na palestra; o resto, sobre história do feminismo, pode ser encontrado em qualquer lugar. Vou deixar dicas de filmes, uma breve linha do tempo e uns vídeos da Ana Campagnolo para quem quiser saber mais. Só gostaria de mencionar sobre Shulamith Firestone, que não é tão conhecida como deveria. Ela era uma feminista radical e o trabalho dela define o coração do feminismo, apesar de todas as variações que esse movimento apresentou ao longo da história. O objetivo dela é o mesmo objetivo da serpente que tentou Eva: perverter toda a criação de Deus. Ela defendia coisas como pedofilia e incesto, o que pode ser constatado em seu mais famoso livro, “A Dialética dos Sexos”, de 1970. Conhecer essas coisas ajuda a não se deixar enganar por “feministas moderadas”, “feministas evangélicas” ou “católicas pelo direito de decidir”. Para combater algo assim, é preciso ter não apenas cuidado, mas conhecimento.

Todas as referências bíblicas (que consegui anotar) da palestra:

Gênesis  1:26-28; 2:7-8,15-25; 3:1,15

1 Samuel 1 e 2

Salmos 10:14; 20:2; 30:2; 70:5; 72: 12-14; 86:17

Provérbios 31

Lucas 1:35, 7:44-46, 8:1-3

Romanos 1; 5:1, 17-19;

1 Coríntios 11:3, 11-12; 15: 22

Gálatas 3: 26-28

Efésios 5: 22-33

Colossenses: 3:14

Livros indicados pela palestrante:

Confrontando o feminismo evangélico (Wayne Gruden)

Transformando cosmovisões (Paul G. Hilbert)

Minhas dicas de filmes/documentários:

She’s beauty when she’s angry (Dore, 2014)

As sufragistas (Gavron, 2015)

Vídeos da Ana:

Não devo nada ao feminismo : https://www.youtube.com/watch?v=LElE_cFxZ4k

Desconstruindo os mitos feministas: https://www.youtube.com/watch?v=jv_AfGY-YVQ

O regaste da feminilidade: https://www.youtube.com/watch?v=818JkSr2rF4

Sobre Shulamith Firestone:

https://www.acidigital.com/noticias/feminismo-ideologia-de-genero-e-pedofilia-especialista-explica-como-se-relacionam-24553

https://mmjusblog.wordpress.com/2018/04/11/o-mundo-ideal-de-shulamith/

Linha do tempo básica:

Século XIX  –  movimento sufragista (direito ao voto)

1949 – lançamento do livro O Segundo Sexo (Simone de Beauvoir), fundamental para o feminismo moderno por supostamente expor a condição feminina da época

1960/1970 – movimento de massa e reivindicação de liberdade sexual e reprodutiva (aborto e métodos contraceptivos)

1980 – período de declínio

1990 – teoria de gênero difundida por Judith Butler e repopularização do movimento

REFERÊNCIAS:

[1] Bíblia de Estudo Arqueológica. São Paulo: Editora Vida, 2013. Pg 9.

[2] LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2017. Pgs 156-157.

[3] Bíblia de Estudo Arqueológica. São Paulo: Editora Vida, 2013. Pg 3.

[4] PETERSON, J.B. 12 Rules for Life. Londres: Allen Lane, 2018. Pg 303. (Tradução livre)

[5] PETERSON, J.B. 12 Rules for Life. Londres: Allen Lane, 2018. Pg 59. (Tradução livre)

Apologética 01: defesa da fé, Senhor dos Anéis e a crítica da crítica.

Obs.: perdoem qualquer erro, por favor, não tenho revisor e depois de ler 3x já fica tão automático que não percebo mais nada.

“Antes, santifiquem Cristo como Senhor no coração. Estejam sempre preparados para responder a qualquer que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês.” 1 Pe 3:15

“Tudo que nós temos que fazer é decidir como aproveitar o tempo que nos é dado. “- J. R. R.Tolkien

Como aproveitar seu tempo? Leia a Bíblia. Leia o Senhor dos Anéis depois (você não vai entender muita coisa se não ler a Bíblia antes). Quality time. Você deve estar se perguntando o que isso tem a ver com apologética. Bem, tenho que falar umas coisas antes.

 Primeiro, tenho que dizer que não sou uma apologeta. Só que eu poderia ser. Isso tem a ver com as frases acima.

Nessa série que pretendo apresentar, vou fazer resenhas de livros que li sobre o assunto, tais como “Não tenho fé suficiente para ser ateu” e “Por que crer na Bíblia”. Ainda não li nem assisti muitas coisas, não estudei o bastante. Isso por que eu não tinha decidido o que fazer com o tempo que me foi dado. Não quero dizer que não devemos gastar tempo com coisas que não trazem conhecimento. Não é isso. Não adianta se trancar num quarto para tentar ser a pessoa mais intelectual do mundo. Não adianta forçar para ser como William Lane Craig ou Alister McGrath. A questão está em dedicar tempo para coisas que possuem valor: pode ser assistir Mr Bean com a família ou aprender a fazer panqueca. Tempo de qualidade na companhia de pessoas que você gosta, adquirindo habilidades úteis ou aprendendo coisas interessantes. Apenas não confunda distração com dedicação.

Eu gastei muito tempo, especialmente na adolescência (argh, teenagers…),mas não só, dedicando tempo com algumas coisas tipo Harry Potter e Supernatural. Eu não lia ou assistia. Eu dedicava tempo. Como isso me ajudou?  Bom, não adquiri nenhuma sabedoria ancestral através dessas coisas e poderia ter usado o tempo que passei pesquisando, desenvolvendo teorias e – atenção – defendendo essas sagas das críticas que recebia (especialmente dos meus pais, aos quais agradeço hoje por isso) para aprender uns 5 idiomas ou algo do tipo.

Falando de um modo geral, creio que devemos escolher com cuidado as coisas com as quais nos distraímos e mais ainda as coisas para as quais pretendemos dedicar nosso precioso e irrecuperável tempo. Não leia qualquer coisa, não assista qualquer coisa, não ouça qualquer tipo de música. Creio que a maioria das pessoas não pensa na capacidade que seu subconsciente tem de reter coisas e aplicá-las na sua vida de modo que você nem percebe, mas você adquire hábitos e idéias dessa forma, daí a importância de selecionar o que você consome com frequência. É igual alimento. Sua playlist molda sua vida. Sua biblioteca molda sua vida. Seu “ver mais tarde” do Youtube molda sua vida. Somos feitos dessas pequenas coisas. E lembre-se: você nunca é jovem demais para começar a se preocupar com isso. Quanto mais cedo melhor. E também nunca é velho demais: antes tarde do que nunca.  Mais uma vez: o que isso tem a ver com apologética? Vamos para a segunda parte.

Note que o parágrafo anterior começa com “falando de modo geral”. Agora quero tratar de um modo específico: o modo cristão. Antes de adiantar o assunto, como sei que tenho alguns leitores não-cristãos, quero dizer que recomendo que vocês leiam a Bíblia também, primeiro por uma vontade interna de que vocês acabem se convertendo, segundo por uma questão bem técnica: é um livro essencial para entender a Literatura e a Filosofia ocidentais. Inclusive para entender O Senhor dos Anéis, já que é um livro repleto de elementos teológicos (uma dica: leia o Evangelho de João e depois assista O Retorno do Rei). Não existe Existencialismo sem cristianismo, não só por que começa com Kierkegaard (e deu sinais de vida com Agostinho de Hipona), mas por que pensadores como Sartre trabalharam com termos cristãos, mesmo se opondo a eles. São só exemplos, tem muito mais.

Mas agora, falando aos cristãos:  há uma correlação entre as frases do apóstolo Pedro e de Tolkien. E do apóstolo Paulo em Colossenses 3, como apresentei no primeiro texto desse blog (A Filosofia para o cristão). Não devemos nos aproximar de Deus? Não fomos orientados a buscar as coisas do alto? Não fomos orientados a dar a razão da nossa fé? Então já sabemos o que fazer com o tempo que nos é dado. Acontece que muitos cristãos tomam o fato de dizerem que são cristãos como sendo suficiente. Há uma espécie de teoria velada (ninguém fala, mas todo mundo sente), de que nada é exigido de nós e Deus aceita tudo de qualquer forma. Bom, não é bem assim. Fomos instruídos (está nas Escrituras do começo ao fim) a buscar conhecer mais sobre Deus e seu Filho Jesus e a dar o nosso melhor ao fazer qualquer coisa para Deus. Não é “só vou até aqui por que Deus entende”, é “vou além por que é para Deus”. Lembre que você não vale nada e essa é coisa que deve te deixar mais feliz. Você não vale nada e mesmo assim foi salvo. O que você pretende fazer em relação a isso? Não vai querer saber mais sobre quem pagou sua fiança para te tirar no inferno? Vai ficar por isso mesmo? Vai deixar que qualquer um fale qualquer coisa tola sobre Ele? Vai dedicar tempo para o que ou para quem?  São essas as perguntas que temos que fazer para nós mesmos.

Estar preparado para responder a razão da sua esperança significa algumas coisas e aqui vai minha crítica à crítica do legalismo:  às vezes entendo e concordo, afinal, somos salvos pela Graça, porém algumas dentre essas pessoas usam isso como uma desculpa para não seguir regras como se o pecado estivesse não em achar que as obras te salvam, mas em fazer as obras! Ora, não deveríamos ter um compromisso com Deus? É errado reservar um momento para diariamente estudar sua Palavra e orar? Uma coisa que C.S.Lewis fala em Cristianismo Puro e Simples e que me chamou atenção por me parecer verdadeira é que o bem e o mal não estão nas coisas em si e sim na disposição do seu coração, é isso que diferencia um vício de uma virtude. Outra coisa que Lewis falou foi sobre o começo de sua conversão: ele não sabia como orar, não sabia se funcionava nem se ele estava conectado com Deus, mas resolveu ficar tentando. De tanto “treinar”, compreendeu e começou a fazer de coração. A prática importa. Pode não ser legalismo, pode ser uma forma de organizar e priorizar a vida espiritual, o que deveria nos inspirar.

Estar preparado para responder a razão da sua esperança significa dedicar tempo para Deus de muitas formas, especialmente no estudo das Escrituras, bem como de leituras extra-bíblicas, isto é, coisas como História do Cristianismo, biografias e obras de heróis da fé, várias coisas do tipo, inclusive … apologética.  E apologética não é “brigar com ateus” e sim mostrar a verdade do Evangelho, mesmo dentro de igrejas cristãs. Se você não conhecer, você vai se deixar enganar. Nos enganamos com coisas pequenas como dizer que todos são filhos de Deus (leia Romanos 8) ou que o dilúvio durou 40 dias e 40 noites (pesquise no Youtube por “Adauto Lourenço dilúvio” e você vai se surpreender com a ciência por trás de uma das histórias mais conhecidas e mal interpretadas da Bíblia). É preciso aprender e isso é um caminho que não tem fim pois sempre tem algo mais para saber. A Bíblia é um livro que não se esgota. Um vez, li a frase: “Seja a Bíblia de quem não vai à igreja”. Isso é apologética. Sua vida tem que ser uma constante demonstração da sua fé. Essa é a mensagem de Páscoa que eu quero deixar para vocês, junto com o convite para acompanhar a série (e ler os livros!).

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A HISTÓRIA DE JOHN BUNYAN

A seguir está a tradução de um texto que apresenta uma breve visão sobre a vida de John Bunyan e suas duas principais obras, “O Peregrino” e “Graça abundante para com o principal dos pecadores“. Sei que as NTs (notas da tradutora) deveriam ficar no fim da postagem, mas acabei colocando durante o texto, porém estão sinalizadas, espero que não tomem meus comentários como parte do texto original. Os destaques (cor, negrito, itálico, etc) são todos meus, bem como os acréscimos entre colchetes. Dos livros citados, excetuando-se a Bíblia, só li “O Peregrino“, que, como já mencionei antes, será objeto de estudo mais para a frente. A autoria do texto original é de Scott Hubbard e foi postado no dia 12 de novembro de 2019 no Desiring God.

“Tudo que nós fazemos é obter sucesso”: A história de “O Peregrino” de John Bunyan

Na manhã de 12 de novembro de 1660, um jovem pastor entrou numa pequena casa de reuniões em Lower Samsell, Inglaterra, preparado para ser preso. Ele não percebeu os homens vigiando a casa do lado de fora, mas nem precisava. Um amigo o tinha alertado de que iriam atrás dele. Ainda assim, ele foi. Ele tinha aceitado pregar.

Os policiais adentraram a reunião e começaram a procurar, analisando cada rosto até encontrar aquele que estavam buscando: um homem alto, de bigode ruivo e roupas simples, parado fazendo uma oração. John Bunyan era seu nome.

Se eu tivesse bancado o covarde, eu poderia ter escapado, Bunyan lembrou mais tarde. Mas ele não tinha cabeça para aquilo no momento. Ele falou a exortação final como pode, enquanto os policiais o forçavam para fora da casa, [Bunyan era] um homem com nenhuma outra arma exceto sua Bíblia.

Depois de dois meses e vários processos judiciais, Bunyan foi tirado de sua igreja, de sua família e de seu trabalho para cumprir “uma das mais longas penas na cadeia …[jamais cumprida] por um dissidente na Inglaterra” (On Reading Well). Por doze anos, ele dormiria num tapete de palha numa cela fria. Por doze anos, ele acordaria longe de sua esposa e de seus quatro filhos. Por doze anos, ele esperaria para ser  solto, exilado ou executado.

E nesses doze anos, ele começou a escrever um livro sobre um peregrino chamado Cristão — um livro que se tornaria, por mais de dois séculos, o escrito em língua inglesa mais vendido do mundo.

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John Bunyan (1628–1688) não era o homem inglês mais provável para escrever “O Peregrino” (The Pilgrim’s Progress), um livro que seria traduzido para mais de duzentos idiomas, que capturaria a imaginação de crianças e acadêmicos igualmente, e que num ranking de influência e popularidade no mundo anglofônico, estaria atrás apenas da Bíblia King James. “Bunyan foi o primeiro grande escritor inglês que não morava em Londres nem tinha educação universitária”, escreve Christopher Hill. Ao invés disso, “o exército foi sua escola, e a prisão foi sua universidade” (The Life, Books, and Influence of John Bunyan).

Como Paulo disse sobre os Coríntios, podemos dizer de Bunyan: ele tinha poucas vantagens “de acordo com os padrões do mundo” (1 Coríntios 1:26). Em sua autobiografia espiritual, “Graça abundante ao principal dos pecadores” ( Grace Abounding to the Chief of Sinners), ele confessa que a casa de seu pai era “classificada como a mais mesquinha e desprezível de todas as famílias daquela terra”. Thomas Bunyan era um latoeiro, um viajante que consertava panelas, tachos, e outros utensílios de metal. Thomas mandou seu filho para a escola apenas por um breve período, onde John aprendeu a ler e escrever. Mais tarde, depois de um tempo no exército, ele seguiu seu pai no negócio como latoeiro.

Enquanto isso, Bunyan relembra, “Existiam poucos iguais a mim, especialmente considerando minha tenra idade, no que diz respeito a amaldiçoar, xingar, mentir e blasfemar o nome de Deus” (Graça abundante). No entanto, algumas vezes, quando Bunyan tinham cerca de 20 anos, Deus colocou sua mão no latoeiro blasfemador e começou a pressionar. Pela primeira vez, Bunyan sentiu a carga do pecado e da culpa em suas costas, e o desespero quase o fez afundar. Sua alma agonizou por anos antes de finalmente estar apto para dizer, “Grandes pecados de fato atraem grande graça*; e onde a culpa é mais forte e terrível, é onde a misericórdia de Deus através de Jesus, quando mostrada à alma, aparece mais alta e mais poderosa” (Graça abundante). (*NT.: a referência é Romanos 5:20, “Veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse; mas, onde o pecado abundou, superabundou a graça.” – Almeida Corrigida Fiel)

Bunyan logo levou seu trabalho e o triunfo da graça para o púlpito de uma igreja em Bedford, onde ele anunciou Cristo com tanto poder que as congregações do condado de Bedfordshire começaram a pedir pelas pregações do latoeiro que tornou-se pastor — incluindo um pequeno grupo de crentes em Lower Samsell.

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No entanto, nem todos na Inglaterra tiveram uma reação tão acalorada em relação às pregações de Bunyan. “Ele viveu em dias de maior provação do que os que nós passamos”, escreveu John Newton um século depois (em seu prefácio para “O Peregrino”; NT.: John Newton é o compositor do hino Amazing Grace, ou ‘Sublime Graça’, na versão brasileira). Sim, aqueles eram dias de provação — pelo menos para pastores dissidentes como Bunyan, que se recusavam a participar da Igreja Anglicana. Durante o século XVII, os dissidentes algumas vezes foram honrados, outras vezes foram ignorados, e por vezes foram presos pelas autoridades inglesas.  A parte de Bunyan foi essa última opção.

Alguns dissidentes não ajudavam muito. Uma seita puritana chamada “Homens da Quinta Monarquia”, por exemplo, pegaram em armas em 1657 e 1661 para tomar o trono da Inglaterra para Cristo que, segundo eles, estaria retornando naquele momento. Frequentemente, naquela época, “as autoridades não procuravam suprimir os dissidentes como hereges, mas como perturbadores da lei e da ordem,” explica David Calhoun (“Life, Books, and Influence”). Bunyan não era um radical — era simplesmente um latoeiro que fazia pregações sem ter uma licença oficial para tanto. Ainda assim, as autoridades de Bedfordshire pensaram que seria mais seguro silenciá-lo.

Uma vez preso, foi dado um ultimato a Bunyan: se ele concordasse em parar de pregar e permanecesse quieto em seu trabalho como latoeiro, poderia voltar para sua família de uma vez por todas. Se recusasse, encarceramento e possível exílio esperariam por ele.  Em determinado ponto do processo judicial (que durou várias semanas), Bunyan respondeu:

“Se qualquer homem puder me acusar de alguma coisa, seja na doutrina ou na prática, em particular, que possa ser provada como erro ou heresia, eu estou disposto a abdicar [da pregação pública], até mesmo no mercado; mas se for verdade [o que é dito],  então permanecerei firme até a minha última gota de sangue.” (Graça abundante)

Bunyan tinha 32 anos. Ele não seria um homem livre novamente até ter 44.

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Estátua de Bunyan em Bedford 

Apesar da ousadia de Bunyan para com os magistrados, sua decisão não foi fácil.  O mais difícil de tudo foi separar-se de Elizabeth, sua esposa, e das quatro crianças deles, uma das quais era cega. Em seus anos de confinamento, ele escreveria , “A separação de minha esposa e de minhas pobres crianças é para mim como arrancar a carne dos meus ossos” (Graça Abundante). Ele fabricaria cadarços por doze anos para ajudar a sustentar a família.

Mas Bunyan não se arrependeria de sua decisão. Apesar de estar distante do conforto de sua família, não estava distante do conforto de seu Mestre. “Jesus Cristo … nunca foi tão real e visível como agora, escreveu o encarcerado Bunyan. “Aqui eu o vi e o senti de verdade” (Graça Abundante).

Com conforto em sua alma, então, Bunyan deu a si mesmo qualquer ministério que foi capaz. Ele aconselhou visitantes. Ele e outros prisioneiros pregaram uns para os outros nos domingos. Porém, mais do que tudo, Bunyan escreveu.  Na cadeia, com sua Bíblia e seu “Livro dos Mártires”, escrito por Foxe, em suas mãos, ele escreveu Graça Abundante. Lá também, enquanto ele trabalhava em outro livro, a imagem de um caminho e um peregrino surgiram em sua mente. “E assim foi que,” Bunyan escreveu num poema,

Eu, escrevendo sobre o caminho
E a carreira dos santos,  nesses nossos dias do Evangelho,
Repentinamente caí numa alegoria,
Sobre a jornada deles, e o caminho para a glória. (O Peregrino)

Assim começou o livro que seria em breve lido, não só na Bedford de Bunyan, mas em Sheffield, Birmingham, Manchester, Londres — e, afinal, muito além desses lugares. Os magistrados de Bedford tentaram silenciá-lo na cadeia. Na cadeia, Bunyan soou uma trombeta que alcançou os ouvidos de todo o Ocidente, e até do mundo inteiro.

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Marco do local onde Bunyan esteve encarcerado entre 1660 e 1672

A genialidade do livro de Bunyan, juntamente com sua imediata popularidade, tem muito a ver com o escritor ter escolhido usar uma alegoria. Como uma alegoria, “O Peregrino” opera em dois níveis. No primeiro, o livro é um celeiro de teologia puritana — “a Confissão de Fé de  Westminster com pessoas,” como alguém disse uma vez. Em outro nível, contudo, é uma fascinante história de aventura— uma jornada de vida e morte da Cidade da Destruição e da Cidade Celestial. O poeta Samuel Taylor Coleridge escreveria mais tarde, “Antes eu jamais poderia ter acreditado que o calvinismo* poderia ser pintado com cores tão requintadamente agradáveis” (Life, Books, and Influence). (NT.: creio que calvinismo aqui deve ser entendido como sinônimo de puritanismo e não como doutrina soteriológica específica; é muito comum chamar puritanos e reformados em geral de “calvinistas” pois a maioria o era/são, porém nem todos! você pode saber mais sobre isso clicando aqui: Nem todos os puritanos eram calvinistas)

Aqueles que leem “O Peregrino” encontram teologia vinda até deles em masmorras e cavernas, em lutas de espada e feiras, em amigos honestos e bajuladores duas-caras. Bunyan não apenas nos diz que nós devemos renunciar tudo por amor a Cristo; ele nos mostra Cristão deixando seus vizinhos e sua família, com os dedos tapando os ouvidos, clamando, “Vida! Vida! Vida eterna!” (O Peregrino). Bunyan não simplesmente nos instrui sobre nossos conflitos espirituais; ele nos faz ficar de pé no Vale da Humilhação com um “desprezível demônio . . . terrível de olhar” caminhando até nós. Bunyan não somente nos alerta sobre a sutileza da tentação; ele nos dá pés doloridos num caminho rochoso, então nos revela um caminho suave “do outro lado da cerca” — é mais confortável para os pés, mas é um caminho direto para um gigante chamado Desespero.

O elenco de personagens de “O Peregrino”  nos lembra que o caminho para a Cidade Celestial é estreito — tão estreito que poucos conseguem encontrá-lo, muitos caem no esquecimento. Aqui nós encontramos Temeroso, que foge quando vê os leões; Senhor Apegado-ao-Mundo, que cai na caverna; Falante, para quem a religião é da boca para fora; Ignorância, que procura entrar na cidade por seus próprios méritos; e muitos outros que , por uma ou outra razão, não perseveram até o fim.

E aqui está o drama da história. Bunyan, um fiel crente na doutrina da perseverança dos santos, recusou-se a tomar essa perseverança como garantida. Enquanto nós estamos no caminho, nós “não estamos de fora da mira do demônio”. Entre aqui e nosso [verdadeiro] lar, muitos inimigos aparecem na estrada. Entretanto, que cada peregrino tome coragem: “você tem todo poder no Céu e na terra do seu lado” . Se a graça nos trouxe até o caminho, a graça nos guardará em cada passo.

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Em dez anos desde sua data de publicação em 1678, O Peregrino já contava com onze edições e fez o latoeiro de Bedford se tornar um fenômeno nacional. De acordo com Calhoun, “Cerca de três mil pessoas foram para Londres ouvi-lo num domingo, e mil e duzentas apareceram para um culto em dia de semana durante o inverno” (Life, Books, and Influence).

Se os magistrados de Bedford tivessem permitido que Bunyan continuasse pregando, nós ainda hoje nos lembraríamos dele como o autor de dúzias de livros e um dos muitos iluminados puritanos. No entanto, ele não seria lido hoje em mais de duzentos idiomas, mas apenas no seu próprio. Pois “O Peregrino” é um trabalho literário fruto da prisão  — e contém a marca do confinamento de Bunyan. Sem a prisão, nós não teríamos o peregrino.

A história de Bunyan e seu livro, então, é mais uma ilustração de como os caminhos de Deus estão bem acima dos nossos (Isaías 55:8–9), e que os planos mais elaborados do diabo apenas servem para o progresso do peregrino de Deus (Gênesis 50:20). John Piper, refletindo sobre o encarceramento de Bunyan, diz, “Tudo que nós fazemos é obter sucesso — de forma dolorosa ou agradável.” (The Chief Design of My Life).

Sim, se nós deixamos nossa carga na Cruz, e agora nos encontramos no caminho do peregrino, tudo que nós fazemos é obter sucesso. Nós teremos sucesso seja festejando com os santos no Lindo Palácio ou lutando com Apollyon no Vale da Humilhação. Nós teremos sucesso seja em amizade com os pastores nas Montanhas Deleitáveis ou sangrando na Feira das Vaidades. Nós teremos sucesso mesmo quando caminharmos direto para o último rio, nossos pés buscando tocar o chão enquanto a água se eleva acima das nossas cabeças. Pois no fim do caminho está um príncipe que “ama tanto os pobre peregrinos, que não se pode encontrar igual a ele de leste a oeste” (O Peregrino ).

Na companhia desse príncipe está John Bunyan, um peregrino que agora se juntou à nuvem das testemunhas (Hebreus 12:1). “Depois de morto, ainda fala” (Hebreus 11:4) — e incentiva o resto de nós a seguir em frente.

Clássicos cristãos: Cristianismo puro e simples

“O fato de termos tornado o pecado obsoleto não diminuiu o sofrimento humano [e] a grande batalha religiosa não se trava em um campo de batalha espetacular, mas dentro do coração humano comum” – Kathleen Norris no prefácio de Cristianismo Puro e Simples.

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O livro “Mere Christianity” traz uma série de palestras que o professor C. S. Lewis concedeu à rádio BBC entre 1942 e 1944 com o objetivo de tratar da espiritualidade num momento tão sombrio para a história da humanidade como foi a Segunda Grande Guerra. Dividido em 4 seções que reúnem diversos tópicos como fé, graça, perdão, caridade, entre outros, o autor se dispõe a tratar sobre em que acreditam os cristãos e qual deve ser a conduta deste grupo, trabalhando  os pontos comuns entre as várias vertentes dessa religião, ou seja, o que os distingue do mundo (o que, segundo Lewis, é um abismo enorme comparado com as pequenas divergências internas e é o que deve ser levado em conta por ser muito mais importante do que disputas teológicas;  não que essas devam ser negligenciadas, mas você não vai ajudar ninguém a se converter se ficar se apegando a isso). Nesse tratado, encontramos de forma mais didática os assuntos que são debatidos em “Cartas de um diabo ao seu aprendiz” e que se encontram nas entrelinhas de “As crônicas de Nárnia” (li, infelizmente não lembro onde, que “Cristianismo puro e simples” é o que explica o verdadeiro conteúdo de Nárnia).

“Quando tiver se dado conta de que nossa situação é desesperadora, começará a compreender do que os cristãos estão falando.”

É um livro essencial para qualquer cristão, independente de ser protestante ou católico, mas deveria ser lido também por aqueles que não são cristãos, pois esclarece o que verdadeiramente é esse tal “cristianismo”. Tendo sido ateu até os 30 e poucos anos, Lewis sabia qual a visão que as pessoas de fora tinham sobre essa religião e possuía talento para dialogar com esse público, por isso foi um dos maiores apologetas de seu tempo. Nesse livro, o professor argumenta que ateus ou adeptos de outras crenças muitas vezes criam uma versão infantilizada do cristianismo e a tornam alvo de ataques ferrenhos, como um adulto atacando uma criança de 6 anos. Essa falácia do espantalho é baseada em fragmentos doutrinários analisados fora de contexto, o que deve ser combatido principalmente por que nem sempre é proposital (é intencional no caso de pessoas como Richard Dawkins, que têm como objetivo de vida prestar um desfavor ao bom senso e que, portanto, “se não conseguem entender um livro escrito para adultos, não deveriam falar sobre eles”). Porém, esclarecer sobre o que é a doutrina cristã é só a ponta do iceberg: “Cristianismo puro e simples” traz uma discussão sobre a condição e a natureza dos seres humanos, destrinchando temas relacionados à conduta social, à ciência, à política, entre tantas outras questões ainda pertinentes para o leitor religioso ou mundano do século XXI (tanto quanto foram para os gregos que deram origem à Filosofia no século V antes de Cristo).

“Toda regra moral existe para evitar um colapso.”

Lewis nos diz (assim como Scruton[1] e Peterson[2] depois dele) que o problema é NOSSO e que nós SOMOS o problema. Uma reavaliação das nossas vidas é a grande proposta por trás de “Mere Christianity”. Sobre a ética (tema que ocupa a maior parte do tratado em questão), o professor aponta o anseio humano por um padrão de comportamento que considere a dignidade do homem enquanto ser dotado de logos (razão e espírito) e como este padrão não só exige a aceitação de uma verdade absoluta como pressupõe o conhecimento da mesma, ou seja, ela é algo natural e universal, uma LEI que pode ser detectada (e não inventada), assim como foram detectadas as verdades da matemática e da biologia.

“Se quisermos alcançar qualquer felicidade nesse mundo, será necessário muito comedimento.”

Esse tema não é novo e nunca se esgota. Além dos autores que citei entre parênteses, posso mencionar também Aristóteles com sua obra “Ética a Nicômaco[3], que versa sobre as mesmas coisas que Lewis fala, apenas com outra perspectiva. A felicidade (ou eudaimonia, em grego, entendida não como sentimento, mas como estilo de vida caracterizado pela busca do bem) é encontrada na justa medida das coisas, algo que C. S. Lewis também apresenta em “Cartas de um diabo” ao distinguir os prazeres dos vícios. Treinar os hábitos da alma para praticar as virtudes é não só o que forma o bom cristão, mas o bom cidadão. Só que para aquele que crê em Cristo, o que importa é a transformação interior e não a mera prática de boas ações, sendo esta a principal preocupação do professor.

“Falhamos em adotar o comportamento que esperamos dos outros.”

C. S. Lewis quer incomodar o leitor e forçá-lo a sair da zona de conforto. Isso fica bem interessante quando ele começa a escrever sobre pecados e virtudes e nos mostra o quanto o que achamos saber sobre o significado das coisas não passa de uma vaga noção, uma sombra do que elas realmente são, sobretudo coisas como humildade e orgulho; a consequência dessa falta de profundidade de conhecimento sobre os conceitos nos leva ao erro pois não sabemos o que estamos buscando e quando pensamos ter atingido o melhor nível possível, estamos ainda mais distantes do objetivo almejado : “se você pensa que não está sendo prepotente, está, na verdade, sendo prepotente demais”.

“Se você sair em busca da verdade, poderá encontrar consolo no final: se sair em busca de consolo, não alcançará nem o consolo nem a verdade – apenas conversa mole e ilusões.”

O autor afirma que a realidade é bem mais densa do que aparenta e nos exorta a assumir responsabilidade, tecendo duras críticas aos que se abstém disso e procuram uma “solução” simplista, seja distanciando-se do cristianismo com argumentos débeis ou (pior ainda) remodelando a doutrina cristã de modo que esta corresponda a seus anseios pessoais. Mas o cristianismo é inflexível e o critério de sua validade é a verdade e não a agradabilidade. Muitas pessoas escolhem alternativas fáceis para não assumir riscos e lidar com as consequências de suas ideias. Lewis nos alerta não só que “a preguiça da mais trabalho no longo prazo” mas que “o modo covarde de agir é, ao mesmo tempo, também o mais perigoso. Os castelos de areia se desmancham e os indivíduos são jogados no Vazio existencial, daí a importância da construção de uma base sólida, como nos mostra a parábola da casa edificada sobre a rocha, no Evangelho de Mateus (7:24-29), tema que também é trabalhado pelo dr. Jordan B. Peterson na Regra nº 7  de  “12 regras para a vida” : vá atrás daquilo que tem significado, não daquilo que  é conveniente.

“Todo cristão deve se tornar um pequeno Cristo”

Por fim, como recado direto aos leitores cristãos, ele nos diz o óbvio, aquilo que deveríamos saber desde o princípio: ser cristão não é ser membro da igreja A ou B, mas ser membro da Igreja com I maiúsculo, o corpo de Cristo. Apesar de deixar claro que sempre falhamos na tentativa de fazer o que é correto, Lewis afirma que devemos continuar tentando. É a caminhada que nos aperfeiçoa, tal qual a postura do filósofo descrita por Sócrates no “Banquete”[4]: nunca será sábio, tampouco se contenta com a ignorância, ele é um ser que busca a sabedoria e aquilo que é bom e belo mesmo sabendo que nunca se tornará plenamente sábio ou bom ou belo. A diferença é que nós cristãos nos tornaremos bons e belos ao partilhar da glória de Cristo na vida eterna (e aqui corrijo a frase anterior: não é a caminhada que nos aperfeiçoa, é CRISTO que o faz). Uma vez que tenhamos isso em mente, consequentemente participaremos do que C. S. Lewis chama de “o bom contágio”, também conhecido como “a grande comissão” (mais conhecido ainda como “ide”) descrita no Evangelho de Mateus (28: 18-20), o que também nos permite ter uma visão mais clara do que Jesus representa e de qual é o nosso papel no cosmo quando passamos de criaturas para filhos de Deus.

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Esse livro apresenta 3 defeitos notáveis (o que me surpreendeu pois eu nunca antes tinha discordado de Lewis): no único capítulo ruim, o intitulado “Moralidade social”, ele confunde socialismo com livre-mercado (o que realmente não consegui entender como foi possível isso vindo de uma pessoa como o professor C. S. Lewis, mesmo que ele deixe bem claro nos parágrafos seguintes que aquilo não correspondia à realidade), faltou referências precisas (sabemos que ele baseia-se na Bíblia, em Agostinho, Kierkegaard, Chesterton, Leibniz, etc, mas ele não faz as citações adequadamente, quando muito menciona de maneira vaga; tudo bem que era para um público leigo, ainda assim, fundamentar de maneira mais profunda os argumentos é uma forma de instruir a todos) e é muito manso em alguns pontos, sobretudo no que diz respeito a ‘tratar os jovens de acordo com sua época’, pois ele diz para os leitores mais velhos serem menos rigorosos com os mais novos, pois ‘os tempos mudaram’, o que não faz o menor sentido já que o próprio Lewis estava falando não de um moralismo barato mas do ethos bíblico, isto é, um modo de vida determinado por leis divinas de forma que é imutável e serve de padrão para ser adotado por todos os seres humanos independente da época, da região e de qualquer outro fator. Claro que essa tolerância nos educa sobre gentileza e sobre ouvir o outro (o que também é uma das regras de Peterson em “12 regras para a vida”, que será tema do próximo texto), mas é bom lembrar o que John Wesley dizia : o que uma geração tolera, a outra aceita.

“Aspire ao Céu e terás a Terra de lambuja; aspire a Terra e não terás nenhum dos dois.”

Minha avaliação geral é de que este é um livro excelente, bastante instrutivo, cheio de analogias para explicar os argumentos de maneira acessível para qualquer público de modo a não deixar dúvidas sobre o que o autor queria expressar. É uma rica leitura que traz conhecimento de várias áreas como lógica e psicanálise sem perder a coerência e sem deixar de ser objetivo nos temas que se propõe a discutir. Tanto assuntos propriamente religiosos como o problema do mal, a salvação e a existência de Deus, como temas mais gerais, tais como legítima defesa e patriarcado, são abordados sem que o autor tenha medo de dizer a verdade sobre o que acredita, por mais inconveniente que esta possa parecer. Esse é maior triunfo dessa obra: a coragem de dizer a verdade. O cristianismo é apresentado como puro, ou seja, sem maquiagem, e simples, quer dizer, sem rodeios para confundir o leitor, deixando clara a conclusão de que não é nem um pouco fácil ser cristão: “se você está considerando a possibilidade de se tornar cristão, devo alertá-lo para o fato de que está embarcando em algo que vai exigir você por inteiro.” Entretanto, em cada linha fica nítido o quão preciosa e animadora é a vida com e para Cristo. É uma obra que urge o leitor a pensar e tomar uma decisão:

“Dessa vez Deus virá sem disfarce; algo tão impressionante que causará reações de amor ou horror irresistível a toda criatura. Então, será tarde demais para escolher o seu lado. Não adianta dizer que você decidiu deitar quando já é impossível ficar de pé. Essa já não será hora de escolher; será hora de descobrir de que lado realmente nós escolhemos ficar. […] Deus está delongando para nos dar essa chance. E ela tem prazo de validade. É pegar ou largar.”

Espero que todos vocês alegrem-se nessa Páscoa ao lembrar o verdadeiro significado dela e comemorem o fato de que (nas palavras de C. S. Lewis) “o Homem reviveu“.

PS: A série “Clássicos cristãos” será seguida de “O peregrino” (John Bunyan) e “Confissões” (Agostinho de Hipona). Quem tiver alguma sugestão para essa coluna, pode me mandar mensagem pelo Instagram (@samara_glicia) ou fazer um comentário aqui mesmo.

POSTAGENS RELACIONADAS:  Cartas de um diabo a seu aprendiz , A filosofia para o cristão, A bruxa e o demônioO verdadeiro presente, Deus é vermelho.

… Worthy is the Lamb who was slain. Worthy is the King who conquered the grave…

(Digno é o cordeiro que foi morto. Digno é o Rei que venceu a morte.*)

Frase da música  This is amazing grace  / a imagem abaixo é a música  Quebrantado , cuja versão original é Sweetly Broken

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REFERÊNCIAS:

LEWIS, Clive S. Cristianismo Puro e Simples. Thomas Nelson Brasil: Rio de Janeiro, 2017.

Bíblia Sagrada

[1] SCRUTON, Roger. Tolos, fraudes e militantes. Record: Rio de Janeiro, 2018.

[2] PETERSON, Jordan B. 12 rules for life. Allen Lane: London, 2018.

[3] ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. 6º reimpressão. Martin Clarent: São Paulo, 2013.

[4] PLATÃO. O banquete. L&PM: Porto Alegre, 2012.

* em tradução livre pois acho que em português isso soa melhor do que “Digno é o Rei que conquistou a sepultura”.