CRISTIANISMO AÇUCARADO

“Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada.”

palavras de Jesus no Evangelho segundo Mateus (capítulo 10, versículo 34)

“Religião não é para promover o ódio, nem para dividir. A religião pode fortalecer valores que priorizem a construção de uma cultura de paz, de tolerância, de menos ódio, de mais aceitação mútua e assim por diante.”

Romi M. Bencke (grifos meus*)

*OBS.: esse texto foi escrito em conjunto com meu namorado, Djesniel Krause, que é teólogo; as referências pessoais não identificadas (ex.: “grifos meus”, “uso uma Bíblia”, etc) são minhas, ainda que eu não tenha escrito o parágrafo inteiro sozinha.

Uso uma Bíblia de estudo que trata de algumas seitas pseudo-cristãs, isto é, que se dizem cristãs, mas não o são, uma vez que violam pontos fundamentais do cristianismo. Na maioria delas, uma pessoa diz ter recebido uma nova revelação, colocando a Bíblia Sagrada em segundo plano, apenas para utilizar um ou outro versículo aleatório que pareça “aprovar” sua nova religião. Uma delas, por exemplo, é a “igreja apostólica da santa vó Rosa”, fundada por uma senhora que dizia ser ela mesma o “espírito consolador” que Cristo prometeu enviar, conforme encontramos no Evangelho de João 15:26. Hinos de louvor são cantados no nome dela. Ela “corrigiu” a Bíblia.

Nem sempre o desvio é tão óbvio. Nem sempre os falsos mestres lançam novos “evangelhos” ou se colocam como ídolos, mas são igualmente perigosos por tentar remodelar o cristianismo de acordo com sua ideologia. Um exemplo recente foi o Ed René Kivitz, que disse que a Bíblia deveria ser atualizada. Não no sentido de uma nova tradução, com o objetivo de deixar sua mensagem mais compreensível, mas sim de acomodar seu conteúdo ao contexto contemporâneo, ignorando assim o que Jesus Cristo diz no Evangelho de Mateus: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar” (Mt 24:35). Outro caso, mais antigo, foi do Leonardo Boff, que tentou infiltrar o marxismo na igreja católica, tirando o foco da salvação pela morte e ressurreição de Cristo, ignorando as críticas de Marx ao cristianismo e fechando os olhos para o fato de que todo país socialista/comunista persegue cristãos em maior ou menor grau, pois não há espaço para Deus, apenas para o Estado, a classe operária, ou o que quer que eles coloquem como redentores da História. A ideia de progresso e escatologia é secularizada, transformando-se em uma utopia materialista.

O caso que me motivou a escrever esse texto foi uma citação com a qual me deparei numa rede social (e que coloquei no início dessa postagem), as aparentemente inofensivas palavras da senhora Romi Márcia Bencke, que a despeito de sua formação teológica e sua posição como pastora luterana, defende pautas progressistas, tais como aborto, ideologia de gênero e ecumenismo inter-religioso – para dizer o mínimo, mas eu não ficaria surpresa com mais nada vindo dela, do Kivitz, do Boff ou de qualquer desses. Como todos esses estudaram Teologia, não têm a desculpa da falta de conhecimento, então é uma perversão deliberada; só que muitas coisas que eles falam parecem bonitas e sensatas, enganando facilmente aquelas pessoas que tem em mente a imagem de um Jesus hippie, advinda da cultura popular. Como diz Austin Fischer no livro “Jovem, incansável, não mais reformado”:

“Conforme Mark Driscoll observa, muitos querem “remodelar Jesus como um hippie […] que fazia comentários zen incisivos acerca da vida […]. Esse Jesus jamais poderia enviar alguém para o inferno, pois isso violaria o seu principal atributo, agradabilidade.”

FISCHER, 2015, p.55-56 (grifos meus)

Também Wayne H. House comenta sobre isto:

“A igreja é vista com judiciosa, ao passo que se diz que Jesus não julga as pessoas. A igreja fala contra os pecados como a homossexualidade, ao passo que Jesus amava todas as pessoas independentemente de seus pecados, como aconteceu com a mulher pega em adultério. A igreja tem interesse em questões políticas, mas Jesus não se envolveu com política e só trabalhou para aliviar o fardo das pessoas. […]. Essa tentativa para compreender Jesus, com frequência, é feita sem qualquer referência sobre o que realmente conhecemos a respeito dele. Simplesmente adivinhamos quem ele é e como ele age – muito frequentemente, como achamos que ele deve ser e agir para ser aceitável à mente do homem do século XXI. À parte do apelo da revelação divina, essa é a maneira pela qual ele tem sido visto ao longo dos séculos, incluindo o século em que ele viveu aqui na terra”.

HOUSE, 2009, p. 26

Devemos deixar de lado o Evangelho segundo Mateus, Marcos, Lucas e João, que falam sobre pecado, condenação e arrependimento, para aceitar as boas-novas de Kivitz, Romi, Boff e Antônio Carlos Costa (outro marxista) se quisermos ser politicamente corretos e nos conformar com o espírito da época. Fomos chamados, de acordo com esses novos profetas, para tolerar qualquer prática e aceitar qualquer idéia, pois nada desagrada a Deus. Aceitação e tolerância se tornaram as virtudes máximas e devem ser priorizadas em detrimento do arrependimento do pecado – pois não existe mais pecado, uma vez que esse é um conceito opressor. Usam o martelo de Nietzsche para livrar os fiéis das amarras metafísicas, por isso vêem tudo sob uma perspectiva materialista-histórica e se vêem no direito de alterar o Livro Sagrado – já que não existe mais Sagrado. É um niilismo disfarçado: no fundo, não há Deus, não há nada, pois se houvesse Deus, sua Palavra revelada deveria ser a autoridade máxima, ainda que esteja em desacordo com o que é mais popular nesse século.

Parece que faltam páginas na Bíblia de algumas pessoas que dizem lê-la; ou falta atenção. Ler em si não é a questão. Até meados do século XX, muitos convertidos nem sabiam ler, mas tiveram contato com o Evangelho verdadeiro, pregado por pastores fiéis em épocas difíceis, que enfrentaram perseguição em nome de Cristo, como o médico e missionário presbiteriano William Butler, que veio dos Estados Unidos para plantar igrejas em Pernambuco. Essas pessoas entendiam a mensagem e não seguiam modinhas. A mensagem clara é: existe uma verdade objetiva, que é Jesus Cristo, que foi enviado para pagar o preço pelos nossos pecados e aplacar a ira de Deus, que é um Deus justo e santo, que não tolera o pecado; Ele morreu para que todo aquele que nele crer seja salvo (Jo 3:15), mas quem não crê, já está condenado (Jo 3:18).

Jamais fui capaz de ler os evangelhos sem me encolher um pouco com medo. As palavras e ações de Jesus geralmente são um pouco espinhosas. […]Uma análise honesta dos evangelhos deixa claro para mim que Jesus é bem duro. Ele tem um senso robusto da depravação humana. Ele geralmente fala claramente acerca da ira sob a qual estamos como resultado de nossa depravação. […] E um dia Ele virá com uma espada para julgar “mortos, grandes e pequenos” .

FISCHER, 2015, p.57 (grifos meus)

As tendências culturais precisam ser avaliadas e julgadas à luz das Escrituras, e não o oposto. Não podemos permitir que elas sejam normativas. Também precisamos buscar conhecimento para compreender as coisas, ao invés de apenas adotar uma ideia superficial.

Isso é muito importante de ressaltar, por que algumas dessas pessoas que concordam com esses falsos mestres, acreditam que estão agindo em nome do amor. Acham que amar o próximo é deixá-lo confortável nesse mundo e com isso só colaboram com a condenação deles. Onde está o amor nisso? Se um cristão ama alguém de verdade, quer que essa pessoa conheça Cristo. Voltando ao livro de Austin Fischer, ele diz:

“O cristianismo ocidental tem um problema com o amor, a saber, diminuímos por demais o amor ao fazermos muito caso dele. Amor é tolerância, amor é inclusão, amor é autoestima, amor é conforto. E, ao transformar o amor nessas coisas, o amor se tomou em nada. […] Para fins de simplicidade, vamos chamar isso de o problema do “amor brando”, ao se tornar tudo, o amor se torna nada.”

FISCHER, 2015, p.68 (grifos meus)

Eu (Djesniel) nem mesmo chamaria isto de amor, apenas de indiferença. É a aceitação de um conceito sem conhecê-lo. Fischer continua:

“Você sabia que o Livro de Atos não menciona o amor uma vez sequer? Quer esteja procurando pelo substantivo ou pelo verbo, faça uma pesquisa pela palavra “amor/amar” e você irá saltar direto de João para Romanos. Longe de ser uma casualidade retórica, penso que o escritor está tentando ensinar-nos algo. Não somos nós que devemos definir o que é amor; Deus é quem define. E essa é a primeira coisaque precisamos saber acerca do amor de Deus. Se quisermos entendê-lo, então devemos ir ao lugar onde Deus o define, a saber, Jesus Cristo, crucificado.[…]Não devemos falar de amor de forma abstrata, como algum ideal humano fofo de boa vontade.”

FISCHER, 2015, p.69

Isto nos remete a C.S. Lewis: “a verdade segundo a qual Deus é amor poderá furtivamente vir a significar para nós o oposto – que o amor é Deus” (LEWIS, 2009, p. 9), e então, precisamos complementar, o amor “passa a ser um demônio no instante em que passa a ser um deus” (LEWIS, 2009, p. 9).

Claro que as palavras de Cristo em Mateus 10:34 não são no sentido de o cristão sair por aí matando quem discordar dele, mas sim de que o cristianismo não seria baseado na simples união e tolerância, mas causaria divisão, seria uma religião perseguida, considerada escandalosa e insana (1 Coríntios 1:23) e cujos adeptos teriam que fazer uma escolha entre Cristo e o mundo, ao invés de “atualizar” algo ou priorizar a paz em detrimento da Verdade.

Alguns de vocês podem pensar : “Ah, Samara, mas você não é teóloga para ter autoridade de discutir com essas pessoas.” (mas eu, Djesniel, sou ;D) (e um muito dedicado ♥) Ainda assim, vamos considerar algumas coisas:

1) A autoridade não está na pessoa, e sim na Bíblia, então até um ateu instruído estaria certo em contestar. Qualquer um dos irmãos mais simples, que nem ao menos sabe ler, mas possui conhecimento, pode contestar.

2) Estudei Filosofia, sei de onde essas ideias vêm, sei o trabalho que os pais da igreja tiveram para desvincular o cristianismo do paganismo grego e também sei o ideal pós-moderno de propagar o relativismo. O apóstolo Paulo já alertava: “Tenham cuidado para que ninguém os escravize a filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo, e não em Cristo” (Cl 2:8) .O problema não é a filosofia, mas o fundamento dela: quem tenta adequar o cristianismo à filosofia ao invés de fazer o caminho contrário, cai nesse erro. 

Devemos antes, como Lutero, manter nossa consciência cativa à Palavra de Deus.

Você foi chamado para ser sal, não açúcar.

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BIBLIOGRAFIA:

FISCHER, Austin. Jovem, incansável, não mais reformado. Maceió: Sal Cultural, 2015.

HOUSE, H. Wayne. O Jesus que nunca existiu. São Paulo: Hagnos, 2009.

LEWIS. C.S. Os quatro amores. 2. Ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009.

Coração de Leão: uma homenagem a sir Roger Scruton

“O conservadorismo advém de um sentimento que toda pessoa madura compartilha com facilidade: a consciência de que as coisas admiráveis são facilmente destruídas, mas não são facilmente criadas. Isso é verdade, sobretudo, em relação às boas coisas que nos chegam como bens coletivos: paz, liberdade, lei, civilidade, espírito público, a segurança da propriedade e da vida familiar, tudo o que depende da cooperação com os demais, visto não termos meios de obtê-las isoladamente. Em relação a tais coisas, o trabalho de destruição é rápido, fácil e recreativo; o labor da criação é lento, árduo e maçante. Esta é a grande lição do século XX.” – Sir Roger Scruton

Hoje faz um ano que o filósofo sir Roger Scruton faleceu depois de uma batalha contra o câncer e me sinto no dever de homenageá-lo devido à importância que teve no cenário mundial e especialmente brasileiro, mas também por ter sido um marco na minha vida pessoal e acadêmica.

Fui apresentada ao trabalho de Scruton graças a um amigo da faculdade. Apesar de nunca ter concordado com qualquer ideia de esquerda sobre política e economia, estava me aproximando numa pauta cultural – talvez a mais perigosa delas: feminismo. Eu me dizia “feminista conservadora”, claramente sem entender o que significava ser conservadora. Foi quando esse amigo disse que eu deveria ler “Como ser um conservador”. Aceitei a dica, foi um dos melhores livros que li na vida e isso me mudou profundamente. Essa obra de Scruton me ensinou o que verdadeiramente significa ser conservador e qual o valor da tradição. Em seguida, assisti “Por que a Beleza importa”, documentário que abriu meus olhos para o que realmente significa filosofar: buscar o que é bom, belo e verdadeiro (a sabedoria).

Roger Vernon Scruton nasceu em 1944, penúltimo ano da Segunda Guerra Mundial, no interior da Inglaterra, na pequena cidade de Buslingthorpe, condado de Lincolnshire, cuja economia é essencialmente rural, então sabemos que cresceu cercado por campos verdejantes e arquitetura medieval, uma mistura de simplicidade com elegância, duas características que descrevem muito bem a pessoa que ele se tornou.  Até o ano de seu nascimento mostra um traço de sua personalidade: por pouco escapou de ser um baby boomer – a geração nascida após a guerra e que se tornou uma geração marcada pelo movimento hippie e outras rebeliões contra os costumes. Desde garoto, se dedicou à vida intelectual e artística. Talvez nunca tenha imaginado a tarefa que iria empreender: resgatar o trabalho que foi começado por outro britânico um século e meio antes. Fé, amor, senso de dever e um grande talento o colocaram nesse caminho.

Edmund Burke – filósofo britânico que é considerado o pai do conservadorismo e que escreveu, dentre outras coisas, sobre política e beleza – estudou de perto a Revolução Francesa e escreveu um livro (Reflexões sobre a revolução na França) contra a ideologia que serviu de base para a mesma, criticando quem preferia destruir tudo ao invés de reformar o que havia de errado e preservar o que havia de bom e admirável. Aos 24 anos, Scruton foi à Paris e presenciou as terríveis manifestações estudantis de 1968. A partir daí, começou a estudar esses movimentos. Ele foi contemporâneo de alguns ideólogos como Derridas e Galbraith, chegando a dissecar e contrapor o pensamento deles em livros como “Pensadores da Nova Esquerda” e sua continuação, “Tolos, fraudes e militantes”. Tanto Burke quanto Scruton basearam seus argumentos não apenas na lógica, mas também nos exemplos encontrados na História inglesa e na tradição de seu povo. Eram homens que amavam o país e a cultura, mas acima de tudo, amavam a verdade.

De acordo com a tradição popular medieval anglo-saxã, o lendário Rei Arthur retornaria quando seu povo mais precisasse. Como comentei no texto sobre cavalheirismo (para quem não leu, vou deixar o link no fim do post), o rei Arthur e seus cavaleiros representam a junção do ideal do forte e corajoso guerreiro saxão com o modelo de vida sacrificial cristã. É algo ao mesmo tempo universal e propriamente britânico. A impressão digital de um povo inserida em algo maior.

Você deve estar se perguntando o que isso tem a ver com o assunto: é algo significativo por que é o fundamento da identidade inglesa e foi essa tradição que moldou o pensamento de Roger Scruton e salvou essa nação algumas vezes quando a Europa tinha caído, como quando derrotaram a “Invencível” Armada Espanhola, o imperador francês Napoleão Bonaparte e o líder do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores da Alemanha, Adolf Hitler. De fato, parece que em tempos difíceis, “homens arturianos” são levantados (eu e meu pai os chamamos de Guardiões da Ilha): do Rei Henrique V até sir Winston Churchill.

Eu classificaria Scruton como um homem arturiano, ainda que tenha travado batalhas de outras formas. Durante a Guerra Fria, ajudou a fundar faculdades clandestinas nos países do leste europeu que estavam sob o domínio da União Soviética. Não voltou atrás quando foi humilhado por colegas professores em grandes universidades ou quando tentaram “cancelar” seus livros apenas por que suas opiniões contrariavam o pensamento hegemônico – esse pós-modernismo que aceita tudo e faz com que “tudo” signifique “nada”. Ele poderia ter ficado calado, ter sido politicamente correto e teria tido uma carreira de sucesso sem grandes dificuldades. Mas ele optou por defender seus princípios e conquistar a vitória com sangue, suor e lágrimas.

O conservador é cético e esperançoso ao mesmo tempo. Não acredita que haverá perfeição na Terra, mas sabe que a Perfeição em si é boa, bela e verdadeira e deve ser buscada a qualquer custo, pois ainda que seja inalcançável, ilumina o mundo e torna nossa vida melhor, mesmo em meio a tudo que temos que enfrentar. É isso que Platão diz sobre o trabalho do filósofo: sabe que nunca será plenamente sábio, mas não se contenta com a ignorância. É assim que deve ser a vida do cristão: sabe que não será totalmente igual a Cristo, mas deve tentar viver como Ele. É uma maneira de dar sentido à existência e entender o que significa ser humano.

Roger Scruton conseguiu transmitir tudo isso de forma magistral e comoveu muita gente, especialmente no Brasil. Ele foi fundamental para a transformação cultural e política do nosso país, algo que ele sabia e tinha orgulho. Scruton nos ensinou a essência do conservadorismo e nos instruiu a buscarmos nossas raízes e desenvolvermos nosso próprio movimento, de acordo com nossa herança e nossas necessidades enquanto nação. Nos mostrou que é preciso sair do campo político e contemplar a Beleza, pois o conservadorismo é muito mais sobre coisas transcendentes do que sobre coisas terranas, pois é fundamentado no amor:

“A esquerda se une pelo ódio, mas nós (conservadores) nos unimos pelo amor: amor pelo país, pelas instituições, pela lei, pela família, e por aí vai. Nós queremos proteger o que eles querem destruir.”

Suas últimas palavras públicas foram ditas ao jornal The Spectator em dezembro de 2019, quando fez um resumo do ano, basicamente um parágrafo por mês. Foi um ano conturbado, em parte por conta do tratamento contra o câncer, também por causa dos ataques contra sua reputação devido às opiniões sobre a questão islâmica na Inglaterra. Ele foi atacado pelo próprio Partido Conservador, tendo sido destituído do cargo no departamento de arquitetura e urbanismo. Ele comenta também sobre coisas boas, como o carinho recebido pela família e pelos amigos, e sobre a recepção que teve em dois países nos quais ele é considerado um herói: Polônia e Brasil. Devido ao trabalho contra o comunismo no leste europeu, o governo da Polônia lhe condecorou com a Ordem do Mérito. Ele registrou que o embaixador britânico não compareceu ao evento, provavelmente para não ser associado a ele, e diz que voltou para a Inglaterra “com um coração cheio de gratidão por um país onde eu seria bem recebido como refugiado”. Logo depois, comenta que: “não seria o único país [a me receber de bom grado como refugiado], pois por razões que desconheço, tenho um fã clube no Brasil”, onde, em suas palavras, há uma multidão de jovens empenhados em salvar a civilização ocidental no lugar mais distante onde ela chegou – o próprio Brasil (quem ainda não assistiu a série A Última Cruzada, da Brasil Paralelo, recomendo assistir). O último parágrafo, sobre o mês de dezembro, foram as belas palavras que traduzo a seguir (grifos meus):

“Durante esse ano, muita coisa foi tirada de mim – minha reputação, minha posição como intelectual público, meu posto no movimento conservador, minha paz de espírito, minha saúde. Mas muito mais me foi dado: a generosa defesa de Douglas Murray e os amigos que batalharam com ele, o reumatologista que salvou minha vida e o médico que cuida de mim. Caindo em meu país, fui alçado ao topo em outros locais, e olhando para toda essa sequência de eventos, só posso estar feliz de ter vivido tempo suficiente para ver isso acontecer. Chegando perto da morte, você começa a saber o que a vida significa, e ela significa gratidão.”

OBS: mais uma coincidência entre Scruton e Burke, ainda que por motivos opostos, é que Burke nasceu no dia 12 de janeiro.

A Necessidade do Cavalheirismo:

https://discursosemmetodo.wordpress.com/2020/07/15/a-necessidade-do-cavalheirismo/

A Última Cruzada:

Só para os loucos…só para os raros:

“Lobo da estepe, acredito na tua dor” 20140103-182203

O livro escolhido para o mês de março no grupo de leitura foi “O lobo da estepe” (1927) do escritor alemão Hermann Hesse. Fui imediatamente pesquisar o motivo do livro de Hesse constar como um grande clássico para avaliar se valeria ler. Nem sempre o motivo me convence e não vacilo em dispensar livros por mais famosos que sejam (abandonei Cem anos de solidão depois de poucas páginas e Madame Bovary é um exemplo dos que não pretendo dar a menor chance). Não sou obrigada a admirar um livro só por que o mesmo possui uma áurea de intelectualidade – que muitas vezes é artificial, afinal, algumas obras de “arte” são consideradas importantes simplesmente por questionarem a sociedade, como se isso fosse não apenas um motivo, mas um motivo suficiente (algumas delas não são nada mais que uma demonstração da degeneração do espírito humano ou uma grande piada, como mostram alguns vídeos que você encontrará no final dessa postagem, dentre os quais o mais importante é Why Beauty Matters?).

Encontrei uma aula de um professor de literatura alemã (link no final da postagem) que falou algo que me chamou atenção e me fez ter vontade de analisar essa obra, ainda que tenha deixado claro o seu conteúdo subversivo: há respeito à estética. Isso me fez respeitar “O lobo da estepe” mesmo sabendo de antemão que não nutriria qualquer tipo de afeição por ele.

“(A música contemporânea) naturalmente era uma baboseira, comparada com Bach e Mozart e a música dos grandes mestres; mas assim também era toda nossa arte, todo nosso pensamento, toda nossa aparência de cultura, quando comparada com a verdadeira cultura.”

É importante saber ao menos o básico sobre o autor, a obra e o contexto histórico e artístico da época em que a mesma foi construída para aproveitar ao máximo as referências e todos os detalhes do livro. Sabemos, por exemplo, que Hermann Hesse era grande admirador de Goethe e que viveu um período de transição cultural e política que influenciou seu estilo de escrita e o conteúdo de seus textos. O protagonista de “O lobo da estepe”, Harry Haller, apresenta similaridades com o autor, como a paixão pela arte clássica e os problemas psiquiátricos, especialmente a tendência suicida.

A influência de Nietzsche já é óbvia, mas cabe destacar também que tem muito da “Fenomenologia do Espírito” de Hegel (dois filósofos que eu não gosto hahaha). Sobre Nietzsche, além do evidente niilismo, vemos nas entrelinhas que Harry Haller se sente um homem superior que não deveria ter que se submeter às regras da burguesia medíocre. Sobre Hegel, talvez não tenha sido proposital, mas podemos observar um movimento de tese, antítese e síntese na formação do pensamento do protagonista no contato que ele tem com as outras “consciências-de-si” e também a luta interna da própria consciência de Haller: o homem e o lobo atuam como as figuras da “dialética do senhor e do escravo” descrita pelo filósofo alemão. O movimento filosófico chamado de idealismo alemão trouxe o pensamento sobre o “Eu” (sujeito transcendental) versus o “Não-Eu” (o mundo exterior) e isso é o que vemos no livro em questão.

 “Harry compreendia de súbito que essa liberdade era a morte”

Durante a leitura, lembrei de Clube da Luta, de Chuck Palahniuk (que li em 2012 e na época foi um dos meus favoritos; apesar de ter caído no meu ranking, continuo indicando como uma obra bem construída e interessantíssima). A questão da divisão da personalidade e da perturbação da mente, o desprezo pela sociedade tradicional, o enfrentamento dos medos visando quebrar as convenções, a libertação através da desesperança e da morte, todos esses temas estão presentes em ambos os escritos. Palahniuk também faz uso de elementos inusitados e situações absurdas para desenvolver a obra em determinados momentos e possui uma escrita precisa, apesar de não ser elegante como Hesse.

“Havia chegado ao momento em que a solidão e a independência já não eram seu objetivo e seu anseio, mas antes sua condenação e sua sentença”

Harry Haller odeia o mundo do qual se aproveita e não nega sua própria hipocrisia. Em seus pensamentos, por mais que se divirta por fora, ele não é feliz, está sempre se consumindo. A vida burguesa o incomoda não por ser realmente ruim, mas por ser algo com o qual ele sabe que não irá se ajustar, um conforto que ele não poderá ter por não querer sair do pedestal no qual se colocou: ele é aquela pessoa que tem que ser “do contra” para mostrar que sabe mais (como ele demonstra ao julgar a opinião dos outros), como se aceitar o que aceitam as pessoas comuns fosse um crime , ainda que saiba que na verdade é seu orgulho o pecado que o condenará ao inferno.

Cheguei a pensar que em outros tempos eu teria um sentimento mais amigável para com essa obra, pois apesar de nunca ter me identificado com o pensamento niilista ou com um estilo de vida desajustado, durante a época mais idealista da minha adolescência, Jack Kerouac foi meu escritor favorito e amei livros como On The Road e Os vagabundos iluminados. A figura do “vagabundo iluminado” me cativava, eu os via como criaturas incompreendidas que não se encaixavam no mundo normal e deveriam ser perdoadas por isso. No entanto, há uma diferença importante entre os personagens de Kerouac (que eram ele próprio e seus amigos) e os de Hesse: Sal Paradise e os demais não tinham um espírito destrutivo, não odiavam os costumes e a sociedade, eles criavam seu próprio universo e lá viviam como bem entendiam sem perturbar ninguém. O próprio Jack detestava os hippies, que considerava baderneiros, e os comunistas, que desrespeitavam a liberdade e todos os demais valores da América que ele tanto amava.

“Aquele teatro mágico, estava percebendo, não era nenhum paraíso. Todo o inferno estava reunido sob sua bela superfície”

O mundo do Lobo da Estepe não trouxe nenhuma paz, apenas agonia. O teatro mágico explorou a loucura que a parte racional de Haller tentava conter ou mediar. A liberdade não passou de ilusão justamente por ter se desvinculado da realidade. Tudo isso é narrado em estilo introspectivo num cenário caótico, uma mistura de Dostoievsky e Lewis Carroll. São notáveis também alguns traços do movimento surrealista, que despontava naquela época, com resquícios do romantismo alemão que estava se extinguindo.

O autor alega que o livro não foi bem compreendido, que não se trata de negação: “Não é o livro de um homem em desespero, mas de um homem que crê.” É difícil interpretar apenas dessa forma, mas não se pode negar que é um argumento verdadeiro. Apesar de tudo, o protagonista se apega ao mundo e acredita em verdades absolutas, como já foi mencionado em relação à cultura (e quem leu sabe o que ele pensa sobre o pinheirinho). Algumas coisas (ou pessoas) funcionam para ele como uma espécie de âncora psicológica e ele realmente está em busca de redenção, não no sentido de ser purificado mas de encontrar um significado para sua vida, exatamente o oposto do niilismo que o assombra. Ele sofre e procura remédio no mundo exterior: alguns são placebo, como as danças, outros apresentavam ao menos um alívio real para suas perturbações (talvez incuráveis), como quando ouvia Mozart. Isso era a arte cumprindo seu papel enquanto arte, que segundo grandes filósofos (que divergiam em vários pontos porém conservavam isso como essência) deve provocar catarse*, ou seja, uma terapia que causa uma espécie de elevação do espírito humano.

“Carolina, você sabe que esse homem era um lobo; esse lobo nunca mais vai uivar”

É um livro curto/médio (cerca de 250 páginas, dependendo da edição), que encontra um lugar importante na história da literatura mundial por ter qualidade estética e tratar (mesmo que indiretamente) de vários assuntos relevantes, como Filosofia e Psicanálise, bem como da cultura em si. No geral, pode não ser o mais agradável dos livros e talvez seja uma perda de tempo para a maioria das pessoas. Existem livros bem melhores para você ler tanto por distração quanto para adquirir conhecimento. Essa obra não é boa para nenhuma dessas finalidades: é uma distração bizarra e não é instrutivo. Me senti no dever de ler “O lobo da estepe” por ser estudante de literatura (apesar de ser literatura inglesa, é necessário ter conhecimento de teoria literária no geral, além de Hesse ter exercido influência na obra de diversos escritores em todas as partes do mundo, até mesmo no Brasil, onde era admirado por pessoas como Clarisse Lispector) e recomendo sobretudo para quem estuda coisas como Filosofia, Psicologia e Letras (quem tem interesse por essas coisas, independente de ter estudo formal), por ser uma forma de analisar a aplicação de métodos e/ou tendências de pensamento aprendidas durantes estudos mais específicos. Foi uma leitura mais por utilidade do que por prazer, o que não significa de modo algum que tenha sido um desperdício, pois é um excelente plano de análise sobre uma série de assuntos, sobretudo a arte e o que ela representa para o ser humano.

As frases em azul são da seguinte música (um excelente southern rock brasileiro): O Lobo da Estepe (Os Cascavelletes)

OBS.:

1) essa é a definição específica de Aristóteles, apresentada na Poética

2) Falei um pouco desse livro no post sobre Chesterton, lá no finalzinho.

3) No Brasil, temos uma banda chamada “Teatro Mágico”, cujas composições são inspiradas nas obras de Hesse (não posso julgar a qualidade por que não faz meu estilo) e o cantor e compositor Ventania (que parece um sujeito legal, exceto por fazer apologia ao uso de coisas como “cogumelos azuis”) tem uma música chamada “Só para loucos” , que apesar da letra não aparentar ligação com “O lobo da estepe”,  pode ser uma referência ao mesmo (ou pode ter sido coincidência).

Sugestão de vídeos:

Literatura Fundamental: O lobo da estepe (professor Helmut Galle) –  https://www.youtube.com/watch?v=KoN5n2ZLTBg

Roger Scruton e a reconquista da beleza –  https://www.youtube.com/watch?v=R-J90ufmOo4

Why beauty matters?  (sir Roger Scruton – legendado) – https://www.youtube.com/watch?v=bHw4MMEnmpc&t=48s

Eu estudei arte. Paula Lavigne não. (Senso Incomum) –  https://www.youtube.com/watch?v=7bNQWeUlz-8

Paul Joseph Watson sobre a degradação da arte (legendados):

1)    A verdade sobre a arte moderna – https://www.youtube.com/watch?v=qZN_MsWyD5o

2)    As recentes atrocidades da arte moderna –  https://www.youtube.com/watch?v=Toe9x1UFMks

3)    A arte moderna continua uma merd@ –https://www.youtube.com/watch?v=57MYtVbLoOo

Sugestão de leitura (link para adicionar à sua lista do Skoob):

O lobo da estepe https://www.skoob.com.br/o-lobo-da-estepe-1338ed1830.html

Clube da luta https://www.skoob.com.br/clube-da-luta-1436ed1939.html

Pé na estrada https://www.skoob.com.br/on-the-road-923ed1202.html

Os vagabundos iluminados https://www.skoob.com.br/os-vagabundos-iluminados-4257ed5312.html

Fausto & Os sofrimentos do jovem Werther https://www.skoob.com.br/fausto-e-werther-27143ed29520.html

Alice no país das maravilhas https://www.skoob.com.br/alice-no-pais-das-maravilhas-1172ed703379.html

Memórias do subsolo (Notas do Subsolo ou Notas do Subterrâneo) https://www.skoob.com.br/memorias-do-subsolo-1751ed363086.html

Fenomenologia do espírito (esse é chato, mas vale estudar os primeiros capítulos) https://www.skoob.com.br/fenomenologia-do-espirito-20543ed22150.html

 

Shoah – Edith Stein

“[…] não poderemos deixar de recordar todos os anos também o Shoah, aquele atroz plano de eliminação de um povo, que custou a vida a milhões de irmãos e irmãs judeus.”- Papa João Paulo II

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Encerro o mês de agosto com uma homenagem à filósofa Edith Stein, freira carmelita conhecida entre os católicos como santa Teresa Benedita da Cruz, (devido à sua canonização pelo papa João Paulo II em 1998), mais uma vítima do antissemitismo do partido nacional-socialista alemão.

Nascida na cidade de Breslau, Alemanha, durante a celebração judaica do Yom Kippur (Dia do Perdão) de 1891, foi criada na tradição hebraica de sua família e recebeu a melhor educação possível. Na adolescência, Stein abandou sua fé e seus costumes, dedicando-se apenas à vida acadêmica. Tendo ela grande talento para tal atividade, estudou História, Língua Alemã e Filosofia, sendo este último campo o seu favorito.

“Com plena consciência e por livre decisão, deixei de rezar. Meus anseios de conhecer a Verdade eram minha única oração.”

Interrompeu seus estudos para servir como enfermeira na Primeira Guerra Mundial, vindo a receber uma medalha da Cruz Vermelha por seus serviços prestados. Recebeu o título de doutora em 1916, destacando-se na área de Fenomenologia com uma tese sobre empatia que recebeu nota summa cum laude (“com a maior honra”) chegando a ser assistente do filósofo Edmund Husserl, conhecido como fundador da Fenomenologia e que, tal como Stein, era descendente de judeus e também foi perseguido por esse motivo.

“O estudo da filosofia é um contínuo caminhar à beira do abismo”.

Foi uma proeminente escritora, sendo sua obra mais famosa o seu último tratado, “A Ciência da Cruz”, que não foi concluído (ou, nas palavras do professor Felipe Aquino, ela a concluiu sim, mas não por escrito: a conclusão se efetivou com a entrega de sua própria vida”).

“A ciência da cruz não se pode adquirir sem que ela nos pese realmente sobre os ombros. Desde o primeiro instante eu estava convencida, e a mim mesma me dizia: Ave crux, spes unica!”  (grifo meu, tradução: “Salve a Cruz, nossa única esperança!”)

Sua definitiva conversão ao catolicismo ocorreu no ano de 1921, depois da leitura da autobiografia de santa Teresa D’Ávila, o que a comoveu bastante, mas também por influência de alguns amigos e de pesquisas acadêmicas inicialmente despropositadas. Começou seu trabalho na igreja como leiga,  atuando como professora de instituições de ensino católicas e também como conferencista, tendo sido notável nessa época seu empenho em estudar sobre Tomás de Aquino. Com a ascensão de Hitler ao poder e a implantação de sua política antissemita, ela foi proibida de exercer sua profissão. Encontrou abrigo na Ordem do Carmelo, tornando-se noviça em 1934 e confirmando seu voto perpétuo em 1938.

“Eu vivia no ingênuo auto-engano de que tudo em mim estava correto, como é frequente em pessoas sem fé, que vivem num tenso idealismo ético”.

Edith Stein foi transferida para a Holanda por conta da perseguição. Sua irmã Rosa, que em 1936 aderiu ao catolicismo e também decidiu seguir a vida religiosa, a acompanhou. No entanto, os nazistas invadiram a Holanda em 1941, e apesar das tentativas do convento de transferir as irmãs Stein para a Suíça, a burocracia impediu que elas evitassem a perseguição.

Em agosto de 1942, em retaliação ao apoio concedido pelos bispos holandeses aos judeus, oficiais da Gestapo capturaram as irmãs Stein e as levaram para o campo de concentração de Westerbork, onde Edith Stein ficou conhecida como “a freira alemã”. Segundo relatos dos sobreviventes, durante os poucos dias que passou lá, Edith dedicou seu tempo tentando cuidar das crianças e levar conforto para os demais prisioneiros. No dia 7 do mesmo mês foi transferida para Auschwitz-Birkenau, onde foi morta na câmara de gás.

“Quanto mais escuridão se faz ao nosso redor, mais devemos abrir o coração à luz que vem do alto”.

Sua postura no decorrer da Primeira Grande Guerra, durante a perseguição nazista e mais tarde já no campo de concentração,  estava em conformidade com sua Filosofia. Ao tratar sobre empatia em sua tese de doutorado, Stein alegava que esta era uma das maneiras possíveis do Ser se relacionar com o Outro na vida em comunidade. Dessa forma, ela também atribuía um papel importante para a Filosofia, afirmando que esta não deveria distanciar-se dos sofrimentos que as pessoas vivenciam, devendo por tanto ser uma ferramenta para pensar sobre isso e desenvolver melhores formas de relacionamento.

Como “eminente filha de Israel” (usando a frase de João Paulo II na homilia de canonização de Edith Stein) e também cristã, Stein abraçou seu destino : reconheceu suas origens e solidarizou-se com seu povo e entendeu o significado do que era servir inteiramente a Cristo e Nele encontrou conforto, deixando uma mensagem de força e esperança para as gerações futuras. Como filósofa, não deixou a empatia que tanto conceituou com complexos termos fenomenológicos manter-se na teoria, mas desenvolveu-a na prática. Em suas própria palavras:

“[…] mas agora se acendeu de repente uma luz em mim! Deus tinha colocado de novo sua mão bem pesada sobre seu povo e compreendi que a sorte desse povo era também a minha.”

 “[…] o que se poderia dizer a mim para consolo? Consolo humano certamente não há, mas quem coloca a cruz como passagem para a vida, entende que o peso se torna suave e leve.” (grifos meus)

Confira as outras postagens sobre o holocausto: O Diário de Anne Frank A Lista de Schindler

Minhas fontes de pesquisa:

http://cleofas.com.br/santa-teresa-benedita-da-cruz-edith-stein/

http://cleofas.com.br/10-ensinamentos-de-santa-edith-stein/

http://www.snpcultura.org/id_edith_stein.html

https://santo.cancaonova.com/santo/santa-teresa-benedita-da-cruz-edith-stein/

https://pt.aleteia.org/2017/03/10/edith-stein-filosofa-religiosa-e-martir/

http://franciscanos.org.br/?p=59435

https://padrepauloricardo.org/episodios/memoria-de-santa-teresa-benedita-da-cruz

http://agencia.fapesp.br/a-desafiadora-trajetoria-da-filosofa-edith-stein/21667/

http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/homilies/1998/documents/hf_jp-ii_hom_11101998_stein.html

 

 

 

 

 

 

Cartas de um diabo a seu aprendiz

” A fina flor da profanação só pode crescer se for plantada perto do Sagrado. Em nenhum lugar a nossa tentação é tão bem sucedida quanto nos próprios pés do altar”

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O professor de literatura (e filósofo por excelência) Clive Staples Lewis foi certamente um dos mais brilhantes e influentes pensadores do século XX e é um de meus autores favoritos. Mais conhecido pelos 7 livros da saga As Crônicas de Nárnia, C. S. Lewis também escreveu obras técnicas na área de literatura, como especialista, e amadoras na área de teologia, como fiel instruído e apaixonado. Alguns outros de seus escritos mais famosos, citando apenas os que eu li, são “O grande abismo”, “O problema do sofrimento”, “Um experimento na crítica literária” e o tema dessa resenha, “Cartas de um diabo a seu aprendiz”, que é leitura obrigatória ou recomendada em diversas escolas e universidades do Reino Unido.

O estilo de escrita de Lewis é sempre simples, o que não torna os livros nem um pouco simplórios, bem pelo contrário, os torna instrutivos, pois conseguem transmitir de maneira coerente e acessível para qualquer público uma série de complexos conceitos filosóficos, teológicos e literários dos quais o autor, como acadêmico dedicado, era grande entendedor. Sua tendência à ficção fantástica repele alguns leitores mais sérios (como minha mãe hahaha) mas atrai muita gente que se encanta com essa forma figurativa de expressar coisas tão profundas, além de ser um recurso que deixa os textos mais leves e divertidos sem perder sua importância.

Deixando isso claro, cabe dizer que a forma do livro em questão pode ser um tanto quanto estranha para aqueles que não estão familiarizados com Lewis. O autor finge ter encontrando cartas que Fitafuso, demônio de alto cargo nas profundezas do Inferno, escreveu para seu sobrinho Vermebile, um tentador em treinamento, dando-lhe orientações de como atormentar seu humano escolhido. Temas como a sutileza do mal, as dificuldades da conversão, o caráter positivo e negativo dos prazeres (o que os transforma em pecado ou não), o significado da guerra (lembrando que o livro foi escrito durante a Segunda Grande Guerra), os perigos da arte, as armadilhas da democracia, o valor das palavras, entre muitos outros assuntos (até a crise do ensino estatal e o projeto Escola Sem Partido encontram eco nesse livro!) que são tratados de maneira formidável e que seria impossível catalogar e explicar tudo aqui.

Fica subentendido que o objetivo de “Cartas de um diabo” é discutir a condição humana e Lewis joga muitos baldes de água fria em seus leitores, sobretudo nos cristãos. Essa não é uma obra religiosa, claramente pode ser lida por pessoas de qualquer religião ou sem nenhuma delas, uma vez que o assunto pode ser entendido de maneira universal, mas ela é dirigida de maneira especial para os praticantes do cristianismo (como o próprio C. S. Lewis), principalmente nas partes em que discute a relação do crente com o mundo e a situação da igreja contemporânea, momentos em que nos são revelados nossos pontos fracos e somos levados a refletir sobre nossas responsabilidades para com a sociedade e sobre nossa relação espiritual com o Absoluto, o que me lembrou bastante Soren Kierkegaard e Agostinho de Hipona, filósofos admirados por Lewis e que exerceram notável influência em sua vida pessoal e profissional.

Esse livro deveria ser leitura obrigatória para qualquer cristão pelos motivos já mencionados, bem como para estudantes de Filosofia, Letras/Literatura e Teologia, por ter qualidade estrutural e um conteúdo riquíssimo, merecendo um estudo atencioso. É também recomendável para o público em geral que simplesmente goste de ler, busque instrução, ame a virtude e não tenha medo da verdade.

“A coragem não é apenas mais uma das virtudes, e sim a forma que cada virtude assume quando é testada.”

OBS.: as frases em destaque são todas do livro

OBS 2: uma passagem interessante é a que Fitafuso comenta sobre a dessacralização da expressão “meu Deus”; se tornou algo muito corriqueiro e desprovido de qualquer significado divino, todo mundo fala como expressão linguística e não como expressão de fé, mas lembremos de um dos Dez Mandamentos: “Não tomarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão; por que o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão” (Êxodo 20:7)

Título: Cartas de um diabo a seu aprendiz

Autor: C. S. Lewis 

Ano da publicação original: 1942

Editora: Martins Fontes

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A Filosofia para o cristão

        Até o terceiro ano do ensino médio eu não tinha pretensão alguma de cursar Filosofia, até que li um trecho do Banquete de Platão, livro que fala sobre o que é a Filosofia e qual a postura que o filósofo deve ter. Segundo ele, a Filosofia é a busca pela verdade (aletheia), que se encontra além do que se vê, no Mundo das Ideais, um mundo perfeito do qual o nosso mundo é uma cópia corrompida. Essa verdade é inalcançável em vida, mas deve ser buscada a qualquer custo pois ela existe e é o que aperfeiçoa a natureza humana, mostrando o caminho daquilo que é bom e belo. A Filosofia é aquilo que se faz por amor, ela é o amor à Sabedoria. O filósofo é aquele que sabe que nada sabe mas não se contenta com a ignorância nem se deixa afundar na lama dos desejos terrenos. Ele é o que aspira ao alto, que procura a transcendência, que rompe com as coisas aparentes e cultiva os sentimentos mais nobres.

            A Filosofia lida com o Ser e portanto com o Absoluto. O que Aristóteles chama de Filosofia Primeira, ou Teologia ( que conhecemos hoje como Metafísica), é aquela que admite que o Absurdo é necessário, que por mais impossível que pareça, é exatamente o que deve ser. Que existe um Motor Imóvel, um Ato Puro, Criador incriado que trouxe  todos os entes à existência e que é a própria substância das coisas. A História da Filosofia mostra que a razão leva a Deus. Muitos filósofos afirmaram que o Logos (que é pensamento, razão e linguagem), aquilo que diferencia os homens dos outros animais e os torna propriamente humanos, vem de Deus e retorna a Deus. E tudo que a Filosofia por si só não consegue atingir é a Verdade Absoluta que só pode ser encontrada na Bíblia, é a verdade de Cristo.

            Para encerrar, deixo a mensagem de Colossenses 3: 1-17, passagem que reúne vários dos pontos aqui destacados e estabelece a postura que o cristão deve adotar: amar, compartilhar o conhecimento, vencer a própria natureza, abandonar as coisas do mundo, buscar o Reino de Deus, ser agradecido e dedicar sua obra a Deus, fazendo tudo em Seu nome.