A HISTÓRIA DE JOHN BUNYAN

A seguir está a tradução de um texto que apresenta uma breve visão sobre a vida de John Bunyan e suas duas principais obras, “O Peregrino” e “Graça abundante para com o principal dos pecadores“. Sei que as NTs (notas da tradutora) deveriam ficar no fim da postagem, mas acabei colocando durante o texto, porém estão sinalizadas, espero que não tomem meus comentários como parte do texto original. Os destaques (cor, negrito, itálico, etc) são todos meus, bem como os acréscimos entre colchetes. Dos livros citados, excetuando-se a Bíblia, só li “O Peregrino“, que, como já mencionei antes, será objeto de estudo mais para a frente. A autoria do texto original é de Scott Hubbard e foi postado no dia 12 de novembro de 2019 no Desiring God.

“Tudo que nós fazemos é obter sucesso”: A história de “O Peregrino” de John Bunyan

Na manhã de 12 de novembro de 1660, um jovem pastor entrou numa pequena casa de reuniões em Lower Samsell, Inglaterra, preparado para ser preso. Ele não percebeu os homens vigiando a casa do lado de fora, mas nem precisava. Um amigo o tinha alertado de que iriam atrás dele. Ainda assim, ele foi. Ele tinha aceitado pregar.

Os policiais adentraram a reunião e começaram a procurar, analisando cada rosto até encontrar aquele que estavam buscando: um homem alto, de bigode ruivo e roupas simples, parado fazendo uma oração. John Bunyan era seu nome.

Se eu tivesse bancado o covarde, eu poderia ter escapado, Bunyan lembrou mais tarde. Mas ele não tinha cabeça para aquilo no momento. Ele falou a exortação final como pode, enquanto os policiais o forçavam para fora da casa, [Bunyan era] um homem com nenhuma outra arma exceto sua Bíblia.

Depois de dois meses e vários processos judiciais, Bunyan foi tirado de sua igreja, de sua família e de seu trabalho para cumprir “uma das mais longas penas na cadeia …[jamais cumprida] por um dissidente na Inglaterra” (On Reading Well). Por doze anos, ele dormiria num tapete de palha numa cela fria. Por doze anos, ele acordaria longe de sua esposa e de seus quatro filhos. Por doze anos, ele esperaria para ser  solto, exilado ou executado.

E nesses doze anos, ele começou a escrever um livro sobre um peregrino chamado Cristão — um livro que se tornaria, por mais de dois séculos, o escrito em língua inglesa mais vendido do mundo.

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John Bunyan (1628–1688) não era o homem inglês mais provável para escrever “O Peregrino” (The Pilgrim’s Progress), um livro que seria traduzido para mais de duzentos idiomas, que capturaria a imaginação de crianças e acadêmicos igualmente, e que num ranking de influência e popularidade no mundo anglofônico, estaria atrás apenas da Bíblia King James. “Bunyan foi o primeiro grande escritor inglês que não morava em Londres nem tinha educação universitária”, escreve Christopher Hill. Ao invés disso, “o exército foi sua escola, e a prisão foi sua universidade” (The Life, Books, and Influence of John Bunyan).

Como Paulo disse sobre os Coríntios, podemos dizer de Bunyan: ele tinha poucas vantagens “de acordo com os padrões do mundo” (1 Coríntios 1:26). Em sua autobiografia espiritual, “Graça abundante ao principal dos pecadores” ( Grace Abounding to the Chief of Sinners), ele confessa que a casa de seu pai era “classificada como a mais mesquinha e desprezível de todas as famílias daquela terra”. Thomas Bunyan era um latoeiro, um viajante que consertava panelas, tachos, e outros utensílios de metal. Thomas mandou seu filho para a escola apenas por um breve período, onde John aprendeu a ler e escrever. Mais tarde, depois de um tempo no exército, ele seguiu seu pai no negócio como latoeiro.

Enquanto isso, Bunyan relembra, “Existiam poucos iguais a mim, especialmente considerando minha tenra idade, no que diz respeito a amaldiçoar, xingar, mentir e blasfemar o nome de Deus” (Graça abundante). No entanto, algumas vezes, quando Bunyan tinham cerca de 20 anos, Deus colocou sua mão no latoeiro blasfemador e começou a pressionar. Pela primeira vez, Bunyan sentiu a carga do pecado e da culpa em suas costas, e o desespero quase o fez afundar. Sua alma agonizou por anos antes de finalmente estar apto para dizer, “Grandes pecados de fato atraem grande graça*; e onde a culpa é mais forte e terrível, é onde a misericórdia de Deus através de Jesus, quando mostrada à alma, aparece mais alta e mais poderosa” (Graça abundante). (*NT.: a referência é Romanos 5:20, “Veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse; mas, onde o pecado abundou, superabundou a graça.” – Almeida Corrigida Fiel)

Bunyan logo levou seu trabalho e o triunfo da graça para o púlpito de uma igreja em Bedford, onde ele anunciou Cristo com tanto poder que as congregações do condado de Bedfordshire começaram a pedir pelas pregações do latoeiro que tornou-se pastor — incluindo um pequeno grupo de crentes em Lower Samsell.

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No entanto, nem todos na Inglaterra tiveram uma reação tão acalorada em relação às pregações de Bunyan. “Ele viveu em dias de maior provação do que os que nós passamos”, escreveu John Newton um século depois (em seu prefácio para “O Peregrino”; NT.: John Newton é o compositor do hino Amazing Grace, ou ‘Sublime Graça’, na versão brasileira). Sim, aqueles eram dias de provação — pelo menos para pastores dissidentes como Bunyan, que se recusavam a participar da Igreja Anglicana. Durante o século XVII, os dissidentes algumas vezes foram honrados, outras vezes foram ignorados, e por vezes foram presos pelas autoridades inglesas.  A parte de Bunyan foi essa última opção.

Alguns dissidentes não ajudavam muito. Uma seita puritana chamada “Homens da Quinta Monarquia”, por exemplo, pegaram em armas em 1657 e 1661 para tomar o trono da Inglaterra para Cristo que, segundo eles, estaria retornando naquele momento. Frequentemente, naquela época, “as autoridades não procuravam suprimir os dissidentes como hereges, mas como perturbadores da lei e da ordem,” explica David Calhoun (“Life, Books, and Influence”). Bunyan não era um radical — era simplesmente um latoeiro que fazia pregações sem ter uma licença oficial para tanto. Ainda assim, as autoridades de Bedfordshire pensaram que seria mais seguro silenciá-lo.

Uma vez preso, foi dado um ultimato a Bunyan: se ele concordasse em parar de pregar e permanecesse quieto em seu trabalho como latoeiro, poderia voltar para sua família de uma vez por todas. Se recusasse, encarceramento e possível exílio esperariam por ele.  Em determinado ponto do processo judicial (que durou várias semanas), Bunyan respondeu:

“Se qualquer homem puder me acusar de alguma coisa, seja na doutrina ou na prática, em particular, que possa ser provada como erro ou heresia, eu estou disposto a abdicar [da pregação pública], até mesmo no mercado; mas se for verdade [o que é dito],  então permanecerei firme até a minha última gota de sangue.” (Graça abundante)

Bunyan tinha 32 anos. Ele não seria um homem livre novamente até ter 44.

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Estátua de Bunyan em Bedford 

Apesar da ousadia de Bunyan para com os magistrados, sua decisão não foi fácil.  O mais difícil de tudo foi separar-se de Elizabeth, sua esposa, e das quatro crianças deles, uma das quais era cega. Em seus anos de confinamento, ele escreveria , “A separação de minha esposa e de minhas pobres crianças é para mim como arrancar a carne dos meus ossos” (Graça Abundante). Ele fabricaria cadarços por doze anos para ajudar a sustentar a família.

Mas Bunyan não se arrependeria de sua decisão. Apesar de estar distante do conforto de sua família, não estava distante do conforto de seu Mestre. “Jesus Cristo … nunca foi tão real e visível como agora, escreveu o encarcerado Bunyan. “Aqui eu o vi e o senti de verdade” (Graça Abundante).

Com conforto em sua alma, então, Bunyan deu a si mesmo qualquer ministério que foi capaz. Ele aconselhou visitantes. Ele e outros prisioneiros pregaram uns para os outros nos domingos. Porém, mais do que tudo, Bunyan escreveu.  Na cadeia, com sua Bíblia e seu “Livro dos Mártires”, escrito por Foxe, em suas mãos, ele escreveu Graça Abundante. Lá também, enquanto ele trabalhava em outro livro, a imagem de um caminho e um peregrino surgiram em sua mente. “E assim foi que,” Bunyan escreveu num poema,

Eu, escrevendo sobre o caminho
E a carreira dos santos,  nesses nossos dias do Evangelho,
Repentinamente caí numa alegoria,
Sobre a jornada deles, e o caminho para a glória. (O Peregrino)

Assim começou o livro que seria em breve lido, não só na Bedford de Bunyan, mas em Sheffield, Birmingham, Manchester, Londres — e, afinal, muito além desses lugares. Os magistrados de Bedford tentaram silenciá-lo na cadeia. Na cadeia, Bunyan soou uma trombeta que alcançou os ouvidos de todo o Ocidente, e até do mundo inteiro.

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Marco do local onde Bunyan esteve encarcerado entre 1660 e 1672

A genialidade do livro de Bunyan, juntamente com sua imediata popularidade, tem muito a ver com o escritor ter escolhido usar uma alegoria. Como uma alegoria, “O Peregrino” opera em dois níveis. No primeiro, o livro é um celeiro de teologia puritana — “a Confissão de Fé de  Westminster com pessoas,” como alguém disse uma vez. Em outro nível, contudo, é uma fascinante história de aventura— uma jornada de vida e morte da Cidade da Destruição e da Cidade Celestial. O poeta Samuel Taylor Coleridge escreveria mais tarde, “Antes eu jamais poderia ter acreditado que o calvinismo* poderia ser pintado com cores tão requintadamente agradáveis” (Life, Books, and Influence). (NT.: creio que calvinismo aqui deve ser entendido como sinônimo de puritanismo e não como doutrina soteriológica específica; é muito comum chamar puritanos e reformados em geral de “calvinistas” pois a maioria o era/são, porém nem todos! você pode saber mais sobre isso clicando aqui: Nem todos os puritanos eram calvinistas)

Aqueles que leem “O Peregrino” encontram teologia vinda até deles em masmorras e cavernas, em lutas de espada e feiras, em amigos honestos e bajuladores duas-caras. Bunyan não apenas nos diz que nós devemos renunciar tudo por amor a Cristo; ele nos mostra Cristão deixando seus vizinhos e sua família, com os dedos tapando os ouvidos, clamando, “Vida! Vida! Vida eterna!” (O Peregrino). Bunyan não simplesmente nos instrui sobre nossos conflitos espirituais; ele nos faz ficar de pé no Vale da Humilhação com um “desprezível demônio . . . terrível de olhar” caminhando até nós. Bunyan não somente nos alerta sobre a sutileza da tentação; ele nos dá pés doloridos num caminho rochoso, então nos revela um caminho suave “do outro lado da cerca” — é mais confortável para os pés, mas é um caminho direto para um gigante chamado Desespero.

O elenco de personagens de “O Peregrino”  nos lembra que o caminho para a Cidade Celestial é estreito — tão estreito que poucos conseguem encontrá-lo, muitos caem no esquecimento. Aqui nós encontramos Temeroso, que foge quando vê os leões; Senhor Apegado-ao-Mundo, que cai na caverna; Falante, para quem a religião é da boca para fora; Ignorância, que procura entrar na cidade por seus próprios méritos; e muitos outros que , por uma ou outra razão, não perseveram até o fim.

E aqui está o drama da história. Bunyan, um fiel crente na doutrina da perseverança dos santos, recusou-se a tomar essa perseverança como garantida. Enquanto nós estamos no caminho, nós “não estamos de fora da mira do demônio”. Entre aqui e nosso [verdadeiro] lar, muitos inimigos aparecem na estrada. Entretanto, que cada peregrino tome coragem: “você tem todo poder no Céu e na terra do seu lado” . Se a graça nos trouxe até o caminho, a graça nos guardará em cada passo.

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Em dez anos desde sua data de publicação em 1678, O Peregrino já contava com onze edições e fez o latoeiro de Bedford se tornar um fenômeno nacional. De acordo com Calhoun, “Cerca de três mil pessoas foram para Londres ouvi-lo num domingo, e mil e duzentas apareceram para um culto em dia de semana durante o inverno” (Life, Books, and Influence).

Se os magistrados de Bedford tivessem permitido que Bunyan continuasse pregando, nós ainda hoje nos lembraríamos dele como o autor de dúzias de livros e um dos muitos iluminados puritanos. No entanto, ele não seria lido hoje em mais de duzentos idiomas, mas apenas no seu próprio. Pois “O Peregrino” é um trabalho literário fruto da prisão  — e contém a marca do confinamento de Bunyan. Sem a prisão, nós não teríamos o peregrino.

A história de Bunyan e seu livro, então, é mais uma ilustração de como os caminhos de Deus estão bem acima dos nossos (Isaías 55:8–9), e que os planos mais elaborados do diabo apenas servem para o progresso do peregrino de Deus (Gênesis 50:20). John Piper, refletindo sobre o encarceramento de Bunyan, diz, “Tudo que nós fazemos é obter sucesso — de forma dolorosa ou agradável.” (The Chief Design of My Life).

Sim, se nós deixamos nossa carga na Cruz, e agora nos encontramos no caminho do peregrino, tudo que nós fazemos é obter sucesso. Nós teremos sucesso seja festejando com os santos no Lindo Palácio ou lutando com Apollyon no Vale da Humilhação. Nós teremos sucesso seja em amizade com os pastores nas Montanhas Deleitáveis ou sangrando na Feira das Vaidades. Nós teremos sucesso mesmo quando caminharmos direto para o último rio, nossos pés buscando tocar o chão enquanto a água se eleva acima das nossas cabeças. Pois no fim do caminho está um príncipe que “ama tanto os pobre peregrinos, que não se pode encontrar igual a ele de leste a oeste” (O Peregrino ).

Na companhia desse príncipe está John Bunyan, um peregrino que agora se juntou à nuvem das testemunhas (Hebreus 12:1). “Depois de morto, ainda fala” (Hebreus 11:4) — e incentiva o resto de nós a seguir em frente.

Clássicos cristãos: Cristianismo puro e simples

“O fato de termos tornado o pecado obsoleto não diminuiu o sofrimento humano [e] a grande batalha religiosa não se trava em um campo de batalha espetacular, mas dentro do coração humano comum” – Kathleen Norris no prefácio de Cristianismo Puro e Simples.

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O livro “Mere Christianity” traz uma série de palestras que o professor C. S. Lewis concedeu à rádio BBC entre 1942 e 1944 com o objetivo de tratar da espiritualidade num momento tão sombrio para a história da humanidade como foi a Segunda Grande Guerra. Dividido em 4 seções que reúnem diversos tópicos como fé, graça, perdão, caridade, entre outros, o autor se dispõe a tratar sobre em que acreditam os cristãos e qual deve ser a conduta deste grupo, trabalhando  os pontos comuns entre as várias vertentes dessa religião, ou seja, o que os distingue do mundo (o que, segundo Lewis, é um abismo enorme comparado com as pequenas divergências internas e é o que deve ser levado em conta por ser muito mais importante do que disputas teológicas;  não que essas devam ser negligenciadas, mas você não vai ajudar ninguém a se converter se ficar se apegando a isso). Nesse tratado, encontramos de forma mais didática os assuntos que são debatidos em “Cartas de um diabo ao seu aprendiz” e que se encontram nas entrelinhas de “As crônicas de Nárnia” (li, infelizmente não lembro onde, que “Cristianismo puro e simples” é o que explica o verdadeiro conteúdo de Nárnia).

“Quando tiver se dado conta de que nossa situação é desesperadora, começará a compreender do que os cristãos estão falando.”

É um livro essencial para qualquer cristão, independente de ser protestante ou católico, mas deveria ser lido também por aqueles que não são cristãos, pois esclarece o que verdadeiramente é esse tal “cristianismo”. Tendo sido ateu até os 30 e poucos anos, Lewis sabia qual a visão que as pessoas de fora tinham sobre essa religião e possuía talento para dialogar com esse público, por isso foi um dos maiores apologetas de seu tempo. Nesse livro, o professor argumenta que ateus ou adeptos de outras crenças muitas vezes criam uma versão infantilizada do cristianismo e a tornam alvo de ataques ferrenhos, como um adulto atacando uma criança de 6 anos. Essa falácia do espantalho é baseada em fragmentos doutrinários analisados fora de contexto, o que deve ser combatido principalmente por que nem sempre é proposital (é intencional no caso de pessoas como Richard Dawkins, que têm como objetivo de vida prestar um desfavor ao bom senso e que, portanto, “se não conseguem entender um livro escrito para adultos, não deveriam falar sobre eles”). Porém, esclarecer sobre o que é a doutrina cristã é só a ponta do iceberg: “Cristianismo puro e simples” traz uma discussão sobre a condição e a natureza dos seres humanos, destrinchando temas relacionados à conduta social, à ciência, à política, entre tantas outras questões ainda pertinentes para o leitor religioso ou mundano do século XXI (tanto quanto foram para os gregos que deram origem à Filosofia no século V antes de Cristo).

“Toda regra moral existe para evitar um colapso.”

Lewis nos diz (assim como Scruton[1] e Peterson[2] depois dele) que o problema é NOSSO e que nós SOMOS o problema. Uma reavaliação das nossas vidas é a grande proposta por trás de “Mere Christianity”. Sobre a ética (tema que ocupa a maior parte do tratado em questão), o professor aponta o anseio humano por um padrão de comportamento que considere a dignidade do homem enquanto ser dotado de logos (razão e espírito) e como este padrão não só exige a aceitação de uma verdade absoluta como pressupõe o conhecimento da mesma, ou seja, ela é algo natural e universal, uma LEI que pode ser detectada (e não inventada), assim como foram detectadas as verdades da matemática e da biologia.

“Se quisermos alcançar qualquer felicidade nesse mundo, será necessário muito comedimento.”

Esse tema não é novo e nunca se esgota. Além dos autores que citei entre parênteses, posso mencionar também Aristóteles com sua obra “Ética a Nicômaco[3], que versa sobre as mesmas coisas que Lewis fala, apenas com outra perspectiva. A felicidade (ou eudaimonia, em grego, entendida não como sentimento, mas como estilo de vida caracterizado pela busca do bem) é encontrada na justa medida das coisas, algo que C. S. Lewis também apresenta em “Cartas de um diabo” ao distinguir os prazeres dos vícios. Treinar os hábitos da alma para praticar as virtudes é não só o que forma o bom cristão, mas o bom cidadão. Só que para aquele que crê em Cristo, o que importa é a transformação interior e não a mera prática de boas ações, sendo esta a principal preocupação do professor.

“Falhamos em adotar o comportamento que esperamos dos outros.”

C. S. Lewis quer incomodar o leitor e forçá-lo a sair da zona de conforto. Isso fica bem interessante quando ele começa a escrever sobre pecados e virtudes e nos mostra o quanto o que achamos saber sobre o significado das coisas não passa de uma vaga noção, uma sombra do que elas realmente são, sobretudo coisas como humildade e orgulho; a consequência dessa falta de profundidade de conhecimento sobre os conceitos nos leva ao erro pois não sabemos o que estamos buscando e quando pensamos ter atingido o melhor nível possível, estamos ainda mais distantes do objetivo almejado : “se você pensa que não está sendo prepotente, está, na verdade, sendo prepotente demais”.

“Se você sair em busca da verdade, poderá encontrar consolo no final: se sair em busca de consolo, não alcançará nem o consolo nem a verdade – apenas conversa mole e ilusões.”

O autor afirma que a realidade é bem mais densa do que aparenta e nos exorta a assumir responsabilidade, tecendo duras críticas aos que se abstém disso e procuram uma “solução” simplista, seja distanciando-se do cristianismo com argumentos débeis ou (pior ainda) remodelando a doutrina cristã de modo que esta corresponda a seus anseios pessoais. Mas o cristianismo é inflexível e o critério de sua validade é a verdade e não a agradabilidade. Muitas pessoas escolhem alternativas fáceis para não assumir riscos e lidar com as consequências de suas ideias. Lewis nos alerta não só que “a preguiça da mais trabalho no longo prazo” mas que “o modo covarde de agir é, ao mesmo tempo, também o mais perigoso. Os castelos de areia se desmancham e os indivíduos são jogados no Vazio existencial, daí a importância da construção de uma base sólida, como nos mostra a parábola da casa edificada sobre a rocha, no Evangelho de Mateus (7:24-29), tema que também é trabalhado pelo dr. Jordan B. Peterson na Regra nº 7  de  “12 regras para a vida” : vá atrás daquilo que tem significado, não daquilo que  é conveniente.

“Todo cristão deve se tornar um pequeno Cristo”

Por fim, como recado direto aos leitores cristãos, ele nos diz o óbvio, aquilo que deveríamos saber desde o princípio: ser cristão não é ser membro da igreja A ou B, mas ser membro da Igreja com I maiúsculo, o corpo de Cristo. Apesar de deixar claro que sempre falhamos na tentativa de fazer o que é correto, Lewis afirma que devemos continuar tentando. É a caminhada que nos aperfeiçoa, tal qual a postura do filósofo descrita por Sócrates no “Banquete”[4]: nunca será sábio, tampouco se contenta com a ignorância, ele é um ser que busca a sabedoria e aquilo que é bom e belo mesmo sabendo que nunca se tornará plenamente sábio ou bom ou belo. A diferença é que nós cristãos nos tornaremos bons e belos ao partilhar da glória de Cristo na vida eterna (e aqui corrijo a frase anterior: não é a caminhada que nos aperfeiçoa, é CRISTO que o faz). Uma vez que tenhamos isso em mente, consequentemente participaremos do que C. S. Lewis chama de “o bom contágio”, também conhecido como “a grande comissão” (mais conhecido ainda como “ide”) descrita no Evangelho de Mateus (28: 18-20), o que também nos permite ter uma visão mais clara do que Jesus representa e de qual é o nosso papel no cosmo quando passamos de criaturas para filhos de Deus.

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Esse livro apresenta 3 defeitos notáveis (o que me surpreendeu pois eu nunca antes tinha discordado de Lewis): no único capítulo ruim, o intitulado “Moralidade social”, ele confunde socialismo com livre-mercado (o que realmente não consegui entender como foi possível isso vindo de uma pessoa como o professor C. S. Lewis, mesmo que ele deixe bem claro nos parágrafos seguintes que aquilo não correspondia à realidade), faltou referências precisas (sabemos que ele baseia-se na Bíblia, em Agostinho, Kierkegaard, Chesterton, Leibniz, etc, mas ele não faz as citações adequadamente, quando muito menciona de maneira vaga; tudo bem que era para um público leigo, ainda assim, fundamentar de maneira mais profunda os argumentos é uma forma de instruir a todos) e é muito manso em alguns pontos, sobretudo no que diz respeito a ‘tratar os jovens de acordo com sua época’, pois ele diz para os leitores mais velhos serem menos rigorosos com os mais novos, pois ‘os tempos mudaram’, o que não faz o menor sentido já que o próprio Lewis estava falando não de um moralismo barato mas do ethos bíblico, isto é, um modo de vida determinado por leis divinas de forma que é imutável e serve de padrão para ser adotado por todos os seres humanos independente da época, da região e de qualquer outro fator. Claro que essa tolerância nos educa sobre gentileza e sobre ouvir o outro (o que também é uma das regras de Peterson em “12 regras para a vida”, que será tema do próximo texto), mas é bom lembrar o que John Wesley dizia : o que uma geração tolera, a outra aceita.

“Aspire ao Céu e terás a Terra de lambuja; aspire a Terra e não terás nenhum dos dois.”

Minha avaliação geral é de que este é um livro excelente, bastante instrutivo, cheio de analogias para explicar os argumentos de maneira acessível para qualquer público de modo a não deixar dúvidas sobre o que o autor queria expressar. É uma rica leitura que traz conhecimento de várias áreas como lógica e psicanálise sem perder a coerência e sem deixar de ser objetivo nos temas que se propõe a discutir. Tanto assuntos propriamente religiosos como o problema do mal, a salvação e a existência de Deus, como temas mais gerais, tais como legítima defesa e patriarcado, são abordados sem que o autor tenha medo de dizer a verdade sobre o que acredita, por mais inconveniente que esta possa parecer. Esse é maior triunfo dessa obra: a coragem de dizer a verdade. O cristianismo é apresentado como puro, ou seja, sem maquiagem, e simples, quer dizer, sem rodeios para confundir o leitor, deixando clara a conclusão de que não é nem um pouco fácil ser cristão: “se você está considerando a possibilidade de se tornar cristão, devo alertá-lo para o fato de que está embarcando em algo que vai exigir você por inteiro.” Entretanto, em cada linha fica nítido o quão preciosa e animadora é a vida com e para Cristo. É uma obra que urge o leitor a pensar e tomar uma decisão:

“Dessa vez Deus virá sem disfarce; algo tão impressionante que causará reações de amor ou horror irresistível a toda criatura. Então, será tarde demais para escolher o seu lado. Não adianta dizer que você decidiu deitar quando já é impossível ficar de pé. Essa já não será hora de escolher; será hora de descobrir de que lado realmente nós escolhemos ficar. […] Deus está delongando para nos dar essa chance. E ela tem prazo de validade. É pegar ou largar.”

Espero que todos vocês alegrem-se nessa Páscoa ao lembrar o verdadeiro significado dela e comemorem o fato de que (nas palavras de C. S. Lewis) “o Homem reviveu“.

PS: A série “Clássicos cristãos” será seguida de “O peregrino” (John Bunyan) e “Confissões” (Agostinho de Hipona). Quem tiver alguma sugestão para essa coluna, pode me mandar mensagem pelo Instagram (@samara_glicia) ou fazer um comentário aqui mesmo.

POSTAGENS RELACIONADAS:  Cartas de um diabo a seu aprendiz , A filosofia para o cristão, A bruxa e o demônioO verdadeiro presente, Deus é vermelho.

… Worthy is the Lamb who was slain. Worthy is the King who conquered the grave…

(Digno é o cordeiro que foi morto. Digno é o Rei que venceu a morte.*)

Frase da música  This is amazing grace  / a imagem abaixo é a música  Quebrantado , cuja versão original é Sweetly Broken

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REFERÊNCIAS:

LEWIS, Clive S. Cristianismo Puro e Simples. Thomas Nelson Brasil: Rio de Janeiro, 2017.

Bíblia Sagrada

[1] SCRUTON, Roger. Tolos, fraudes e militantes. Record: Rio de Janeiro, 2018.

[2] PETERSON, Jordan B. 12 rules for life. Allen Lane: London, 2018.

[3] ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. 6º reimpressão. Martin Clarent: São Paulo, 2013.

[4] PLATÃO. O banquete. L&PM: Porto Alegre, 2012.

* em tradução livre pois acho que em português isso soa melhor do que “Digno é o Rei que conquistou a sepultura”.