Frankenstein, ou o Prometeu moderno (Mary Shelley)

Título original : Frankenstein, or the modern Prometheus

Primeira edição: 1818

Autora: Mary Wollstonecraft Shelley, nascida Godwin (1797-1851)

Formato: divide-se em 3 livros menores e traz tanto o formato epistolar (as cartas que o capitão Walton envia à irmã narrando os acontecimentos presentes), quanto a narrativa clássica em primeira pessoa por parte de Viktor Frankenstein, falando do passado (criação do monstro e sua relação com ele)

Gênero: romance gótico

Marco literário: é considerado o embrião da ficção científica

Influências: romantismo inglês (especialmente o poeta Samuel Taylor Coleridge e sua forma de usar elementos sobrenaturais), Rousseau e Locke (sobre a natureza humana e a aprendizagem), Burke (espírito anti-revolucionário), experimentos científicos da época (eletricidade e galvanismo)

RESUMO:

a) o capitão Walton manda cartas à sua irmã sobre a situação em que se encontra; Viktor Frankenstein chega até seu navio, fugindo do monstro

b) Viktor Frankenstein passa a narrar a história:

  1. o doutor Viktor Frankenstein cria o monstro e foge horrorizado com sua criação
  2. o monstro aprende a viver sozinho e decide vingar-se do criador
  3. o monstro persegue Frankenstein e sua família

c) o monstro chega até o navio; o capitão volta a contar os acontecimentos à sua irmã em cartas

Depois do período Puritano, a literatura inglesa experimentou uma fase de racionalismo e neoclassicismo. Pouco depois, em reação a isso, começou a despontar uma literatura de teor romântico: valorização dos sentimentos, da natureza e da metafísica. Os autores dessa época foram influenciados pela crítica ao Iluminismo e pela filosofia subjetivista, dando especial destaque à imaginação.

Entre os pré-românticos, podemos destacar Robert Burns e William Blake, que apresentaram temas nacionais e religiosos que viriam a ser muito discutidos no Romantismo Inglês já mais desenvolvido. Dois poetas se sobressaíram como principais expoentes dessa corrente literária: William Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge. Eles eram amigos e chegaram a escrever juntos uma coletânia de poesias chamada “Lyrical Ballads” (sobre a qual falarei melhor depois, num post específico sobre esses poetas). Enquanto Wordsworth falava da natureza e da vida cotidiana, Coleridge tratava dos sentimentos e do sobrenatural. Samuel T. Coleridge era amigo de William Godwin, o pai da Mary Shelley e um influente filósofo ateu. Frequentava sua casa e chegou a recitar seus poemas lá, tendo sido apreciado pela pequena Mary Wollstonecraft Godwin.

Seu mais importante poema, considerado um dos maiores épicos da literatura em língua inglesa, é “The rime of the ancyent marinere” (na grafia original), que conta a história de um marinheiro que foi amaldiçoado por matar um albatroz, uma ave de bom agouro na tradição britânica. Alguns desses elementos foram “copiados” por Mary Shelley mais tarde.

Outros poetas de destaque foram os chamados “poetas do Lago” (pois viviam na região do Lake District), a saber, o lorde George Gordon Byron, Percy Bysshe Shelley (que viria a se casar com Mary Godwin) e John Keats. Estes foram influenciados pela cultura grega, mas não da mesma forma que os neoclássicos, pois se inspiravam mais nos elementos mitológicos e culturais do que na razão e na filosofia clássica. Percy B. Shelley chegou a traduzir Platão e escreveu “Prometheus unbound” (Prometeu desacorrentado), o que certamente influenciou Mary.

Além do Romantismo, outra obra que excerceu influência na construção de “Frankenstein” foi “The castle of Otranto” (O castelo de Otranto, 1764), escrito por Horace Walpole, conde de Oxford. Esse livro é considerado o primeiro romance gótico e foi um sucesso (contrariando as expectativas do autor, que fingiu ser o tradutor dessa história, que seria um manuscrito napolitano datado de 1529, pois teve medo da recepção que teria). É chamado “gótico” em referência à arquitetura gótica, mais sombria, em oposição à arquitetura clássica greco-romana e neoclássica. O próprio Walpole vivia num castelo gótico no sudoeste de Londres, chamado Strawberry Hill. O cenário da literatura gótica, no entanto, não se restringe aos castelos e catedrais. Qualquer local lúgubre e decadente, onde se possa desenvolver uma história que envolva medo, incerteza, angústia e terror, serve, como podemos verificar em “Frankenstein”. Mas o amor também se faz presente nessa literatura, ainda que de forma incomum, como vemos em “Drácula” (Bram Stoker, 1897).

A melhor edição em português de “Frankenstein” é, sem dúvida, a da Companhia das Letras/Penguin, que conta com artigos de apoio, é baseada na edição de 1831 (com revisões da Mary Shelley), texto de Percy B. Shelley e dois contos de amigos do casal: “Um fragmento” (Lord Byron) e “O vampiro: um conto” (dr John William Polidori). Esses contos foram escritos durante uma viagem que Byron, o dr Polidori (seu médico) e o casal Shelley fizeram para a Suíça e lançaram entre si o desafio de escrever um conto de terror. “Frankenstein” é fruto tardio desse desafio.

O segundo título do livro, “O Prometeu moderno”, é uma referência ao mito grego de Prometeu,o titã que teria roubado o fogo dos deuses para dar aos homens e foi castigado por Zeus, que o acorrentou numa rocha para ter o fígado devorado por uma ave todos os dias eternamente – ou até que peça perdão. Vale a pena ler a tragédia “Prometeu acorrentado” (Ésquilo) para entender melhor o significado desse mito. Viktor Frankenstein desafia Deus e até a moral secular ao tentar reconstituir a vida de forma tão sombria. A obra de Mary Shelley fala do que hoje chamaríamos de bioética e discute nas entrelinhas sobre moral, salvação da alma, livre-arbítrio e responsabilidade.

Apesar do grande potencial filosófico apresentado, ela não desenvolve tão bem esses conceitos, apresenta uma visão ingênua de alguns pontos (como a questão do mal ser apenas consequência da rejeição) e se baseia em algumas teorias questionáveis sobre educação (Emílio, de Rousseau, foi uma obra que ela leu várias vezes). Alguns momentos são empolgantes, mas a maior parte da narrativa é cansativa. No entanto, essa obra é um diamante bruto. Tem muito o que dizer e instiga o leitor a refletir sobre diversos temas. Não deve deixar de ser lida!

Vale também notar que é um livro apoiado na literatura clássica (greco-romana) e na literatura inglesa, especialmente em John Milton. Inclusive alguns livros são mencionados pelo monstro de Frankenstein. Isso mostra como a literatura clássica é essencial para termos uma compreensão maior de várias obras de arte (seja literatura, cinema, artes plásticas, etc) e termos uma perspectiva mais ampla sobre a vida e a natureza humana, pois desde Homero, esses temas estão sempre presentes e continuam atuais.