Igreja e Estado: o caso John MacArthur x Governo da Califórnia

O pastor John MacArthur está desafiando as ordens de quarentena do Estado da Califórnia. A igreja, que inicialmente seguiu todas as regras, deveria permanecer ainda mais tempo fechada durante a pandemia do vírus chinês, segundo os decretos locais. Em entrevista a Billy Hallowell, o pastor afirmou o seguinte: “Eu estou nesse lugar há 50 anos. Essa igreja (Grace Community Church em Sun Valley) tem 63 anos e nunca antes recebeu ordens do governo para fechar. Então, quando chegaram aqui com esse mandato, foi algo tão raro e estranho que nós escutamos e obedecemos.” Disse ainda que “essa não é a América que eu conheço […] é apenas uma realidade bizarra.”

DON’T TREAD ON US !

Ele afirmou que devido às previsões alarmantes, qualquer pessoa com bom senso faria uma pausa para analisar melhor a questão e garantir a segurança de todos. Então a igreja começou a transmitir suas atividades pela internet. MacArthur alegou que os políticos e demais envolvidos na promoção do lockdown perceberam que suas previsões não se concretizavam: “O número de mortos na Califórnia foi 8500. Metade eram pessoas com mais de 80 anos e que tinha comorbidades.” Isso corresponde a 0,02% da população estadual. O pastor continuou: “Me parece que 99,98% das pessoas estão bem o suficiente para frequentarem a igreja. E as pessoas estão implorando para reabrir as igrejas (buscando conforto) por causa do medo – e claro que a igreja é o centro da vida daqueles que amam ao Senhor.” Quando a igreja reabriu, cerca de 3000 pessoas compareceram na primeira semana e 6000 na segunda. Apesar das ameaças do governo, MacArthur não mudou de idéia. O pastor falou que o governo tem certa autoridade concedida por Deus, mas essa autoridade tem limites e não tem poder quanto aos assuntos que dizem respeito ao Reino de Deus.

Enquanto algumas pessoas têm criticado o fato de que a igreja violou ordens governamentais e permitiu aglomeração, outros debatem a questão de até onde o governo pode interferir na vida dos indivíduos. MacArthur acredita que o governador Gavin Newsom (Partido Democrata) não tem autoridade para definir igrejas como “não-essenciais”. Nas palavras do pastor, o que está acontecendo é uma “discriminação intencional contra o cristianismo bíblico e a igreja” e fez a seguinte declaração: “O governador disse que igrejas não são essenciais. Algumas coisas são essenciais: lojas de bebidas, clínicas de aborto …  mas as igrejas não. Com base na Constituição, o governador não tem autoridade para dizer o que é essencial. Ele não tem autoridade constitucional para dizer que a igreja não é essencial.” O caso foi parar na Justiça.

No sermão do dia 09 de agosto, antes da decisão do juiz, o pastor chamou o culto de “protesto pacífico”. Disse que “com base na Palavra de Deus, essa igreja é pró-vida, pró-família, pró-lei e ordem e pró-Igreja do Senhor Jesus Cristo” e pregou sobre 1 Coríntios 1, que diz “ a loucura de Deus é mais sábia do que a sabedoria dos homens e a fraqueza de Deus é mais forte do que a força dos homens.”.Alguns trechos da pregação foram destaque na impresa, tais como:

“Nós estamos aqui por que obedecemos a Deus e por que Ele nos deu ordens, não de uma forma esotérica e pessoal, através de visões e sonhos ou vozes do Céu, mas através da Bíblia. A Grace Community Church é definida por seu compromisso com as Santas Escrituras. Para o verdadeiro cristão, a Bíblia é o maior tesouro.[…] Se esse púlpito não fosse lugar de proclamar a Palavra de Deus, esse lugar começaria a esvaziar. É por isso que vocês estão aqui, está claro para mim que vocês amam a Palavra de Deus, por isso estão aqui.[…] Nós não estamos espalhando nada mais do que o Evangelho”.

Donald Trump encarregou uma de suas advogadas e conselheiras de campanha, Jenna Ellis, de se juntar aos advogados da igreja e cuidar do caso. Enquanto o governo estadual tentava impor uma ordem de restrição para forçar o pastor a parar com os cultos presencias – e principalmente com os louvores durante os cultos, o juiz James Chalfant, da Suprema Corte de Los Angeles, concordou com MacArthur que a igreja está constitucionalmente protegida pelo direito de livre expressão religiosa.  De acordo com Ellis, essa foi uma vitória histórica. Ela postou no Twitter: “ a primeira Corte da Califórnia a reconhecer que #Igrejaéessencial.” Ela disse ainda que a Grace Community está “ao lado da lei contra a tirania sem limites daqueles que estão desafiando o juramento que fizeram ao assumir seus cargos definidos pela Constituição para preservar e proteger o direito da livre expressão religiosa.”

Os advogados da igreja argumentaram que as restrições impostas pelo Estado não tinham fundamento e não eram razoáveis. A igreja também concordou em manter certa distância entre os membros e fazê-los usar máscaras até que tudo seja resolvido. A audição final para resolver esse caso será no dia 4 de setembro, pois até aqui apenas foi decidido que MacArthur estava certo quanto ao governo estadual não poder definir o que é ou não essencial, ou seja, o caso é federal agora. Os advogados também destacaram que não houve ordem de restrição contra os grupos que organizaram manifestações recentemente contra “brutalidade policial e racismo”, tais como Antifa e Black Lives Matters, que promoveram não apenas aglomerações, mas também roubos e depredação de patrimônio público e privado.

John MacArthur declarou:  “Estou bastante grato que a Corte permitiu nossas reuniões e nas próximas semanas estaremos felizes em respeitar as exigências que o juiz fez para que possamos nos encontrar. A reivindicação é de que a igreja possa permanecer aberta e servindo as pessoas. Isso também nos dá a oportunidade de mostrar que não estamos tentando mostrar rebeldia nem loucura, mas vamos ser firmes em defender nossa igreja de restrições inconstitucionais e sem sentido.”  

“Nós preferimos obedecer a Deus do que aos homens. Nós seremos fiéis ao Senhor Deus e deixaremos os resultados para Ele. O que quer que aconteça, será o que Ele permitiu acontecer. Mas Ele estará ao nosso lado por que nós vamos ser obedientes e fiéis à sua Palavra. Não vamos nos ajoelhar perante César. O Senhor Jesus Cristo é o nosso Rei.”

Já fiz resenha de um livro do Rev. John MacArthur: Apologética 02 – Por que crer na Bíblia?

Acompanhe nas redes sociais:

Instagram – Ben Shapiro Brasil | Juventude Conservadora do Brasil | JCB Mulher | Discurso sem método | Meu perfil pessoal |

Outras redes – Twitter | Facebook | Facebook pessoal |Parler |Letterboxd |Filmow

MATÉRIAS ORIGINAIS:

https://www.christianpost.com/news/not-the-america-ive-known-pastor-john-macarthur-doubles-down-on-covid-19-defiance-238361/

https://www.christianpost.com/news/john-macarthurs-church-can-worship-sunday-with-singing-no-attendance-cap-judge.html

https://www.christianpost.com/news/john-macarthur-sunday-service-welcome-to-the-peaceful-protest-preaches-on-obedience-to-scripture.html

Quem vigiará os vigilantes?

A liberdade de expressão no Brasil caiu junto com o Império. Da “República café-com-leite” até o Regime Militar de 1964, o que deveria ser um direito fundamental para qualquer cidadão, foi reprimido de forma criminosa. Tivemos inúmeros casos de pessoas que foram censuradas, presas, torturadas e assassinadas por que se opuseram ao governo da época – mas não com atos de violência explícita e sim com palavras que foram consideradas subversivas, como se coubesse ao Estado “proteger” os cidadãos de PALAVRAS.

Um dos casos mais notórios foi a história do jornalista Vladimir Herzog, representante da resistência brasileira durante a década de 1960. Após um período de exílio na Inglaterra, voltou ao Brasil e acabou sendo vítima de tortura e extermínio apenas por usar a imprensa para expor ideais que contrariavam os do poder vigente, destino similar ao de seus avós, judeus perseguidos pela política genocida do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores da Alemanha.

image_processing20200201-29235-1qz1gvu

Sua morte foi divulgada como suicídio na sede do DOI-CODI, para onde tinha sido levado para interrogatório por ligação com ativistas comunistas, mas esse relato foi questionado e, mais tarde, o legista responsável pelo caso confessou que assinou a autópsia sem analisar o corpo; em 2013 um novo atestado de óbito confirmou que a causa foi os maus tratos sofridos. Na época, a notícia causou comoção pública e inspirou atos de protesto e até mesmo canções, como “O bêbado e a equilibrista” (João Bosco e Aldir Blanc, 1972), que menciona Clarice, a esposa de Vladimir Herzog, e diz ainda que “uma dor assim pungente não há de ser inutilmente”, representando o anseio por liberdade e respeito aos direitos humanos em dias vindouros.

Mas com a Nova República vieram novos problemas, entre os quais o domínio de uma ideologia política que sutilmente subornava e manipulava a imprensa e tentava inibir a capacidade de ação de seus opositores e cujos tentáculos se estenderam aos Três Poderes e desenvolveu toda uma estrutura de sustentação nas mais diversas áreas do Estado, inclusive saúde e educação.

Com o avanço das redes sociais e a ascensão da mídia alternativa, esse poderio viu-se ameaçado. Cada vez mais pessoas passaram a ter acesso à internet e aos veículos de comunicação como o WhatsApp, que permite divulgação de textos, áudios e vídeos com mensagens de conteúdo difícil de verificar e controlar.  Isso, claro, representa uma ameaça ao poder estabelecido, pois incita questionamentos que abalam a confiança das pessoas na autoridade, o que levou os agentes do Estado a pensar em formas de frear esses mecanismos. Podemos citar como exemplos as alegações de “discursos de ódio”, isto é, palavras que podem ofender determinados grupos, e “fake news”, as notícias falsas que podem enganar a população.

Quando Jair Bolsonaro assumiu a presidência do Brasil em 2019, muitas pessoas temeram o aumento das violações das liberdades individuais, em parte devido ao apoio que o mesmo demonstrou ao Regime Militar. No entanto, talvez pela primeira vez na história desse país, são os partidários do Governo que têm sido perseguidos. Muitos tiveram material confiscado, redes sociais bloqueadas e alguns até foram presos por expressar opiniões e fazer manifestações contra alguns órgãos do Estado. O autoritarismo veio de onde menos se esperava, enquanto a defesa da liberdade tem sido empreendida por aquele que foi chamado de fascista: o Poder Judiciário tem encontrado meios de tolher direitos dos cidadãos e o Poder Executivo tem apoiado a manifestação de diferentes ideais e o desenvolvimento de uma imprensa livre e séria, comprometida com a verdade e não com um Partido, visto que o mesmo respeita jornalistas que o apoiam mas tecem críticas ao seu comportamento, e não autorizou nenhum ato de censura contra os veículos que o atacam constantemente, apenas utiliza de suas redes sociais e seu próprio direito de se expressar para mostrar o seu lado e criticar seus opositores – apenas PALAVRAS de ataque, nenhuma ação de violência ou ato de censura.

Recentemente, o Presidente da República entrou com uma ADIn (Ação Direta de Inconstitucionalidade) no Supremo Tribunal Federal, de acordo com artigo 5 da Constituição, para restabelecer a liberdade de expressão daqueles que tiveram suas redes sociais bloqueadas apenas por compartilhar informações e expor opiniões.

Ainda que algumas mensagens de fato configurem-se como discursos ofensivos e especulações infundadas, qual o direito que o Estado, em qualquer um de seus poderes, tem de censurar um indivíduo por seu discurso, quando a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 5º inciso IX, garante que “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”. Não se trata de grupos revolucionários que pegam em armas e praticam depredação de patrimônio público e violência física contra outros indivíduos. São cidadãos que expressam sua indignação com determinadas atitudes.

Aqueles que deveriam ser os responsáveis por fazer a Constituição ser soberana no país e obedecida por todos, veem-se acima da mesma e entendem que devem regular o discurso público. Estamos um passo de viver uma ditadura de moldes orwellianos, onde o Estado se encarregar de definir a linguagem, a verdade e as relações humanas, com a desculpa de que para proteger o cidadão de si mesmo e dos outros, é preciso vigiá-lo. Independente de uma pessoa ser de Direita ou de Esquerda, ela deve se preocupar com esse perigoso autoritarismo e deve valorizar o trabalho daqueles que, assim como Vladimir Herzog, deram a vida por essa causa. Se nada for feito, todos sofrerão com isso. Qualquer um, por um mero descuido, pode ser o próximo. Fica a pergunta: quem vigiará os vigilantes?

OBS.: a frase sed quis custodiet et ipsos custodes?” (quem vigia os vigilantes) encontra-se na obra “Sátiras”, do pensador romano Juvenal

Dicas de filmes:

Watchmen (SNYDER, 2009)

Minority Report (SPIELBERG, 2002)

Equilibrium (WIMMER, 2003)

1984 (RADFORD, 1984)

Fontes:

http://memoriasdaditadura.org.br/biografias-da-resistencia/vladimir-herzog/

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/historia-vida-morte-vladimir-herzog.phtml

Acompanhe nas redes sociais:

Instagram – Ben Shapiro Brasil | Juventude Conservadora do Brasil | JCB Mulher | Discurso sem método | Meu perfil pessoal |

Outras redes – Twitter | Facebook | Facebook pessoal |Parler |Letterboxd |Filmow

A necessidade do cavalheirismo

O dia 15 de julho é considerado o “dia do homem” (por razões que eu desconheço). Inspirada numa história que vi nas redes sociais e em coisas que tenho lido, vou aproveitar a data para escrever esse texto refletindo sobre o que o homem deveria ser e o que tem sido feito dele.

ea2842039050c36b2204ce57b8a70529
The Accolade, Edmund Leighton, 1901

Clive Staples Lewis, durante a Batalha da Inglaterra (1940), escreveu um texto chamado A necessidade do cavalheirismo. Não poderia ter tido momento mais oportuno para destacar isso: a guerra, de fato, foi vencida por cavalheiros. E ninguém poderia escrever melhor sobre isso do que um professor de literatura inglesa medieval.

Em inglês, a palavra usada por Lewis é chivalry, que também significa “cavalaria”. Em português, fazemos uma distinção entre cavaleiro/cavalheiro (em inglês também, como no caso de knight e gentleman, mas o motivo é outro, não vou entrar em detalhes sobre a invasão normanda agora), mas a ideia é realmente remeter à Idade Média: o cavaleiro é aquele que representa o homem que pode até não ser nobre de berço, mas possui nobreza de espírito, pois é capaz de agir de forma corajosa e altruísta.

Em seu texto, ao citar Le Morte D’Arthur, Lewis destaca as palavras que Thomas Malory usou para descrever sir Lancelot: meekest e sternest, isto é, “o mais dócil” e “o mais firme”; isso resume como deve ser um cavaleiro/cavalheiro (vou usar apenas cavaleiro daqui em diante): como dito por Lewis, “um homem de sangue e aço, acostumado a ver cabeças esmagadas” (e talvez esmagava ele mesmo algumas), mas também “gentil e modesto”, capaz até de chorar, como fez Lancelot. O professor continua dizendo: “Talvez você me pergunte ‘qual a relevância disso para o mundo moderno?’ É intensamente relevante. Talvez seja ou não seja praticável – os homens medievais notoriamente falharam em obedecer isso – mas certamente é algo prático, tanto quanto seria prático para um homem no deserto encontrar água.”

O código dos cavaleiros (chilvary code) era composto por diretrizes militares e orientações de conduta social, algo tipicamente britânico (ainda que tenha se popularizado na cultura ocidental como um todo e encontrasse semelhança no ethos de outras ordens de cavalaria da Europa continental), pois mesclava o ideal de guerreiro saxão (como vemos na lenda de Beowulf, um homem forte e destemido) com o ideal de homem cristão (aquele que procura ser virtuoso como Cristo).

É interessante notar que a distribuição de papéis sociais para homens e mulheres tem por base a biologia e a própria natureza humana; se fosse uma “construção social” ou uma “imposição religiosa”, povos tão diferentes não teriam chegado à uma conclusão tão similar. Claro que existem exceções, mas de modo geral, é natural que a mulher seja mais física e emocionalmente frágil (em relação ao homem, não é o mesmo que dizer que a mulher é sempre fraca e o homem é sempre forte, atenção às palavras, linguagem é tudo) e por tanto voltada às atividades domésticas, o cuidado com o lar e com as pessoas, enquanto é natural que o homem seja provedor e protetor. Complementarismo. Isso é evidente e tem feito a humanidade funcionar de forma satisfatória (com seus defeitos, claro, mas com sua glória e beleza também) por mais de 5 mil anos.

O chivalry code está bem representado na literatura inglesa, sobretudo no Ciclo Arthuriano, série de contos que envolvem o Rei Arthur e Os Cavaleiros da Távola Redonda, personagens “semi-históricos” (provavelmente tem um fundo de verdade, como algumas pesquisas indicam). Em livros como “A morte de Arthur” (sir Thomas Malory) ou “Sir Gawain e o cavaleiro verde” (adaptado por Tolkien), vemos que era cobrado do homem que este prezasse pela bravura, lealdade (ao país, a Deus, à família, aos companheiros, à mulher amada, aos ideais, a si mesmo) e a honra (cumprir o dever, não trapacear, respeitar até mesmo os inimigos). Ao contrário do que dizem certos grupos ideológicos, não era bem visto que o homem adotasse comportamentos inadequados como a crueldade, a preguiça, a infidelidade, entre outros; também era sobre ele que recaíam as atividades mais penosas e perigosas, além de não ser tido como merecedor primário de conforto, sendo mais valoroso aquele que privava-se de luxos e os cedia aos mais frágeis como crianças, mulheres e idosos.

Leighton-God_Speed!
God Speed, Edmund Leighton, 1900

Com a queda e/ou reestruturação das monarquias européias depois da fatídica Revolução Francesa, o código dos cavaleiros perdeu sua relevância, tendo seu esquecimento sido proporcional ao avanço das ideias progressistas, especialmente do feminismo, que tentam apagar da história qualquer traço da moral judaico-cristã e até mesmo do heroísmo pagão que estabelece um ideal de homem (no sentido específico da palavra), o que é não apenas lamentável, mas também insano, já que, como vimos, trata-se de algo instintivo e mudar isso é tentar alterar artificialmente a natureza humana.

Como se já não fosse óbvio que o resultado seria desastroso, podemos hoje em dia verificar as consequências desse experimento social que ganhou força da década de 1960 pra cá (indico os livros “O outro lado do feminismo” e “Feminilidade Radical”, depois vou escrever sobre eles também). Tanto homens quanto mulheres têm sido educados desde cedo (não só nas escolas, também na cultura) a ignorar os “ultrapassados e opressores estereótipos de gênero”. As meninas devem se igualar aos homens e os homens devem inibir seus instintos. O produto dessa inversão de valores é uma geração marcada pela depressão e pela ansiedade como nenhuma outra na história humana, nem mesmo as gerações das duas maiores guerras (bem pelo contrário, estas foram gerações extremamente antifrágeis), tem aumentado o número de suicídios (especialmente entre homens), de divórcios, de violência doméstica (também praticada por mulheres, vou deixar uns vídeos sobre isso no fim do post), sem contar as pessoas que se veem confusas quanto ao próprio gênero.

Claro que não existem seres humanos perfeitos, mas isso não significa que devemos extinguir os ideais, muito pelo contrário: a imperfeição de nossa natureza e nossa tendência de ceder aos caminhos mais fáceis torna necessário o estabelecimento de padrões que nos façam visualizar o melhor de nós mesmos; os estereótipos de mulher ideal ou homem ideal servem para que vejamos o que há de melhor nos seres humanos e tentemos alcançar esse ideal, nos aperfeiçoando durante a caminhada, ainda que saibamos que nunca atingiremos plenamente esse objetivo. É como a figura do filósofo descrita por Platão na obra O Banquete: o filósofo é aquele que não se contenta com a ignorância, ele aspira ao que é belo e bom e sábio, ainda que saiba que nunca será bom nem belo nem sábio, de modo que faz isso por querer elevar seu espírito e viver uma vida virtuosa.

Sobre o cavaleiro, Lewis diz que ele não é fruto da natureza humana, e sim uma obra de arte, pois une de forma bela duas tendências humanas: o cavaleiro é valente sem ser bárbaro, e doce sem ser covarde. Não é natureza pura, nem natureza alterada: é natureza educada. Como os veteranos de guerra que lutaram e não perderam o coração, por que foram combater não pela ação da batalha, mas por ter em mente o amor ao país, à família, à liberdade e à tradição. Em As Duas Torres, Tolkien diz:

“A guerra deve acontecer, enquanto estivermos defendendo nossas vidas contra um destruidor que poderia devorar tudo; mas não amo a espada brilhante por sua agudeza, nem a flecha por sua rapidez, nem o guerreiro por sua glória. Só amo aquilo que eles defendem: a cidade dos homens de Númenor, e gostaria que ela fosse amada por seu passado, sua tradição, sua beleza e sua sabedoria presente.”

Mas nem tudo está perdido. A natureza humana não pode ser realmente alterada – mesmo que por vezes isso pareça verdadeiro, é apenas uma ilusão, fruto de adestramento. Recentemente, o garoto Bridger Walker, de 6 anos, arriscou a vida para salvar a irmã mais nova de um ataque de cachorro. O menino ficou bastante ferido e teve que passar por uma cirurgia. Quando perguntado, ele falou que se alguém tivesse que morrer, que fosse ele. Numa sociedade em que somos ensinados a nos valorizar acima de tudo, uma auto-estima que mais parece egoísmo, é surpreendente ver alguém (e alguém tão pequeno) agir de forma altruísta e tão corajosa. Walker é realmente digno de ser chamado de herói, um verdadeiro cavaleiro.

nicolenoelwalker_107930355_206412717348232_9056260175977911310_n
créditos: Nicole Walker

História de Bridger Walker : https://revistamarieclaire.globo.com/Noticias/noticia/2020/07/menino-salva-irma-de-ataque-de-cachorro-e-fica-com-rosto-desfigurado.html

Padre Paulo Ricardo sobre cristãos e armas : https://www.youtube.com/watch?v=RnTJiLgDlNM

Ana Campagnolo sobre violência contra homens: https://www.youtube.com/watch?v=BjpPrk3u2AM

Palestra “Encontrando a feminilidade bíblica em Nárnia”: https://www.youtube.com/watch?v=mCF9DW00_EU

Carlson e Peterson sobre o declínio da masculinidade: https://www.youtube.com/watch?v=coakHNk_vPQ

 

Acompanhe nas redes sociais:

Instagram – Ben Shapiro Brasil | Juventude Conservadora do Brasil | JCB Mulher | Discurso sem método | Meu perfil pessoal |

Outras redes – Twitter | Facebook | Facebook pessoal |Parler |Letterboxd |Filmow

Apologética 02: Por que crer na Bíblia (John MacArthur)

“É preciso buscar nas Escrituras a regra precisa tanto do pensar quanto do falar, pela qual se pautem não apenas todos os pensamentos da mente, como também as palavras da boca”. – João Calvino (comentário à Confissão de Fé de Westminster)

20190909_071451_0[1]

Foi difícil escolher por qual livro começar e talvez “Não tenho fé suficiente para ser ateu” deveria ter sido o primeiro, mas vocês sabem o quanto eu gosto do pastor John MacArthur, então não poderia não começar com “Por que crer na Bíblia”. Tem outro motivo também, que é o fato desse livro tratar sobre a organização do estudo bíblico mais do que de apologética em si, e isso é importante, pois você não pode defender algo que você não conhece. Dá desgosto o tanto que eu vejo de cristão confundindo ditado popular com versículo bíblico… Então estudar a Bíblia é o ponto mais importante e tem que vir antes da Filosofia, da Ciência e do que quer que seja.

“As verdades atemporais da Bíblia nunca se tornam obsoletas”

Foi o primeiro livro do MacArthur que eu li e imediatamente gostei muito da escrita precisa e dinâmica dele, com alto nível acadêmico ao mesmo tempo em que é perfeitamente compreensível. Quem me conhece pessoalmente sabe que eu não paro de falar desse livro (está no meu TOP 5 junto com “12 Regras para a vida”,“Como ser um conservador”, “Cristianismo Puro e Simples” e “Cartas de um diabo a seu aprendiz”) e sempre digo que deveria ser usado nas escolas dominicais por ser bem mais interessante e útil do que aquelas revistinhas. Algumas são boas, admito, mas isso aqui é bem mais educativo e vai ajudar muito mais quando a pessoa tiver que defender sua fé. Aliás, esse livro tem umas perguntas e uns versículos-chave no final de cada capítulo, então ele seria realmente bem prático para essa finalidade.

“Minha esperança é que, se você é cristão, este livro não só aumente sua confiança na autoridade e confiabilidade da Palavra de Deus, mas também o motive a se tornar um estudante e amante da Bíblia. E se você ainda não é cristão, confio que você considerará seriamente as pretensões da Bíblia com um coração aberto.”

A obra se divide em duas partes: “Podemos realmente crer na Bíblia?” e “O que a Palavra de Deus faz por nós?”, além de ter a “Declaração de Chicago sobre a inerrância bíblica” como apêndice (documento que MacArthur cita e explica durante todo o livro). No começo, ele trata das razões pela quais podemos confiar na Bíblia como documento histórico e como palavra revelada de Deus, abordando questões como erros de tradução, definição do cânon e o que significa a inspiração divina. No entanto, o que mais chamou minha atenção é a crítica que ele faz ao “cristianismo progressista”. É um tom diferente de “Não tenho fé” por que o ponto principal não é exatamente convencer quem está de fora e sim resgatar a importância integral e exclusiva da Bíblia como autoridade e fundamento da fé cristã (inclusive, aproveito para indicar “O resgate da fé cristã” de Carl Henry, mas não vou fazer resenha por que é um pouco complicado; não que eu esteja desencorajando a leitura, é que é o tipo compreensível, porém difícil de explicar).

20190909_071546_0[1]

“A vida preenchida pelo Espírito não é nenhum mistério; é simplesmente a consciência de estar em Cristo.”

Na segunda parte, a discussão é sobre como a Palavra de Deus se aplica à nossa vida, então o pastor nos fala sobre comportamento, santificação, testemunho e o agir do Espírito Santo. Ele apresenta algumas razões pelas quais é importante ter argumentos para defender a fé: para que possamos mostrar que ela não tem por base coisas fantasiosas, ao contrário, tem respaldo histórico e científico e mantém uma coerência interna impressionante, o suficiente não para ser provada, mas para ser levada a sério; isso é uma importante porta de entrada para os passos seguintes que são puramente espirituais.

“Muitos de nós gostamos de brincar de cristianismo e manter as práticas e os valores mundanos em nossas vidas. Mas na vida do cristão não há espaço para o lixo do mundo.”

Ele fala sobre como nosso comportamento serve de exemplo da presença de Deus para os outros e sobre como é preciso se fortalecer na fé para atuar na obra de Deus. O autor nos diz que a falta de crescimento espiritual se dá pela falta de contato com as Escrituras Sagradas e também analisa o que ele chama de “consumo de lixo espiritual”, seja a busca por sabedoria mundana, seja o contato com uma teologia pobre com aparência agradável (falando nisso, quem ainda não ouviu o mais famoso sermão do Paul Washer, pesquise no YouTube por “Uma pregação chocante”, tem dublado e legendado). MacArthur nos diz que é preciso procurar alimento sólido e ressalta que a Bíblia não é apenas alimento, é também uma arma. Nas palavras do apóstolo Paulo, ela é uma machaira, espada usada para defesa pessoal, que estava sempre à mão para cortes rápidos e precisos (leiam Efésios 6: 10-20). Além de usar machaira e não outro tipo de espada, Paulo no mesmo texto usa “rema” ao invés de outro termo para dizer “palavra”, pois significa algo como “palavra usada para uma finalidade específica”, o que leva o pastor a concluir que o apóstolo nos instrui a conhecer a Palavra de Deus para poder saber como citá-la e argumentar de forma precisa. Isso nos leva à última e principal parte: o método de estudo.

“As Escrituras existem para lhe dar conhecimento. E adquirir esse conhecimento exige esforço. Quanto mais você estiver disposto a fazer esse esforço, mais proveito você tirará das Escrituras. […] O Espírito opera por meio da Palavra e precisamos ser diligentes para obter sua mensagem.”

John MacArthur desenvolveu um método que eu vou deixar resumido no final do post, mas já adianto que é (na minha opinião) mais recomendável para quem já está  familiarizado com a Bíblia, pois torna a leitura mais demorada, apesar de mais eficiente. O objetivo é fazer o leitor destrinchar cada pedaço das Escrituras e decorar suas passagens (no sentido original da palavra em latim: guardar no coração). É preciso ter um plano de estudos, mas ele não serve de nada sem disciplina. O autor fala sobre o quão importante é se dedicar com amor ao trabalho de conhecer a Palavra de Deus. Reserve um tempo, separe um material, ore muito antes e depois de começar. Medite bastante sobre o que aprendeu. Ele também ressalta a relevância da hermenêutica: não precisa se tornar um grande estudioso, mas tem que conhecer o básico (conceitos-chave, contexto de cada palavra – como vimos no caso de rema e machaira, coisas do tipo) para evitar erros. MacArthur diz que o principal ponto para uma boa hermenêutica é deixar de lado a interpretação pessoal e deixar que a Bíblia interprete a si mesma: separe a passagem, procure referências cruzadas, avalie e por fim veja qual a aplicação daquilo.

“Você deve permanecer em Cristo. Permita que Ele desenvolva o caráter Dele em você as oportunidades virão. Concentre-se Nele, e Ele o colocará em situações de testemunho que serão criadas especialmente para você.”

Para o leitor não-cristão, o livro é feliz em esclarecer o significado e a relevância da Bíblia. Para o leitor cristão, ele é claro em mostrar o objetivo maior da preocupação com a apologética, que é produzir frutos, conquistando almas para Cristo, ao mesmo tempo em que a pessoa  louva a Deus e desenvolve seu caráter à semelhança de Jesus. O último capítulo fecha com dois versículos que ilustram todo o conteúdo: “Procure apresentar-se a Deus aprovado, como obreiro que não tem do que se envergonhar, que maneja corretamente a palavra da verdade.” (2 Timóteo 2:15) & “Habite ricamente em vocês a palavra de Cristo; ensinem e aconselhem-se uns aos outros com toda a sabedoria.” (Colossenses 3:16).

Adicione o livro à sua lista: Goodreads /Skoob

 

MÉTODO MACARTHUR

LEITURA SISTEMÁTICA + ESTUDO INDUTIVO (ÊNFASE NO NOVO TESTAMENTO) : seguidos, se você puder tirar cerca de 1 hora ou mais do seu dia para se dedicar, ou alternado se for durante cerca de 30 minutos.

                       ↓

a) ANTIGO TESTAMENTO:  ler por ordem, em média 2 ou 3 capítulos por dia

b) NOVO TESTAMENTO: aqui vem a parte peculiar do método MacArthur, ele sugere a leitura diária de um único livro durante 30 dias seguidos; ou partes, se for um livro longo: exemplo Atos, com 28 capítulos, você divide por 4, dá 7 capítulos por dia durante cada mês.

Eu amo a Bíblia, eu leio-a todos os dias e, quanto mais a leio tanto mais a amo. Há alguns que não gostam da Bíblia. Eu não os entendo, não compreendo tais pessoas, mas, eu a amo, amo a sua simplicidade e amo as suas repetições e reiterações da verdade. Como disse, eu leio-a quotidianamente e gosto dela cada vez mais. – Imperador Pedro II do Brasil

20200601_175241[1]

Sarah Poulton Kalley

220px-Sarah_Poulton_Kalley_born_Wilson_in_Nottingham

Acredito que a maioria de vocês já saiba um pouco sobre o casal Kalley. Como gosto de datas temáticas, vou aproveitar o que seria o 195º aniversário da Sarah para trazer mais detalhes sobre ela (espero que meu cérebro não seja o único lento na hora de lembrar como se lê 195 em números ordinais). Fiz apenas um apanhado geral do que pude encontrar, mas creio que é o suficiente para o propósito desse projeto, que é tirar uma lição de vida a partir da biografia dessas mulheres que serão apresentadas.

Sarah Poulton Wilson nasceu na Inglaterra, em 25 de maio de 1825. Era considerada por todos como uma menina alegre e inteligente. Tinha talento com pintura, era fluente em francês e alemão desde cedo (mais tarde em português também), mas o maior destaque em sua vida foi a música (o que eu menos vou falar, já que é a parte mais conhecida). A mando de seu pai, começou a ensinar para rapazes na Escola Dominical; por conta própria, resolveu criar um curso noturno de conhecimentos gerais para jovens pobres, muitos dos quais mais tarde ajudaram a família Kalley no Brasil, como William D. Pitt. Sarah também liderou uma turma de garotas para ter  aulas de costura e fazer roupas para enviar aos missionários. As pessoas diziam que viam a santidade em seu rosto.

Conheceu Robert Reid Kalley, médico e missionário escocês (ex-ateu, deixei um link lá no final sobre isso), em 1851, quando foi à Síria com seu pai e seu irmão doente, Cecil Wilson. O doutor Kalley tratou Cecil, mas ele não resistiu e veio a falecer. Robert, que era viúvo e 16 anos mais velho, “apaixonou-se pela jovem Sarah e ficou impressionado com seu interesse e entusiasmo pela obra missionária” enquanto ela “ficou encantada com seu modo de orar e expor as Escrituras.” [1]Casaram-se em dezembro de 1852 e desde então, segundo Forsyth na biografia do doutor Robert (Uma Jornada no Império), suas vidas tornaram-se “tão entrelaçadas que é impossível separá-las, como por exemplo, Priscila e Áquila, nas Escrituras. Um nunca é mencionado sem o outro […] a biografia dele torna-se então a biografia deles” (grifo meu). O casal viveu nos Estados Unidos e na Ilha da Madeira antes de vir para o Brasil. O senhor Kalley costumava utilizar sua profissão para evangelizar, enquanto Sarah procurava fazer isso visitando as famílias e conversando com as senhoras.

robert-e-sarah-kalley

A chegada deles à nossa querida Terra de Santa Cruz se deu em maio de 1855, no Rio de Janeiro. Moraram em Petrópolis, numa casa batizada de Gernheim  (algo como “doce lar” em alemão). Em julho de 1858, os Kalley inauguraram a Igreja Evangélica Fluminense. Foi a primeira missão protestante que obteve sucesso em terras tupiniquins. Sarah começou ministrando estudos bíblicos durante as tardes de domingo para crianças inglesas; depois conseguiu reunir crianças de várias nacionalidades, com aulas em português, inglês e alemão. Procurava incentivar os alunos com prêmios (geralmente livros) e atividades extras (como passeios e lanches) e também incluía pessoas negras, o que era raro na época (mas eu não vejo muitos grupo falando sobre como as igrejas foram essenciais contra o racismo). Já adultos, muitos de seus pupilos enviaram cartas agradecendo imensamente por tudo.

Os Kalley tinham o objetivo de fundar uma escola, o que lhes foi negado até maio de 1872, quando foi inaugurada a Escola Evangélica Fluminense de Instrução Primária, ou “Escola Diária”, como era conhecida, que ficou sob o comando do professor José Vieira de Andrade; depois, a própria Sarah inaugurou um curso noturno para, nas palavras dela “saciar a sede de instrução da nossa sociedade”.[2] No ano seguinte, visitaram Recife e fundaram a segunda igreja congregacional brasileira, a Igreja Evangélica Pernambucana. Além da criação da primeira escola dominical e do primeiro ministério infantil, foi a senhora Kalley quem fundou a União Auxiliadora Feminina, que serviu de modelo para sociedades femininas protestantes posteriores.

O casal chegou a receber uma visita de Pedro II, com quem trocavam correspondência. O monarca interessou-se pelos Kalley por causa da intelectualidade deles e talvez tenha contribuído para a aceitação do protestantismo no Brasil, que era rechaçado por parlamentares católicos. No livro que trata sobre a influência britânica na modernização do Brasil (Britain and the onset of modernization in Brazil), Richard Graham não apenas destaca o papel dos Kalley para a transformação do país (no capítulo Individual Salvation, que trata sobre como, nas palavras de ninguém menos que Rui Barbosa, “onde há protestantismo, há prosperidade industrial, vigorosa e luxuriante como uma vegetação tropical”), mas afirma que depois da visita do Imperador ao casal, eles conseguiram converter algumas senhoras da Corte. Robert estava doente e quem recebeu o Imperador foi Sarah. O objetivo da visita era conversar sobre as viagens, mas devido à situação, não durou muito. Quando o marido estava doente, Sarah atuava como secretária, redigindo cartas, preparando esboços de sermões e orientando todo o trabalho da igreja e das demais atividades, com atenção especial para os colportores, pois a distribuição do material evangélico era de fundamental importância (material este boa parte traduzido pelos Kalley, como a primeira edição brasileira de O Peregrino).

55_Capa-livro-alegria-da-casa-1-684x1024

Além dos já mencionados trabalhos, a senhora Kalley também atuou como escritora, inclusive um de seus livros (A Alegria da Casa, 1866) foi usado para ensinar dicas de saúde e cuidados domésticos nas escolas femininas no Brasil e em Portugal. No entanto, seu trabalho mais conhecido é a sua contribuição para o primeiro e mais popular hinário brasileiro, o Salmos e Hinos, para o qual compôs ou traduziu cerca de 200 hinos, deixando evidentes seus talentos poéticos, pois não apenas traduzia, mas garantia a adequação e a beleza das músicas, ou, como disse Forsyth,“adornava e ilustrava a doutrina com sua capacitada poética”. Também ilustrava literalmente, pois fazia desenhos das passagens bíblicas.

 “O hábito de ordem exterior ajuda a adquirir hábitos de ordem no regulamento de idéias, pensamentos e costumes intelectuais. Não esquecer o que sempre deve ter o primeiro lugar no arranjo da vida espiritual. O grande mestre diz: ‘Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça’” KALLEY, Sarah Poulton. A alegria da casa, p. 7-8.

Os Kalley adotaram duas crianças, ambas brasileiras: o João Gomes da Rocha (que escreveu muito sobre o trabalho dos pais) e a Silvana Azara de Oliveira, que foi adotada já na Escócia, para onde o casal voltou em 1876 devido aos problemas de saúde do Robert. Lá, a casa em Edimburgo foi chamada de “Campo Verde” e eles realizavam cultos em português.  Robert Kalley faleceu 12 anos depois, por causa de problemas cardíacos. Foi uma morte dolorosa que a Sarah assistiu e relatou em cartas para as congregações de Recife e do Rio: “Mesmo com muita dor no peito e dificuldade de respirar, ele orava por todos: “Senhor, abençoa teus servos no Brasil, abençoa Santos, Jardim, Bernardino! Senhor, abençoa Tua obra em suas mãos! Senhor, abençoa os crentes em Pernambuco!”[3]. Segundo Forsyth, as últimas palavras dele foram “minha querida esposa”.

Depois da morte do marido, apesar de ter ficado desolada, Sarah continuou trabalhando. Fundou uma instituição de apoio missionário para o Brasil (Help for Brazil Mission, 1892) para recrutar e dar apoio aos missionários e também ajudava estudantes acolhendo-os em sua casa, pelo que ficou conhecida como “a mãe de Edimburgo”. Ela faleceu em casa, no ano de 1907, e foi sepultada junto ao esposo no Dean Cemetery. Na lápide, a pedido seu, está escrito “Herdeiros da Graça da Vida”.

Sarah e Sia

Voltando ao conceito que vamos trabalhar nessa série, o de “auxiliadora idônea”, note que Sarah foi assim por toda a vida: começou ajudando o pai, ensinando em escola dominical, depois auxiliou o marido, as congregações e comunidades em geral por onde passou. Tenho uma afeição particular por ela por tudo que ela tem para nos ensinar, em especial o fato de que existem várias formas de servir a Deus e uma delas é estudar. Nem todo mundo tem talento para pregar ou ensinar na igreja ou ir para campo evangelizar, ou algo tipo, mas redigir e traduzir material pode ser algo edificante na vida das pessoas também. Cabe notar também que essa é uma característica predominantemente protestante. Em seu trabalho “Educação e cultura protestante na transição do século XIX”, Afonso diz que “na perspectiva protestante, abrem-se possibilidades ao elemento feminino – seja numa participação efetiva, como no caso da publicação/distribuição/circulação do livro A Alegria da Casa, seja como redatoras, correspondentes, educadoras e gestoras das escolas protestantes”, o que aconteceu principalmente por causa da relevância dada à leitura das Escrituras Sagradas sem mediação, então desde o princípio houve uma preocupação com publicação de material e com a escolarização das pessoas, e também por que a Reforma deu mais relevância às mulheres, mas falarei disso depois.

Para além do assunto principal dessa postagem, que é feminilidade bíblica, ler sobre os Kalley é ler sobre a Era de Ouro da história do Brasil, sobre a importância da educação, da dedicação e do trabalho árduo. Encerro com um hino composto pela Sarah, Dedicação Pessoal, que representa bem sua vida e deve servir de inspiração para todos nós :

Eis-me, ó Salvador, aqui.

Corpo e alma oferto a Ti,

Servo inútil, sem valor,

Mas pertenço a Ti, Senhor!

Fraco em obra e no pensar,

Mui propenso a tropeçar,

Salvo estou por Teu amor,

E me voto a Ti, Senhor!

Subjugado em todo o ser,

Me submeto a Teu poder.

Grande é o preço do perdão.

Dá-me igual consagração!

Eu, remido pecador,

Me dedico ao Redentor.

Teu –  é este coração,

Teu – em plena sujeição.

Vem tomar-me aqui, Jesus,
Para andar contigo em luz,

Sem reservas nem temor,

Teu cativo, ó Salvador!

REFERÊNCIAS:

SITES

https://www.hinologia.org/sarah-kalley/

https://igrejacongregacional.org.br/?page_id=38

https://www.ultimato.com.br/conteudo/os-pioneiros

http://conexaoeclesia.com.br/2015/05/18/o-naturalista-e-o-missionario/

https://www.elevados.com.br/artigo/507/brasil:-500-anos-de-evangelizacao.html

ARTIGO

AFONSO, J.A.  et al. Educação e cultura protestante na transição do século XIX: circulação de impressos e diálogos luso-brasileiros. Cuiabá, 2012.

LIVROS

FORSYTH, WILLIAM B. Jornada no Império: vida e obra do dr. Kalley no Brasil. São José dos Campos: Editora Fiel, 2006.

GRAHAM, RICHARD. Britain and the onset of modernization in Brazil 1850-1914. Cambridge: Cambridge University Press: 1968.

[1] https://www.hinologia.org/sarah-kalley/#_ftn7

[2] https://www.hinologia.org/sarah-kalley/#_ftn7

[3] https://www.hinologia.org/sarah-kalley/#_ftn7

A folha de figueira: o feminismo e a Bíblia

Há um ano, prometi a alguns de vocês que faria um resumo para quem perdeu a palestra “Feminismo e machismo: o conflito à luz das Escrituras”, que a professora Isabella Barbosa realizou na 1ª IPB de Caruaru. Não esqueci, apenas demorei… Acontece que é muito material para ler e acabei tendo outras ideias no meio do caminho, o que só consegui desenvolver esse ano. Então, além do resumo, apresentarei uma série sobre feminilidade bíblica e sobre a vida de algumas mulheres cristãs, como Sarah Kalley, Katharina von Bora e Elisabeth Elliot. O objetivo de investir nisso é que considero que  num mundo em que o feminismo se tornou midiático e as garotas são atingidas o tempo todo por ideias de “empoderamento feminino” e “libertação das mulheres”, é dever nosso tomar esse espaço e apresentar a perspectiva cristã conservadora. Acredite, não adianta apenas falar o que é certo ou errado, a lógica nem sempre funciona, às vezes o exemplo e a emoção contam mais, então é hora de contar histórias encantadoras sobre verdadeiras servas de Deus. Mas primeiro, o resumo.

E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.

Gênesis 1:27-28

O Senhor Deus criou um mundo com uma ordem perfeita (para saber mais sobre isso, recomendo procurar as palestras do professor Adauto Lourenço sobre a cronologia da Criação) e impôs um mandado cultural, social e espiritual, que podemos ver na passagem acima, isto é, dominar a Terra e tudo que nela há. Esse mandado foi reiterado no capítulo seguinte, onde também é detalhado o processo de criação da mulher e a designação de sua função: auxiliadora idônea. Esse é o termo que fundamenta todo o debate sobre o assunto aqui tratado.

idoneo

E disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idônea para ele.
Havendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todo o animal do campo, e toda a ave dos céus, os trouxe a Adão, para este ver como lhes chamaria; e tudo o que Adão chamou a toda a alma vivente, isso foi o seu nome.

Gênesis 2:18-19

Voltando a tratar sobre a ordem, reparem que primeiro, o Senhor cria o homem e atribui-lhe a tarefa de nomear os animais (o que, em tempos antigos, significava tomar posse[1]), só depois a mulher é criada. Um detalhe significativo está em Gênesis 3:1, o início da Queda:

“Ora, a serpente era mais astuta que todas as alimárias do campo que o Senhor Deus tinha feito. E esta disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim?”.

Houve uma tentativa de subversão da ordem: para desestabilizar a confiança que Adão e Eva tinham no Senhor, a serpente dirige-se primeiramente à mulher e a convence a tentar seu próprio companheiro, corrompendo assim a tarefa que lhe foi dada de cuidar e ser um ponto de apoio e confiança. Porém Deus restaura a ordem ao confrontar Adão primeiro: “E chamou o Senhor Deus a Adão, e disse-lhe: Onde estás?” (Gênesis 3:9), pois a ele foi dada a responsabilidade maior.

DT5746
The Rebuke of Adam and Eve, Natoire (

Uma das críticas do feminismo ao cristianismo é de que a Bíblia é machista, mas essa é uma visão completamente equivocada e simplista, pois falha em analisar todo o contexto bíblico. Primeiramente, importa o que Deus definiu: o princípio de liderança é masculino e já existia antes da queda; o homem deve ser o líder servidor e a mulher deve ser a auxiliadora idônea, contestar isso é contestar a Palavra de Deus. No entanto, isso não é algo ruim, como muitos querem demonstrar. O próprio Deus é Auxiliador (veja a lista de Salmos no fim do post), logo, não é uma posição de inferioridade, ao contrário, é algo tão importante quanto a liderança. Vejam Provérbios 31:10-31 (muito grande para postar aqui) e observem que é a mulher que mantém a estabilidade no interior da casa (o que tem um efeito psicológico imenso em produzir o bem estar de quem nela vive). Lewis[2] explica que as mulheres, por razões biológicas óbvias, têm a tendência de cuidar melhor das atividades internas.  E antes que alguma mulher se sinta ‘”livre” por ser solteira e/ou não ser mãe, a natureza é a mesma, apenas muda o papel a ser cumprido; sua essência (de auxiliadora) se revela no desempenho de qualquer papel que seja: em casa, no trabalho, na igreja, como filha, como tia, como aluna; e se você não conhece sua função, você não tem como exercê-la adequadamente.

Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.

Gálatas 3:28

A verdade é que o princípio de idoneidade está presente em toda a Bíblia, na qual encontramos a valorização de mulheres sábias e fortes, como Rute, Ana e Ester; também constatamos que em momento algum elas são tratadas como inferiores, como em outras religiões; ao contrário, todo o tempo se diz para respeitar a mãe, ser dócil com a esposa e a lei mosaica garantia proteção para a mulher solteira ou viúva. Inclusive, na cultura hebraica, “o dote pago pela família da noiva à família do marido deveria ser mantido em depósito, para servir de provisão à esposa, caso ela enviuvasse ou fosse abandonada pelo marido” [3].

Organizações progressistas evangélicas usam essas passagens para conciliar as Escrituras Sagradas com o feminismo, mas essa visão apresenta muitas falhas, começando com o fato de que um movimento que prega a aceitação de modelos de vida que vão de encontro à vontade de Deus simplesmente não pode se tornar palatável ao cristão. A valorização das personagens femininas da Bíblia e da história do cristianismo não tem a ver com feminismo, e sim com o resgate da feminilidade bíblica. O feminismo, alegou a professora, “é uma folha de figueira, o reflexo de uma cultura caída e sua luta é por poder e hierarquia, não é por direitos.”

…e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais.

Gênesis 3:7

A folha de figueira representa a tentativa humana de esconder de Deus os seus erros e resolver os problemas por conta própria (só para deixar claro, o texto não está sendo tomado como metafórico; uma figura do texto está sendo retirada e aplicada à outra situação; a crença literal em Gênesis se mantém). No caso da mulher, esta passou a sofrer com a gravidez e a ser subjugada pelo homem, como vemos em Gênesis  3:16,  e o feminismo tenta corrigir isso pregando a desvalorização da família e promovendo uma suposta independência total das mulheres, desvinculando-as de sua função originária como forma de evitar seu sofrimento e sua subjugação. Para algumas mulheres, é fácil aderir ao movimento por causa da sensação de pertencimento a um grupo e do amparo que eles aparentam promover (a tal “sororidade”), umas apoiando as outras contra um inimigo comum: o patriarcado, criado e mantido pela cultura judaico-cristã.

Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo.

1 Coríntios 15:22

A verdade é que, como explica Jordan Peterson, isso torna as mulheres infelizes, pois perdem seu propósito de vida tentando ser o que não são: “Equidade absoluta requer o sacrifício do valor em si – com isso, não haveria nada pelo que viver.”[4] Peterson observa ainda que o cristianismo não prega a vitimização, e sim a aceitação heróica do sofrimento, o que é exemplificado com a morte de Cristo, que mostra “como andar com Deus apesar da tragédia do autoconhecimento”[5] . Ao contrário disso, o feminismo coloca a mulher como vítima, e ao invés de procurar a reconciliação com Deus através de Cristo, prega a reorganização de toda a hierarquia social e a alteração (ou até mesmo abolição) da moral.

Ainda tem muito sobre o que falar, mas vou ficar por aqui, já que essa parte é o diferencial que foi apresentado na palestra; o resto, sobre história do feminismo, pode ser encontrado em qualquer lugar. Vou deixar dicas de filmes, uma breve linha do tempo e uns vídeos da Ana Campagnolo para quem quiser saber mais. Só gostaria de mencionar sobre Shulamith Firestone, que não é tão conhecida como deveria. Ela era uma feminista radical e o trabalho dela define o coração do feminismo, apesar de todas as variações que esse movimento apresentou ao longo da história. O objetivo dela é o mesmo objetivo da serpente que tentou Eva: perverter toda a criação de Deus. Ela defendia coisas como pedofilia e incesto, o que pode ser constatado em seu mais famoso livro, “A Dialética dos Sexos”, de 1970. Conhecer essas coisas ajuda a não se deixar enganar por “feministas moderadas”, “feministas evangélicas” ou “católicas pelo direito de decidir”. Para combater algo assim, é preciso ter não apenas cuidado, mas conhecimento.

Todas as referências bíblicas (que consegui anotar) da palestra:

Gênesis  1:26-28; 2:7-8,15-25; 3:1,15

1 Samuel 1 e 2

Salmos 10:14; 20:2; 30:2; 70:5; 72: 12-14; 86:17

Provérbios 31

Lucas 1:35, 7:44-46, 8:1-3

Romanos 1; 5:1, 17-19;

1 Coríntios 11:3, 11-12; 15: 22

Gálatas 3: 26-28

Efésios 5: 22-33

Colossenses: 3:14

Livros indicados pela palestrante:

Confrontando o feminismo evangélico (Wayne Gruden)

Transformando cosmovisões (Paul G. Hilbert)

Minhas dicas de filmes/documentários:

She’s beauty when she’s angry (Dore, 2014)

As sufragistas (Gavron, 2015)

Vídeos da Ana:

Não devo nada ao feminismo : https://www.youtube.com/watch?v=LElE_cFxZ4k

Desconstruindo os mitos feministas: https://www.youtube.com/watch?v=jv_AfGY-YVQ

O regaste da feminilidade: https://www.youtube.com/watch?v=818JkSr2rF4

Sobre Shulamith Firestone:

https://www.acidigital.com/noticias/feminismo-ideologia-de-genero-e-pedofilia-especialista-explica-como-se-relacionam-24553

https://mmjusblog.wordpress.com/2018/04/11/o-mundo-ideal-de-shulamith/

Linha do tempo básica:

Século XIX  –  movimento sufragista (direito ao voto)

1949 – lançamento do livro O Segundo Sexo (Simone de Beauvoir), fundamental para o feminismo moderno por supostamente expor a condição feminina da época

1960/1970 – movimento de massa e reivindicação de liberdade sexual e reprodutiva (aborto e métodos contraceptivos)

1980 – período de declínio

1990 – teoria de gênero difundida por Judith Butler e repopularização do movimento

REFERÊNCIAS:

[1] Bíblia de Estudo Arqueológica. São Paulo: Editora Vida, 2013. Pg 9.

[2] LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2017. Pgs 156-157.

[3] Bíblia de Estudo Arqueológica. São Paulo: Editora Vida, 2013. Pg 3.

[4] PETERSON, J.B. 12 Rules for Life. Londres: Allen Lane, 2018. Pg 303. (Tradução livre)

[5] PETERSON, J.B. 12 Rules for Life. Londres: Allen Lane, 2018. Pg 59. (Tradução livre)

Livros, amor e sangue

oW83uPAdaQVyj1W8LO6WUUAWKYhAntes de começar, o aviso de sempre: ignorem qualquer erro de escrita, por favor 🙂

Eu tenho problemas com Jean-Jacques Annaud por causa de O Nome da Rosa (1986) e A Guerra do Fogo (1981), por isso, quando me indicaram “O Príncipe do Deserto” (2011), eu quase não assisti. E o começo é desinteressante. Mas de alguma forma, a narrativa me prendeu e continuei assistindo esse que se tornou um dos meus filmes favoritos. Foi o filme que reacendeu meu gosto por cinema enquanto arte e me fez mudar de opinião quanto à direção de Annaud, que surpreendeu nesse trabalho épico que certamente foi difícil de coordenar e teve um acabamento muito bom. Sem contar que as gravações aconteceram na Tunísia e no Qatar em meio à Revolução de Jasmim!

filmes_1281_O-Principe-do-Deserto-9

O filme foi baseado no livro “Ao sul do coração” (Hans Ruesch) e é ambientado na Península Arábica na década de 1930, quando houve a descoberta de petróleo naquela região, sendo esse fato o estopim do conflito que se desenvolve. O sultão Ammar (representado por Mark Strong numa atuação belíssima) faz um acordo com o emir Nesib (Antonio Banderas), entregando seus filhos, o príncipe Saleeh (Akin Gazi) e o pequeno Auda (Tahar Rahim), para serem criados por ele, assegurando assim a paz e garantindo que a fictícia região conhecida como Cinturão Amarelo permanecesse inviolável.

o-principe-do-deserto-02

Anos depois, americanos descobrem petróleo exatamente nessa região intocável e propõe ao ambicioso Nesib muito dinheiro em troca da permissão para explorar o local. Mas para Ammar, o tratado não era um mero acordo político e militar. Como fundamentalista islâmico, ele está disposto a iniciar uma guerra para impedir que os infiéis corrompam seu território e os costumes de seu povo. Nesse cenário, podemos avaliar o jogo político de Nesib com os chefes das tribos enquanto aprendemos um pouco sobre a cultura dos povos do deserto, tradições milenares que são até hoje conservadas pelos beduínos.

black gold

Enquanto isso, Auda cresceu como “o garoto dos livros”, seguindo o conselho do pai que mal conhecia, para estudar o Corão, mas sem parar por aí. Nesib lhe deu o melhor cargo que ele poderia imaginar: bibliotecário real. Saleeh, por sua vez, pensava em voltar para seu reino. Por causa de atitudes impensadas (não é realmente um spoiler), acaba sendo assassinado como traidor, o que coloca Auda numa enrascada. Como principal herdeiro, ele é obrigado a casar com a princesa Leyla (Freida Pinto), filha do emir, por quem era apaixonado há muitos anos, e é enviado de volta para seu próprio reino para negociar a paz com seu pai.

7890

“Tudo que você vê nessa sala foi conquistado com sangue ou amor. Nunca dinheiro. Por que tudo que pode ser comprado não tem grande valor.”

O príncipe Auda tem que tomar decisões: de que lado está a sua lealdade? Para vingar a morte do irmão e permanecer ao lado do pai, honrando seu sangue, ele deve renunciar à sua esposa, a quem tanto ama, e participar de uma guerra sem ter nenhuma experiência militar. Mas ele resolve não abandonar a família nem a mulher. Passa a trilhar seu próprio caminho e nessa jornada descobre-se como um exímio guerreiro, capaz de manobras impensáveis, como as que lia nos livros: “Isso é a guerra, é sobre isso que escrevem os épicos”, diz Auda. Torna-se um grande líder, conseguindo conquistar tudo o que queria, com amor e sangue, como seu pai lhe falou.

70671-700x487

É uma história muito rica sobre a qual é difícil falar sem contar o filme todo, mas também a maior parte dessa riqueza é subentendida. Eu não me importaria de mais uma ou duas horas de filme para explorar algumas questões, mas entendo a necessidade de cortes. Algumas coisas ficaram vagas, como o caso da princesa, que no início parecia uma peça fundamental e acabou ficando ausente. O final não teve o tipo de glória que eu esperava, mas nisso está parte do talento do diretor: ele joga com a expectativa do público, impossibilitando que saibamos se ele quer mostrar dor ou esperança. Essa obra é uma preciosidade em meio aos clichês que encontramos o tempo todo. A forma realista com que foi produzido é impressionante (um filme “artesanal”, se comparado com os filmes quase completamente feito com um computador). O próprio diretor afirmou que queria fazia arte, e não um videogame. A maravilhosa trilha sonora de James Horner acompanhou os momentos de drama e de ação de forma bem coordenada. Tem todo o estilo de um épico, com grandes batalhas, belos cenários e um herói que defende seus valores.  Eu me empolgo muito com algumas coisas mas acho que não é bom assistir esperando muito do filme, mas garanto que mesmo quem não considerá-lo um dos melhores, vai ao menos achar interessante, uma história bem construída e que tem aventura, ação e drama na medida certa.

ugujojhg

Para além do filme, há muito que se pensar. Um garoto que gosta de ler poderia, na vida real, se tornar um grande guerreiro por causa disso? Nós tivemos um caso.

 Muito se fala sobre Sir Winston Churchill, mas exceto em suas biografias, pouco ouvimos falar sobre o que ele fazia nos bastidores e menos ainda sobre como ele se tornou a pessoa que ele foi. De modo geral, quando estudamos sobre as guerras na escola, vemos apenas a ponta do iceberg, tudo é muito superficial, quando na verdade são eventos interessantíssimos. As grandes guerras são vencidas não pela força, mas pela inventividade, e para ser inventivo, é preciso ter imaginação. Esta, por sua vez, é moldada pelo conteúdo consumido, sendo aperfeiçoada através da leitura, que fornece o material para simular os mais diversos cenários e desenvolver as mais variadas possibilidades. É um campo fértil e poderoso. Uma arma.

churchill_jovem

 O garoto Winnie (como Churchill era chamado) adorava ler, tendo inicialmente uma preferência por aventuras como as escritas por H. R. Haggard e Robert Louis Stevenson, e mais tarde, interessando-se por História e poesia, sendo grande apreciador de Shakespeare e Virgílio. Todo esse material o inspirou profundamente, deu senso de propósito, o fez ter uma visão abrangente dos mecanismos políticos que regem o mundo e mais do que tudo, o nutriu de conhecimento para gerar criatividade. Tudo isso pode ser visto desde cedo em sua vida, como no episódio da fuga na guerra dos Boêres e no chamado “Circo de Dunquerque” na Primeira Guerra Mundial, além de uma série de outras estratégias militares e políticas no mínimo ousadas.

Ele não é o único exemplo, mas talvez seja o mais extraordinário (e certamente é o meu mais querido). Poderia citar Dom Pedro II, Abraham Lincoln e muitos outros que foram estadistas e militares exemplares, grandes leitores e que professaram sua admiração pela literatura e a importância que isso tinha em suas vidas. Thomas Jefferson, por exemplo, afirmou que Shakespeare e Pope ensinaram a ele “a perfeição da imaginação, mostrando mais conhecimento sobre o coração humano do que ele jamais poderia descobrir”[1]. É isso que a boa literatura faz: revela a alma do homem e do mundo e transforma pessoas comuns em seres extraordinários, capazes de mudar o curso da História.

frases-de-winston-churchill-1000x500-700x325

Ficha técnica:

O Príncipe do Deserto (Or Noir)

Ano de produção: 2011

Direção: Jean-Jacques Annaud

Duração: 2h10min

Gênero: épico

Classificação indicativa: 14 anos

Imdb  

Adicione à sua lista do Filmow 

[1] https://www.whitehousehistory.org/the-american-presidents-and-shakespeare

Ben Shapiro: A culpa do sangue judeu derramado leva ao anti-semitismo *

Texto original: Bloodguilt over jews leads to blood libels against jews

Publicado em 16 de julho de 2014

tradução: Samara de Oliveira

Se existe um lugar na Terra que deveria entender o perigo do ódios aos judeus, esse lugar é Frankfurt, na Alemanha.  Em 1933, os judeus foram alvo de boicote; em 1938, os alemães estavam queimando sinagogas. Entre 1933 e 1945, a população judaica da cidade foi dizimada, passando de 30.000 para 602. Atualmente, poucos judeus moram nessa cidade,  sendo a maioria deles soviéticos expatriados.

Então Frankfurt parece um local estranho para um novo rótulo sangrento para os judeus.  Ainda assim, nessa semana, 2.500 pessoas participaram de um protesto, incluindo muçulmanos e neo-nazistas – aliados mais uma vez¹  – apareceram no centro da cidade para gritar contra as ações de defesa de Israel em resposta ao ataque do Hamas na Faixa de Gaza. A polícia ajudou os manifestantes, permitindo que eles usassem um megafone e um veículo para gritar coisas contra Israel. “Vocês judeus são animais”, estava escrito num cartaz.

Enquanto isso, em Paris, muçulmanos atacaram sinagogas, incluindo uma na qual 150 judeus estavam reunidos em luto pela morte de 3 garotos  que foram assassinados pelo Hamas.  Esses muçulmanos, com bastões e cadeiras, entraram nas sinagogas e acabaram ferindo muitos judeus. Nos últimos anos, milhares de judeus franceses mudaram-se para Israel, em meio aos relatos de espancamentos, esfaqueamentos e ataques com machado.

Ao que parece, os europeus estão ficando confortáveis com o velho ódio aos judeus em seu meio, seja ela interno ou importado.

Aqui vai a razão para isso: na maior parte da Europa, a culpa do sangue judeu derramado no Holocausto ainda está sob a cabeça da população. De acordo com uma pesquisa de 2012 da Liga Anti-Difamação em países europeus, 45% dos austríacos, 35% dos franceses, 43% dos alemães, 63% dos húngaros e 53% dos poloneses, afirmaram que “provavelmente é verdade” que “os judeus ainda falam muito sobre o que aconteceu com eles no Holocausto”. Muitos desses que querem avançar e deixar para trás o que aconteceu no Holocausto, procuram uma forma de aliviar a culpa nacional – e que melhor forma de aliviar a culpa do que rotular o Estado judeu como agressor? Afinal, se os judeus se tornaram os vilões, então por que ficar tanto tempo pensando sobre a vitimização deles?

Claro, rotular os judeus como vilões com sede de sangue foi o que iniciou o Holocausto, em primeiro lugar. Adolf Hitler via os judeus como sanguessugas movidas pela ganância e dupla lealdade. Assim pensava boa parte da Europa também. Na mente daqueles que cometeram assassinato em massa, os judeus mereceram, por que, nas palavras de Hitler: “A luta pela dominação mundial será travada inteiramente entre nós – entre alemães e judeus. Todo o resto é ilusão.”

Todos aqueles que hoje em dia rotulam Israel como líder do mal usam a mentalidade de Hitler para retirar sua culpa por causa de Hitler. É por esse motivo que os manifestantes de Frankfurt, ameaçando os judeus, carregavam cartazes comparando os Israel aos nazistas: se os judeus são os novos nazistas, lutar contra os judeus se torna uma obrigação.

Toda Páscoa, os judeus recitam um parágrafo: “em toda geração, eles se levantam contra nós para nos destruir; e o Santíssimo, louvado seja Ele, nos livra das mãos deles!” Os nomes mudam, mas a mentalidade não. E o Deus de Israel está sempre vigiando, mesmo que aqueles que atacam os judeus tenham se convencido de que Ele vai fechar os olhos.

OBS.:

*Título levemente alterado para facilitar a tradução

¹ Os muçulmanos foram aliados do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores da Alemanha durante a 2ª Grande Guerra

Apologética 01: defesa da fé, Senhor dos Anéis e a crítica da crítica.

Obs.: perdoem qualquer erro, por favor, não tenho revisor e depois de ler 3x já fica tão automático que não percebo mais nada.

“Antes, santifiquem Cristo como Senhor no coração. Estejam sempre preparados para responder a qualquer que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês.” 1 Pe 3:15

“Tudo que nós temos que fazer é decidir como aproveitar o tempo que nos é dado. “- J. R. R.Tolkien

Como aproveitar seu tempo? Leia a Bíblia. Leia o Senhor dos Anéis depois (você não vai entender muita coisa se não ler a Bíblia antes). Quality time. Você deve estar se perguntando o que isso tem a ver com apologética. Bem, tenho que falar umas coisas antes.

 Primeiro, tenho que dizer que não sou uma apologeta. Só que eu poderia ser. Isso tem a ver com as frases acima.

Nessa série que pretendo apresentar, vou fazer resenhas de livros que li sobre o assunto, tais como “Não tenho fé suficiente para ser ateu” e “Por que crer na Bíblia”. Ainda não li nem assisti muitas coisas, não estudei o bastante. Isso por que eu não tinha decidido o que fazer com o tempo que me foi dado. Não quero dizer que não devemos gastar tempo com coisas que não trazem conhecimento. Não é isso. Não adianta se trancar num quarto para tentar ser a pessoa mais intelectual do mundo. Não adianta forçar para ser como William Lane Craig ou Alister McGrath. A questão está em dedicar tempo para coisas que possuem valor: pode ser assistir Mr Bean com a família ou aprender a fazer panqueca. Tempo de qualidade na companhia de pessoas que você gosta, adquirindo habilidades úteis ou aprendendo coisas interessantes. Apenas não confunda distração com dedicação.

Eu gastei muito tempo, especialmente na adolescência (argh, teenagers…),mas não só, dedicando tempo com algumas coisas tipo Harry Potter e Supernatural. Eu não lia ou assistia. Eu dedicava tempo. Como isso me ajudou?  Bom, não adquiri nenhuma sabedoria ancestral através dessas coisas e poderia ter usado o tempo que passei pesquisando, desenvolvendo teorias e – atenção – defendendo essas sagas das críticas que recebia (especialmente dos meus pais, aos quais agradeço hoje por isso) para aprender uns 5 idiomas ou algo do tipo.

Falando de um modo geral, creio que devemos escolher com cuidado as coisas com as quais nos distraímos e mais ainda as coisas para as quais pretendemos dedicar nosso precioso e irrecuperável tempo. Não leia qualquer coisa, não assista qualquer coisa, não ouça qualquer tipo de música. Creio que a maioria das pessoas não pensa na capacidade que seu subconsciente tem de reter coisas e aplicá-las na sua vida de modo que você nem percebe, mas você adquire hábitos e idéias dessa forma, daí a importância de selecionar o que você consome com frequência. É igual alimento. Sua playlist molda sua vida. Sua biblioteca molda sua vida. Seu “ver mais tarde” do Youtube molda sua vida. Somos feitos dessas pequenas coisas. E lembre-se: você nunca é jovem demais para começar a se preocupar com isso. Quanto mais cedo melhor. E também nunca é velho demais: antes tarde do que nunca.  Mais uma vez: o que isso tem a ver com apologética? Vamos para a segunda parte.

Note que o parágrafo anterior começa com “falando de modo geral”. Agora quero tratar de um modo específico: o modo cristão. Antes de adiantar o assunto, como sei que tenho alguns leitores não-cristãos, quero dizer que recomendo que vocês leiam a Bíblia também, primeiro por uma vontade interna de que vocês acabem se convertendo, segundo por uma questão bem técnica: é um livro essencial para entender a Literatura e a Filosofia ocidentais. Inclusive para entender O Senhor dos Anéis, já que é um livro repleto de elementos teológicos (uma dica: leia o Evangelho de João e depois assista O Retorno do Rei). Não existe Existencialismo sem cristianismo, não só por que começa com Kierkegaard (e deu sinais de vida com Agostinho de Hipona), mas por que pensadores como Sartre trabalharam com termos cristãos, mesmo se opondo a eles. São só exemplos, tem muito mais.

Mas agora, falando aos cristãos:  há uma correlação entre as frases do apóstolo Pedro e de Tolkien. E do apóstolo Paulo em Colossenses 3, como apresentei no primeiro texto desse blog (A Filosofia para o cristão). Não devemos nos aproximar de Deus? Não fomos orientados a buscar as coisas do alto? Não fomos orientados a dar a razão da nossa fé? Então já sabemos o que fazer com o tempo que nos é dado. Acontece que muitos cristãos tomam o fato de dizerem que são cristãos como sendo suficiente. Há uma espécie de teoria velada (ninguém fala, mas todo mundo sente), de que nada é exigido de nós e Deus aceita tudo de qualquer forma. Bom, não é bem assim. Fomos instruídos (está nas Escrituras do começo ao fim) a buscar conhecer mais sobre Deus e seu Filho Jesus e a dar o nosso melhor ao fazer qualquer coisa para Deus. Não é “só vou até aqui por que Deus entende”, é “vou além por que é para Deus”. Lembre que você não vale nada e essa é coisa que deve te deixar mais feliz. Você não vale nada e mesmo assim foi salvo. O que você pretende fazer em relação a isso? Não vai querer saber mais sobre quem pagou sua fiança para te tirar no inferno? Vai ficar por isso mesmo? Vai deixar que qualquer um fale qualquer coisa tola sobre Ele? Vai dedicar tempo para o que ou para quem?  São essas as perguntas que temos que fazer para nós mesmos.

Estar preparado para responder a razão da sua esperança significa algumas coisas e aqui vai minha crítica à crítica do legalismo:  às vezes entendo e concordo, afinal, somos salvos pela Graça, porém algumas dentre essas pessoas usam isso como uma desculpa para não seguir regras como se o pecado estivesse não em achar que as obras te salvam, mas em fazer as obras! Ora, não deveríamos ter um compromisso com Deus? É errado reservar um momento para diariamente estudar sua Palavra e orar? Uma coisa que C.S.Lewis fala em Cristianismo Puro e Simples e que me chamou atenção por me parecer verdadeira é que o bem e o mal não estão nas coisas em si e sim na disposição do seu coração, é isso que diferencia um vício de uma virtude. Outra coisa que Lewis falou foi sobre o começo de sua conversão: ele não sabia como orar, não sabia se funcionava nem se ele estava conectado com Deus, mas resolveu ficar tentando. De tanto “treinar”, compreendeu e começou a fazer de coração. A prática importa. Pode não ser legalismo, pode ser uma forma de organizar e priorizar a vida espiritual, o que deveria nos inspirar.

Estar preparado para responder a razão da sua esperança significa dedicar tempo para Deus de muitas formas, especialmente no estudo das Escrituras, bem como de leituras extra-bíblicas, isto é, coisas como História do Cristianismo, biografias e obras de heróis da fé, várias coisas do tipo, inclusive … apologética.  E apologética não é “brigar com ateus” e sim mostrar a verdade do Evangelho, mesmo dentro de igrejas cristãs. Se você não conhecer, você vai se deixar enganar. Nos enganamos com coisas pequenas como dizer que todos são filhos de Deus (leia Romanos 8) ou que o dilúvio durou 40 dias e 40 noites (pesquise no Youtube por “Adauto Lourenço dilúvio” e você vai se surpreender com a ciência por trás de uma das histórias mais conhecidas e mal interpretadas da Bíblia). É preciso aprender e isso é um caminho que não tem fim pois sempre tem algo mais para saber. A Bíblia é um livro que não se esgota. Um vez, li a frase: “Seja a Bíblia de quem não vai à igreja”. Isso é apologética. Sua vida tem que ser uma constante demonstração da sua fé. Essa é a mensagem de Páscoa que eu quero deixar para vocês, junto com o convite para acompanhar a série (e ler os livros!).

57355498_1944360022340900_6644280811677810688_n

Um universo moral despedaçado (Ben Shapiro)

O texto a seguir é uma tradução livre do artigo “A moral universe torn apart“, publicado pelo comentarista político Ben Shapiro (The Daily Wire) em 24 de setembro de 2014. Faz parte de uma coletânea de mesmo nome que pode ser facilmente encontrada para download na Google Play Store (disponível apenas em inglês). Os grifos são meus.

Um universo moral despedaçado

“Eu não me envergonho”, uma mulher jovem diz para uma câmera. “Eu não me envergonho”.

A mulher é Leyla Josephine de Glasgow (Escócia), e ela é uma autodenominada artista feminista performática. Ela está lendo um poema intitulado “Eu penso que ela era uma menina” – um poema celebrado pelo The Huffington Post como

“sem necessidade de desculpas … ela ardentemente declara seu poder sobre seu corpo enquanto nos lembra que uma mulher exercendo seu direito de escolher não é incomum – e nunca deveria ser vergonhosamente varrido para debaixo do tapete.”

O que, exatamente, é esse poema? É Josephine recapitulando o aborto de sua filha. Ela observa que

“Eu sei que ela era uma menina e eu acho que ela pareceria exatamente comigo. Eu contaria para ela histórias sobre seu avô, nós poderíamos alimentar os cisnes no Parque Victoria”.

Então, contudo, ela revela o que fez:

” Eu teria apoiado o direito dela escolher. De escolher uma vida para ela mesma, um caminho para ela mesma. Eu teria morrido por esse direito assim como ela morreu pelo meu. Eu sinto muito, mas você chegou no momento errado.”

Você chegou no momento errado. Logo, o assassinato é justificado.

Pelo menos Josephine tem a honestidade intelectual de admitir que sua filha era de fato uma filha, não um fictício amontoado de células. Mas ao alegremente sentenciar a vida da filha em nome da conveniência, Josephine torna-se a emissária de um profundo e permanente mal. Sua mentira de que entregaria a vida pelo direito da criança escolher a própria vida, quando é eminentemente claro que ela não sacrificaria nem mesmo a menor parcela* de inconveniência para evitar matar sua própria criança, é moralmente doente. A criança dela não escolheu morrer por causa da mãe. A filha dela não teve escolha.

Mas Josephine não se importa. “Não murmure* assassinato para mim”, cospe Josephine.

Enquanto isso, do outro lado do oceano, o criador do Obamacare*, dr. Ezekiel Emanuel, escreveu um texto igualmente nauseante em que ele prega a morte aos 75 anos. Não apenas morte para ele mesmo, imagine você – morte para todos. “Meu pai ilustra bem essa situação“, Emanuel escreve, de modo friamente eugenista.

“Há cerca de uma década, com vergonha por causa de seu 77º aniversário, ele começou a sentir dor no abdômen… Ele de fato teve um ataque cardíaco que o levou a um cateterismo e consequentemente a um bypass. Desde então, ele nunca mais foi o mesmo.”

O pai de Emanuel tem 87 anos e diz que é feliz. Isso não importa. Ele não é mais útil, de acordo com Emanuel.

Emanuel enxerga como uma maravilhosa bondade para o resto de nós o envio dos mais idosos para o carrossel de Logan’s Run* – afinal,

“Nós queremos ser lembrados pela independência, e não como fardos… (deixar para nossos netos) uma memória de nossa fragilidade e não de nossa vivacidade é a pior das tragédias.”

Esse é o culto da morte criado por uma sociedade que valoriza a diversão ao invés da vida. Diversão significa que a morte dos outros fica em segundo lugar; diversão significa que se sua capacidade diminui, sua razão de viver acaba.

Se a América foi criada tendo como fundamento a vida, a liberdade e a procura da felicidade, o culto da morte que a esquerda faz hoje em dia desvaloriza a primeira e destrói a segunda na procura pela terceira. E, no fim, não haverá felicidade, pois felicidade não é hedonismo incessante e sim uma vida responsável e moral. Aparentemente, nós esquecemos essa definição de felicidade há muito tempo. O resultado: uma não-civilização de “Josephines” e “Emanuels”.

OBSERVAÇÕES:

  • Menor parcela = no original esta “iota”, que além de ser uma letra grega, significa “small amount” (pequena quantidade); pode ser óbvio para alguns, mas eu não sabia disso antes, por isso achei interessante colocar essa observação.
  • A palavra para “murmúrio” em inglês é “mutter”, que em alemão significa “mãe” (não sei se foi proposital da autora).
  • Obamacare = medidas referentes ao sistema de saúde dos E.U.A. criadas durante a administração Obama com o suposto objetivo de tornar o atendimento médico melhor e mais acessível à população de baixa renda; entre essas medidas estava o controle dos preços dos planos de sáude, entre outras coisas; custou uma fortuna aos cofres públicos e falhou miseravelmente .
  • Logan’s Run = filme distópico dos anos 1970 sobre uma sociedade hedonista e eugenista; esse carrossel que Shapiro cita é um ritual de sacrifício humano.