Apologética 02: Por que crer na Bíblia (John MacArthur)

“É preciso buscar nas Escrituras a regra precisa tanto do pensar quanto do falar, pela qual se pautem não apenas todos os pensamentos da mente, como também as palavras da boca”. – João Calvino (comentário à Confissão de Fé de Westminster)

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Foi difícil escolher por qual livro começar e talvez “Não tenho fé suficiente para ser ateu” deveria ter sido o primeiro, mas vocês sabem o quanto eu gosto do pastor John MacArthur, então não poderia não começar com “Por que crer na Bíblia”. Tem outro motivo também, que é o fato desse livro tratar sobre a organização do estudo bíblico mais do que de apologética em si, e isso é importante, pois você não pode defender algo que você não conhece. Dá desgosto o tanto que eu vejo de cristão confundindo ditado popular com versículo bíblico… Então estudar a Bíblia é o ponto mais importante e tem que vir antes da Filosofia, da Ciência e do que quer que seja.

“As verdades atemporais da Bíblia nunca se tornam obsoletas”

Foi o primeiro livro do MacArthur que eu li e imediatamente gostei muito da escrita precisa e dinâmica dele, com alto nível acadêmico ao mesmo tempo em que é perfeitamente compreensível. Quem me conhece pessoalmente sabe que eu não paro de falar desse livro (está no meu TOP 5 junto com “12 Regras para a vida”,“Como ser um conservador”, “Cristianismo Puro e Simples” e “Cartas de um diabo a seu aprendiz”) e sempre digo que deveria ser usado nas escolas dominicais por ser bem mais interessante e útil do que aquelas revistinhas. Algumas são boas, admito, mas isso aqui é bem mais educativo e vai ajudar muito mais quando a pessoa tiver que defender sua fé. Aliás, esse livro tem umas perguntas e uns versículos-chave no final de cada capítulo, então ele seria realmente bem prático para essa finalidade.

“Minha esperança é que, se você é cristão, este livro não só aumente sua confiança na autoridade e confiabilidade da Palavra de Deus, mas também o motive a se tornar um estudante e amante da Bíblia. E se você ainda não é cristão, confio que você considerará seriamente as pretensões da Bíblia com um coração aberto.”

A obra se divide em duas partes: “Podemos realmente crer na Bíblia?” e “O que a Palavra de Deus faz por nós?”, além de ter a “Declaração de Chicago sobre a inerrância bíblica” como apêndice (documento que MacArthur cita e explica durante todo o livro). No começo, ele trata das razões pela quais podemos confiar na Bíblia como documento histórico e como palavra revelada de Deus, abordando questões como erros de tradução, definição do cânon e o que significa a inspiração divina. No entanto, o que mais chamou minha atenção é a crítica que ele faz ao “cristianismo progressista”. É um tom diferente de “Não tenho fé” por que o ponto principal não é exatamente convencer quem está de fora e sim resgatar a importância integral e exclusiva da Bíblia como autoridade e fundamento da fé cristã (inclusive, aproveito para indicar “O resgate da fé cristã” de Carl Henry, mas não vou fazer resenha por que é um pouco complicado; não que eu esteja desencorajando a leitura, é que é o tipo compreensível, porém difícil de explicar).

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“A vida preenchida pelo Espírito não é nenhum mistério; é simplesmente a consciência de estar em Cristo.”

Na segunda parte, a discussão é sobre como a Palavra de Deus se aplica à nossa vida, então o pastor nos fala sobre comportamento, santificação, testemunho e o agir do Espírito Santo. Ele apresenta algumas razões pelas quais é importante ter argumentos para defender a fé: para que possamos mostrar que ela não tem por base coisas fantasiosas, ao contrário, tem respaldo histórico e científico e mantém uma coerência interna impressionante, o suficiente não para ser provada, mas para ser levada a sério; isso é uma importante porta de entrada para os passos seguintes que são puramente espirituais.

“Muitos de nós gostamos de brincar de cristianismo e manter as práticas e os valores mundanos em nossas vidas. Mas na vida do cristão não há espaço para o lixo do mundo.”

Ele fala sobre como nosso comportamento serve de exemplo da presença de Deus para os outros e sobre como é preciso se fortalecer na fé para atuar na obra de Deus. O autor nos diz que a falta de crescimento espiritual se dá pela falta de contato com as Escrituras Sagradas e também analisa o que ele chama de “consumo de lixo espiritual”, seja a busca por sabedoria mundana, seja o contato com uma teologia pobre com aparência agradável (falando nisso, quem ainda não ouviu o mais famoso sermão do Paul Washer, pesquise no YouTube por “Uma pregação chocante”, tem dublado e legendado). MacArthur nos diz que é preciso procurar alimento sólido e ressalta que a Bíblia não é apenas alimento, é também uma arma. Nas palavras do apóstolo Paulo, ela é uma machaira, espada usada para defesa pessoal, que estava sempre à mão para cortes rápidos e precisos (leiam Efésios 6: 10-20). Além de usar machaira e não outro tipo de espada, Paulo no mesmo texto usa “rema” ao invés de outro termo para dizer “palavra”, pois significa algo como “palavra usada para uma finalidade específica”, o que leva o pastor a concluir que o apóstolo nos instrui a conhecer a Palavra de Deus para poder saber como citá-la e argumentar de forma precisa. Isso nos leva à última e principal parte: o método de estudo.

“As Escrituras existem para lhe dar conhecimento. E adquirir esse conhecimento exige esforço. Quanto mais você estiver disposto a fazer esse esforço, mais proveito você tirará das Escrituras. […] O Espírito opera por meio da Palavra e precisamos ser diligentes para obter sua mensagem.”

John MacArthur desenvolveu um método que eu vou deixar resumido no final do post, mas já adianto que é (na minha opinião) mais recomendável para quem já está  familiarizado com a Bíblia, pois torna a leitura mais demorada, apesar de mais eficiente. O objetivo é fazer o leitor destrinchar cada pedaço das Escrituras e decorar suas passagens (no sentido original da palavra em latim: guardar no coração). É preciso ter um plano de estudos, mas ele não serve de nada sem disciplina. O autor fala sobre o quão importante é se dedicar com amor ao trabalho de conhecer a Palavra de Deus. Reserve um tempo, separe um material, ore muito antes e depois de começar. Medite bastante sobre o que aprendeu. Ele também ressalta a relevância da hermenêutica: não precisa se tornar um grande estudioso, mas tem que conhecer o básico (conceitos-chave, contexto de cada palavra – como vimos no caso de rema e machaira, coisas do tipo) para evitar erros. MacArthur diz que o principal ponto para uma boa hermenêutica é deixar de lado a interpretação pessoal e deixar que a Bíblia interprete a si mesma: separe a passagem, procure referências cruzadas, avalie e por fim veja qual a aplicação daquilo.

“Você deve permanecer em Cristo. Permita que Ele desenvolva o caráter Dele em você as oportunidades virão. Concentre-se Nele, e Ele o colocará em situações de testemunho que serão criadas especialmente para você.”

Para o leitor não-cristão, o livro é feliz em esclarecer o significado e a relevância da Bíblia. Para o leitor cristão, ele é claro em mostrar o objetivo maior da preocupação com a apologética, que é produzir frutos, conquistando almas para Cristo, ao mesmo tempo em que a pessoa  louva a Deus e desenvolve seu caráter à semelhança de Jesus. O último capítulo fecha com dois versículos que ilustram todo o conteúdo: “Procure apresentar-se a Deus aprovado, como obreiro que não tem do que se envergonhar, que maneja corretamente a palavra da verdade.” (2 Timóteo 2:15) & “Habite ricamente em vocês a palavra de Cristo; ensinem e aconselhem-se uns aos outros com toda a sabedoria.” (Colossenses 3:16).

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MÉTODO MACARTHUR

LEITURA SISTEMÁTICA + ESTUDO INDUTIVO (ÊNFASE NO NOVO TESTAMENTO) : seguidos, se você puder tirar cerca de 1 hora ou mais do seu dia para se dedicar, ou alternado se for durante cerca de 30 minutos.

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a) ANTIGO TESTAMENTO:  ler por ordem, em média 2 ou 3 capítulos por dia

b) NOVO TESTAMENTO: aqui vem a parte peculiar do método MacArthur, ele sugere a leitura diária de um único livro durante 30 dias seguidos; ou partes, se for um livro longo: exemplo Atos, com 28 capítulos, você divide por 4, dá 7 capítulos por dia durante cada mês.

Eu amo a Bíblia, eu leio-a todos os dias e, quanto mais a leio tanto mais a amo. Há alguns que não gostam da Bíblia. Eu não os entendo, não compreendo tais pessoas, mas, eu a amo, amo a sua simplicidade e amo as suas repetições e reiterações da verdade. Como disse, eu leio-a quotidianamente e gosto dela cada vez mais. – Imperador Pedro II do Brasil

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Apologética 01: defesa da fé, Senhor dos Anéis e a crítica da crítica.

Obs.: perdoem qualquer erro, por favor, não tenho revisor e depois de ler 3x já fica tão automático que não percebo mais nada.

“Antes, santifiquem Cristo como Senhor no coração. Estejam sempre preparados para responder a qualquer que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês.” 1 Pe 3:15

“Tudo que nós temos que fazer é decidir como aproveitar o tempo que nos é dado. “- J. R. R.Tolkien

Como aproveitar seu tempo? Leia a Bíblia. Leia o Senhor dos Anéis depois (você não vai entender muita coisa se não ler a Bíblia antes). Quality time. Você deve estar se perguntando o que isso tem a ver com apologética. Bem, tenho que falar umas coisas antes.

 Primeiro, tenho que dizer que não sou uma apologeta. Só que eu poderia ser. Isso tem a ver com as frases acima.

Nessa série que pretendo apresentar, vou fazer resenhas de livros que li sobre o assunto, tais como “Não tenho fé suficiente para ser ateu” e “Por que crer na Bíblia”. Ainda não li nem assisti muitas coisas, não estudei o bastante. Isso por que eu não tinha decidido o que fazer com o tempo que me foi dado. Não quero dizer que não devemos gastar tempo com coisas que não trazem conhecimento. Não é isso. Não adianta se trancar num quarto para tentar ser a pessoa mais intelectual do mundo. Não adianta forçar para ser como William Lane Craig ou Alister McGrath. A questão está em dedicar tempo para coisas que possuem valor: pode ser assistir Mr Bean com a família ou aprender a fazer panqueca. Tempo de qualidade na companhia de pessoas que você gosta, adquirindo habilidades úteis ou aprendendo coisas interessantes. Apenas não confunda distração com dedicação.

Eu gastei muito tempo, especialmente na adolescência (argh, teenagers…),mas não só, dedicando tempo com algumas coisas tipo Harry Potter e Supernatural. Eu não lia ou assistia. Eu dedicava tempo. Como isso me ajudou?  Bom, não adquiri nenhuma sabedoria ancestral através dessas coisas e poderia ter usado o tempo que passei pesquisando, desenvolvendo teorias e – atenção – defendendo essas sagas das críticas que recebia (especialmente dos meus pais, aos quais agradeço hoje por isso) para aprender uns 5 idiomas ou algo do tipo.

Falando de um modo geral, creio que devemos escolher com cuidado as coisas com as quais nos distraímos e mais ainda as coisas para as quais pretendemos dedicar nosso precioso e irrecuperável tempo. Não leia qualquer coisa, não assista qualquer coisa, não ouça qualquer tipo de música. Creio que a maioria das pessoas não pensa na capacidade que seu subconsciente tem de reter coisas e aplicá-las na sua vida de modo que você nem percebe, mas você adquire hábitos e idéias dessa forma, daí a importância de selecionar o que você consome com frequência. É igual alimento. Sua playlist molda sua vida. Sua biblioteca molda sua vida. Seu “ver mais tarde” do Youtube molda sua vida. Somos feitos dessas pequenas coisas. E lembre-se: você nunca é jovem demais para começar a se preocupar com isso. Quanto mais cedo melhor. E também nunca é velho demais: antes tarde do que nunca.  Mais uma vez: o que isso tem a ver com apologética? Vamos para a segunda parte.

Note que o parágrafo anterior começa com “falando de modo geral”. Agora quero tratar de um modo específico: o modo cristão. Antes de adiantar o assunto, como sei que tenho alguns leitores não-cristãos, quero dizer que recomendo que vocês leiam a Bíblia também, primeiro por uma vontade interna de que vocês acabem se convertendo, segundo por uma questão bem técnica: é um livro essencial para entender a Literatura e a Filosofia ocidentais. Inclusive para entender O Senhor dos Anéis, já que é um livro repleto de elementos teológicos (uma dica: leia o Evangelho de João e depois assista O Retorno do Rei). Não existe Existencialismo sem cristianismo, não só por que começa com Kierkegaard (e deu sinais de vida com Agostinho de Hipona), mas por que pensadores como Sartre trabalharam com termos cristãos, mesmo se opondo a eles. São só exemplos, tem muito mais.

Mas agora, falando aos cristãos:  há uma correlação entre as frases do apóstolo Pedro e de Tolkien. E do apóstolo Paulo em Colossenses 3, como apresentei no primeiro texto desse blog (A Filosofia para o cristão). Não devemos nos aproximar de Deus? Não fomos orientados a buscar as coisas do alto? Não fomos orientados a dar a razão da nossa fé? Então já sabemos o que fazer com o tempo que nos é dado. Acontece que muitos cristãos tomam o fato de dizerem que são cristãos como sendo suficiente. Há uma espécie de teoria velada (ninguém fala, mas todo mundo sente), de que nada é exigido de nós e Deus aceita tudo de qualquer forma. Bom, não é bem assim. Fomos instruídos (está nas Escrituras do começo ao fim) a buscar conhecer mais sobre Deus e seu Filho Jesus e a dar o nosso melhor ao fazer qualquer coisa para Deus. Não é “só vou até aqui por que Deus entende”, é “vou além por que é para Deus”. Lembre que você não vale nada e essa é coisa que deve te deixar mais feliz. Você não vale nada e mesmo assim foi salvo. O que você pretende fazer em relação a isso? Não vai querer saber mais sobre quem pagou sua fiança para te tirar no inferno? Vai ficar por isso mesmo? Vai deixar que qualquer um fale qualquer coisa tola sobre Ele? Vai dedicar tempo para o que ou para quem?  São essas as perguntas que temos que fazer para nós mesmos.

Estar preparado para responder a razão da sua esperança significa algumas coisas e aqui vai minha crítica à crítica do legalismo:  às vezes entendo e concordo, afinal, somos salvos pela Graça, porém algumas dentre essas pessoas usam isso como uma desculpa para não seguir regras como se o pecado estivesse não em achar que as obras te salvam, mas em fazer as obras! Ora, não deveríamos ter um compromisso com Deus? É errado reservar um momento para diariamente estudar sua Palavra e orar? Uma coisa que C.S.Lewis fala em Cristianismo Puro e Simples e que me chamou atenção por me parecer verdadeira é que o bem e o mal não estão nas coisas em si e sim na disposição do seu coração, é isso que diferencia um vício de uma virtude. Outra coisa que Lewis falou foi sobre o começo de sua conversão: ele não sabia como orar, não sabia se funcionava nem se ele estava conectado com Deus, mas resolveu ficar tentando. De tanto “treinar”, compreendeu e começou a fazer de coração. A prática importa. Pode não ser legalismo, pode ser uma forma de organizar e priorizar a vida espiritual, o que deveria nos inspirar.

Estar preparado para responder a razão da sua esperança significa dedicar tempo para Deus de muitas formas, especialmente no estudo das Escrituras, bem como de leituras extra-bíblicas, isto é, coisas como História do Cristianismo, biografias e obras de heróis da fé, várias coisas do tipo, inclusive … apologética.  E apologética não é “brigar com ateus” e sim mostrar a verdade do Evangelho, mesmo dentro de igrejas cristãs. Se você não conhecer, você vai se deixar enganar. Nos enganamos com coisas pequenas como dizer que todos são filhos de Deus (leia Romanos 8) ou que o dilúvio durou 40 dias e 40 noites (pesquise no Youtube por “Adauto Lourenço dilúvio” e você vai se surpreender com a ciência por trás de uma das histórias mais conhecidas e mal interpretadas da Bíblia). É preciso aprender e isso é um caminho que não tem fim pois sempre tem algo mais para saber. A Bíblia é um livro que não se esgota. Um vez, li a frase: “Seja a Bíblia de quem não vai à igreja”. Isso é apologética. Sua vida tem que ser uma constante demonstração da sua fé. Essa é a mensagem de Páscoa que eu quero deixar para vocês, junto com o convite para acompanhar a série (e ler os livros!).

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