CRISTIANISMO AÇUCARADO

“Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada.”

palavras de Jesus no Evangelho segundo Mateus (capítulo 10, versículo 34)

“Religião não é para promover o ódio, nem para dividir. A religião pode fortalecer valores que priorizem a construção de uma cultura de paz, de tolerância, de menos ódio, de mais aceitação mútua e assim por diante.”

Romi M. Bencke (grifos meus*)

*OBS.: esse texto foi escrito em conjunto com meu namorado, Djesniel Krause, que é teólogo; as referências pessoais não identificadas (ex.: “grifos meus”, “uso uma Bíblia”, etc) são minhas, ainda que eu não tenha escrito o parágrafo inteiro sozinha.

Uso uma Bíblia de estudo que trata de algumas seitas pseudo-cristãs, isto é, que se dizem cristãs, mas não o são, uma vez que violam pontos fundamentais do cristianismo. Na maioria delas, uma pessoa diz ter recebido uma nova revelação, colocando a Bíblia Sagrada em segundo plano, apenas para utilizar um ou outro versículo aleatório que pareça “aprovar” sua nova religião. Uma delas, por exemplo, é a “igreja apostólica da santa vó Rosa”, fundada por uma senhora que dizia ser ela mesma o “espírito consolador” que Cristo prometeu enviar, conforme encontramos no Evangelho de João 15:26. Hinos de louvor são cantados no nome dela. Ela “corrigiu” a Bíblia.

Nem sempre o desvio é tão óbvio. Nem sempre os falsos mestres lançam novos “evangelhos” ou se colocam como ídolos, mas são igualmente perigosos por tentar remodelar o cristianismo de acordo com sua ideologia. Um exemplo recente foi o Ed René Kivitz, que disse que a Bíblia deveria ser atualizada. Não no sentido de uma nova tradução, com o objetivo de deixar sua mensagem mais compreensível, mas sim de acomodar seu conteúdo ao contexto contemporâneo, ignorando assim o que Jesus Cristo diz no Evangelho de Mateus: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar” (Mt 24:35). Outro caso, mais antigo, foi do Leonardo Boff, que tentou infiltrar o marxismo na igreja católica, tirando o foco da salvação pela morte e ressurreição de Cristo, ignorando as críticas de Marx ao cristianismo e fechando os olhos para o fato de que todo país socialista/comunista persegue cristãos em maior ou menor grau, pois não há espaço para Deus, apenas para o Estado, a classe operária, ou o que quer que eles coloquem como redentores da História. A ideia de progresso e escatologia é secularizada, transformando-se em uma utopia materialista.

O caso que me motivou a escrever esse texto foi uma citação com a qual me deparei numa rede social (e que coloquei no início dessa postagem), as aparentemente inofensivas palavras da senhora Romi Márcia Bencke, que a despeito de sua formação teológica e sua posição como pastora luterana, defende pautas progressistas, tais como aborto, ideologia de gênero e ecumenismo inter-religioso – para dizer o mínimo, mas eu não ficaria surpresa com mais nada vindo dela, do Kivitz, do Boff ou de qualquer desses. Como todos esses estudaram Teologia, não têm a desculpa da falta de conhecimento, então é uma perversão deliberada; só que muitas coisas que eles falam parecem bonitas e sensatas, enganando facilmente aquelas pessoas que tem em mente a imagem de um Jesus hippie, advinda da cultura popular. Como diz Austin Fischer no livro “Jovem, incansável, não mais reformado”:

“Conforme Mark Driscoll observa, muitos querem “remodelar Jesus como um hippie […] que fazia comentários zen incisivos acerca da vida […]. Esse Jesus jamais poderia enviar alguém para o inferno, pois isso violaria o seu principal atributo, agradabilidade.”

FISCHER, 2015, p.55-56 (grifos meus)

Também Wayne H. House comenta sobre isto:

“A igreja é vista com judiciosa, ao passo que se diz que Jesus não julga as pessoas. A igreja fala contra os pecados como a homossexualidade, ao passo que Jesus amava todas as pessoas independentemente de seus pecados, como aconteceu com a mulher pega em adultério. A igreja tem interesse em questões políticas, mas Jesus não se envolveu com política e só trabalhou para aliviar o fardo das pessoas. […]. Essa tentativa para compreender Jesus, com frequência, é feita sem qualquer referência sobre o que realmente conhecemos a respeito dele. Simplesmente adivinhamos quem ele é e como ele age – muito frequentemente, como achamos que ele deve ser e agir para ser aceitável à mente do homem do século XXI. À parte do apelo da revelação divina, essa é a maneira pela qual ele tem sido visto ao longo dos séculos, incluindo o século em que ele viveu aqui na terra”.

HOUSE, 2009, p. 26

Devemos deixar de lado o Evangelho segundo Mateus, Marcos, Lucas e João, que falam sobre pecado, condenação e arrependimento, para aceitar as boas-novas de Kivitz, Romi, Boff e Antônio Carlos Costa (outro marxista) se quisermos ser politicamente corretos e nos conformar com o espírito da época. Fomos chamados, de acordo com esses novos profetas, para tolerar qualquer prática e aceitar qualquer idéia, pois nada desagrada a Deus. Aceitação e tolerância se tornaram as virtudes máximas e devem ser priorizadas em detrimento do arrependimento do pecado – pois não existe mais pecado, uma vez que esse é um conceito opressor. Usam o martelo de Nietzsche para livrar os fiéis das amarras metafísicas, por isso vêem tudo sob uma perspectiva materialista-histórica e se vêem no direito de alterar o Livro Sagrado – já que não existe mais Sagrado. É um niilismo disfarçado: no fundo, não há Deus, não há nada, pois se houvesse Deus, sua Palavra revelada deveria ser a autoridade máxima, ainda que esteja em desacordo com o que é mais popular nesse século.

Parece que faltam páginas na Bíblia de algumas pessoas que dizem lê-la; ou falta atenção. Ler em si não é a questão. Até meados do século XX, muitos convertidos nem sabiam ler, mas tiveram contato com o Evangelho verdadeiro, pregado por pastores fiéis em épocas difíceis, que enfrentaram perseguição em nome de Cristo, como o médico e missionário presbiteriano William Butler, que veio dos Estados Unidos para plantar igrejas em Pernambuco. Essas pessoas entendiam a mensagem e não seguiam modinhas. A mensagem clara é: existe uma verdade objetiva, que é Jesus Cristo, que foi enviado para pagar o preço pelos nossos pecados e aplacar a ira de Deus, que é um Deus justo e santo, que não tolera o pecado; Ele morreu para que todo aquele que nele crer seja salvo (Jo 3:15), mas quem não crê, já está condenado (Jo 3:18).

Jamais fui capaz de ler os evangelhos sem me encolher um pouco com medo. As palavras e ações de Jesus geralmente são um pouco espinhosas. […]Uma análise honesta dos evangelhos deixa claro para mim que Jesus é bem duro. Ele tem um senso robusto da depravação humana. Ele geralmente fala claramente acerca da ira sob a qual estamos como resultado de nossa depravação. […] E um dia Ele virá com uma espada para julgar “mortos, grandes e pequenos” .

FISCHER, 2015, p.57 (grifos meus)

As tendências culturais precisam ser avaliadas e julgadas à luz das Escrituras, e não o oposto. Não podemos permitir que elas sejam normativas. Também precisamos buscar conhecimento para compreender as coisas, ao invés de apenas adotar uma ideia superficial.

Isso é muito importante de ressaltar, por que algumas dessas pessoas que concordam com esses falsos mestres, acreditam que estão agindo em nome do amor. Acham que amar o próximo é deixá-lo confortável nesse mundo e com isso só colaboram com a condenação deles. Onde está o amor nisso? Se um cristão ama alguém de verdade, quer que essa pessoa conheça Cristo. Voltando ao livro de Austin Fischer, ele diz:

“O cristianismo ocidental tem um problema com o amor, a saber, diminuímos por demais o amor ao fazermos muito caso dele. Amor é tolerância, amor é inclusão, amor é autoestima, amor é conforto. E, ao transformar o amor nessas coisas, o amor se tomou em nada. […] Para fins de simplicidade, vamos chamar isso de o problema do “amor brando”, ao se tornar tudo, o amor se torna nada.”

FISCHER, 2015, p.68 (grifos meus)

Eu (Djesniel) nem mesmo chamaria isto de amor, apenas de indiferença. É a aceitação de um conceito sem conhecê-lo. Fischer continua:

“Você sabia que o Livro de Atos não menciona o amor uma vez sequer? Quer esteja procurando pelo substantivo ou pelo verbo, faça uma pesquisa pela palavra “amor/amar” e você irá saltar direto de João para Romanos. Longe de ser uma casualidade retórica, penso que o escritor está tentando ensinar-nos algo. Não somos nós que devemos definir o que é amor; Deus é quem define. E essa é a primeira coisaque precisamos saber acerca do amor de Deus. Se quisermos entendê-lo, então devemos ir ao lugar onde Deus o define, a saber, Jesus Cristo, crucificado.[…]Não devemos falar de amor de forma abstrata, como algum ideal humano fofo de boa vontade.”

FISCHER, 2015, p.69

Isto nos remete a C.S. Lewis: “a verdade segundo a qual Deus é amor poderá furtivamente vir a significar para nós o oposto – que o amor é Deus” (LEWIS, 2009, p. 9), e então, precisamos complementar, o amor “passa a ser um demônio no instante em que passa a ser um deus” (LEWIS, 2009, p. 9).

Claro que as palavras de Cristo em Mateus 10:34 não são no sentido de o cristão sair por aí matando quem discordar dele, mas sim de que o cristianismo não seria baseado na simples união e tolerância, mas causaria divisão, seria uma religião perseguida, considerada escandalosa e insana (1 Coríntios 1:23) e cujos adeptos teriam que fazer uma escolha entre Cristo e o mundo, ao invés de “atualizar” algo ou priorizar a paz em detrimento da Verdade.

Alguns de vocês podem pensar : “Ah, Samara, mas você não é teóloga para ter autoridade de discutir com essas pessoas.” (mas eu, Djesniel, sou ;D) (e um muito dedicado ♥) Ainda assim, vamos considerar algumas coisas:

1) A autoridade não está na pessoa, e sim na Bíblia, então até um ateu instruído estaria certo em contestar. Qualquer um dos irmãos mais simples, que nem ao menos sabe ler, mas possui conhecimento, pode contestar.

2) Estudei Filosofia, sei de onde essas ideias vêm, sei o trabalho que os pais da igreja tiveram para desvincular o cristianismo do paganismo grego e também sei o ideal pós-moderno de propagar o relativismo. O apóstolo Paulo já alertava: “Tenham cuidado para que ninguém os escravize a filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo, e não em Cristo” (Cl 2:8) .O problema não é a filosofia, mas o fundamento dela: quem tenta adequar o cristianismo à filosofia ao invés de fazer o caminho contrário, cai nesse erro. 

Devemos antes, como Lutero, manter nossa consciência cativa à Palavra de Deus.

Você foi chamado para ser sal, não açúcar.

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BIBLIOGRAFIA:

FISCHER, Austin. Jovem, incansável, não mais reformado. Maceió: Sal Cultural, 2015.

HOUSE, H. Wayne. O Jesus que nunca existiu. São Paulo: Hagnos, 2009.

LEWIS. C.S. Os quatro amores. 2. Ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009.

4 comentários em “CRISTIANISMO AÇUCARADO

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