Conspiração, negacionismo e o Holocausto: como a memória e a imaginação iluminam tempos sombrios

Muito se tem falado atualmente sobre “teoria da conspiração” e “negacionismo científico”. É interessante ver essa fé cega que algumas pessoas depositam na “Ciência” como se esta fosse uma espécie de deus e não uma área do conhecimento na qual há divergências internas e pontos obscuros – assim como em qualquer outra. É igualmente interessante que essas mesmas pessoas se neguem a acreditar que a ordem atual das coisas pode sofrer alguma alteração. É até compreensível querer acreditar que a normalidade não será perturbada. É mais confortável psicologicamente e mais fácil intelectualmente, pois não exige que o indivíduo dedique tempo observando nuances na cultura e na política e estudando coisas antigas para tentar entender como a humanidade se desenvolveu até aqui, como enfrentou crises e qual o caminho que esse movimento histórico parece indicar para o futuro. Tudo isso dá trabalho e não é nem um pouco divertido.

Hoje é o Dia da Memória do Holocausto e o tema do “conspiracionismo” e “negacionismo” tem uma profunda relação com esse momento tão terrível da História recente. Muita gente se emociona com filmes que contam histórias dessa época, muita gente evoca o termo “nazista” para rotular oponentes políticos, tudo isso sem entender como as coisas realmente aconteceram.

Há 10 anos, li um livro chamado “Inverno na manhã”, de Janina Bauman (esposa de Zygmunt Bauman), uma jornalista judia polonesa que narra como ela e sua família conseguiram escapar da perseguição do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores da Alemanha (quem acompanha o blog desde o começo já deve ter notado que eu gosto de usar o nome completo do partido, isso por que lembro muito bem de professores socialistas criticando o “nazismo” como se fosse algo completamente apartado das ideais totalitárias que eles mesmos defendem e como se fosse uma ideologia de direita! Socialismo de direita!). É uma obra que gosto de recomendar, mas não vou fazer resenha no momento, quero apenas ressaltar um detalhe: o tio conspiracionista (obs.: não lembro se essa palavra é usada no livro).

Um tio da autora, antes da nomeação de Adolf Hitler como Chanceler do Reich em 1933, já alertava sobre os desdobramentos da influência política e cultural que o Partido Nacional-Socialista estava ganhando. Voltando 10 anos na História alemã, vemos o episódio que ficou conhecido como “Golpe da Baviera” ou “Putsch da Cervejaria”.  Era (mais um) momento difícil naquele recém-unificado país e o povo vivia debaixo da sombra da Grande Guerra(1914-1918), que além do prejuízo econômico e do luto, feriu também o orgulho nacional, deixando um rastro de ressentimento (e para entender melhor ainda como as coisas chegaram nesse ponto, é preciso estudar da Paz de Vestfália até a Primeira Guerra Mundial). Nesse contexto de crise, a Baviera resolve se separar do resto da Alemanha por discordar da política de Berlim. Foi então criado um governo provisório, regido por um triunvirato. Pouco tempo depois, enquanto os três líderes da Baviera discursavam numa cervejaria na capital (Munique), o local foi invadido por militantes do partido de Hitler, junto com ele próprio. O golpe fracassou – em parte. Hitler foi condenado à prisão em 1924, onde passou 9 meses – o tempo de gestação do seu livro “Minha Luta” (Mein Kampf).

Com todo esse histórico, e sabendo hoje o que aconteceu depois, quem de nós chamaria o tio da Janina de “conspiracionista”? Está claro hoje que ele foi capaz de perceber a infiltração de uma ideologia e uma tendência de prática política que estava ganhando forma. Ele fugiu antes das coisas piorarem, mas o resto da família não quis acreditar nos “exageros” dele. Foram então perdendo espaço pouco a pouco: uma família de bem estar financeiro que passou a morar no Gueto da Varsósia, primeiro com algumas restrições, depois de forma miserável, pois faltava comida, atendimento médico e acima de tudo, faltava liberdade.

Pouco a pouco, os judeus, eslavos e alguns outros grupos de “impuros” começaram a ser mandados para campos de trabalho forçado – locais onde também ocorriam experiências científicas cruéis e extermínio em massa.  Aliás, hoje passamos também por um momento de banalização das palavras: genocídio é um termo que carrega um significado de acordo com a etimologia e não com a vontade midiática de causar impacto emocional. Vem de geno = raça + cídio= matar, termo que foi criado por um advogado judeu para descrever o holocausto e foi usado nas descrições dos julgamentos do Tribunal de Nuremberg, a partir de onde se popularizou.

No início de 1933 aconteceu um atentado terrorista em Berlim: o incêndio do Reichstag (parlamento). Um comunista holandês foi identificado como autor do ataque e alegava que tinha feito isso sozinho. Hitler não era ainda o Führer, era apenas chanceler, mas soube aproveitar essa oportunidade para tomar o poder. A população assustada com o caos, acatou o aumento dos poderes do chanceler como sendo uma medida protetiva (“é para o seu bem”, igual o lockdown). Começou então uma caça aos comunistas que os professores socialistas gostam de ressaltar, da mesma forma que gostam de ressaltar que os soviéticos “ajudaram a derrotar os nazistas”, como se isso automaticamente tornasse o comunismo aceitável – o que requer que ignoremos a origem comum de ambas as ideologias, o breve momento de comunhão entre Hitler e Stalin, o fato de que o líder nacional-socialista apenas se aproveitou do acontecimento, a crueldade do Exército Vermelho e o modus operandi do regime soviético em geral. 

Voltando ao assunto principal, falemos da lição que esse momento histórico nos ensinou sobre ciência. Depois de ter consolidado o poder (perseguição aos opositores, desarmamento, censura,etc,o kit básico de totalitarismo), os planos do partido começaram a ser implementados. Eles já haviam sido divulgados antes, começando com “Minha Luta”, mas nesse momento, estavam sendo impostos com base numa suposta justificação histórica e científica.

Toda a cultura estava tomada: criaram a Reichskulturkammer, uma espécie de ministério da cultura, que utilizava a arte para propagar a ideologia do partido, criar uma sensação de união, paz e normalidade, ainda que houvessem muitos conflitos abaixo da superfície. Um breve comentário sobre a Reichskulturkammer e o ministério da propaganda: é um ponto que gostam de comparar com o conservadorismo por causa da ligação com os clássicos, a crítica ao modernismo e busca pelas raízes nacionais. No entanto, essa é uma visão muito rasa do conservadorismo. O “nazismo” era revolucionário e tinha o objetivo de criar uma nova e perfeita sociedade, através de engenharia social e controle tecnológico. O conservadorismo, ao contrário, está baseado na experiência histórica, e não num passado ou futuro utópicos; na percepção de que a natureza humana é imperfeita, e por isso não pode haver sociedade perfeita; de que a individualidade deve ser respeitada e a propriedade privada deve ser defendida (muita gente pensa apenas no sentido material, mas isso inclui a vida, que é nossa primeira propriedade); que instituições que historicamente se mostraram boas, úteis e belas devem ser mantidas e as demais devem ser reformadas ou destruídas; entre outros aspectos que podem ser melhor compreendidos ao ler obras como “Reflexões sobre a revolução na França” (Burke) e “Como ser um conservador” (Scruton).

A base do pensamento hitlerista, diferente de outros partidos nacionalistas ou trabalhistas, era a superioridade da raça ariana. Não era ser alemão que importava exatamente. Não era o passado em comum, o idioma ou as instituições que uniam a nação o que importava, e sim a aparência e a genética. Existiam livros escritos por cientistas que “comprovavam” a superioridade racial ariana. Era com base no avanço tecnológico que a eugenia era pregada e aplicada: eliminar deficientes e as raças inferiores para ter um futuro melhor (com base nisso Sanger criou as clínicas de aborto Planned Parenthood). Foram c-i-e-n-t-i-s-t-a-s que desenvolveram o projeto Lebensborn, cujo objetivo era criar crianças perfeitas, os melhores arianos possíveis. Para entender melhor, sugiro assistir a série “O Homem do Castelo Alto”, da Amazon, baseada na obra homônima de Philip K. Dick, que imagina um mundo em que Hitler venceu a guerra. Apesar de ser uma obra fictícia, o autor não inventou as ideias e as práticas do Partido Nacional-Socalista, tudo foi fundamentado no que está extensamente documentado. Vemos como a eugenia era tratada como a mais alta CIÊNCIA.

Olhando tudo que aconteceu entre 1923 e 1945, devemos pensar duas vezes antes de aceitar ou rejeitar qualquer ideia. Não estou dizendo para não tomar vacina ou que a China vai dominar o mundo, mas quero alertar que devemos refletir antes de criticar e considerar algumas coisas como possibilidades, ainda que não concordemos 100% com elas. A solução está em investigar tudo. Mas para investigar, não basta duvidar, tem que estudar.  Pesquise em várias fontes sobre as notícias, compare os dados com o que você vê no seu dia-a-dia, procure saber sobre como funcionam as instituições políticas, jurídicas e sociais, aprenda sobre história, leia ficção de qualidade, dessas que tratam de temas profundos, nos trazem informações importantes e nos levam a refletir sobre quem nós somos. O cultivo da imaginação e da memória nos liberta das amarras dos governos, da mídia, dos revolucionários e dos demais mecanismos que tentam nos dominar.

Imaginação não significa mentira, como muitos entendem: é uma campo que nos permite simular cenários aproximados da realidade ; inclusive, a imaginação é a chama da filosofia e das demais ciência, pois para ir além do que é imediatamente dado, é necessário ter essa capacidade de juntar as informações e formular hipóteses que depois serão analisadas.  Imaginação e memória, quando educadas, iluminam nosso caminho para que superemos tempos difíceis, assim como nossa fé é fortalecida através do conhecimento e nos sustenta frente às adversidades – não uma fé superficial (como a cientificista), que nos ilude, mas uma que liberta nossa consciência e abre nossos olhos para a verdade, ainda que não seja fácil ou confortável.

Espero que as pessoas não lembrem apenas da estética do holocausto, mas da história real e que as hashtags usadas nas redes sociais no dia 27 de janeiro não sejam apenas repetidas, mas entendidas por seu significado:

We Remember – lembre do que aconteceu

Never Forget – nunca esqueça

Never Again – para que não aconteça de novo

O silêncio em face do mal é o próprio mal: Deus não nos considerará inocente. Não falar é falar. Não agir é agir.

Outros posts sobre Holocausto:

https://discursosemmetodo.wordpress.com/category/shoah/

2 comentários em “Conspiração, negacionismo e o Holocausto: como a memória e a imaginação iluminam tempos sombrios

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