Coração de Leão: uma homenagem a sir Roger Scruton

“O conservadorismo advém de um sentimento que toda pessoa madura compartilha com facilidade: a consciência de que as coisas admiráveis são facilmente destruídas, mas não são facilmente criadas. Isso é verdade, sobretudo, em relação às boas coisas que nos chegam como bens coletivos: paz, liberdade, lei, civilidade, espírito público, a segurança da propriedade e da vida familiar, tudo o que depende da cooperação com os demais, visto não termos meios de obtê-las isoladamente. Em relação a tais coisas, o trabalho de destruição é rápido, fácil e recreativo; o labor da criação é lento, árduo e maçante. Esta é a grande lição do século XX.” – Sir Roger Scruton

Hoje faz um ano que o filósofo sir Roger Scruton faleceu depois de uma batalha contra o câncer e me sinto no dever de homenageá-lo devido à importância que teve no cenário mundial e especialmente brasileiro, mas também por ter sido um marco na minha vida pessoal e acadêmica.

Fui apresentada ao trabalho de Scruton graças a um amigo da faculdade. Apesar de nunca ter concordado com qualquer ideia de esquerda sobre política e economia, estava me aproximando numa pauta cultural – talvez a mais perigosa delas: feminismo. Eu me dizia “feminista conservadora”, claramente sem entender o que significava ser conservadora. Foi quando esse amigo disse que eu deveria ler “Como ser um conservador”. Aceitei a dica, foi um dos melhores livros que li na vida e isso me mudou profundamente. Essa obra de Scruton me ensinou o que verdadeiramente significa ser conservador e qual o valor da tradição. Em seguida, assisti “Por que a Beleza importa”, documentário que abriu meus olhos para o que realmente significa filosofar: buscar o que é bom, belo e verdadeiro (a sabedoria).

Roger Vernon Scruton nasceu em 1944, penúltimo ano da Segunda Guerra Mundial, no interior da Inglaterra, na pequena cidade de Buslingthorpe, condado de Lincolnshire, cuja economia é essencialmente rural, então sabemos que cresceu cercado por campos verdejantes e arquitetura medieval, uma mistura de simplicidade com elegância, duas características que descrevem muito bem a pessoa que ele se tornou.  Até o ano de seu nascimento mostra um traço de sua personalidade: por pouco escapou de ser um baby boomer – a geração nascida após a guerra e que se tornou uma geração marcada pelo movimento hippie e outras rebeliões contra os costumes. Desde garoto, se dedicou à vida intelectual e artística. Talvez nunca tenha imaginado a tarefa que iria empreender: resgatar o trabalho que foi começado por outro britânico um século e meio antes. Fé, amor, senso de dever e um grande talento o colocaram nesse caminho.

Edmund Burke – filósofo britânico que é considerado o pai do conservadorismo e que escreveu, dentre outras coisas, sobre política e beleza – estudou de perto a Revolução Francesa e escreveu um livro (Reflexões sobre a revolução na França) contra a ideologia que serviu de base para a mesma, criticando quem preferia destruir tudo ao invés de reformar o que havia de errado e preservar o que havia de bom e admirável. Aos 24 anos, Scruton foi à Paris e presenciou as terríveis manifestações estudantis de 1968. A partir daí, começou a estudar esses movimentos. Ele foi contemporâneo de alguns ideólogos como Derridas e Galbraith, chegando a dissecar e contrapor o pensamento deles em livros como “Pensadores da Nova Esquerda” e sua continuação, “Tolos, fraudes e militantes”. Tanto Burke quanto Scruton basearam seus argumentos não apenas na lógica, mas também nos exemplos encontrados na História inglesa e na tradição de seu povo. Eram homens que amavam o país e a cultura, mas acima de tudo, amavam a verdade.

De acordo com a tradição popular medieval anglo-saxã, o lendário Rei Arthur retornaria quando seu povo mais precisasse. Como comentei no texto sobre cavalheirismo (para quem não leu, vou deixar o link no fim do post), o rei Arthur e seus cavaleiros representam a junção do ideal do forte e corajoso guerreiro saxão com o modelo de vida sacrificial cristã. É algo ao mesmo tempo universal e propriamente britânico. A impressão digital de um povo inserida em algo maior.

Você deve estar se perguntando o que isso tem a ver com o assunto: é algo significativo por que é o fundamento da identidade inglesa e foi essa tradição que moldou o pensamento de Roger Scruton e salvou essa nação algumas vezes quando a Europa tinha caído, como quando derrotaram a “Invencível” Armada Espanhola, o imperador francês Napoleão Bonaparte e o líder do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores da Alemanha, Adolf Hitler. De fato, parece que em tempos difíceis, “homens arturianos” são levantados (eu e meu pai os chamamos de Guardiões da Ilha): do Rei Henrique V até sir Winston Churchill.

Eu classificaria Scruton como um homem arturiano, ainda que tenha travado batalhas de outras formas. Durante a Guerra Fria, ajudou a fundar faculdades clandestinas nos países do leste europeu que estavam sob o domínio da União Soviética. Não voltou atrás quando foi humilhado por colegas professores em grandes universidades ou quando tentaram “cancelar” seus livros apenas por que suas opiniões contrariavam o pensamento hegemônico – esse pós-modernismo que aceita tudo e faz com que “tudo” signifique “nada”. Ele poderia ter ficado calado, ter sido politicamente correto e teria tido uma carreira de sucesso sem grandes dificuldades. Mas ele optou por defender seus princípios e conquistar a vitória com sangue, suor e lágrimas.

O conservador é cético e esperançoso ao mesmo tempo. Não acredita que haverá perfeição na Terra, mas sabe que a Perfeição em si é boa, bela e verdadeira e deve ser buscada a qualquer custo, pois ainda que seja inalcançável, ilumina o mundo e torna nossa vida melhor, mesmo em meio a tudo que temos que enfrentar. É isso que Platão diz sobre o trabalho do filósofo: sabe que nunca será plenamente sábio, mas não se contenta com a ignorância. É assim que deve ser a vida do cristão: sabe que não será totalmente igual a Cristo, mas deve tentar viver como Ele. É uma maneira de dar sentido à existência e entender o que significa ser humano.

Roger Scruton conseguiu transmitir tudo isso de forma magistral e comoveu muita gente, especialmente no Brasil. Ele foi fundamental para a transformação cultural e política do nosso país, algo que ele sabia e tinha orgulho. Scruton nos ensinou a essência do conservadorismo e nos instruiu a buscarmos nossas raízes e desenvolvermos nosso próprio movimento, de acordo com nossa herança e nossas necessidades enquanto nação. Nos mostrou que é preciso sair do campo político e contemplar a Beleza, pois o conservadorismo é muito mais sobre coisas transcendentes do que sobre coisas terranas, pois é fundamentado no amor:

“A esquerda se une pelo ódio, mas nós (conservadores) nos unimos pelo amor: amor pelo país, pelas instituições, pela lei, pela família, e por aí vai. Nós queremos proteger o que eles querem destruir.”

Suas últimas palavras públicas foram ditas ao jornal The Spectator em dezembro de 2019, quando fez um resumo do ano, basicamente um parágrafo por mês. Foi um ano conturbado, em parte por conta do tratamento contra o câncer, também por causa dos ataques contra sua reputação devido às opiniões sobre a questão islâmica na Inglaterra. Ele foi atacado pelo próprio Partido Conservador, tendo sido destituído do cargo no departamento de arquitetura e urbanismo. Ele comenta também sobre coisas boas, como o carinho recebido pela família e pelos amigos, e sobre a recepção que teve em dois países nos quais ele é considerado um herói: Polônia e Brasil. Devido ao trabalho contra o comunismo no leste europeu, o governo da Polônia lhe condecorou com a Ordem do Mérito. Ele registrou que o embaixador britânico não compareceu ao evento, provavelmente para não ser associado a ele, e diz que voltou para a Inglaterra “com um coração cheio de gratidão por um país onde eu seria bem recebido como refugiado”. Logo depois, comenta que: “não seria o único país [a me receber de bom grado como refugiado], pois por razões que desconheço, tenho um fã clube no Brasil”, onde, em suas palavras, há uma multidão de jovens empenhados em salvar a civilização ocidental no lugar mais distante onde ela chegou – o próprio Brasil (quem ainda não assistiu a série A Última Cruzada, da Brasil Paralelo, recomendo assistir). O último parágrafo, sobre o mês de dezembro, foram as belas palavras que traduzo a seguir (grifos meus):

“Durante esse ano, muita coisa foi tirada de mim – minha reputação, minha posição como intelectual público, meu posto no movimento conservador, minha paz de espírito, minha saúde. Mas muito mais me foi dado: a generosa defesa de Douglas Murray e os amigos que batalharam com ele, o reumatologista que salvou minha vida e o médico que cuida de mim. Caindo em meu país, fui alçado ao topo em outros locais, e olhando para toda essa sequência de eventos, só posso estar feliz de ter vivido tempo suficiente para ver isso acontecer. Chegando perto da morte, você começa a saber o que a vida significa, e ela significa gratidão.”

OBS: mais uma coincidência entre Scruton e Burke, ainda que por motivos opostos, é que Burke nasceu no dia 12 de janeiro.

A Necessidade do Cavalheirismo:

https://discursosemmetodo.wordpress.com/2020/07/15/a-necessidade-do-cavalheirismo/

A Última Cruzada:

4 comentários em “Coração de Leão: uma homenagem a sir Roger Scruton

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