Feminismo x Feminilidade: a vida de Katharina von Bora

Nesse dia em que comemoramos os 503 anos da Reforma Protestante e dando continuidade a série sobre feminilidade bíblica, trago algumas informações e considerações sobre Katharina von Bora, a esposa de Lutero. No entanto, não é tão fácil ter uma visão correta sobre quem foi Katharina, já que ela mesma não deixou nada escrito sobre suas convicções pessoais e não foi objeto de atenção especial para ser registrada em sua época – foi “apenas” uma hausfrau (senhora do lar) competente e esposa de alguém importante.

Como falei no texto inicial da série (para quem não leu, tem o link no fim do post), precisamos contar a história de mulheres que foram exemplos positivos (apesar de não perfeitos) de feminilidade segundo a Bíblia. Katharina foi uma dessas, sem dúvida. “A esposa e mãe mais feliz da Alemanha”, como supostamente ela mesma disse. Valdecélia Martins diz que “conhecer um pouco da sua vida pode nos fazer perceber como a vida de uma mulher comum pode contribuir grandemente para que os planos e a glória de Deus se manifestem na História” (grifos meus).

 Se não contarmos essas histórias, elas serão contadas e corrompidas por pessoas que querem distorcer o Evangelho e a história da igreja para que se encaixem em suas ideologias. Isso aconteceu com a história de Katharina. Uma de suas biografias, talvez a mais conhecida no Brasil (não por sua qualidade, mas pela escassez de material em português), tem um viés feminista. Trata-se do livro “A primeira-dama da Reforma”, de Ruth A. Tucker. Essa obra é cheia de contradições, especulações e informações mal colocadas. Nos últimos capítulos, ela deixa bem claro que “se projeta” em Katharina, então preenche as lacunas com seus próprios pensamentos como se fossem os sentimentos da biografada. Ela também parece ter prazer em apresentar Katharina como uma mulher secular e que gostava de retrucar seu marido. Comentarei sobre esses aspectos depois.

Talvez o artigo “A feminilidade bíblica e a esposa de Lutero” (Valdecélia Martins) tenha sido uma resposta ao livro “A primeira dama da Reforma: A extraordinária vida de Catarina von Bora” – começando pelo título, já que ela não é nem chamada pelo próprio nome, é a “esposa de Lutero”. Esse livreto tem uma abordagem bem diferente e mais positiva do ponto de vista cristão, apesar de menos relevante do ponto de vista histórico – o que não é um defeito, já que a proposta não é tratar da vida de Katharina como um todo, mas destacar um aspecto. Outro livro que usei de referência foi o “Kate Luther” de D.D. William Dallmann.  

Valdecélia Martins alerta sobre o movimento feminista, especialmente sobre “feministas inovadoras de uma teologia que redefine a mulher”, e nos diz que é preciso “olhar para as mulheres atuantes na Reforma sem os óculos do feminismo”, pois esta ideologia é incompatível com o ensinamento bíblico por colocar o ‘empoderamento’ da mulher justamente em não cumprir a “função de parceira e auxiliadora estabelecida por Deus desde a Criação (Gn 2:8)”.

 Interessante ela ressaltar esse último ponto, pois realmente o papel de auxiliadora não foi uma consequência da Queda. Foi algo ordenado antes.  Infelizmente, ela ainda repete o conto de que algumas conquistas sociais foram fruto da luta feminista, o que eu discordo, mas não é assunto para esse momento. Porém ela diz que é uma “luta ilegítima, pois pauta-se numa motivação egoísta”, comentando ainda que é uma estratégia para minar as tradições, destruir o casamento e alienar pais e filhos.

Martins diz que “a Reforma Protestante fundamentou-se, essencialmente, na volta a este padrão bíblico [de valor do casamento]”, ou seja, algo que já fazia parte do cristianismo primitivo e foi perdido ao longo do tempo, afirmando ainda que a Reforma favoreceu a dignidade da mulher como dona de casa, esposa e mãe. Particularmente, acho que o protestantismo talvez tenha deixado a mulher solteira desamparada, já que antes ela podia se refugiar na relativa segurança de um convento, mas esse é um problema que não vale a pena discutir.

Sobre a vida de Katharina de Bora, sabemos que ela nasceu em 1499 e foi mandada para um convento aos 5 anos, depois que a mãe morreu e o pai casou novamente. Fugiu do convento na Páscoa de 1523, junto com outras freiras, indo parar em Wittenberg, epicentro da Reforma Protestante. Lá, todas casaram ou voltaram para suas famílias, exceto ela.

 Depois de uma promessa de casamento não cumprida (pelo rapaz), ela continuou solteira, em parte por não aceitar qualquer um, em parte por talvez não ter aparecido mais ninguém. Dizem que ela sugeriu que só casaria com Nicolau Amsdorf ou o próprio Lutero. Em 1525, aos 26 anos, casou-se com o Doutor Lutero, que já tinha 42 anos.

O casamento de ex-monges com ex-freiras era um escândalo na época, já que ambos estavam quebrando um juramento feito perante Deus. Vale lembrar que o casamento de clérigos era comum antes de 1079, mas Tucker esquece de mencionar isso e trata como sendo algo inovador. Mais uma vez, era um retorno às origens.

O que pode parecer estranho para nossa época, é que os dois não se amavam, mas nutriam afeto e respeito um pelo outro, algo que é muito mais importante: amor se constrói com o tempo, o que inicialmente é fundamental é uma avaliação racional e a noção de responsabilidade e compromisso, algo que os dois foram cuidadosos de observar antes dos votos de casamento e que deu certo. Sabemos disso pelo que foi registrado nas cartas de Lutero, onde ele carinhosamente se refere a ela e deixa claro que passou a amá-la. Tucker reclama que por vezes ele zomba de Kathe e fala sobre ela de modo grosseiro. Nada fora do normal num casamento.

O casal teve seis filhos nascidos vivos, dos quais apenas 4 atingiram a idade adulta. A morte das filhas foi um momento marcante, como também um aborto natural que a deixou muito doente. A família ainda enfrentou invasões, perseguições e ondas de peste negra, além de problemas financeiros. Faleceu em 1552, aos 53 anos, cerca de 6 anos após o marido (que faleceu em 1546).

Durante sua vida, Katharina von Bora tomou conta do Mosteiro Negro como uma pensão,sendo conhecida por sua hospitalidade; atuou como uma espécie de curandeira (conhecimentos medicinais básicos aprendidos no convento), fazendeira, fabricante de cerveja, negociante e uma dona de casa diligente, mãe dedicada e uma boa esposa, uma hausfrau completa e exemplar.

Martins destaca a “relação perfeita de interdependência” que deve existir num casamento e que foi notável no casal Lutero. Ela pode não ter composto hinos ou ajudado com os sermões como fez Sarah Kalley, mas sua suposta falta de preocupação teológica não a fez menos importante. Ela cuidava da saúde e das finanças de Lutero, o que o ajudou a continuar seu trabalho, já que tinha um porto seguro em casa e não tinha que cuidar de tudo sozinho. Essa foi a forma de Katharina servir à obra de Deus. Dallmann cita algumas cartas de Lutero: “Em casa, eu deixo o domínio para Kate”. “Deus seja louvado, pois eu tenho uma mulher piedosa e fiel em quem o coração de um marido pode confiar. ” Ele a chamava de “estrela da manhã de Wittenberg”, por que ela acordava cedo para trabalhar. Também a chamava de “minha patroa”. Pelas cartas, é possível notar senso de humor e intimidade entre os dois.

A acusação de “secularismo” se baseia em alguns supostos questionamentos que ela teria feito ao marido, na falta de relatos sobre sua devoção e por seu marido, em cartas, lembrá-la de que deve orar e não se preocupar, pois preocupações faziam parecer que Deus não é Todo Poderoso – nada disso é suficiente para alegar que ela não ligava para a vida religiosa e temos motivos para pensar o contrário.

Ela o ajudou a enfrentar a depressão. Tem uma história de que numa das crises de Lutero, ela teria se vestido “no mais negro luto”, como diz Dallmann. Quando o marido perguntou o motivo, ela teria dito que “Deus morreu”. Nietzsche largou o seminário antes de ouvir o fim da história. Resumindo: ele teria se indignado e dado um pequeno sermão sobre como Deus é Eterno, ao que ela respondeu que pela atitude de desesperança dele, parecia mais que Deus tinha morrido, o que o teria feito retomar o ânimo e continuar o trabalho. Dallmann comenta que “se isso não é literalmente verdade, é verdade em espírito”.

Nas palavras de Martins, ela “soerguia o esposo para o lugar da sua missão”. Uma missão que poderia tirá-lo dela para sempre, como nos lembra essa autora. Isso mostra que ela não agia em interesse próprio, mas tinha noção de que estava envolvida em algo importante e que sua função era apoiar o marido e cuidar dele, dando suporte para que ele continuasse seu trabalho, ao invés de ser uma esposa mesquinha que apenas quer que seus desejos sejam satisfeitos.

Sobre a submissão, já postei um mini-texto no Instagram, por isso vou comentar brevemente aqui o que não expliquei lá (ainda que não tão bem quanto o Magister Philip explicaria): a palavra vem do latim sub (estar debaixo de) e missio (ser enviado para), ou seja, quer dizer estar sob a mesma missão. Martins diz que “a compreensão dessa verdade foi  evidência na vida de Catarina von Bora.” Ela não era igual ao marido – se fosse, não poderia ter preenchido os espaços em branco da vida dele.

Preserved Smith diz que Lutero inaugurou a “era do casamento”, contrastando tanto com a licenciosidade da antiguidade quanto com o asceticismo medieval, pois na Reforma, o casamento e a vida familiar foram exaltados como presente de Deus e como ambiente para desenvolver as virtudes cristãs. Dallmann diz que “Lutero devolveu ao pai cristão o sacerdócio original como cabeça da família”.

Claro que Katharina tinha seus defeitos e posso apostar que a maioria dos protestantes não imagina os líderes, mártires e demais figuras significativas da história da igreja como imaculadas. Talvez ela realmente retrucasse o marido, como diz Tucker. Algo comum e inevitável, mas certamente não algo legal como Tucker faz parecer. Parece que também era orgulhosa, talvez até fosse chatinha, não sabemos. O que sabemos é que realmente algumas pessoas não gostavam dela. No caso de alguns, é até compreensível a visão de Katharina como uma pedra no sapato, já que viam que seria melhor para os rumos da Reforma que Lutero estivesse mais livre e preocupado apenas com questões teológicas, sem ninguém o influenciando nem tomando seu tempo com coisas domésticas. Essas coisas não desmerecem o resto: “Temos esses tesouros em vasos de barro para que a excelência do poder seja de Deus e não nossa.” ( 2 Co 4:7 )

Minha observação particular sobre a feminilidade de Katharina é a falta de delicadeza. Francine Walsh (do blog e canal Graça em Flor) diz que tanto o feminismo quanto a “feminilidade açucarada” distorcem o verdadeiro papel da mulher. Muita gente tem uma visão de feminilidade como pura delicadeza e subserviência, o que não condiz com a verdade. Certamente a mulher deve ser gentil, mas também firme. Não se trata de ser uma princesinha frágil num castelo. Inclusive, se deixar levar pela própria fraqueza é uma falha na mulher. Uma camponesa com mãos calejadas de tanto trabalhar pode ser tão verdadeiramente feminina como uma sofisticada mulher da nobreza .

Martins comenta que “nem sempre nos damos conta, mas o feminismo sutilmente influencia nosso dia a dia, nossa maneira de administrar nosso lar, criar nossos filhos, nossa maneira de vestir, nossas relações conjugais e até mesmo nossa teologia.” Frequentemente vejo pessoas que não se identificam com o feminismo repetindo jargões feministas e indo na mesma direção que elas. Eu mesma já fui uma dessas pessoas. Deixamos nos levar por desejos pessoais e propaganda mundana.

Não é isso que o Senhor Deus quer de nós e se quisermos agir de acordo com Sua perfeita vontade, temos que deixar de lado nosso ego, aceitar correção e conselho e humildemente procurar a direção para nossas vidas na Palavra de Deus. Não podemos ignorar “dois ou três versículos” que dizem algo que não gostamos. Ainda que a mulher não queira casar, não deve ter desprezo pelos homens, nem pelo casamento ou pela maternidade. Não é por que essa não é sua vontade ou não é o seu chamado que a coisa em si deve ser desprezada. Também não é por não querer ser uma hausfrau como Katharina que você deve ser egoísta. É preciso encontrar uma forma de servir a Deus – não aos seus próprios interesses – e de acordo com sua natureza feminina – ou seja, sem tentar tomar um lugar social ou eclesiástico que não é seu.

O que devemos, em qualquer caso, seja no papel de solteira, casada, viúva, mãe, avó, etc, é buscar entender o que diz a Bíblia sobre como a mulher deve ser e também não podemos nos alienar em relação aos movimentos ideológicos que estão influenciando o mundo em que vivemos. Devemos estudar, ficar alertas e nadar contra a corrente sempre que necessário. O mesmo vale para os homens.

Ainda tinha muito que falar sobre Katharina e algumas críticas a fazer sobre o livro “A primeira-dama da Reforma”, mas ficará para outro dia, pois o assunto é extenso e escrevi esse texto de última hora, só para não passar em branco e para cumprir a agenda (como vocês devem ter percebido, estou levando cerca de 1 ano para escrever sobre cada assunto que comento que achei interessante, se eu seguir nesse ritmo, só vou escrever sobre Feminilidade Radical lá para o fim 2021, quando vocês já vão ter lido ou perdido o interesse, mas farei o possível para agilizar, por que esse é brilhante e importantíssimo, JURO). Espero que vocês tenham gostado. See you later, fellows!

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