Tolkien e as guerras

A trilogia O Senhor dos Anéis (A Sociedade do Anel, As Duas Torres e O Retorno do Rei) foi escrita por J. R. R. Tolkien entre as décadas de 1930 – 1940 e lançada na de 1950. Para quem ainda não conhece, o acesso mais fácil é através dos filmes do diretor Peter Jackson (inclusive O Retorno do Rei é um dos meus 3 filmes favoritos da vida, junto com A Lista de Schindler e Gladiador).  

O autor serviu no Exército Britânico durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e o desenvolvimento do livro se deu durante a ascensão do nacional-socialismo na Alemanha (Tolkien inclusive enviou uma carta de resposta aos nazistas, link no fim do post) e o fascismo na Itália, além do comunismo que já se instalara na União Soviética e a subsequente Segunda Guerra.

Essa informação é importante por que a vida dele e o contexto histórico no qual estava inserido pode não ter uma ligação explícita com o mundo fictício que ele criou, mas é notável que o sentimento do que foi vivido e observado influenciou sua obra: temos Sauron, um ditador que usa de magia, manipulação e força física para expandir seu território e dominar outras raças; temos também alguns seres como hobbits, anões e elfos, que deixam a segurança do lar e vão para o campo de batalha enfrentar um mal terrível que pretende despedaçar tudo o que mais amavam. Podemos entender isso ao observar o seguinte trecho do segundo volume da trilogia que é uma das minhas citações favoritas de toda a literatura:

A guerra deve acontecer, enquanto estivermos defendendo nossas vidas contra um destruidor que poderia devorar tudo; mas não amo a espada brilhante por sua agudeza, nem a flecha por sua rapidez, nem o guerreiro por sua glória. Só amo aquilo que eles defendem: a cidade dos homens de Númenor, e gostaria que ela fosse amada por seu passado, sua tradição, sua beleza e sua sabedoria presente.

J.R.R.Tolkien em “As Duas Torres”

       Durante as Grandes Guerras do século passado, as pessoas comuns tiveram que arriscar suas vidas para garantir a segurança de toda a nação. Passaram por grande sofrimento, tanto quem combatia diretamente, quanto quem dava suporte – cidadãos que colaboraram com o esforço de guerra em vários setores como produção de alimentos e medicamentos, telefonia e serviço postal. Nessa situação, foi possível perceber que até o menor dos indivíduos, assim como os pequenos hobbits, era fundamental para alcançar a vitória.

          Havia várias camadas nessas guerras: questões políticas, socais, economias e ideológicas. No entanto, para as pessoas comuns, a guerra era necessária por outras razões: proteger a família, preservar a tradição e a liberdade. Essas pessoas são representadas por Tolkien nas criaturas (hobbits, anões, elfos, humanos e magos) que participam ou dão apoio à Sociedade do Anel – o grupo cuja missão é destruir o Um Anel (artefato que dá poder ao vilão Sauron) para libertar os habitantes da Terra Média da opressão a qual eram submetidos.

“A coragem pode ser encontrada em lugares improváveis”

J. R. R. Tolkien em “A Sociedade do Anel”

            O autor atribui às personagens sentimentos de medo, dor, cansaço; também mostra suas virtudes, como lealdade, amizade, honra, coragem, solidariedade e muitas outras. Isso de fato se assemelha às histórias reais de sacrifício e altruísmo que aconteceram durante as guerras, como os casos de Irena Sendler e Oskar Schindler. O plano é fictício, mas os sentimentos são reais e muitas vezes causam um impacto maior do que uma biografia ou documentário fariam. Em “Para ler literatura como um professor”, Thomas Foster diz:

“Ler literatura é uma atividade altamente intelectual, mas também envolve afeto e instinto em graus elevados. Muito do que pensamos sobre a literatura, antes sentimos. Ter instintos, no entanto, não quer dizer automaticamente que funcionam no nível mais alto. […] Quanto mais você exercita a imaginação simbólica, melhor e mais rápido ela funciona. […] Imaginação não é fantasia. […] A imaginação do leitor é o ato de inteligência criativa que se envolve com outra.”

            Meu trabalho de conclusão de curso foi basicamente sobre isso e esse post é uma adaptação de parte dele. Mas não foi só sobre “imaginação simbólica”. No artigo, peguei o exemplo de alguns livros como Contos da Cantuária e O Mercador de Veneza para tratar sobre como clássicos da literatura podem ser aproveitados de várias formas.  O Senhor dos Anéis também pode ser aproveitado de outra forma além da moral e afetiva. Dá para aprender muito sobre inovações militares da época, só é preciso pesquisar, já que não é algo tão óbvio para quem não entende do assunto.  Por exemplo, os nazgûl são descritos de forma similar à cavalaria alemã, enquanto os olifantes exercem uma função que pode ser comparada à dos tanques de guerra. Porém, a coisa que mais me chama atenção é o efeito que o Um Anel e toda a jornada causaram em Frodo: é como o shell shock, estresse pós-traumático identificado nos veteranos da Primeira Guerra.

     Os sintomas se manifestavam de forma física e psicológica, como cegueira temporária, paralisia, ânsia de vômito, tremores e fortes crises de ansiedade e depressão. Não vi nenhum registro sobre o próprio Tolkien ter passado por isso, mas certamente conheceu pessoas que adquiriram esse quadro clínico. Simon Tolkien, neto do autor, em matéria da BBC, disse:

“O companheirismo de Frodo e Sam nos últimos estágios da jornada ecoa os laços profundos que foram formados pelos soldados britânicos ao enfrentarem tão grandiosas adversidades. Todos eles compartilharam da coragem que é a mais valorizada das virtudes em O Senhor dos Anéis. E então, quando a guerra acabou, Frodo teve o mesmo destino que muitos veteranos que permaneceram com cicatrizes invisíveis quando voltaram para casa como pálidas sombras das pessoas que um dia eles foram” (tradução livre)

O Senhor dos Anéis é uma saga complexa, importante e preciosa (beijos pra quem entendeu a referência) (quem não entendeu, assista/leia Senhor dos Anéis). Sua relevância é cultural, histórica e até mesmo pedagógica, pois pode contribuir muito para a aquisição de conhecimento de forma lúdica, porém rica de significado. A complexidade da estrutura literária e da estética linguística de Tolkien (mais no original, mas muito foi preservado na tradução também) não deve ser um empecilho, mas uma motivação para se aventurar por esse mundo tão encantador, que mistura tradição com inovação e fantasia com realidade, capaz de fascinar um público de qualquer idade.        

Padre Paulo Ricardo sobre O Senhor dos Anéis e o cristianismo:

REFERÊNCIAS:

FOSTER, Thomas C. Para ler literatura como um professor. Tradução de Frederico Dentello.  São Paulo: Lua de Papel, 2010.

TOLKIEN, John Ronald Reuel. A Sociedade do Anel. Tradução de Lenita Maria Rímoli Esteves e Almiro Pisetta. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

_______________. As Duas Torres. Tradução de Lenita Maria Rímoli Esteves e Almiro Pisetta 2.ed. 13. reimpressão. São Paulo: Martins Fontes, 2014.

BBC. Tolkien’s grandson on how World War I inspired The Lord of The Rings. London, 2017. Disponível em <https://www.bbc.com/culture/article/20161223-tolkiens-grandson-on-how-ww1-inspired-the-lord-of-the-rings>

Resposta de Tolkien aos nazistas:  https://oportaln10.com.br/o-dia-em-que-jrr-tolkien-criticou-o-nazismo-e-adolf-hitler-75750/

Curiosidades sobre Tolkien: https://www.megacurioso.com.br/literatura/49176-10-coisas-que-voce-provavelmente-nao-sabe-sobre-j-r-r-tolkien.htm

2 comentários em “Tolkien e as guerras

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