O ateísmo da igreja primitiva – e por que o cristão deve se posicionar politicamente

O estudo sobre a igreja primitiva tem sido negligenciado fora dos círculos acadêmicos cristãos, o que é lamentável. Eu mesma era uma dessas pessoas que tem uma visão superficial sobre o assunto, acreditando que era um período de perseguições e martírios relevantes do ponto de vista histórico, mas que não encontrava paralelo com a atualidade; por tanto, deveríamos saber sobre os acontecimentos apenas para honrar a memória daqueles que lutaram para que o Evangelho fosse propagado e para que hoje possamos livremente professar nossa fé em Jesus Cristo, ao menos no Ocidente. Não poderia estar mais enganada…

No Oriente islâmico e/ou comunista, a perseguição é declarada e violenta: os cristãos são proibidos de exercer cargos públicos, de realizar reuniões, são presos, torturados, entre outras coisas (já fiz resenha de “Deus é vermelho“, um livro sobre o cristianismo na China, o link está no fim desse post). No Ocidente, a perseguição é mais sutil e a principal arma anticristã é o ativismo judicial. Questões como aborto e legalização de drogas são alguns dos temas que fazem o cristão ser visto como um opressor que quer impor suas opiniões sobre os demais membros de um Estado supostamente laico. O fato de não podermos professar nossa fé publicamente sem sermos alvo de chacota, processos e até violência, deveria nos fazer buscar conhecimento sobre a história do cristianismo para entender como a Igreja tem enfrentado esse problema ao longo do tempo.

A relação entre cristianismo e política é importantíssima de ser observada e esse livro apresentada uma perspectiva relevante sobre o assunto. “O ateísmo na igreja primitiva” (Rousas J. Rushdoony ) é bem curto, pode ser lido num dia só, e apesar ter sido escrito nos anos 1980, continua bem atual, até por que parece que estamos passando por uma fase bastante similar. A explicação do título é simples: os primeiros cristãos, por adorarem um Deus invisível e se recusarem a reconhecer a divindade de César, eram considerados ateus e inimigos do Império Romano. Depois de explicar isso, o autor passa a comparar a igreja primitiva com a igreja contemporânea acerca de alguns assuntos.

“Enfrentamos ainda hoje duas lutas que marcaram a Igreja Primitiva desde o princípio. A primeira era a questão da soberania e do senhorio e a segunda, a do aborto.”

R. J. Rushdoony

Como mencionado na frase em destaque, o autor argumenta que os principais motivos pelos quais a igreja primitiva foi perseguida são os mesmos pelos quais a igreja contemporânea é perseguida.

Recentemente testemunhamos dois casos nesse sentido. Um deles foi o do pastor John MacArthur (link do texto sobre isso no fim do post), que se opôs à tirania do governador da Califórnia, afirmando que quem tem soberania sobre a Igreja é Deus e não o Estado. MacArthur declarou que o que está acontecendo é uma “discriminação intencional contra o cristianismo bíblico e a igreja”. As palavras foram bem calculadas: cristianismo BÍBLICO para diferenciar do “cristianismo” progressista que prega a não intervenção da igreja em questões morais por que o “Estado é laico”.

O outro caso foi o da menina de 10 anos que além de ter sido estuprada por anos e ter engravidado, foi submetida a um aborto. Os protestos dos cristãos conservadores contra um ato que torturaria duas crianças, matando uma e colocando em risco a vida de outra quando havia a opção de um parto seguro e pessoas dispostas a adotar o bebê, foi entendida como “fanatismo religioso” não apenas por esquerdistas e insentões ateus ou de qualquer outra religião, mas também por ditos “cristãos”. Se tivessem usado o termo “fundamentalistas”, eu não poderia reclamar: o cristão deve ter seus princípios religiosos como fundamento da sua vida, caso contrário, algo está errado.

Nenhuma decisão seria fácil nesse caso e todas as opiniões deveriam ser ouvidas e debatidas com respeito, mas o curioso é que a mídia passou a focar na atitude anti-aborto dos cristãos como se esse fosse o problema e – mais sórdido ainda – como se isso significasse apoio ao real criminoso. Uma atriz chegou a dizer que “fundamentalistas religiosos esbravejam e expõe uma criança para que ela seja obrigada a parir”. A abordagem foi completamente enviesada. Não foi isso que aconteceu. Tenho um amigo frade que falou que vários jovens “católicos” estavam criticando a Igreja Católica por ter oferecido ajuda para a menina manter a gravidez e entregar a criança para adoção, tratando isso como crueldade por parte da igreja. No entanto, essas mesmas pessoas que são contra o aborto, defendem prisão perpétua (e até pena de morte) para pedófilos e estupradores em geral, enquanto os que acusam os cristãos são os primeiros a dizer que pedofilia é doença e que criminosos são vítimas da sociedade que merecem receber tratamento humanizado.

Até mesmo certo teólogo famoso no Youtube resolveu tratar o assunto dessa maneira, falando contra o “cristianismo cultural” e tomando as ações de uma ativista específica como se esta representasse o pensamento geral. No caso dele (que também foi contra MacArthur) é notável uma vontade de se distanciar de “ideologias políticas”. O discurso comum é de que não se deve misturar religião com política e que o cristianismo está acima de ideologias – o que é verdade, mas isso não é razão para não se posicionar, muito pelo contrário: “porque você é morno, nem frio nem quente, estou a ponto de vomitá-lo da minha boca.” (Ap 3:16).

A diferença é que o cristão sabe que filosofias humanas são imperfeitas e não há homem que possa salvar o mundo e estabelecer um Paraíso na Terra. O credo de alguns grupos políticos se assemelha mais aos princípios cristãos do que outros. Não é difícil escolher, basta checar na Bíblia se o Senhor Deus aprova homossexualismo, a consideração de mais de dois gêneros, o aborto voluntário, o confisco de propriedade privada, etc. E tomar partido na guerra político-cultural não significa concordar cegamente com as reivindicações de um grupo. Ter uma postura cautelosa e crítica é um dever.

“As passagens usadas por algumas pessoas para sustentar a idéia de que o Novo testamento passa ao Estado um cheque em branco para fazer (quase) tudo o que quiser (Rm 13: 1-5; 1Tm 2: 1-2), eram, na verdade, declarações de guerra contra a alegação de Roma a uma autoridade absoluta”

R. J. Rushdoony

O livro apresenta esclarecimento sobre algumas passagens bíblicas acerca da relação cristão x Estado, afirmando que é preciso conhecer o contexto no qual tais passagens foram escritas e para quem elas estavam sendo dirigidas. Sobre a questão do “Estado laico” e de “não misturar política com religião”, é preciso prestar atenção na História. O autor argumenta que o Estado sempre é religioso, pois ele mesmo se torna um deus. Isso era mais claro na Antiguidade, quando o homem se colocava abaixo dos deuses. Na nossa época, na qual o homem se vê como centro do universo, isso não parece tão claro, mas não deixa de ser verdadeiro. É mais notável nos casos das ditaduras comunistas como a antiga União Soviética, na qual o Estado era a solução para tudo e deveria ser reverenciado. Não se tratava de um sentimento de unidade nacional e tradição cultural, como observamos no patriotismo do Ocidente livre, mas dos cidadãos depositando a esperança no governo e este sendo o responsável por regular a vida pública e privada dos indivíduos. No caso da Coréia do Norte, a família Kim é literalmente adorada e até corte de cabelo é definido pelo Estado. Em “O Sagrado e O Profano”, o filósofo e historiador Mircea Eliade diz que o homem necessariamente tem um comportamento religioso (mesmo que se diga ateu). Isso significa, continua o autor, que no momento que retiramos Deus do debate moral, cabe ao Estado (o novo deus) determinar arbitrariamente o que é certo ou não.

No momento que o cristão decide se posicionar política e culturalmente, ele não está querendo impor seus ideais. A conversão não pode ser forçada. Ela acontece “de cima para baixo” sim, mas não é um processo [Estado –> indivíduo] através de leis, e sim [ Deus –> indivíduo]. A cristandade está ciente disso (diferente dos muçulmanos). Afinal, como disse o autor, esperamos a “salvação, não pela revolução, mas pela regenaração”. Defender os ideais cristãos através da legislação (e sua propagação através da cultura) tem a ver com garantir direitos universais concedidos por Deus: a vida e a dignidade humana. Se retirar do debate é o mesmo que relativizar a verdade e dizer que quem tem autoridade soberana é o Estado. Separar a vida religiosa da vida pública é o mesmo que transformar a religião num passatempo. O fundamento da sua vida tem que ser um só: Estado ou Deus. Igualar os dois é inferiorizar um.

 

“Vivemos, de fato, num tempo crítico no qual o mundo está desmoronando ao nosso redor e o que nos falta é aquilo que Roma denominava de “ateísmo” da Igreja Primitiva: o reconhecimento de que somente Deus é o Senhor.”

R. J. Rushdoony

Os cristãos primitivos não se curvaram ao Império Romano. Oravam por César, não para César. Isso colocava um cidadão comum no mesmo patamar (ou até acima) do imperador. Por isso foram perseguidos. Rushdoony argumenta (e eu concordo) que quando somos biblicamente orientados a obedecer as autoridades, isso não significa que devemos ficar quietos e aceitar tudo sem questionar, pois o Estado não é nem a única nem a principal autoridade. Nós também somos e devemos agir. Como servos de Deus, temos responsabilidades sociais, políticas e culturais. O autor critica a atitude de “deixar o cristianismo para o pastor”, quando cada crente deveria se engajar. Mas antes de se engajar, é preciso ter noção do que deve ser feito. É necessário estudar a Bíblia e buscar conhecimento extra-bíblico também: história do cristianismo, política, filosofia e demais questões culturais. É essencial conhecer o terreno no qual estamos pisando e “O ateísmo da igreja primitiva” é um excelente ponto de partida.

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CASO MACARTHUR: https://discursosemmetodo.wordpress.com/2020/08/21/igreja-e-estado-o-caso-john-macarthur-x-governo-da-california/

SOBRE O CASO DA MENINA: https://sensoincomum.org/2020/08/18/aborto-foi-realizado-com-substancia-proibida-ate-para-sacrificar-animais/

2 comentários em “O ateísmo da igreja primitiva – e por que o cristão deve se posicionar politicamente

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