Sarah Poulton Kalley

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Acredito que a maioria de vocês já saiba um pouco sobre o casal Kalley. Como gosto de datas temáticas, vou aproveitar o que seria o 195º aniversário da Sarah para trazer mais detalhes sobre ela (espero que meu cérebro não seja o único lento na hora de lembrar como se lê 195 em números ordinais). Fiz apenas um apanhado geral do que pude encontrar, mas creio que é o suficiente para o propósito desse projeto, que é tirar uma lição de vida a partir da biografia dessas mulheres que serão apresentadas.

Sarah Poulton Wilson nasceu na Inglaterra, em 25 de maio de 1825. Era considerada por todos como uma menina alegre e inteligente. Tinha talento com pintura, era fluente em francês e alemão desde cedo (mais tarde em português também), mas o maior destaque em sua vida foi a música (o que eu menos vou falar, já que é a parte mais conhecida). A mando de seu pai, começou a ensinar para rapazes na Escola Dominical; por conta própria, resolveu criar um curso noturno de conhecimentos gerais para jovens pobres, muitos dos quais mais tarde ajudaram a família Kalley no Brasil, como William D. Pitt. Sarah também liderou uma turma de garotas para ter  aulas de costura e fazer roupas para enviar aos missionários. As pessoas diziam que viam a santidade em seu rosto.

Conheceu Robert Reid Kalley, médico e missionário escocês (ex-ateu, deixei um link lá no final sobre isso), em 1851, quando foi à Síria com seu pai e seu irmão doente, Cecil Wilson. O doutor Kalley tratou Cecil, mas ele não resistiu e veio a falecer. Robert, que era viúvo e 16 anos mais velho, “apaixonou-se pela jovem Sarah e ficou impressionado com seu interesse e entusiasmo pela obra missionária” enquanto ela “ficou encantada com seu modo de orar e expor as Escrituras.” [1]Casaram-se em dezembro de 1852 e desde então, segundo Forsyth na biografia do doutor Robert (Uma Jornada no Império), suas vidas tornaram-se “tão entrelaçadas que é impossível separá-las, como por exemplo, Priscila e Áquila, nas Escrituras. Um nunca é mencionado sem o outro […] a biografia dele torna-se então a biografia deles” (grifo meu). O casal viveu nos Estados Unidos e na Ilha da Madeira antes de vir para o Brasil. O senhor Kalley costumava utilizar sua profissão para evangelizar, enquanto Sarah procurava fazer isso visitando as famílias e conversando com as senhoras.

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A chegada deles à nossa querida Terra de Santa Cruz se deu em maio de 1855, no Rio de Janeiro. Moraram em Petrópolis, numa casa batizada de Gernheim  (algo como “doce lar” em alemão). Em julho de 1858, os Kalley inauguraram a Igreja Evangélica Fluminense. Foi a primeira missão protestante que obteve sucesso em terras tupiniquins. Sarah começou ministrando estudos bíblicos durante as tardes de domingo para crianças inglesas; depois conseguiu reunir crianças de várias nacionalidades, com aulas em português, inglês e alemão. Procurava incentivar os alunos com prêmios (geralmente livros) e atividades extras (como passeios e lanches) e também incluía pessoas negras, o que era raro na época (mas eu não vejo muitos grupo falando sobre como as igrejas foram essenciais contra o racismo). Já adultos, muitos de seus pupilos enviaram cartas agradecendo imensamente por tudo.

Os Kalley tinham o objetivo de fundar uma escola, o que lhes foi negado até maio de 1872, quando foi inaugurada a Escola Evangélica Fluminense de Instrução Primária, ou “Escola Diária”, como era conhecida, que ficou sob o comando do professor José Vieira de Andrade; depois, a própria Sarah inaugurou um curso noturno para, nas palavras dela “saciar a sede de instrução da nossa sociedade”.[2] No ano seguinte, visitaram Recife e fundaram a segunda igreja congregacional brasileira, a Igreja Evangélica Pernambucana. Além da criação da primeira escola dominical e do primeiro ministério infantil, foi a senhora Kalley quem fundou a União Auxiliadora Feminina, que serviu de modelo para sociedades femininas protestantes posteriores.

O casal chegou a receber uma visita de Pedro II, com quem trocavam correspondência. O monarca interessou-se pelos Kalley por causa da intelectualidade deles e talvez tenha contribuído para a aceitação do protestantismo no Brasil, que era rechaçado por parlamentares católicos. No livro que trata sobre a influência britânica na modernização do Brasil (Britain and the onset of modernization in Brazil), Richard Graham não apenas destaca o papel dos Kalley para a transformação do país (no capítulo Individual Salvation, que trata sobre como, nas palavras de ninguém menos que Rui Barbosa, “onde há protestantismo, há prosperidade industrial, vigorosa e luxuriante como uma vegetação tropical”), mas afirma que depois da visita do Imperador ao casal, eles conseguiram converter algumas senhoras da Corte. Robert estava doente e quem recebeu o Imperador foi Sarah. O objetivo da visita era conversar sobre as viagens, mas devido à situação, não durou muito. Quando o marido estava doente, Sarah atuava como secretária, redigindo cartas, preparando esboços de sermões e orientando todo o trabalho da igreja e das demais atividades, com atenção especial para os colportores, pois a distribuição do material evangélico era de fundamental importância (material este boa parte traduzido pelos Kalley, como a primeira edição brasileira de O Peregrino).

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Além dos já mencionados trabalhos, a senhora Kalley também atuou como escritora, inclusive um de seus livros (A Alegria da Casa, 1866) foi usado para ensinar dicas de saúde e cuidados domésticos nas escolas femininas no Brasil e em Portugal. No entanto, seu trabalho mais conhecido é a sua contribuição para o primeiro e mais popular hinário brasileiro, o Salmos e Hinos, para o qual compôs ou traduziu cerca de 200 hinos, deixando evidentes seus talentos poéticos, pois não apenas traduzia, mas garantia a adequação e a beleza das músicas, ou, como disse Forsyth,“adornava e ilustrava a doutrina com sua capacitada poética”. Também ilustrava literalmente, pois fazia desenhos das passagens bíblicas.

 “O hábito de ordem exterior ajuda a adquirir hábitos de ordem no regulamento de idéias, pensamentos e costumes intelectuais. Não esquecer o que sempre deve ter o primeiro lugar no arranjo da vida espiritual. O grande mestre diz: ‘Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça’” KALLEY, Sarah Poulton. A alegria da casa, p. 7-8.

Os Kalley adotaram duas crianças, ambas brasileiras: o João Gomes da Rocha (que escreveu muito sobre o trabalho dos pais) e a Silvana Azara de Oliveira, que foi adotada já na Escócia, para onde o casal voltou em 1876 devido aos problemas de saúde do Robert. Lá, a casa em Edimburgo foi chamada de “Campo Verde” e eles realizavam cultos em português.  Robert Kalley faleceu 12 anos depois, por causa de problemas cardíacos. Foi uma morte dolorosa que a Sarah assistiu e relatou em cartas para as congregações de Recife e do Rio: “Mesmo com muita dor no peito e dificuldade de respirar, ele orava por todos: “Senhor, abençoa teus servos no Brasil, abençoa Santos, Jardim, Bernardino! Senhor, abençoa Tua obra em suas mãos! Senhor, abençoa os crentes em Pernambuco!”[3]. Segundo Forsyth, as últimas palavras dele foram “minha querida esposa”.

Depois da morte do marido, apesar de ter ficado desolada, Sarah continuou trabalhando. Fundou uma instituição de apoio missionário para o Brasil (Help for Brazil Mission, 1892) para recrutar e dar apoio aos missionários e também ajudava estudantes acolhendo-os em sua casa, pelo que ficou conhecida como “a mãe de Edimburgo”. Ela faleceu em casa, no ano de 1907, e foi sepultada junto ao esposo no Dean Cemetery. Na lápide, a pedido seu, está escrito “Herdeiros da Graça da Vida”.

Sarah e Sia

Voltando ao conceito que vamos trabalhar nessa série, o de “auxiliadora idônea”, note que Sarah foi assim por toda a vida: começou ajudando o pai, ensinando em escola dominical, depois auxiliou o marido, as congregações e comunidades em geral por onde passou. Tenho uma afeição particular por ela por tudo que ela tem para nos ensinar, em especial o fato de que existem várias formas de servir a Deus e uma delas é estudar. Nem todo mundo tem talento para pregar ou ensinar na igreja ou ir para campo evangelizar, ou algo tipo, mas redigir e traduzir material pode ser algo edificante na vida das pessoas também. Cabe notar também que essa é uma característica predominantemente protestante. Em seu trabalho “Educação e cultura protestante na transição do século XIX”, Afonso diz que “na perspectiva protestante, abrem-se possibilidades ao elemento feminino – seja numa participação efetiva, como no caso da publicação/distribuição/circulação do livro A Alegria da Casa, seja como redatoras, correspondentes, educadoras e gestoras das escolas protestantes”, o que aconteceu principalmente por causa da relevância dada à leitura das Escrituras Sagradas sem mediação, então desde o princípio houve uma preocupação com publicação de material e com a escolarização das pessoas, e também por que a Reforma deu mais relevância às mulheres, mas falarei disso depois.

Para além do assunto principal dessa postagem, que é feminilidade bíblica, ler sobre os Kalley é ler sobre a Era de Ouro da história do Brasil, sobre a importância da educação, da dedicação e do trabalho árduo. Encerro com um hino composto pela Sarah, Dedicação Pessoal, que representa bem sua vida e deve servir de inspiração para todos nós :

Eis-me, ó Salvador, aqui.

Corpo e alma oferto a Ti,

Servo inútil, sem valor,

Mas pertenço a Ti, Senhor!

Fraco em obra e no pensar,

Mui propenso a tropeçar,

Salvo estou por Teu amor,

E me voto a Ti, Senhor!

Subjugado em todo o ser,

Me submeto a Teu poder.

Grande é o preço do perdão.

Dá-me igual consagração!

Eu, remido pecador,

Me dedico ao Redentor.

Teu –  é este coração,

Teu – em plena sujeição.

Vem tomar-me aqui, Jesus,
Para andar contigo em luz,

Sem reservas nem temor,

Teu cativo, ó Salvador!

REFERÊNCIAS:

SITES

https://www.hinologia.org/sarah-kalley/

https://igrejacongregacional.org.br/?page_id=38

https://www.ultimato.com.br/conteudo/os-pioneiros

http://conexaoeclesia.com.br/2015/05/18/o-naturalista-e-o-missionario/

https://www.elevados.com.br/artigo/507/brasil:-500-anos-de-evangelizacao.html

ARTIGO

AFONSO, J.A.  et al. Educação e cultura protestante na transição do século XIX: circulação de impressos e diálogos luso-brasileiros. Cuiabá, 2012.

LIVROS

FORSYTH, WILLIAM B. Jornada no Império: vida e obra do dr. Kalley no Brasil. São José dos Campos: Editora Fiel, 2006.

GRAHAM, RICHARD. Britain and the onset of modernization in Brazil 1850-1914. Cambridge: Cambridge University Press: 1968.

[1] https://www.hinologia.org/sarah-kalley/#_ftn7

[2] https://www.hinologia.org/sarah-kalley/#_ftn7

[3] https://www.hinologia.org/sarah-kalley/#_ftn7

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