A folha de figueira: o feminismo e a Bíblia

Há um ano, prometi a alguns de vocês que faria um resumo para quem perdeu a palestra “Feminismo e machismo: o conflito à luz das Escrituras”, que a professora Isabella Barbosa realizou na 1ª IPB de Caruaru. Não esqueci, apenas demorei… Acontece que é muito material para ler e acabei tendo outras ideias no meio do caminho, o que só consegui desenvolver esse ano. Então, além do resumo, apresentarei uma série sobre feminilidade bíblica e sobre a vida de algumas mulheres cristãs, como Sarah Kalley, Katharina von Bora e Elisabeth Elliot. O objetivo de investir nisso é que considero que  num mundo em que o feminismo se tornou midiático e as garotas são atingidas o tempo todo por ideias de “empoderamento feminino” e “libertação das mulheres”, é dever nosso tomar esse espaço e apresentar a perspectiva cristã conservadora. Acredite, não adianta apenas falar o que é certo ou errado, a lógica nem sempre funciona, às vezes o exemplo e a emoção contam mais, então é hora de contar histórias encantadoras sobre verdadeiras servas de Deus. Mas primeiro, o resumo.

E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.

Gênesis 1:27-28

O Senhor Deus criou um mundo com uma ordem perfeita (para saber mais sobre isso, recomendo procurar as palestras do professor Adauto Lourenço sobre a cronologia da Criação) e impôs um mandado cultural, social e espiritual, que podemos ver na passagem acima, isto é, dominar a Terra e tudo que nela há. Esse mandado foi reiterado no capítulo seguinte, onde também é detalhado o processo de criação da mulher e a designação de sua função: auxiliadora idônea. Esse é o termo que fundamenta todo o debate sobre o assunto aqui tratado.

idoneo

E disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idônea para ele.
Havendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todo o animal do campo, e toda a ave dos céus, os trouxe a Adão, para este ver como lhes chamaria; e tudo o que Adão chamou a toda a alma vivente, isso foi o seu nome.

Gênesis 2:18-19

Voltando a tratar sobre a ordem, reparem que primeiro, o Senhor cria o homem e atribui-lhe a tarefa de nomear os animais (o que, em tempos antigos, significava tomar posse[1]), só depois a mulher é criada. Um detalhe significativo está em Gênesis 3:1, o início da Queda:

“Ora, a serpente era mais astuta que todas as alimárias do campo que o Senhor Deus tinha feito. E esta disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim?”.

Houve uma tentativa de subversão da ordem: para desestabilizar a confiança que Adão e Eva tinham no Senhor, a serpente dirige-se primeiramente à mulher e a convence a tentar seu próprio companheiro, corrompendo assim a tarefa que lhe foi dada de cuidar e ser um ponto de apoio e confiança. Porém Deus restaura a ordem ao confrontar Adão primeiro: “E chamou o Senhor Deus a Adão, e disse-lhe: Onde estás?” (Gênesis 3:9), pois a ele foi dada a responsabilidade maior.

DT5746
The Rebuke of Adam and Eve, Natoire (

Uma das críticas do feminismo ao cristianismo é de que a Bíblia é machista, mas essa é uma visão completamente equivocada e simplista, pois falha em analisar todo o contexto bíblico. Primeiramente, importa o que Deus definiu: o princípio de liderança é masculino e já existia antes da queda; o homem deve ser o líder servidor e a mulher deve ser a auxiliadora idônea, contestar isso é contestar a Palavra de Deus. No entanto, isso não é algo ruim, como muitos querem demonstrar. O próprio Deus é Auxiliador (veja a lista de Salmos no fim do post), logo, não é uma posição de inferioridade, ao contrário, é algo tão importante quanto a liderança. Vejam Provérbios 31:10-31 (muito grande para postar aqui) e observem que é a mulher que mantém a estabilidade no interior da casa (o que tem um efeito psicológico imenso em produzir o bem estar de quem nela vive). Lewis[2] explica que as mulheres, por razões biológicas óbvias, têm a tendência de cuidar melhor das atividades internas.  E antes que alguma mulher se sinta ‘”livre” por ser solteira e/ou não ser mãe, a natureza é a mesma, apenas muda o papel a ser cumprido; sua essência (de auxiliadora) se revela no desempenho de qualquer papel que seja: em casa, no trabalho, na igreja, como filha, como tia, como aluna; e se você não conhece sua função, você não tem como exercê-la adequadamente.

Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.

Gálatas 3:28

A verdade é que o princípio de idoneidade está presente em toda a Bíblia, na qual encontramos a valorização de mulheres sábias e fortes, como Rute, Ana e Ester; também constatamos que em momento algum elas são tratadas como inferiores, como em outras religiões; ao contrário, todo o tempo se diz para respeitar a mãe, ser dócil com a esposa e a lei mosaica garantia proteção para a mulher solteira ou viúva. Inclusive, na cultura hebraica, “o dote pago pela família da noiva à família do marido deveria ser mantido em depósito, para servir de provisão à esposa, caso ela enviuvasse ou fosse abandonada pelo marido” [3].

Organizações progressistas evangélicas usam essas passagens para conciliar as Escrituras Sagradas com o feminismo, mas essa visão apresenta muitas falhas, começando com o fato de que um movimento que prega a aceitação de modelos de vida que vão de encontro à vontade de Deus simplesmente não pode se tornar palatável ao cristão. A valorização das personagens femininas da Bíblia e da história do cristianismo não tem a ver com feminismo, e sim com o resgate da feminilidade bíblica. O feminismo, alegou a professora, “é uma folha de figueira, o reflexo de uma cultura caída e sua luta é por poder e hierarquia, não é por direitos.”

…e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais.

Gênesis 3:7

A folha de figueira representa a tentativa humana de esconder de Deus os seus erros e resolver os problemas por conta própria (só para deixar claro, o texto não está sendo tomado como metafórico; uma figura do texto está sendo retirada e aplicada à outra situação; a crença literal em Gênesis se mantém). No caso da mulher, esta passou a sofrer com a gravidez e a ser subjugada pelo homem, como vemos em Gênesis  3:16,  e o feminismo tenta corrigir isso pregando a desvalorização da família e promovendo uma suposta independência total das mulheres, desvinculando-as de sua função originária como forma de evitar seu sofrimento e sua subjugação. Para algumas mulheres, é fácil aderir ao movimento por causa da sensação de pertencimento a um grupo e do amparo que eles aparentam promover (a tal “sororidade”), umas apoiando as outras contra um inimigo comum: o patriarcado, criado e mantido pela cultura judaico-cristã.

Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo.

1 Coríntios 15:22

A verdade é que, como explica Jordan Peterson, isso torna as mulheres infelizes, pois perdem seu propósito de vida tentando ser o que não são: “Equidade absoluta requer o sacrifício do valor em si – com isso, não haveria nada pelo que viver.”[4] Peterson observa ainda que o cristianismo não prega a vitimização, e sim a aceitação heróica do sofrimento, o que é exemplificado com a morte de Cristo, que mostra “como andar com Deus apesar da tragédia do autoconhecimento”[5] . Ao contrário disso, o feminismo coloca a mulher como vítima, e ao invés de procurar a reconciliação com Deus através de Cristo, prega a reorganização de toda a hierarquia social e a alteração (ou até mesmo abolição) da moral.

Ainda tem muito sobre o que falar, mas vou ficar por aqui, já que essa parte é o diferencial que foi apresentado na palestra; o resto, sobre história do feminismo, pode ser encontrado em qualquer lugar. Vou deixar dicas de filmes, uma breve linha do tempo e uns vídeos da Ana Campagnolo para quem quiser saber mais. Só gostaria de mencionar sobre Shulamith Firestone, que não é tão conhecida como deveria. Ela era uma feminista radical e o trabalho dela define o coração do feminismo, apesar de todas as variações que esse movimento apresentou ao longo da história. O objetivo dela é o mesmo objetivo da serpente que tentou Eva: perverter toda a criação de Deus. Ela defendia coisas como pedofilia e incesto, o que pode ser constatado em seu mais famoso livro, “A Dialética dos Sexos”, de 1970. Conhecer essas coisas ajuda a não se deixar enganar por “feministas moderadas”, “feministas evangélicas” ou “católicas pelo direito de decidir”. Para combater algo assim, é preciso ter não apenas cuidado, mas conhecimento.

Todas as referências bíblicas (que consegui anotar) da palestra:

Gênesis  1:26-28; 2:7-8,15-25; 3:1,15

1 Samuel 1 e 2

Salmos 10:14; 20:2; 30:2; 70:5; 72: 12-14; 86:17

Provérbios 31

Lucas 1:35, 7:44-46, 8:1-3

Romanos 1; 5:1, 17-19;

1 Coríntios 11:3, 11-12; 15: 22

Gálatas 3: 26-28

Efésios 5: 22-33

Colossenses: 3:14

Livros indicados pela palestrante:

Confrontando o feminismo evangélico (Wayne Gruden)

Transformando cosmovisões (Paul G. Hilbert)

Minhas dicas de filmes/documentários:

She’s beauty when she’s angry (Dore, 2014)

As sufragistas (Gavron, 2015)

Vídeos da Ana:

Não devo nada ao feminismo : https://www.youtube.com/watch?v=LElE_cFxZ4k

Desconstruindo os mitos feministas: https://www.youtube.com/watch?v=jv_AfGY-YVQ

O regaste da feminilidade: https://www.youtube.com/watch?v=818JkSr2rF4

Sobre Shulamith Firestone:

https://www.acidigital.com/noticias/feminismo-ideologia-de-genero-e-pedofilia-especialista-explica-como-se-relacionam-24553

https://mmjusblog.wordpress.com/2018/04/11/o-mundo-ideal-de-shulamith/

Linha do tempo básica:

Século XIX  –  movimento sufragista (direito ao voto)

1949 – lançamento do livro O Segundo Sexo (Simone de Beauvoir), fundamental para o feminismo moderno por supostamente expor a condição feminina da época

1960/1970 – movimento de massa e reivindicação de liberdade sexual e reprodutiva (aborto e métodos contraceptivos)

1980 – período de declínio

1990 – teoria de gênero difundida por Judith Butler e repopularização do movimento

REFERÊNCIAS:

[1] Bíblia de Estudo Arqueológica. São Paulo: Editora Vida, 2013. Pg 9.

[2] LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2017. Pgs 156-157.

[3] Bíblia de Estudo Arqueológica. São Paulo: Editora Vida, 2013. Pg 3.

[4] PETERSON, J.B. 12 Rules for Life. Londres: Allen Lane, 2018. Pg 303. (Tradução livre)

[5] PETERSON, J.B. 12 Rules for Life. Londres: Allen Lane, 2018. Pg 59. (Tradução livre)

11 comentários em “A folha de figueira: o feminismo e a Bíblia

  1. Parabéns lindo texto, Sam!
    Você é um dos meus orgulhos, tenho que deixar aqui registrado que fui sua primeira professora…😊😍
    Seu texto, muito bem elaborado, claro, informativo e de fácil leitura. Amei!

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s