In hoc signo vinces ✝ – parte I

 

And I love that old Cross where the dearest and best

For a world of lost sinners was slain

(“E eu amo aquela velha Cruz onde o Mais Querido e Melhor

Por um mundo de pecadores perdidos foi morto”)

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Um jornalista chinês, sem convicções religiosas, decidiu viajar por seu país natal, passando tanto pelas modernas cidades principais quanto pelo ainda atrasado interior, e dispôs-se a enfrentar todo tipo de dificuldade, desde a locomoção até a constante patrulha das autoridades chinesas, para ouvir depoimentos, investigar e divulgar histórias de certo grupo de resistência que lhe tocou profundamente o coração: os cristãos. Seu nome é Liao Yiwu e parte da sua admiração pelos cristãos veio do fato de também ser perseguido pelo governo, tendo sido preso por suas críticas ao regime comunista e levado a deixar sua amada terra para viver na Alemanha como exilado político.

Em seu livro, conhecemos com mais detalhes o cenário que antecipou a revolução comunista de 1949, através de relatos de pessoas que viveram esse momento, o que nos leva a perceber como a mensagem do líder Mao Tsé-Tung enganou grande parte da população chinesa, povo este que (assim como os russos antes do golpe de 1917) vivia sob péssimas condições de trabalho, saúde e educação, sendo suscetíveis a acreditar em propostas de progresso e segurança.

Ficamos sabendo também sobre como tal revolução se desenvolveu, atingiu brutalmente as pessoas que discordavam do Estado e decepcionou a muitos daqueles que um dia acreditaram em suas promessas, principalmente quando ocorreram movimentos como “O Grande Salto Para Frente” e a “Revolução Cultural”, que geraram restrição de liberdades individuais, censura e destruição cultural, fome, desespero e morte, atrocidades que tipicamente resultam da adoção de políticas do citado viés ideológico.

Por fim, nos é apresentada a situação da China nos anos 2000, depois desta ter passado por uma série de reformas para tentar alavancar o sistema e amenizar os danos, mantendo, contudo, a ideologia comunista e sem modificar estruturalmente o Estado. Como a obra foi lançada em 2011, não somos informados por ela quanto ao “maoísmo moderno” do atual líder da República Popular da China, mas isso é assunto para outro momento.

Apesar de termos uma visão geral sobre a conjuntura política, social e econômica da China em diferentes períodos de tempo, o foco do livro é a sobrevivência e o espantoso crescimento do cristianismo contra todas as probabilidades. O país era historicamente politeísta e as religiões mais populares eram de caráter mais filosófico do que propriamente religioso, tais como o budismo, taoísmo e confucionismo (que são tratadas de forma distinta pelos adeptos, dependendo da região, às vezes sendo consideradas apenas correntes de pensamento sem características rituais).

O cristianismo chegou à China com missionários e diplomatas católicos ainda no século VII, porém ganhou mais força com as missões de evangelização (tanto católicas quanto protestantes) do século XIX (que partiam principalmente dos Estados Unidos, Reino Unido e de algumas outras nações européias). Os evangelistas levaram inovações na área de saúde e educação para regiões rurais carentes e esquecidas pelo poder público nacional: escolas e hospitais foram fundados, técnicas ocidentais de agricultura foram ensinadas, a sociedade chinesa ia pouco a pouco melhorando, o que deixava os indivíduos mais curiosos para ouvir o Evangelho e se converter, uma vez que sentiam uma real transformação em suas vidas e se comoviam pela atenção e o cuidado demonstrado por forasteiros que abandonaram suas origens para viver com eles e os servir.

Até que uma série de invasões e revoluções começaram a ganhar força no país no século XX. Na década de 1910 as forças nacionalistas derrubaram o Império e tomaram o poder, proclamando a república na chamada Revolução Nacionalista, a primeira fase da Revolução Chinesa. Em 1931, a situação já caótica do local se agravou com a invasão da Manchúria pelos japoneses e durante os anos 1940 se desenrolou o embate entre as tropas nacionalistas e comunistas, o que culminou com a Revolução Comunista, a segunda e última parte da Revolução Chinesa. Como resultado do novo governo, todas as religiões foram proibidas e perseguidas, mas nenhuma com tanto empenho quanto a cristã, considerada ainda pior por ser estrangeira. Alguns missionários voltaram para seus países de origem, outros ficaram e foram presos, torturados e/ou mortos. Igrejas e seminários foram fechados, Bíblias se tornaram produto de contrabando, mas nada disso impediu que a mensagem de Cristo fosse propagada, que pessoas se convertessem e pregadores recebessem formação.

Não podendo acabar com o cristianismo, tentaram controlá-lo: surgiram as igrejas controladas pelo governo (Igreja das Três Autonomias), que modificam a Bíblia para se encaixar no politicamente correto e tornar a mensagem compatível com os ideais do regime  comunista (para os que pensam que o “politicamente correto” significa ser educado e bonzinho, saibam que não é isso, significa falar não o que é correto, mas o que é adequado para o sistema político vigente, no caso, o comunismo) e são cheias de membros do PCC (Partido Comunista Chinês), infiltrados para monitorar as atividades dos líderes religiosos e dos fiéis (para os que pensam que comunismo pode ser compatível com o cristianismo, saibam que vocês estão errados). Muitos crentes abandonaram a profissão pública da sua fé e os cultos passaram então a ser realizados clandestinamente na casa dos fiéis, os materiais como Bíblias e hinários passaram a ser compartilhados secretamente e cada membro dessas igrejas ilegais observa cautelosamente em quem pode confiar para pregar e convidar para os cultos. Outros frequentam as duas igrejas.

Fruto de anos de um arriscado trabalho do autor, o livro é composto por 18 capítulos que se encontram distribuídos em 3 partes, cada uma sobre uma região visitada. Seu estilo de escrita é uma mistura de textos descritivos com passagens em formato de entrevista, sendo tudo narrado com um toque poético. É interessante também perceber o quanto a China é grande e cheia de contrastes, com diversos idiomas e tradições que o comunismo não conseguiu matar! Nesta obra estão reunidos depoimentos de jovens, velhos, analfabetos, instruídos, todos os tipos de gente, tais como uma já idosa freira que era ainda adolescente na época de Mao e que nunca abandonou sua vocação mesmo passando fome e sendo humilhada por causa de sua religião ou um pastor protestante que também era jovem na mesma época e enfrentou tortura em praça pública, prisão e morte por defender sua fé e ainda médicos que largaram cargos de prestígios em grandes centros urbanos para se dedicar ao trabalho médico e evangelístico voluntário em áreas inóspitas do interior da China.

“Deus é vermelho” é um livro inspirador e esclarecedor que denuncia a situação de miséria e opressão que o povo chinês vivencia há mais de meio século e é uma obra indicada para qualquer indivíduo independente de suas convicções (ou falta delas) políticas ou religiosas, pois é instrutivo e não dogmático, uma vez que se propõe a mostrar a realidade e chamar a atenção para uma situação que é comumente encoberta por propagandas governamentais e traz reflexões não apenas sobre a China e os cristãos e sim sobre o excesso de poder de um Estado, a restrição da liberdade e a crueldade de modo universal.

No entanto, cabe observar que apesar de ter sido escrito por um ateu e não ter propósito religioso em si,  é um livro que acaba enaltecendo a fé cristã e demonstrando que o comunismo mata mas que CRISTO SALVA e dá forças para seus seguidores enfrentarem qualquer adversidade com paciência, alegria e confiança em seu Senhor.

 “Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.” –  Carta de Paulo aos Romanos, capítulo 8, versículos 38 e 39

OBS.: O título do texto, In hoc signo vinces, significa algo como “sob este símbolo vencerás” e faz referência à conversão do imperador romano Constantino ao cristianismo depois de ter uma visão de uma cruz com essa mensagem. Coloquei como parte I por que pretendo assistir o documentário “The Cross: Jesus in China”, citado no livro, e comentá-lo.

OBS 2: a frase abaixo do título é do hino “The Old Rugged Cross” (confira a interpretação de Elvis Presley aqui: https://www.youtube.com/watch?v=tHzi61iC8Tw), tem também uma versão em português chamada “Rude Cruz” (aliás, diversas versões com letras ligeiramente diferentes, por isso optei por colocar a original).

 

Título: Deus é vermelho – a história secreta de como o cristianismo sobreviveu e floresceu na China comunista

Autor: Liao Yiwu

Ano de publicação: 2011

Editora: Mundo Cristão

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2 comentários em “In hoc signo vinces ✝ – parte I

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